Hey dad, look at me
Think back and talk to me
Did I grow up according to the plan?
And do you think I'm wasting my time doing things I wanna do?
But it hurts when you disapprove all along
Enquanto esperava na sala de estar da Mansão Blackshew, Leonard encarava o teto. Sua mãe estava para chegar do trabalho e seu pai fora até a cozinha fazer Merlin sabia lá o quê. Todavia para o loiro era bom que enrolassem o máximo que pudessem, porque, sinceramente, ele não queria ter de ouvir as palavras que sabia que ouviria com quase tanto desgosto, quanto as que leu na última carta que recebera dos pais, naquela manhã vergonha, em Hogwarts, cerca de uma semana atrás.
A verdade é que fora até a casa de sua família por convocação do pai. E tinha medo do que poderia vir. Na verdade, nem tanto, porque caso houvessem ameaças contra sua pessoa, Leonard já sabia bem que desculpa usar: seria pai e seu filho (ou filha) não poderia nascer sem uma influência sua. Fosse como fosse, Leo sabia que ouvir o que ouviria seria só mais uma fase que ele teria de aguentar até que finalmente resolvesse as coisas pendentes com Hannah.
Respirando fundo pela milésima vez desde que chegara ao lugar, o corvino ouviu os passos que retomavam o ambiente. Movendo seus olhos verdes, viu a silhueta do Sr. Blackshew com duas xícaras em mãos. Todavia Leo já era crescido o suficiente para saber que dentro daquela porcelana não havia uma única gota de chá, mas sim de puro álcool.
-- Eu esperaria pela sua mãe, mas ela já deixou avisado que vai demorar pra chegar. -- William disse, sentando-se na poltrona que ficava ao lado do local que Leo escolhera para ficar em pé. Justamente porque sabia que se sentasse, não conseguiria mais levantar devido ao tremor em suas pernas. O homem moreno ergueu os olhos para o filho e gesticulou para que o rapaz sentasse-se no estofado à sua frente. -- Então conversemos apenas nós dois.
O setimanista assentiu. Engoliu em seco e o fez. Levando um dos pés para o apoio de seu joelho, pôs-se a encarar o pai. As feições sérias do Sr. Blackshew lhe metiam um medo que nem mesmo a pior das detenções ou os maiores assassinos dos quais tinha conhecimento, metiam.
-- Hannah está bem? -- Ele perguntou, levando a xícara até os lábios. Estendeu a outra ao jovem. -- Os pais dela vieram falar comigo e sua mãe cerca de quatro semanas atrás. E me pediram para ser direto quando resolvesse as coisas.
-- Não acho que tenha muito o que resolver. -- Leonard deu de ombros. Deixou a bebida de lado e mordiscou o interno de sua bochecha por um instante. -- Eu vou ser pai, pronto. Cuidarei e assumirei a criança...
-- Posso perguntar com quais condições?
-- Querendo ou não, você sabe o trato dos Blackshew, pai. -- Leo disse de forma cautelosa. -- O último primogênito da família fica com a herança deixada pelo último, até que outro venha e se case. A sua parte vem pra mim, não?
Foi a vez do Blackshew pai suspirar com pesar. Ergueu os olhos escuros para o teto por um breve instante e logo os voltou para o filho. Ele tinha razão, mas não era isso que o preocupava; quer dizer, ter de passar sua herança.
-- Seria fácil demais, Leonard. O que eu quero é te fazer pensar. E se não tivéssemos esse dinheiro que está para ser passado pra você? Sequer teria pensado em como essa criança viveria? Hannah não é a pessoa mais pura do mundo e eu sei que você andou aprontando muita coisa por debaixo dos panos. Mas achei que ao menos fosse ser mais responsável. -- O Sr. Blackshew disse, bebendo um pouco do que parecia ser seu uísque de fogo. -- Você tem uma cadeira no Ministério que seu bisavô ainda quer que você tenha. Mas seu sonho é ser jogador de Quadribol, não? Então tudo complica. Sua mãe ainda quer você no mesmo ramo que ela porque diz que você tem o dom. -- Prosseguiu. E foi naquele momento que Leonard soube onde o mais velho queria chegar e também viu que havia sido um péssimo dia para ter saído da escola. -- Você vai ter que escolher algo, filho. E sabe que vai machucar algum deles se optar por uma coisa só. Todos de uma vez, um único... Seria capaz disso? Capaz de decepcionar mais alguém?
