O que é orientação sexual, identidade, expressão e papel de gênero?
Fora dos grupos e das fanpages no Facebook, dos espaços de militância e da academia, a compreensão desses quatro conceitos, separadamente, é difícil, e por conta disso, frequentemente, vemos o senso comum confundi-los. Esse texto será uma introdução numa linguagem acessível para reunir as definições de cada categoria.
É importante pensarmos em formas de popularizar o que debatemos em grupos na internet. Devemos tentar manter um posicionamento claro sobre aquilo que defendemos, reivindicamos e lutamos para que possamos nos fazer entender fora daqueles espaços onde aprendemos. É levar o conhecimento adiante, basicamente.
Orientação sexual: é para onde o nosso desejo sexual está apontado, se é para homens, mulheres, ambos, pessoas não-binárias ou nenhum. Exemplo de algumas orientações sexuais: homossexualidade, bissexualidade, pansexualidade, assexualidade.
Algumas pessoas dizem “opção sexual” quando elas querem falar sobre orientação. Isso é um equívoco, pois não se trata de uma escolha, uma opção. Dificilmente alguém escolheria ser homossexual para sofrer discriminação. A palavra “orientação” segundo o dicionário Michaelis significa:
o.ri.en.ta.ção: sf (orientar+ção) 1. Ato ou arte de se orientar. 2. Determinação dos pontos cardeais a partir do lugar em que estamos. 3. Direção, guia, regra.
Ou seja, é mais adequado entender a sexualidade como uma direção, apontada para quem sentimos atração, do que uma escolha propriamente dita.
Identidade de gênero: é como nos enxergamos perante a sociedade, se somos homens, mulheres, algo entre essas duas possibilidades binárias ou além. As identidades trans e travestis, por exemplo, são formadas quando se tem uma identificação diferente do sexo/gênero que foi designado ao nascimento.
As principais identidades de gênero são denominadas como cisgênero e transgênero, reconhecendo a travestilidade como uma experiência identitária político-cultural à parte, muito particular no Brasil, e a transexualidade como uma forma de transgeneridade, ainda que algumas pessoas transexuais não se reconheçam como transgênero, visto que esse é um termo guarda-chuva para incluir as demais pessoas que não se identificam com o gênero imposto.
Para entender o que é cis, deve-se reconhecer o que é trans; portanto, a pessoa cisgênero é aquela que se identifica com o gênero designado ao nascimento. Digamos que alguém nasceu com pênis, foi classificado como menino, essa pessoa cresceu e continuou se identificando como homem. No caso de alguém trans, a identificação seria com outro gênero/sexo. No nosso exemplo, aquela pessoa classificada como homem, futuramente poderia se identificar como mulher, nesse caso, ela poderia ser uma mulher transexual ou travesti.
Como se pode ver, a identidade de gênero não tem nada a ver com orientação sexual. O modo como nos entendemos e nos identificamos não tem ligação nenhuma por quem nós nos atraímos. Essas duas coisas não se misturam. Pessoas trans, assim como pessoas cis, podem ter qualquer orientação sexual. Uma mulher transexual pode ser lésbica, um homem trans pode ser bi, e assim por diante.
É importante destacar que essa concepção de gênero e sexualidade está presente principalmente no ocidente. Ou seja, em algumas culturas pode haver outra compreensão acerca disso, inclusive, podem ser mais abertas para esta diversidade.
Expressão de gênero: é como nos apresentamos ao mundo. Diz respeito ao modo como nos vestimos, nos comportamos e como somos lidos dentro do que se entende na sociedade pelo que é masculino e o que é feminino. Um gay pode ser afeminado, usar roupas tidas como de “mulheres”, fazer performances como Drag Queen, embora ele possa continuar se entendendo como um homem cis, apesar de apresentar uma expressão de gênero diferente, fora do padrão que é imposto como “coisa de homem”. O mesmo vale para lésbicas masculinizadas; elas podem usar o cabelo curto, usar peças do vestuário “masculino” e assim por diante, mas isso não afeta a sua identidade de gênero, pois ela continua sendo mulher.
