Ontem, após tanto tempo, eu consegui olhar no fundo dos seus olhos. Cruzamos olhares. Fixamente. Pela primeira vez desde que tudo aconteceu eu consegui te olhar profundamente e dizer tudo que eu senti quando você me deixou, pela primeira vez, você não tinha que ficar a metros de distância de mim. Você não tinha mais ela pra se sentir insegura com a minha presença. Mas e quanto a minha insegurança? E sobre minhas pernas trêmulas, meu coração acelerado e minhas mãos que suavam naquele momento? E eu fiz de tudo pra não transparecer. Por que, olha só pra você, que sempre foi esse tipo 'homem conquistador', sempre teve as palavras doces na ponta da língua para ter nas mãos a mulher que quisesse. Mas ainda bem que eu já te conheço. Eu demorei pra sacar essa sua jogada. Eu caí uma, duas, três, quatro... bom, até perdi as contas de quantas vezes me deixei levar por essa sua conversa mole. Mas dessa vez não, ontem não. Eu tentei me mostrar fria, eu quis transparecer a menina que eu era antes de você chegar na minha vida e bagunçar tudo por aqui. Quis mostrar que eu havia construído outro escudo no lugar daquele que você rompeu. Eu quis passar a você a imagem de que eu havia me recuperado bem sozinha. Mas olha só garoto, confesso, que quando te vi, tremi. Pois veja, após tanto tempo, não é mesmo? Você ainda faz alguma coisa. Alguma não, talvez várias, mas talvez, nenhuma. Eu só tive medo. Eu sempre tive medo. Quando se trata de você esse sentimento sempre me domina. Acho que tudo que está relacionado a você me retém. Meu medo talvez foi de você novamente querer apenas provar de meus beijos e de nossas carícias e não do meu amor. Talvez, medo de que o seu coração ainda esteja cheio dela e não sobre nem um espacinho pra mim, nem um pedaço lá no cantinho que eu possa ocupar. Eu sabia, que no fundo da sua alma só tem ela, que você só me procurou por que não pode mais tê-la nas mãos. Durante todos esses meses desde que nos separamos eu esperei por este dia, eu sonhei com ele, eu detalhei ele várias vezes na minha mente. E em todas estas vezes eu imaginei que quando ele chegasse eu não me aguentaria e rapidamente aceitaria sua proposta, correria para seus braços, te beijaria loucamente até o dia amanhecer. Como naquela noite. Mas não querido, não foi tão simples assim. Enquanto você me olhava fixamente num olhar perdido, ou até mesmo, que me chamava, eu não escutei. Eu apenas disse um pouco daquilo que se prendeu em mim durante todo esse tempo. Eu soltei pra fora toda mágoa que você me fez, toda dor que você me causou. Talvez, numa vã tentativa de fazer com que você sentisse a minha dor também, com que você sofresse uma gota daquele oceano de mágoas que sofri. Não consigo entender o que aconteceu, minha atitude que contrariou totalmente a todos os planos que já havia feito. Nada faz sentido. Está tudo tão perdido, que nem eu sei se me acho mais. Ainda estou tentando me entender e te entender. Entender aquele seu olhar que me cuidava, as poucas palavras que saíram da sua boca enquanto eu desabafava sobre a paixão que senti um dia por você. Sim, foi apenas paixão. Pois se fosse realmente amor, ontem eu não te negaria assim. Em nosso tempo, era você quem dizia que me amava. Será que você se lembra das vezes que em que você implorava que minhas palavras correspondessem as suas? Mas não, eu nunca citei aquelas três palavras a você. E engraçado, no começo, quem costumava sentir menos era eu, e de repente o dono da situação se tornou você. Mas olha só. Essa foi minha vez de estar no comando, minha vez de dizer um não a você. Ainda tenho a chave da sua casa, talvez um dia eu passe por ai e aceite sua proposta. Porém ontem, hoje, essa semana, esse mês e por esse tempo... não. Não vale a pena dizer um sim tão rápido a alguém que por tanto tempo me negou. Mas desculpe garoto, se algum dia eu senti, ou ainda sinto. Não ainda, talvez eu não possa, talvez eu esteja presa num passado ou até mesmo, num futuro incerto.