Trabalho Final - Jornalismo de Dados | Por Émerson Rodrigues, Carlos Vinícius e Tainã Maciel
Mês de março registra maior número de atendimentos por picada de escorpião em Fortaleza
Quantidade de casos pode estar associado a precipitações, revela pesquisa
Março foi o mês com maior número de atendimentos por picadas de escorpião no Centro de Assistência Toxicológica (Ceatox) do Instituto Doutor José Frota (IJF), em Fortaleza, durante o primeiro semestre de 2018. Segundo dados do Ceatox, 310 pessoas foram atendidas no Centro em decorrência de picadas de escorpião em março. De acordo com uma pesquisa de estudantes da disciplina de Jornalismo de Dados, da Universidade Federal do Ceará (UFC), a quantidade de casos pode estar associada, mesmo que indiretamente, ao índice de precipitações.
Março, com 310 atendimentos, lidera a lista dos meses com mais pessoas picadas, seguido de junho (296), maio (292), abril (285), fevereiro (242) e janeiro (216). Ao todo, 1.922 pessoas foram atendidas pelo Ceatox nos primeiros seis meses deste ano. Confira os dados na tabela abaixo:
Estudantes da disciplina de Jornalismo de Dados, ministrada pelo professor Riverson Rios, na Universidade Federal do Ceará (UFC), descobriram, no entanto, que o número de atendimentos mensais pode estar associado a quantidade de chuvas em Fortaleza.
Segundo dados da Fundação Cearense de Meteorologia e Recursos Hídricos (Funceme), fevereiro foi o mês em que mais choveu na capital cearense, com 263 milímetros, seguido de maio (248 mm), março (228 mm), abril (220 mm), janeiro (162 mm) e junho (41 mm). Confira os dados na tabela abaixo:
Os alunos do professor Riverson descobriram, comparando os dados, que os meses que sucederam meses chuvosos são os que mais apresentaram aumento no número de pessoas atendidas por picadas de escorpião no Ceatox do IJF.
Por exemplo, fevereiro, mês mais chuvoso da primeira parte do ano em Fortaleza, com 263 milímetros, é sucedido por março, mês em que o Centro de Assistência Toxicológica do IJF mais atendeu pacientes picados por escorpião.
E a relação continua. Maio foi o segundo mês em que mais choveu no primeiro semestre na capital cearense, com 248 mm. Por sua vez, junho foi o segundo mês em que mais pessoas foram atendidas no Ceatox: 296 no total.
Março e abril, contudo, não seguem a mesma linha, já que, enquanto março ficou em terceiro lugar entre os meses mais chuvosos, abril figura na quarta posição quando o assunto é o número de atendimento por picadas de escorpião. Vale destacar, entretanto, que os meses tiveram um índice de precipitação muito parecido (em março choveu 228 mm e em abril, 220 mm), o que ajuda a explicar o motivo da relação não ter sido seguida “à risca”.
Ataques de escorpião aumentam com chuvas, diz especialista
A farmacêutica Karla Magalhães, que compõe a equipe do Núcleo de Assistência Toxicológica do IJF, ressalta que é comum que o número de ataques de escorpião aumente durante períodos com maior incidência de chuvas:
— Em relação aos escorpiões, e acidentes com animais peçonhentos de forma geral, as estatísticas, os dados epidemiológicos, revelam que realmente o aumento de chuva acarreta o aumento da incidência por vários fatores. Em relação aos escorpiões é porque eles ficam muito nos esgotos, nas tubulações de esgotos, então quando há inundação, além de serem arrastados junto com o lixo, eles tendem a procurar locais mais seguros, até porque os escorpiões respiram pela pele, eles não querem ficar afogados, então tem tendência a procurar lugares secos, para sua própria sobrevivência e reprodução — explica Karla.
A dona de casa Ana Geane Rodrigues, 41, foi picada por um escorpião no dedo da mão direita enquanto levava o lixo para fora de casa, em 7 de abril. Ela conta que sentiu uma dor muito forte no momento da picada e que, logo depois, o local começou a inchar, ficar dormente e arder.
Como as dores só aumentavam, dona Geane teve que procurar atendimento no Ceatox do IJF, onde tomou uma medicação e foi liberada. Hoje, passados sete meses após o susto, ela revela “que se protege como pode” na hora de jogar o lixo fora.
- Primeiramente, fique calmo. Evite fazer exercício, porque isso faz com que a velocidade de circulação do veneno na corrente sanguínea aumente;
- Procure se manter sentado e eleve o membro que foi picado;
- Ingira bastante líquido;
- Evite tomar leite e bebidas alcoólicas;
- Não morda ou tente sugar o veneno do local da picada;
- Procure orientação de algum serviço de saúde, caso, por exemplo, do Centro de Informação e Assistência Toxicológica do IJF, cujo número é (85) 3255 5050. O Centro pode orientar a pessoa a procurar um médico a depender da gravidade dos sintomas.
Os escorpiões são seres invertebrados e de ampla distribuição pelo mundo. Considerados os aracnídeos mais antigos do mundo, seus fósseis indicam que habitam a Terra há mais de 400 milhões de anos. Eles são também conhecidos pelos seus ferrões localizados no fim da cauda, conhecidos como telson, e as glândulas de veneno. A substância liberada contém neurotoxinas, histaminas e enzimas - apesar de todas as espécies produzirem toxinas, menos de trinta espécies podem causar morte em humanos.
Segundo o boletim entomológico divulgado pela Secretaria de Saúde do Estado do Ceará (SESA) no mês de agosto, os principais relatos de acidentes envolvendo escorpiões estão relacionados às espécies do gênero Tityus, tais como Tityus bahiensis, Tityus obscurus, Tityus stigmurus e Tityus serrulatus, sendo esta última responsável pelos casos mais severos.
No Brasil, especialmente no Nordeste, as notificações de acidentes por escorpiões têm crescido mais de 100% nos últimos 10 anos, ultrapassando o número de acidentes ofídicos. No estado do Ceará, este agravo correspondeu a 72% dos acidentes por animais peçonhentos nos últimos dois anos (2016-2017) segundo o Sistema de Informação de Agravos de Notificação (Sinan), que notificou 11.446 casos, sendo que 8.188 foram ocasionados por escorpiões.
O Núcleo de Vetores (NUVET), obedecendo o fluxo de encaminhamento das amostras zoológicas estabelecido pelo Ministério da Saúde (MS), recebeu 258 escorpiões coletados pelas Regionais de Saúde. O levantamento das espécies coletadas, além das duas de importância médica Tityus serrulatus e Tityus stigmurus, as espécies Tityus martinpaechi, Tityus pussilus, Bothriurus asper, Bothriurus rochai, Rhopalurus rochai, Rhopalurus agamemmon e Physoctonus debilis foram capturadas nos municípios cearenses que realizaram trabalho de controle de escorpiões.
A espécie Tityus stigmurus possui a maior distribuição geográfica encontrada em 40 municípios cearenses; já os Rhopalurus rochai vem no segundo lugar aparecendo em 39 municípios do Ceará.
O “Boletim Epidemiológico ESCORPIÕES | Agosto 2018” pode ser consultado na íntegra acessando o link:
https://www.saude.ce.gov.br/download/boletins/
Centro de Assistência Toxicológica (Ceatox) do Instituto Doutor José Frota
Endereço: Rua Barão do Rio Branco, nº 1816, Centro - Fortaleza