O que ambos enfrentam – gays afeminados e lésbicas masculinizadas – no que diz respeito à sua identidade de gênero cis, pode ser compreendido como uma cisgeneridade subalterna, pois eles não correspondem à expectativa de como homens e mulheres devam ser segundo os estereótipos de gênero vigentes.
Desse modo, pode ser perigoso e até ofensivo tentar adivinhar a identidade de gênero ou a orientação sexual de alguém baseado puramente em sua expressão de gênero. Então tome cuidado com isso, aquele ditado antigo já dizia: não se deixe enganar pelas aparências!
Papel de gênero: são atributos socialmente destinados ás pessoas que se reconhecem como homens ou mulheres. Por exemplo, homem deve ser másculo, viril, agressivo, competitivo, etc. A mulher deve ser frágil, domesticada, recatada, materna, etc. Os papeis de gênero podem ser reforçados na infância quando dizem que determinada brincadeira é “coisa de menina” ou “coisa de menino”.
Richard D. Ryder, psicólogo britânico a ativista pelos direitos animais, cunhou o termo “especismo” em 1970 para descrever a exclusão dos animais nos direitos garantidos aos seres humanos.
Para Ryder, o especismo funcionaria de maneira semelhante a outras opressões como racismo ou sexismo – um preconceito baseado em diferenças físicas moralmente irrelevantes. A preocupação com a dor e sofrimento, nesse caso, deveria ser estendida a qualquer outro ser capaz de sentir dor, não importando o seu sexo, classe, raça, religião, nacionalidade ou espécie.
A ciência já nos mostrou que animais possuem senciência, a capacidade de sentir sensações e sentimentos de forma consciente. Ryder usa este conhecimento para questionar nossas ações em relação aos animais. Somos justos com eles ou ignoramos suas dores?
Dores ignoradas
A maioria das pessoas LGBT+ conhece bem o que é sofrer e não poder contar com ninguém. Muitas vezes, buscar ajuda acaba trazendo outras violências e a única solução aparente é suportar tudo isso sozinho.
Felizmente, não precisa ser assim, pois somos capazes de formar redes de apoio e grupos de ajuda, e, graças à internet, hoje são boas ferramentas para a manutenção da autoestima e valorização de vidas que até então eram vistas como menos importantes.
Estar sujeito à discriminação coloca indivíduos numa posição particular, onde geralmente a sensibilidade com dores alheias é maior e o exercício da compaixão é incentivado.
Por isso, proponho a quem for LGBT+, pensar nos animais, a partir de agora, como seres que sentem dor e são menosprezados, porque supostamente a espécie humana é superior.
O veganismo necessita diversidade
Veganismo é um movimento que visa excluir, na medida do possível e praticável, todas as formas de exploração e crueldade contra animais, seja para alimentação, vestuário ou qualquer outra finalidade (sejavegano.com.br).
Para isso acontecer é preciso difundir a mensagem e informar, fazer refletir sobre vidas que importam e as dores silenciadas dos animais.
Quanto mais pessoas se disponibilizarem a pensar na questão vegana, melhor. A proximidade da causa vegana com outros movimentos deve ser lembrada ao dialogar com grupos diversos. Isso é uma forma de enriquecer o debate e resolver problemas como, por exemplo, a baixa representatividade e ausência de vozes plurais.
Desse modo, para combater o especismo e praticar a compaixão, não seria má ideia unir a comunidade LGBT+ ao veganismo, já que animais talvez possam, também, precisar de uma rede de apoio e um grupo que os ajudem.
