Isso não é uma carta de suicídio. Está garantida a tranquilidade de outrem em me manter respirando. Eu já desisti há muito tempo. É tão importante me manter respirando e tão pouco o fato de que me rasga o peito a cada vez que faço isso.
Inspire, respire. Mantenha a cabeça erguida, eu continuaria, se ainda fosse alguém. Mas mal sei que dia é hoje. Alguém decidiu que eu deveria morrer lentamente e eu já não posso lutar contra isso ou mesmo pensar a respeito. O que me resta é que sempre surgem novos remédios, novas drogas, infinitas misturas e doses. Algumas vezes elas não são divertidas.
A morte riu na minha cara na noite passada. Enquanto eu contava nos dedos o que havia misturado e quase arrependida pela dor de barriga que havia sido o prêmio da vez, deparei com meu reflexo no espelho e a vi atrás de mim com um sorriso desdenhoso. A minha velha amiga agora me chama de perdedora, viciada. Já não me admira por vê-la sem lhe acompanhar nem troca comigo segredos da existência infinda.
Estou sozinha em um quarto tentando encaixar as peças do cenário. Começo os parágrafos com um espaço mínimo me lembrando da repreensão de cinco anos atrás. A lâmina na bolsa sussurra que poderia me ajudar. Engoli um cigarro aceso e parece que ele não se apagou no meu estômago. Nada disso se encaixa. Eu tenho estado cada vez mais distante. Mas me custa lembrar realmente do que deveria estar próxima. As palavras costumavam vir bonitas, mas não há mais beleza na minha dor. Não há mais nada no meu universo além de dor.
Acho que não há mais nada novo. Já passei pelos vícios, pelos amores, pela loucura, pela morte. Parece apenas que tudo começa a se repetir, mais intensamente, como sempre é quando o ciclo recomeça, mas eu já conheço todo o caminho. Não sinto mais medo. E isso rouba toda a emoção.
Me pergunto até mesmo se ainda sou cristã. Jesus disse que para chegar a ele seguiria por um caminho e uma porta estreitos. Não sei o que seria mais estreito que o fio de uma navalha. Mas duvido muito que esse meu caminho esteja perto do que eu deveria seguir. Qual o motivo de tanta dor em um caminho que deveria ser largo de prazeres carnais? Minha carne queima, meu sangue ferve, meu peito borbulha.
Parece que a sujeira me segue, um débito impagável do qual não posso me livrar. Não é como se alguém houvesse roubado minha inocência: uma parte nunca houve, outra permanece intacta me fazendo de ingenuidade penosa. Não foi um abuso ou mesmo a reincidência pertubadora deles que me causou mal. Me parece mais que sou um instrumento do pecado, indiferente a mim, ao outro. Trazendo a luxúria, a culpa, a mentira. Condenando almas tentadas ao erro desde muito antes de saber o que eram essas coisas. Perceber isso não muda nada a respeito.
Não sei que horas são. Se é dia ou noite. Já começo a misturar as letras e sinto saudades de escrever - início, meio e fim, um conto de horror permeado de analogias esquizóides sobre qualquer cena cotidiana banal. Mas isso também não vai voltar.



