Gritos Borrados De Silêncio
O silêncio ecoa
- Na verdade, grita.
Mas não consigo entender esse turbilhão de sons de imagens borradas. Está meio embaçado, é muita água salgada que se prende no parapeito. É muita voz encravada na garganta e o grito sai assim, preenchido de estática e silêncio.
Através do oblíquo das gotas, percebo as lembranças que se arrematam uma a uma. Vem como ondas, uma após outra por entre os tragos perdidos da noite, o cricrilar das vozes de pessoas que já se ausentaram a muito tempo. Escolheram partir e partiu-se, assim, parte de mim.
As que se aproximam, vem sedentas em um copo que já nem me lembro se já não despedaçou em cacos tão finos quanto a areia e sendo levados pela maresia. Por entre as lembranças, acho que tem uma que acredito que me mostre eu tomando o que restava. Foi o suficiente. Veio como um baque certamente incerto me atordoando os sentidos e fazendo rugir o mar revolto aqui dentro. Era para anestesiar tudo, mas no fim das contas, fez jorrar de dentro esse maremoto produzido pelas incertezas e pelas ausências.
De tanto disso e daquilo, de tantos aleatórios balanços, o barco quase virou. É um susto aqui e acolá, isso porque a tempestade ainda não resolveu entrar. Mas nada posso afirmar, tudo está meio embaçado nessa janela, mas não sei se pela respiração ofegante ou da chuva que se espreme aqui dentro. Mas, respiro?
É muito sacolejo, são muitas vozes ecoando ao mesmo tempo. O som estridente de quase um apito mostra que algo aconteceu. Final do primeiro round? Ou é fim de jogo? Sei nem se consegui jogar. Coloquei algumas cartas na mesa, mas o resultado? A Deus dará, pois quem jogava comigo, saiu. Se foi sorrindo, não consegui ver. Estava tudo embaçado na hora que percebi se levantar. Levou consigo, ao passar pela porta, os momentos que a calada da noite abrigou. Foi como se nunca tivesse existido, mas existiu, porque doeu.
Não consigo olhar para a porta que dá direto para o convés, nem para ver se a deixou aberta. Só sei que no outro cômodo, vi uma bagunça montada. É o palco de outras vidas que trincou algumas pessoas que não devia. Isso martelou no peito, mas mais uma vez eu não pude fazer nada, pois a vista já marejada, se prendeu no escuro do piscar. Tentava em vão limpara a própria janela interna da última partida.
Respiro fundo e naquele momento descubro que ainda respiro, meio falhado, aos sôfregos do balanço do navio, mas não é o suficiente. Ainda está escuro, porque, se abrir, sei que ainda estará borrado. Sinto na pele, escorrendo quente pelo rosto e salgando os lábios.
Partidas não são meu forte. Ainda mais quando eu sabia das regras e resolvi jogar. Partidas não são meu forte, pois no final, sou eu quem saio partido. Eu sei as regras, mas não consigo jogar com os outros, pois, partidas... não são... o meu forte. Nem sei se a partida chegou ao fim, mas partiu. Foi lá, naquele outro barco que mais afunda do que navega. O meu? Certamente ainda é seguro, porque me seguro. Pelo menos eu acho. Só é meio escuro aqui e acolá. Sacoleja um pouco, mas sei que não vai virar. Até nome tem, RESILIÊNCIA. É o que me resta, paciência. Mesmo que seja o que menos tenho. O que eu sinto em letras e palavras eu desenho. Tento ao menos, mas sai assim, meio borrado, cheio de gritos do silêncio.