Ser bicha para mim significa muitas coisas atualmente, mas antigamente, no primeiro contato com a palavra, ela constituía uma rede negativa de significantes. O ser bicha na minha infância era algo para não ser, porque era ruim; ninguém queria ser bicha. Ser bicha, em primeira instância, pressupunha estar marginalizado. Você bicha, a gente pessoa. Era essa minha impressão, aliás, sobre temer ser bicha: perder minha humanidade, ser algo menor que um animal na escala das espécies. Nem homem, nem mulher; ser a fêmea do bicho. Percebam como é curioso o machismo por trás disso também.
Relutei bastante para não ser bicha, mas a luta solitária contra um sistema estrutural como a homofobia é cansativa e você percebe aos poucos que, na realidade, já está na margem. E estar em alguma camada da margem é uma experiência que te dá alguns saberes, um deles é o saber sobreviver. Aprendi na margem a sobreviver como bicha. A ficar recluso, quieto e me fechar. Nesse instante, meus pensamentos se dividiam em “será que vou apanhar hoje?” ou “serei feliz algum dia sendo assim?” – logo, bicha passou a ser sinônimo de solidão e medo para mim.
Com o tempo essa aflição ia diminuindo e o cansaço de estar derrotado também. Chegou num ponto em que me perguntei o que iria perder se continuasse me restringindo, me censurando. Se alguma hora me espancarem até a morte por ser bicha, talvez esse seja meu destino, então vou fazer valer a pena até chegar esse dia, pensei. Perder o medo da bichisse foi libertador e assim entrei numa nova jornada para a auto-aceitação. Quando se assume a bicha isso desestabiliza os apontamentos, pois esperam que a bicha permaneça muda. Foi bom virar o jogo.
A partir daí notei a força que ganhava quando me assumia cada vez mais bicha. Tive forças pra sair do armário; força maior ainda para enfrentar o que veio depois com a família; força para viver numa sociedade heterocisnormativa que a todo momento te lembra do teu lugar enquanto subalterno; força para enfrentá-la e não aceitar mais viver nesse lugar abaixo dos outros. Vieram e continuam vindo muitos obstáculos na vida, mas poder me proteger com a força que ser bicha me proporciona é surpreendentemente encorajador.
Percebo como ser bicha para mim pode ser totalmente diferente como é para outras. Percebo como cada uma tem sua narrativa sobre si sendo bicha. Talvez tenhamos semelhanças em alguns aspectos, mas certamente todas aprendemos a sobreviver e resistir. Existem várias formas de ser bicha hoje em dia e você não precisa necessariamente sofrer e passar pelas mesmas coisas para ser bicha, porque hoje isso tem se tornando afirmação. É bom que transformemos o sentido da palavra até onde o significado dela já não sirva mais como arma. Porque, no final das contas, ser bicha é maravilhoso.
A LGBTfobia nossa de cada dia na Band, Globo e SBT
Em tempos de instabilidade política onde os direitos LGBTs ora são moedas de troca para angariar nossos votos, ora são esquecidos e/ou obliterados, enfrentamos um retrocesso como cidadãos e cidadãs dignos de humanidade. Suplicamos para que reconheçam nossas identidades, nossas formas de amar e nossa liberdade; tivemos algumas conquistas pífias, mas o caminho ainda é longo e árduo.
No meio de todo o cenário político atual, há a mídia para televisionar os últimos acontecimentos. Claro, sempre com a suposta “imparcialidade” presente em suas coberturas. Seja qual for o segmento político que determinada emissora mostra mais proximidade, o que (quase) todas têm em comum na televisão aberta é: a contradição perante à comunidade LGBT.
Personagens gays e lésbicas já são frequentes em telenovelas, embora tenham baixa relevância nas tramas ou servem apenas para alívio cômico; travestis, transexuais e transgêneros continuam invisíveis nos enredos – ainda assim, temos aos poucos ganhado alguma representatividade no que diz respeito à diversidade. Em contrapartida, a qualquer momento podemos ser atacados por discursos conservadores e/ou religiosos recheados de estereótipos que afligem a comunidade. Num dia a televisão é nossa amiga, mas no outro atravessa a rua para nos evitar; pedimos atenção em vão. Se não estamos sendo ouvidos por nossos representantes (que pouco nos representam, de fato), o que dirá as personalidades da programação diária.
