why don't you sit down and let me take care of it? [ Grécia Antiga - Zeus ]
a audácia de zeus era, para ananque, sempre um motivo de riso interno. não um tradicional, mas um aninhado em suas íris, sem a necessidade de som para existir. estavam em um espaço sem nome, que antecedia a própria vontade de nomear; jazida do destino. não era salão, nem trono, nem céu, mas uma dobra do mundo onde o antes e o depois se tocavam, exatamente como serpentes. o chão não sustentava corpos, o ar não circulava, e tudo ali parecia mover-se para cumprir seu curso. colunas feitas de tempo condensado erguiam-se sem começo nem fim, e a luz não vinha de fonte alguma; existia porque sempre existira. e nesse intervalo, seu em absoluto, zeus, soberania jovem, ouro reluzente e poder recém-consolidado, ousava sugerir que ela se sentasse? era, sim, motivo de piada.
ananque observava-o com olhos impassíveis, antigos demais para surpresa, antigos demais até para desprezo pleno. não moldada por desejo, por conflito ou sucessão. ela é a própria necessidade, a companheira do tempo, irmã do inevitável, senhora do fio que antecede a escolha. o mundo não lhe obedecia por medo, mas porque não havia alternativa. não era isso que os próprios filhos de zeus falavam? diante dela, o poder do olimpiano era ornamental, um brilho sobre uma tapeçaria que ela tecera quando ainda não existiam mãos, quando até mesmo o caos obedecia a uma ordem silenciosa. havia, contudo, uma ligação entre eles, conhecida. zeus, aprendera cedo, ainda nos ecos da queda de cronos, que o poder que devora pais e funda reinos é sempre atravessado por uma força maior, aquela que decide quando a lâmina cai e quando o filho sobrevive. ananque, afinal, estivera ali quando o tempo se enroscara sobre si mesmo, quando o ovo primordial fora apertado até rachar, quando o cosmos aprendera a respirar em forma. numa norma, zeus não a enfrentava, não a desafiava; contornava-a, negociava com sombras, fingia autonomia. se era rei, era porque a necessidade permitira; se governava, era porque o fio ainda não se rompera sob seus pés.
para ananque, essa consciência parcial tornava-o interessante. zeus era um deus que pressentia seus limites, ainda que os negasse em gestos grandiosos. sua audácia, portanto, não era ignorância pura, mas um tipo específico de arrogância, que nasce do contato com o inevitável e da tentativa desesperada de parecer maior. enquanto ele falava, oferecendo cuidado, controle, ela o via como quem observa uma maré vangloriar-se da onda, divertida pela confiança juvenil. para ela, o rei do olimpo era consequência elegante, efeito colateral necessário de uma engrenagem maior, pois até mesmo o raio só encontrava alvo porque já estava destinado a cair ali, e toda vitória que zeus reclamava como sua fora antes autorizada, silenciosamente, no ventre antigo onde as coisas são decididas sem palavras. para ananquee, a ideia de sentar-se era absurda, pois ela não se cansava; a ideia de delegar era risível, pois nada existia fora de sua trama; e a ideia de confiar era irrelevante, pois tudo, inclusive a confiança, já estava contido em seu fio. mas ela o olhou. sorriu. “vosso senso de humor é de outro universo, zeus.”
@theogodman













