A lésbica tem uma relação bastante particular com a feminilidade. A feminilidade normativa, submetida ao homem, imposta, não faz sentido para a lésbica.
À travesti é oferecida a masculinidade por toda a sua vida: violenta, abrasiva, sem direito à emoção e à beleza. A masculinidade pune a travesti durante seu percurso por performar feminilidade.
A travesti lésbica rejeita a masculinidade duas vezes, a primeira no seu ser e a segunda no seu afeto, e de duas formas se reapropria da sua feminilidade. A feminilidade dela liberta ela dos sofrimentos e das agressões da masculinidade. A feminilidade do seu afeto a faz insubmissa, independentemente, igual.
Eu sou lésbica femme. A minha feminilidade é forte, confiante, questionadora, ativa. Isso é parte do meu gênero. Eu sou travesti. Eu não quero ser mulher. E não teria nada de errado com quem é, mas a minha feminilidade é outra.
Confusão, consfusão, confusão! Quem não queria uma moeda pra cada vez que ouve essa pergunta? Pois bem, essa é a minha explicação…
"E aí o primeiro ponto é isso: travestis, ainda que estejamos no campo da feminilidade e que nossas relações de trabalho e de gênero se dêem pautadas nos elementos mais violentos do “ser mulher”, somos um gênero específico. Olha só: temos lugar específico na organização do trabalho, conjunto específico de signos e estéticas distintivos e mesmo um referencial corpóreo específico (a “mulher de peito e pau”). O próprio senso comum, ainda que nos trate no masculino e ainda nos chame de frango, entende isso: se nos olham na rua, não apontam um homem ou uma mulher, mas “o traveco”; se querem nos ofender, ao contrário dos xingamentos no feminino direcionados aos gays, nos chamam de viado, de traveco, no masculino. Ou faz algum sentido a imagem de uma cara passando no carro e chamando a travesti de “mulherzinha”? Porque compreendem, ainda que não racionalizem, que nós somos “outra coisa” — uma coisa que pra ele não é humana, que não cabe na alteridade, mas ainda assim outra coisa, e uma “outra coisa” feminina."
The term travesti is not just a term, it carries a symbology, a representation, a
social role, a specific social place in Brazil. So, if we translate it, I’m afraid that all the historicity of the travesti movement in Brazil, including that of having reclaimed a term that was used in a pejorative way for years and re-signified it, translating the term would make us lose a bit of the notion of our position in the world: as part of a dissident, South American identity.
Kimberly Luciana Dias é referência de militância virtual (e física) antes mesmo dos tempos de Facebook. Ela era campeã de comunidades voltadas para a população travesti e transexual na época do Orkut. Hoje, ela continua com seu trabalho nas comunidades Mundo T-Girl e Travestis e Transexuais Brasileiras no Face e no blog. Também publica vídeos no Youtube no canal Desci Para Arrasar. Aqui, Kimberly fala um pouco sobre a militância nas redes sociais, infância, descoberta da travestilidade, família, concursos de miss e a decisão do Superior Tribunal Federal, que concedeu o direito da população trans retificar a documentação diretamente no cartório.
Vocês pediram para ela falar mais sobre minha vida, e sobre a minha travestilidade, então hoje fiz um vídeo especialmente para isso, relatando como escolhi me chamar Kimberly.
Outro dia uma amiga me disse que ficou chocada ao descobrir que Inês Brasil não era "um travesti" (sic), porque ela tinha todos os trejeitos; um corpo musculoso, seios desproporcionais e sexualidade descontrolada.
Não foi a primeira vez que vi confundirem Inês Brasil com uma travesti, na verdade isso é bem comum e o motivo perpassa pela concepção geral do que a sociedade entende sobre ser travesti.
A travestilidade, por ser uma identidade marginalizada, é pouquíssima compreendida, aceita e respeitada. Não vemos travestis de manhã, somente na madrugada, se prostituindo. Não temos travestis trabalhando como vendedoras, recepcionistas, enfermeiras ou em qualquer outra profissão que seja vista como digna. O lugar que a sociedade reservou para a travesti fica na rua, à noite.
Desse modo, o consenso geral possui pouca ou quase nenhuma informação do que, de fato, seja a travesti. Ignora-se que a grande maioria está na situação de extrema vulnerabilidade por conta dessa rejeição e nisso, então, acredita-se que sejam pessoas naturalmente perigosas, viciadas, prostitutas ou ainda figuras cômicas e bizarras, como se fossem caricaturas de mulheres.
Esse estereótipo da travesti ainda é comumente veiculado justamente para mantê-la no lugar da invisibilidade, aquele na rua, de madrugada.
Quando surge uma figura como Inês Brasil, aparentando preencher os requisitos de uma ideia concebida acerca da travestilidade, reside nessa percepção um olhar direcionado à travesti como figura dantesca, que possui um corpo esquisito e sexualidade perversa - escancarando uma transfobia violenta e desumanizadora.
Assim, tanto Inês como muitas travestis são vítimas de um mesmo olhar que não se esforça e, na maioria das vezes, não se importa, em avançar adiante o estereótipo negativo e conhecer os processos individuais de cada pessoa, em reconhecer a humanidade que nelas habita.
Mas então, Inês Brasil não é travesti. Para a sua surpresa.
Assistimos ao documentário “Bombadeira” e recomendamos a todas as pessoas que seguem a página. Está disponível no YouTube no seguinte endereço: http://youtu.be/8ukxnlDYdKE
Dirigido por Luis Carlos de Alencar, filmado na cidade de Salvador, em 2007. O documentário fala sobre uma prática desconhecida e ignorada por muitas pessoas, especialmente pessoas cisgêneras. É a prática e a luta para moldar o corpo - dentro de um padrão binário de feminilidade que lhes é imposto - à sua identidade de gênero, na qual muitas travestis e transexuais de baixa renda passam, a fim de torna-las mais atrativas para o mercado da prostituição, também, visto que a maioria (cerca de 90%) dessas pessoas são expulsas dos espaços sociais e não tem oportunidades de emprego em outras áreas.
A bombadeira é a pessoa quem faz as aplicações do silicone industrial nas travestis, usualmente uma travesti experiente que aprendeu a técnica com outra. Ela é muito procurada porque custa pouco em relação ao uso do silicone comum. Vale lembrar que o SUS não realiza essa cirurgia no “Protocolo Transexualizador” por considerar como procedimento estético. No filme, algumas travestis relatam como é dolorida a “bombação”, feita geralmente com uma anestesia genérica que nem sempre suspende a sensibilidade do local onde o silicone industrial é aplicado.
O silicone industrial é um produto usado para limpeza de automóveis e impermeabilização de azulejos. No corpo humano, se aplicado na sua forma líquida, ele pode vazar para outros lugares, causando deformações e trombose ou até mesmo levando a morte, como o documentário mostra.
O filme busca humanizar uma população extremamente marginalizada, abjeta da sociedade, dando visibilidade à sua rotina periférica e suas vivências, mostrando um problema gravíssimo de saúde pública e os seus desdobramentos. É importante enxergarmos essa realidade e começarmos a questionar cada vez mais discursos transfóbicos e machistas que ditam feminilidades e que deslegitimam as identidades trans.