O problema é generalizado; seja na Band com o programa Pânico e o seu show de horrores no quadro “Beija Saco”, em que travestis e transexuais são colocadas como objetos de escárnio e rejeição. Seja na Globo com Otaviano Costa dizendo no Video Show que homens deveriam sentir vergonha por namorarem um “traveco”, e depois piorando sua situação com um pedido de desculpa esfarrapado ao postar uma foto sua fazendo uma personagem cross-dress. Seja no SBT com Patrícia Abravanel no programa de seu pai, Silvio Santos, afirmando que o amor entre pessoas do mesmo gênero é anormal.
No caso de Otaviano e Patrícia houve um pedido de desculpas publicamente após a repercussão, mas aí reside um outro revés: ambos se aproveitaram de um discurso semelhante, o de terem sido mal interpretados. O problema disso é que eles não assumem o erro, afinal, eles não têm culpa por desconheceram e/ou ignorarem seus telespectadores e funcionários LGBTs. Assim, a genuinidade das desculpas é questionável. Vale destacar que esse arrependimento ainda se deu através de suas respectivas redes sociais – será que terá o mesmo impacto quanto à falha anterior? Difícil saber.
Podemos tirar algum aprendizado desses casos, como por exemplo, a força que nossa voz reverbera no momento que denunciamos esses acontecimentos nas mídias sociais, quando fazemos coro coletivamente, mas podemos ainda perceber com isso, como estamos vulneráveis, seja na política ou na TV. Não nos deixemos ser enganados por discursos aparentemente inclusivos sem questionar tal legitimidade, sem ter certeza que seremos respeitados em tal plataforma.
Diversidade em Hollywood? O número de personagens LGBTs parou de crescer e está racialmente menos diversificado.
Link original: http://migre.me/tGMwT
Filmes hollywoodianos em 2015 tiveram o mesmo número de personagens LGBTs que no ano anterior, mas estes personagens foram racialmente menos diversificados, de acordo com uma pesquisa anual lançada pela Gay & Lesbian Alliance Against Defamation (Gay e Lésbica Contra a Difamação), comumente chamada por GLAAD.
A pesquisa demonstra que 17.5% dos filmes do ano passado incluíram personagens identificadas como lésbica, gay, bissexual e/ou transgênero. O cenário é o mesmo de 2014, onde 20 de 114 filmes tiveram personagens LGBTs. O estudo apresentado pela GLAAD selecionou filmes lançados pelos sete maiores estúdios durante o ano.
Enquanto o número de personagens LGBTs se manteve igual, a diversidade racial dessas personagens caiu drasticamente. O estudo apresenta que 25.5% de personagens LGBTs nos filmes de 2015 foram de pessoas não-brancas, abaixo dos 32.1% do ano anterior. A pesquisa de 2015 também mostra que apenas somente um grande lançamento contou com uma personagem transgênero, na qual o grupo diz que a aparição serviu apenas como um "alívio cômico".
"Os filmes de Hollywood estão bem atrás de qualquer outra indústria no que diz respeito à representatividade LGBT", disse Sarah Ellis, presidente e CEO da GLAAD, durante uma coletiva de imprensa. "Geralmente, as personagens LGBTs que conseguem ir para a telona são colocadas como piadas ou secundarizadas. A indústria do cinema deve abraçar novos roteiros inclusivos se quiser continuar competitiva e relevante".
Dos 22 filmes lançados em 2015 que a GLAAD achou ser "inclusivo", cerca de 3/4 incluiu menos do que 10 minutos de aparição de algum personagem LGBT. O resultado da pesquisa chega num momento em que Hollywood vem sendo criticada por incluir poucas pessoas não-brancas. Pelo segundo ano consecutivo, uma maioria predominantemente branca de indicados ao Oscar levou as pessoas a se posicionarem contra o "embranquecimento" na indústria.
