"Não esquecer é lembrar. Das coisas boas ou das ruins, tanto faz. É mastigar a pessoa no pensamento. É transformar o outro em chiclete e ficar na repetição do movimento, alimentando e preenchendo qualquer buraco ou falta com o pensamento no outro. Esquecer é matar a outra pessoa dentro de você, não pensando nela, simplesmente. Se você não pensa, você esquece.
Não esquecer é querer saber do outro, é perguntar, é abordar. Se o outro não fala, não responde, não corresponde à sua ânsia de saber, você vasculha, segue os rastros, as pegadas, até encontrar qualquer notícia ou informação. Esquecer é se negar a ler, a ver, a saber. Esquecer é ignorar os vestígios.
Não esquecer é ficar remoendo as coisas ruins, os momentos de crueldade do outro, ou de estupidez, ou de insensatez, ou de emputecimento, whatever. Não esquecer é se agarrar nas lembranças ruins e interpretar o papel de pobre-coitado para si mesmo. Esquecer é ser generoso com o que houve e seguir e se preocupar somente com o que existe hoje e desapegar de qualquer histórico da relação que nem é mais.
Não esquecer é responder email. É dar corda, mesmo que seja uma corda para o nada. O nada aparentemente inofensivo é um nada bastante perigoso. Esquecer é ver o nome da pessoa em bold, sentir frio na barriga, palpitação no peito, boca seca, estado imediato de euforia, mas em seguida se concentrar, reencontrar o próprio centro, abrir, ler e fechar. E seguir a vida no mesmo ritmo que ela tinha até o email chegar.
Não esquecer é se permitir ao sofrimento. Não precisa, ninguém precisa sofrer. Se dói, deixe doer, a vida naturalmente se encarrega de dar fim à dor. Esquecer é, mesmo doendo, continuar. Esquecer é conviver com a dor, e não permitir que ela altere uma vírgula no andamento da carruagem. Esquecer é não esquecermos de nós mesmos.
Viu o nome da pessoa em bold na caixa de emails, sentiu frio na barriga, palpitação no peito, boca seca, estado imediato de euforia, em seguida se concentrou, reencontrou o próprio centro, abriu o email, leu e fechou. E a vida seguiu, e agora sintomaticamente, com uma dor de cabeça que nenhum Lisador era capaz de aliviar.
Emudeceu. Não abriu mais aquelas páginas. Não encontrou mais aquelas letras. Não soube das músicas que o outro acabara de ouvir nem das fotos postadas naqueles dias. Quis começar a não querer saber e se determinou. Nem bem sabe quando foi que aconteceu, muito provavelmente no meio de uma tarde bem bonita.
Não esquecer é saber que precisa se desprender mas não fazer por dó. Precisar pôr fim e ter pena, lamentar. Não esquecer é chorar sobre o caixão da relação morta. Esquecer é, ao sinal de qualquer recaída, sufocar o peito e repetir: acabou, fim, morreu. E seguir como se nada houvesse.
Não esquecer é querer ser legal, aceitar a amizade mesmo sabendo que não é possível dar conta de sustentá-la. Não esquecer é ceder às condições do outro. Isso pode, isso não pode. Não esquecer é pensar que alguma coisa já é melhor que nada, que qualquer contato é melhor que contato nenhum. Esquecer é não aceitar as migalhas dormidas do pão do outro. Esquecer é não esquecer que isso é muito pouco.
Não esquecer é Samuel Becket, esperando Godot. Esquecer é Bertold Brecht, em todas as peças, quando diz de forma clara ou nas entrelinhas que você tem que assumir o comando."
- Tatit, do Blog "Le Coup de Foudre (http://tatit.wordpress.com/?s=me+esquece)
Vai passar.










