- Você não sabe fazer nada além de ser fã desses moleques inúteis?
Dani não sabia se chorava de tristeza ou de raiva diante do pai, que lia um dos capítulos da fanfic que a filha estava reescrevendo. Estava triste e com raiva porque, além de ter invadido sua privacidade ao se sentar na mesa filha e ler o que estava aberto no computador, o pai a julgava como uma idiota que perdia seu tempo com inutilidades. Talvez ser fã deles fosse mesmo seu único grande talento, mas não significava que era um hobby totalmente sem função na vida dela. Se ao menos o pai conseguisse enxergar além daquela névoa de implicância, perceberia como gostar daqueles cantores levara sua filha a aprender ao longo do tempo.
Ela os ouvira em um programa de TV e se apaixonara pelo menino com covinhas nas bochechas, dançarino principal do grupo. A partir de então, começara a se interessar pelas músicas sensíveis e contagiantes, pela dança harmoniosa e, claro, pela personalidade de cada um deles. Eles falavam de coisas que ela precisava ouvir em suas músicas. Esperança para o futuro, amor, amizade, nunca desistir de seus sonhos. Pareciam ter sido criados para satisfazer tudo que ela, sem querer, estava procurando em um ídolo. E isso parecia ser o que irritava o pai, que vivia repetindo que “eles são tão inúteis que aprenderam a dançar e cantar, mas desde quando música leva a alguma coisa?”. Ele achava a dedicação e o amor da filha perda de tempo. Talvez fosse só uma diversão no princípio, mas, com o tempo, ser fã deles acabou fazendo com que ela aprendesse tantas coisas!
Primeiro, ela entendeu a importância de falar uma nova língua, porque precisava se comunicar com eles caso os conhecesse. Depois, a menina antes indisciplinada e desfocada, agora organizava os horários para assistir os vídeos e programas de TV dos quais eles participavam. Conseguia conciliar tudo com os estudos, já que agora o pai exigia que ela ficasse na média em todas as matérias, como condição para não a proibir de assistir os meninos na TV. Ela não podia se dar ao luxo de perder a conexão com eles logo agora que iriam lançar um novo álbum.
Além disso, Dani fizera amigas que a encorajaram a escrever histórias sobre os ídolos, que antes ficavam apenas em sua imaginação. Sempre que ela contava as situações que imaginava às amigas, elas diziam que se ela transformasse tudo em uma história e desse uns toques de fantasia e romance, ela teria em mãos uma fanfic com muitos leitores e comentários. A ficção escrita por fãs e para fãs acabou, de fato, chamando a atenção de vários outros interessados na boyband. Eles liam e comentavam com fervor a história de uma menina comum que, em um dia qualquer, encontrava seu ídolo em uma cafeteria. A partir daí, a trama se desenvolvia em um romance entre fã e ídolo, o que parecia conquistar os sonhadores que encontravam aquelas páginas. No início, a história era simples, mas Dani vinha dedicando cada vez mais tempo e esforço para desenvolvê-la, e começara a se esforçar cada dia mais para que fosse mais complexa e mais agradável para seus leitores, que guiavam sua escrita, pedindo o que queriam ler a seguir. Os elogios aumentavam conforme melhorava seu texto e Dani se orgulhava.
Todos os dias voltava da escola no mesmo ônibus que Nanda, que também se apaixonara pelo grupo e se tornara a editora não oficial da história de Dani. Ela é quem lia, comentava, editava, dava ideias e corrigia algumas incoerências e erros gramaticais. Nanda era ótima no que fazia, mas, sobretudo, era uma excelente amiga, sempre encorajando a amiga escritora. Nas últimas semanas, ela havia mostrado à Dani um concurso para jovens escritores. A ideia de Nanda é que Dani modificasse nomes e alguns fatos da história para enviar o texto na categoria romance do concurso. E Nanda estava confiante no que lia.
Começaram a modificar e editar conjuntamente a história. Um trabalho em equipe eficiente e rápido. As duas se davam bem em suas funções e logo estariam prontas para finalizar e mandar a história completa para ser julgada. Mas agora, Dani não sabia se conseguiria terminar seu trabalho dentro do prazo.
- Você vai ficar de castigo sim! Um mês sem computador e só vai poder usar celular uma hora por dia, na minha presença. Assim você aprende a usar seu tempo direito! Vai passar todo o tempo que não está na escola estudando! E não ouvindo essas músicas inúteis!
- Mas pai, eu preciso... – Queria concluir sua frase dizendo que precisava terminar a história para o concurso, mas as lágrimas a impediram. Não sabia se chorava de raiva ou de tristeza, mas chorou até o dia seguinte.
Não parou de chorar nem mesmo ao ouvir a mãe discutir com o pai quando ele contou o que havia acontecido na casa enquanto a mulher trabalhava. Ela estava do lado da filha, mas ter esse apoio não fez com que as lágrimas cessassem. E se aquele fosse realmente o único talento que tinha? No ano seguinte precisaria escolher um curso para fazer, um caminho para tomar, e ela não era boa de verdade em mais nada além disso.