A pesquisa da GLAAD serviu como avaliação, e nenhum estúdio recebeu uma classificação "boa". 20th Century Fox, Lionsgate Entertainment, Sony Columbia Pictures e Universal Pictures foram todas classificadas como "adequadas" para seus retratos de pessoas LGBT. Paramount Pictures, Walt Disney Studios e Warner Brothers foram entregues notas "fracassadas". Os estúdios menores, como Focus Features e Fox Searchlight, foram os que mais tiveram personagens LGBTs, em 22%.
Outro dia uma amiga me disse que ficou chocada ao descobrir que Inês Brasil não era "um travesti" (sic), porque ela tinha todos os trejeitos; um corpo musculoso, seios desproporcionais e sexualidade descontrolada.
Não foi a primeira vez que vi confundirem Inês Brasil com uma travesti, na verdade isso é bem comum e o motivo perpassa pela concepção geral do que a sociedade entende sobre ser travesti.
A travestilidade, por ser uma identidade marginalizada, é pouquíssima compreendida, aceita e respeitada. Não vemos travestis de manhã, somente na madrugada, se prostituindo. Não temos travestis trabalhando como vendedoras, recepcionistas, enfermeiras ou em qualquer outra profissão que seja vista como digna. O lugar que a sociedade reservou para a travesti fica na rua, à noite.
Desse modo, o consenso geral possui pouca ou quase nenhuma informação do que, de fato, seja a travesti. Ignora-se que a grande maioria está na situação de extrema vulnerabilidade por conta dessa rejeição e nisso, então, acredita-se que sejam pessoas naturalmente perigosas, viciadas, prostitutas ou ainda figuras cômicas e bizarras, como se fossem caricaturas de mulheres.
Esse estereótipo da travesti ainda é comumente veiculado justamente para mantê-la no lugar da invisibilidade, aquele na rua, de madrugada.
Quando surge uma figura como Inês Brasil, aparentando preencher os requisitos de uma ideia concebida acerca da travestilidade, reside nessa percepção um olhar direcionado à travesti como figura dantesca, que possui um corpo esquisito e sexualidade perversa - escancarando uma transfobia violenta e desumanizadora.
Assim, tanto Inês como muitas travestis são vítimas de um mesmo olhar que não se esforça e, na maioria das vezes, não se importa, em avançar adiante o estereótipo negativo e conhecer os processos individuais de cada pessoa, em reconhecer a humanidade que nelas habita.
Mas então, Inês Brasil não é travesti. Para a sua surpresa.
Você que é cisgênero, ou seja, que se reconhece com o gênero designado em seu nascimento, e está acompanhando o ativismo trans, já deve ter se perguntado como pode participar deste movimento. Talvez você já saiba, mas vamos recapitular algumas ações práticas antes de dar continuidade.
CHEQUE SEUS PRIVILÉGIOS
Tá, digamos que você acabou de entender o que é ser cisgênero, agora vamos pensar nos privilégios que ser cis traz para quem é cis. Você não precisará lutar nunca contra Deus e o mundo, contra a família, contra a escola, a faculdade, a igreja e contra o Estado para que eles reconheçam seu gênero, afinal, você está dentro do que é considerado normal. Você não precisará ser considerado doente mental para poder modificar seu corpo ou para ter acesso aos medicamentos de reposição hormonal. Você não precisará entrar na justiça para ter seu gênero reconhecido nos documentos. Enfim, você jamais vai enfrentar exatamente tudo o que pessoas trans enfrentam para terem seu gênero legitimado. Reconhecer nossos privilégios não é nenhum problema, não é uma negação das outras opressões que você sofre por ser mulher, negra, gorda, lésbica, etc. É apenas compreender que outras pessoas nem sequer são reconhecidas como humanas ainda, por exemplo.
IDENTIDADE DE GÊNERO X ORIENTAÇÃO SEXUAL
Questãozinha básica para quem tá começando também. Gostar de homens, mulheres, ambos ou nenhum está no campo do desejo, da orientação sexual, que diz respeito por quem nos sentimos atraídos. Ser gay, lésbica, bi, pan, assexual e etc não tem ABSOLUTAMENTE nada a ver com ser trans. Ser trans tem a ver como o sujeito se reconhece, se é homem, mulher ou algo entre esse binário. Pessoas, sejam elas trans ou cis, podem ter qualquer orientação sexual.
RESPEITE O GÊNERO DAS PESSOAS TRANS
Parece óbvio, mas pode ser complicado quando encontramos na primeira vez uma pessoa que se reconhece trans e apresenta uma expressão de gênero que ainda não pareça ser, de fato, com o gênero que ela reivindica. Talvez isso aconteça pela dificuldade de acesso à terapia hormonal, ao atendimento médico, ao processo transexualizador do SUS ou simplesmente por ela sentir-se bem com a aparência que tem. No começo pode ser que dê um nervoso falar o nome social ou usar o pronome correto, quando a pessoa na sua frente não corresponde à sua expectativa de gênero. Lembre-se de que a pessoa pode estar ainda no início da transição, e, mais importante, não esqueça que os marcadores de gênero como cabelo comprido, barba, roupas, voz e entre outros não são necessariamente marcadores da identidade de gênero.
PS: trate as travestis sempre no feminino, por favorzinho. Grato.
Ok, informações básicas recapituladas! Vamos agora tentar ser um bom aliado? Vamos. Em primeiro lugar, evite olhar para as pessoas trans como se elas fossem todas iguais, porque não são, aliás, ninguém é, mesmo as pessoas cis não são iguais. Cada pessoa trans vai ter uma experiência identitária única e diferente, embora sim, possam haver muitas semelhanças entre elas, mas ser trans não é uma entidade unilateral. Em segundo lugar, evite também enxergá-las como pobres coitadas que precisam a todo instante da nossa ajuda cisgênera. Pessoas trans são capazes de falar por si só, são capazes, inclusive, de sobreviver no país que mais mata transexuais e travestis do mundo, mas saiba que a expectativa de vida dessa população está beirando os 35 anos. São pessoas fortes, que podem se defender com muita atitude e estão se auto-organizando neste exato momento. Em terceiro lugar, não seja aquela pessoa chata que quer ensinar teorias sobre coisas que não fizeram parte da sua vivência. Não tem problema discordar de alguém que, por acaso, é trans, mas lembre-se de que a construção identitária é particular e a vivência, nesse caso, deve ser respeitada.
Jamais pergunte sem ter intimidade para uma mulher trans se ela é “operada”, se ela é “mulher de verdade” (obviamente ela é). Vale o mesmo para os homens trans. Evite falar sobre genitália num contexto inadequado. Não diga coisas como: “nossa, você engana bem”. Pessoas trans não são farsantes de gênero, elas não tem como objetivo em sua transgeneridade enganar pessoas cis. Não espere que as pessoas trans sejam palhaças, que elas sirvam para alegrar e que saibam todos os bordões de memes da internet.
Ser um bom aliado cisgênero é olhar para as pessoas trans e nutrir uma empatia pelos problemas que elas sofrem, por suas dores e dificuldades. É entender como pode ser violento tratá-las com o gênero contrário com o qual elas se reconhecem. Um bom aliado, quando puder, corrige os amigos ou familiares quando eles soltam um “traveco” ou falam que não existe esse negócio de homem usando saia que quer ser mulher “transgênica”. Um bom aliado sabe que não poder usar o banheiro por medo das agressões é muito forte e é desumano defender que pessoas trans usem algum banheiro determinado pela genitália. Ser um bom aliado é, justamente, reconhecer a humanidade das pessoas trans e travestis, coisa que é negada quando a maioria é expulsa de casa e não tem apoio de ninguém.
Não é muito difícil se aliar ao movimento trans, mas é comum encontrarmos dificuldades nesse processo. Vamos encontrar coisas absurdas, como gente falando que mulheres trans são homens estupradores em potencial, como gente defendendo que mulher mesmo é só aquela com vagina e que pode parir. Sério, nos deparamos com muita bobagem quando nos tornamos aliados. O melhor conselho é seguir adiante e ignorar o ódio, porque combater o ódio com mais raiva não melhora muito as coisas, pelo contrário, nos torna amargos e é bastante estressante. Quando tiver paciência, tente contra-argumentar, mas é muito provável que a pessoa do outro lado não queira te ouvir. Se a parada for muito transfóbica, procure ajuda de alguém, talvez uma denúncia formal seja o melhor a ser feito.
Para terminar; agora que você tá começando a ser um aliado: arrase! Se joga mesmo e conheça pessoas maravilhosas dentro deste movimento que tá andando junto com tantos outros e tenha em mente que você tá sim ajudando como pode e ecoando a voz do respeito, da aceitação, para que a sociedade seja mais justa, menos preconceituosa e menos LGBTfóbica. Os movimentos precisam de nós, aliados, para serem difundidos amplamente, então vamos agir em conjunto que é só sucesso.
A preocupação com a criança pode ser o medo de si mesmo
Por volta de 2007, o projeto chamado "Escola sem Homofobia" começou a ser planejado. Ele tinha como proposta ser uma campanha de conscientização para falar a respeito da importância da luta contra a homofobia e o reconhecimento das identidades de gênero nas escolas, através de um material didático voltado para os professores desenvolverem a discussão em sala de aula. 4 anos depois, com o material pronto para ser impresso e distribuído, a reação conservadora da bancada evangélica e outras direitas foi sintomática para expor o desprezo pelos direitos humanos que impera no país.
O projeto passou a ser chamado ironicamente de "kit gay" pelos enfurecidos defensores da "tradicional família brasileira" numa campanha contra sua implementação. Dilma, numa das falas mais decepcionantes para os LGBTs nessa altura do campeonato, deu o braço a torcer e disse que o estado não pode incentivar a homossexualidade nas escolas, impedindo que o projeto avançasse.
O apagamento da população LGBT dentro das escolas é uma realidade cruel. Talvez seja a melhor forma de manter essas pessoas em "seus devidos lugares" - o da invisibilidade e o da marginalidade. Se, por um lado a luta contra homofobia esteja sendo legitimada pelo estado como incentivo à homossexualidade, e não uma ação contra a discriminação, pelo outro há uma clara reafirmação da heterossexualidade como padrão natural incontestável.
Esse padrão é forçosamente empurrado goela abaixo para as crianças por seus professores e profissionais da educação, ainda que alguns o façam contra sua vontade, correndo o risco de serem prejudicados em suas funções. A vigília heterossexual se mantém em haste a cada manifestação da diversidade, permitindo-a em alguns casos muito raros a presença, pois a criança "não tem mais jeito". A heterossexualidade não é somente incentivada livremente, mas é imposta com violência.
É muito comum ouvir o relato de pessoas que sofreram violências na escola devido à orientação sexual ou identidade de gênero. Piadinhas em sala de aula com o uso pejorativo de palavras como "viadinho", "boiola", "Maria João" e entre outras, ou até mesmo agressões físicas e humilhações, abrindo espaço para a evasão escolar da população LGBT, e especialmente o T, visto que 90% das mulheres transexuais e travestis estejam na prostituição.
De um modo geral, na escola aprendemos que sexo e biologia se resumem à reprodução. Que homens e mulheres foram feitos um para o outro. Que homens e mulheres são biologicamente predeterminados. Com isso aprendemos que os homens que não desejam estar com mulheres, e vice-versa, são anomalias. Nessa hora não há qualquer preocupação com as crianças que podem vir a serem gays, lésbicas, bissexuais ou apresentarem outra identidade de gênero futuramente. O que importa é aquele padrão "natural" e danem-se essas outras crianças pervertidas e anômalas.
Se a heterossexualidade fosse realmente um dado natural, por que precisaríamos de uma educação tão perniciosa e agressiva em sua defesa? Se a heterossexualidade realmente fosse um padrão da dita normalidade, por que um simples material educacional contra a homofobia seria facilmente capaz de corrompê-la?
O medo não é que haja possibilidade de "transformar" as crianças em gays, o medo é justamente aceitar que não há absolutamente nada natural nesse controle. Crianças, meninas e meninos, que mais tarde possam compreender sua sexualidade orientada para o mesmo ou à uma diversidade de gênero, foram incentivadas e ensinadas desde a mais remota infância que existe o padrão heterossexual a ser seguido, inclusive em sua esmagadora maioria, ensinadas dentro de casa, na TV, nos livros didáticos e ainda assim não conseguiram "assimilar" o inquestionável poderio heterossexual. Será que o contrário não existe? Será que a homossexualidade é tão tentadora capaz de transformar uma nação inteira em zumbis gays superpoderosos?
É bastante comum as pessoas se referirem a parada LGBT como se fosse parada gay, até mesmo entre as próprias pessoas LGBTs isso acontece. Mas será que só pessoas gays vão na parada para ela realmente ser, somente, gay?
A razão disso não é tão simples; primeiro ela aponta para a questão da visibilidade. Atualmente, entre essas pessoas, quem tem mais visibilidade? Quem é que aparece mais na televisão? Nas novelas? Quem tem mais representatividade (ainda que seja pífia) na política? O senso comum já vem lidando com pessoas gays há algum tempo, e desde que a homossexualidade foi despatologizada, a sua visibilidade na sociedade vem aumentando e pessoas gays já frequentam espaços sociais com uma certa liberdade. O segundo ponto remete ao apagamento das outras orientações sexuais. Pessoas bissexuais? São homens que não tem coragem de se assumirem gays, pessoas que estão confusas e não são confiáveis. Lesbofobia? Imaginação das mulheres lésbicas e invenção feminista. Pansexuais? Transam com árvores. - Falas que são reproduzidas muitas vezes até por homens gays, o que realmente dificulta a difusão do entendimento acerca da diversidade sexual e de gênero que há entre nós LGBTs. Já o terceiro ponto talvez seja o mais crucial: o desconhecimento sobre identidade de gênero e sua diferença entre orientação sexual. Se essa compreensão já é pouco conhecida entre nós, imaginem lá fora.
Pessoas transexuais, travestis e outras identidades transgênero não são necessariamente gays. Essa população, assim como qualquer outra, tem uma orientação sexual. Há mulheres transexuais lésbicas, homens trans bissexuais e travestis podem ser heterossexuais também. É ofensivo colocar toda uma diversidade dentro da categoria "gay". Mulheres transexuais por exemplo são vistas como homens super-gays e homens transexuais são vistos como mulheres altamente lésbicas. Isso é transfóbico porque desconsidera o gênero dessa população. Mulheres trans não são homens e homens trans não são mulheres, PONTO.
Com isso podemos vislumbrar que a parada não é exclusivamente gay. Não são apenas os gays que frequentam manifestações de orgulho LGBT. Há outras pessoas com inúmeras outras orientações sexuais e há inclusive até mesmo pessoas heterossexuais, no caso de homens e mulheres trans. Não podemos diminuir toda a ampla gama de pessoas numa categoria com a qual muitas não se identificam e não se reconhecem. Portanto, a parada não tem como ser só a “parada gay”, porque isso exclui as demais identidades, porque isso contribui para o pensamento transfóbico de que pessoas trans são seres super-gays, porque isso não é verdade, haja visto que a parada precisa ser um espaço acessível para toda a diversidade e não somente aos gays.
Então na próxima vez que alguém falar parada gay, lembre-se que está sendo excluído uma parcela significativa de outras pessoas que fazem parte da parada. