I'm so done with this bullshit || POV
QUEM: Aaron Smythe e seu psicólogo
ONDE: Consultório do psicólogo
QUANDO: 2008 ou 2009
Numa tarde, depois de um cochilo do divã do médico, Aaron fora abordado por ele com papel e caneta. Era próximo do aniversário do garoto e o psicólogo queria que ele fizesse uma carta para seus pais explicando todos os seus sentimentos em relação ao seu convívio com eles. De início ele relutou, mas depois de certo tempo viu que não teria outro jeito, ele tinha que pelo fingir que o médico estava fazendo seu serviço. Sentou-se numa mesa reservada para isso e procurou o que dizer enquanto se concentrava:
"Queridos papai e mamãe,
Eu estou sentado nessa merda de mesa, nessa merda de consulta, nessa merda de quinta-feira, nessa merda de vida pra escrever uma carta com os meus sentimentos pra vocês. Não é fofo da parte do médico me pedir isso? Falar sobre os meus sentimentos, numa carta, pras pessoas que eu mais amo no mundo. O quão fantástico eu to achando esse pedido, vocês não vão imaginar. Enfim, pra começar, eu nunca escrevo cartas, aliais, eu nunca escrevo porra nenhuma então isso explica essa letra de merda, mas se esforcem aí pra ler, vocês me amam tanto. Vocês se importam tanto com o meu bem estar e com a minha vida.
Parei por um segundo, antes de começar essa idiotice, pra realmente pensar quais são meus sentimentos além desse tédio e tudo que eu encontrei foi indiferença. Pois é, eu gostaria de dizer que toda essa minha rebeldia, ou sei lá como vocês chamam essa "fase" pela qual eu esteja passando na cabeça de vocês, é porque eu amo vocês e to magoado e blablabla, mas seria mentira. Sabe porque? O Aaron de quatro anos, que era deixado com a babá enquanto vocês saiam com o Sebastian pra levar ele pros quinhentos cursos que ele fazia amava vocês, o de cinco anos que desenhava pra vocês e vocês não olhavam também amava vocês, o de seis que chorava quando vocês passavam a noite fora amava vocês. O de oito, nove, dez, onze e até doze anos amava vocês mesmo sem entender porque vocês não davam atenção pra eles. Mas eu, o Aaron de hoje, o que tá sentado nessa porra dessa mesa agora só sente desprezo.
Eu passei todos esses anos querendo não parecer invisível pra vocês, querendo que vocês me notassem só um pouco. Que não só o Sebastian e a Joanna recebessem carinho. Eu queria que você, MAMÃE, mexesse no meu cabelo e me dissesse que eu fiquei bonito na roupa que você comprou igual pro Sebastian. Que você, PAPAI, me levasse pra jogar bola, ou ver jogo, ou qualquer dessas merdas que o SENHOR (é como você prefere ser chamado não é coronel?), gosta. Eu nem sei o que o SENHOR gosta, ou a MAMÃE gosta. Eu não sei porra nenhuma sobre vocês e vocês sobre mim. Eu sou um estranho naquela casa.
Eu podia dizer que todo esse sentimento que eu sinto agora é revolta porque eu ainda amo vocês e vocês não ligam pra mim. Que eu sou "rebelde" pra chamar a atenção, mimimimimi, mas quer a verdade? Se eu sou o que eu sou hoje é porque eu aprendi a não ligar. Eu quero mais é que vocês paguem as minhas contas enquanto eu to fazendo o que eu bem entendo sem me importar com a opinião de vocês. Eu tenho direito a esse dinheiro mesmo, então foda-se, fiquem aí se preocupando enquanto eu faço o que eu quero durante a noite. Eu não to triste, magoado, ou qualquer desses sentimentos aí que vocês acham que eu sinto. Tanto faz pra mim, eu só quero sair desse consultório.
Com indiferença, Aaron Smythe.
Levantou-se da mesa arrastando a cadeira e fazendo o maior barulho possível e pegou o papel com tanta força que o amaçou na ponta. Chegou perto do médico que anotava algo em seu caderno e jogou a folha de qualquer jeito no homem - Tá aí a sua merda, divirta-se - Virou-se de costas sem nem esperar por resposta e saiu andando pouco se fodendo se tinha acabado o tempo da consulta ou não. Passou pela porta do lugar limpando os olhos e as bochechas molhadas com as costas da mão e colocou seus olhos escuros ao sair na rua.