Leonard se calou. Sabia do que o pai falava. Sabia que ele estava lhe jogando na cara tudo que havia feito até então. Sabia que falava da época em que ele simplesmente fugia para a casa dos vizinhos, quando criança, para escapar das aulas chatas de instrumento e acabar envergonhando os pais com sua falta de habilidade em alguma apresentação em família. Sabia que ele falava das tardes perdidas em vão, que o Sr. e Sra. Blackshew tirara para ensinar ao rapaz coisas básicas do mundo bruxo, como o nome dos animais e tudo o mais. Entre tantas outras coisas... Leonard sabia também que ele se referia ao fato de sempre achar que seus pais foram ruins, quando, na verdade, ele fora o motivo de toda aquela seriedade que partira dos dois. Sabia também que falava da Lady ou Baronesa, fosse o diabo que fosse, de Chesire, que haviam lhe arrumado mas que por desfeita de Leo, as coisas não correram como planejadas. Era uma família bem afeiçoada de bruxos, mas Leonard decidiu ficar com Hannah e continuar com suas noitadas na companhia de Dimmy... Entre tantas coisas mais que sabia simplesmente porque não era hipócrita e não mentiria para si mesmo. Todavia era em momentos como aquele que o corvino tinha vontade de gritar para Merlin e o mundo que era só um adolescente como os outros, confuso e que precisava de auxílio. Precisava de lições, mas também precisava de definições. Estas que eram sobre o que a vida poderia lhe reservar ou o que ele poderia não fazer no dia seguinte, porque talvez não estaria vivo para ver...
-- Eu não sei. -- Respondeu por fim. Só queria sair logo dali, com as coisas resolvidas sem ter de passar por discursos moralistas, se possível.
-- Oh, Leonard... Do que sabe é ignorante, do que não sabe, é bom entendedor. -- O Sr. Blackshew suspirou mais uma vez. Francamente, não queria ter de enrolar muito também. Só queria que estivessem acertados e passassem a cuidar do procedimento para a nova vida que o mais novo teria. Todavia o chefe da família sabia que aquela não seria uma tarefa fácil, tampouco rápida. -- Sabe o que seu avô fez comigo quando soube que sua mãe estava grávida?
Leo hesitou. Não sabia se queria saber do ocorrido.
-- Ele quase acabou com a minha raça. Quase que você ficou órfão de pai. -- William deu um risinho sem humor. Todavia a mísera menção de um sorrisinho brincando em seus lábios, foi algo suficientemente surpreendente para o corvino, que relaxou um pouco. -- Mas eu fui bobo e não aceitei o que ele tinha me dito. Quer dizer... Eu era um pouco mais velho do que você é agora, mas ainda assim, ele quis se meter em uma decisão importante na minha vida. Outra, pra falar a verdade.
Novamente, Leo sabia do que o pai falava. Referia-se, muito provavelmente, ao aborto que algumas partes de sua família, diziam que ele havia feito sua mãe cometer. Seria uma menina cerca de dois anos mais velha que Leonard, mas que não chegou nem aos seis meses dentro da barriga da mãe, supostamente, por duas coisas: um aborto espontâneo ou, novamente, o aborto que disseram ter havido. Fosse como fosse, o corvino procurou se concentrar nos dizeres do pai. Sempre fora assim, afinal.
-- O que quer dizer? -- Perguntou por fim, em meio ao silêncio que decidiu residir e gritar entre eles.
-- Eu poderia te dizer o que fazer, poderia gritar com você como fiz por aquele berrador, poderia até arrancar seu couro, rapaz. -- Novamente, o homem com cabelos grisalhos e uma barba muito bem aparada, suspirou. -- Mas a questão é que...
-- Seria fácil demais. -- Leo completou, lembrando-se das palavras ditas instantes atrás. Ele era daquele jeito: aprendia rápido, mas eram poucas as coisas que realmente absorvia. Palavras e conhecimento eram uma delas. -- Acho que entendo...
-- Quando pretende pedir a Hannah em casamento? -- Subitamente, o Sr. Blackshew mudou de assunto. Quase no mesmo instante em que seu olhar se tornou algo mais distante, triste, sombrio... Como era de seu feitio. -- De quantos meses ela já está?
-- Pretendo pedir assim que o final de semana acabar. Faltam umas últimas coisas. E ela já está de sete ou oito meses...
O moreno virou-se com as sobrancelhas arqueadas. Não imaginava que Leonard havia aprontado o que aprontara há tempo tempo. Mas, bom, já estava feito, certo? Então o máximo que ele poderia fazer agora era aconselhar. Ou ao menos colocar um pouco mais de juízo naquela cabeça loira que tinha tanto de sua personalidade, mas tão pouco, para sua sorte, do que ele próprio era.
-- Já sabem o sexo do bebê?
-- Decidimos que vamos esperá-lo nascer.
-- Bom... A escolha é de vocês. -- Deu de ombros. Em seguida, finalizou sua bebida, ficando mais alguns instantes em silêncio. Sabia que não adiantava fazer o escarcéu que mencionara antes, fosse lá pelo que fosse. Então a partir de agora teria de ser ao menos mais controlado e reprimir os comentários que gostaria de fazer. Leonard, por sua vez, sabia que não era o filho perfeito e já deveria começar a se adaptar para o que viria dali alguns dias, já que diziam que todo filho só se tornava um bom, quando virava pai. Por isso talvez fosse hora de começar a escutar o que seu progenitor tinha a lhe dizer e, acima de tudo, a lhe ensinar. -- Vai passar a noite aqui?
-- Vou só esperar a mamãe chegar, conversar um pouco com ela e ir para o Beco Diagonal. Preciso, ahn, comprar as alianças. -- Explicou, colocando-se em pé, agora espreguiçando-se. Parte da tensão inicial havia se dissipado por completo.
-- Na verdade, não precisa não.
Antes que Leonard abrisse a boca para perguntar do que ele estava falando, os olhos verdes do rapaz acompanharam os movimentos do mais velho. O Sr. Blackshew levou a mão direita até o lado interno de seu terno, vasculhando-o. Em poucos segundos retirou dali uma caixinha realmente pequena, revestida de veludo azul. Suas bordas eram prateadas e um enorme B estava em uma letra perfeitamente cursiva, entalhada no alto do objeto.
-- Fique com elas. -- Disse, estendendo a caixinha ao filho. -- São as alianças de noivado que troquei com a sua mãe. Concordamos, muito tempo atrás, em passá-la assim que você pedisse sua mulher em noivado. Bom... Não acho que a Clifford vá gostar muito, mas tente. Sua mãe gostaria de vê-los com elas. -- Sorriu de canto, maneando a cabeça.
Leonard sorriu como não fazia há um bom tempo. Ok... As coisas estavam boas demais para ser verdade. Seu pai não o recebendo a gritos, as alianças sendo concedidas... Bom, talvez ele estivesse arrependido de ter dado o show que dera pelo berrador. Ou se não estava, Leonard jamais saberia.
-- Obrigado. -- Agradeceu enquanto tomava a pequena caixa em mãos. Ao erguer os olhos dela, deparou-se com seu pai abrindo os braços e o envolvendo em um gesto fraternal. Leonard sorriu por cima do ombro do mais velho, apertando-o com a outra mão que não estava ocupada.
Definitivamente, o Sr. Blackshew estava voltando, bem aos poucos, ao ser o herói no qual Leonard sempre se inspirou, mesmo que as coisas que fizera nos dias atuais não fossem reflexo nenhum do que aprendera com o outro. Mesmo, afinal, que os dois estivessem cientes de que nada do que fizeram em seu passado, poderiam mudar seu presente. Todavia, também estavam cientes de que isto alcançaria seus futuros.
Now it's just too late and we can't go back // POV