Não tinha habilidades nos esportes nem afinidade com números, não era boa em escrever redações com opiniões. Só o que fazia com confiança, agora, depois de desenvolver melhor a habilidade, era escrever aquelas histórias. Por mais simples que fossem, eram feitas com carinho e muita dedicação e, no fim, elas recebiam elogios. Mas... será que havia algum lugar no mundo em que pudesse se sustentar com aquilo no futuro?
No dia seguinte, a cara inchada denunciava a noite de choro e Nanda sentou ao seu lado no ônibus, preocupada ao ver a tristeza evidente no rosto da amiga. Quando terminou de ouvir todos os fatos ocorridos com a família de Dani na noite anterior, Nanda já tinha uma solução na ponta da língua:
- Você diz que tem um trabalho para fazer lá em casa e terminamos de editar o texto. Nós enviamos sua história e esperamos a resposta do concurso. Eu tenho certeza que você pelo menos fica entre os cinco finalistas!
- Estou pensando em desistir. Eu não devia me dedicar a outras coisas, tipo estudar? Ano que vem a gente já escolhe uma faculdade pra fazer e ser finalista ou ganhar esse concurso não me ajuda em nada a passar em algum curso... E eu realmente não sei fazer nada além disso, então preciso me esforçar mais pra recuperar o tempo perdido! Eu não sei fazer nada além disso, não sou boa nem em fazer contas...
- Dani, se esse for seu único talento, pelo menos você tem um talento!
- Mas eu preciso entrar na faculdade! Como vou viver sem um curso assim? Meu pai me mata se eu não entrar em um curso que me renda alguma coisa depois!
- Mas você disse que sua mãe te apoiou, não foi?
- Ela vai continuar te apoiando se isso for tudo que você sabe fazer. Talvez você possa ser uma grande escritora, talvez você ganhe mais do que muitos médicos por aí, e você pode ser mais realizada e bem-sucedida que muitos advogados e engenheiros. Não tem caminho certo ou errado na vida!
Dani nunca havia pensado por essa perspectiva. Encarava a amiga com um pouco mais de esperança.
- Faça isso pelos meninos, Dani! Eles não gostariam que você desistisse, você sabe o que as músicas deles falam, não é?
O brilho voltou aos olhos da menina. De fato, ela não se permitiria fazer nada que não os deixasse orgulhosos!
- Tudo bem, eu acho que participar do concurso não vai me fazer mal nenhum. Nós já fizemos quase todo o trabalho, não compensa desistir agora que falta tão pouco.
- Sim! Nós não vamos desistir! Pode usar meu celular pra avisar que você vai fazer trabalho de geografia na minha casa hoje.
Dani não sabia se chorava de vergonha ou de felicidade. A vergonha era porque burlara o castigo do pai e ele não ficaria nada contente em saber disso, mas estava feliz porque a mãe acabara de lhe entregar uma carta avisando que era uma das cinco finalistas e sua história iria para voto popular no site do concurso para jovens escritores. A mãe estava orgulhosa e esperançosa com o sucesso da filha. Depois de um longo abraço, perguntou empolgada:
- Qual é o primeiro prêmio deste concurso, minha filha?
- Eu posso ser... – as lágrimas impediram que continuasse a frase. Tomou fôlego e continuou – posso ser publicada!
A mãe soltou um grito de empolgação e abraçou mais uma vez a filha.
- Vou pedir pra todo mundo votar em você e eu mesma vou votar um monte de vezes! Eu estou tão orgulhosa! Você vai ganhar, meu amor, eu tenho certeza disso!
- E se eu não ganhar? Esse é meu único talento!
- Nunca ouvi falar de nenhum grande escritor que nunca foi rejeitado pelas editoras. Não quer dizer que você não é boa o suficiente, só quer dizer que não enxergam o quanto você é boa. E não, esse não é o seu único talento! Você é gentil, dedicada, apaixonada. Tenho certeza que seus ídolos vão ficar muito orgulhosos de você. Não é a música deles que fala para nunca desistir?
Por um breve momento Dani recomeçou a chorar, lembrando da imagem do pai. Ele a confrontava com a ideia de que, talvez, persistir fosse perder um tempo precioso, no qual poderia estar aprendendo alguma coisa útil.
- E se tudo isso for inútil? Eu não deveria estar usando meu tempo pra aprender alguma coisa que me dê futuro? Eu tenho tanto medo de estar perdendo meu tempo!
- Querida, você acabou de ser selecionada para a final de um concurso de escritores. Se isso é perder o seu tempo, você deveria perder mais! Agora vá lavar esse rosto e vamos sair e escolher um presente para agradecer a Nanda por ter te ajudado. Na volta contamos para seu pai. Ele precisa saber que esses meninos não são inúteis e que seu talento não é uma perda de tempo! E nunca seria, mesmo que você não tivesse se classificado.
Daniela se alegrou, sentindo confiança nas palavras da mãe. No fundo, nunca pensou que perda de tempo se dedicar aos seus ídolos, afinal, era seu maior dom!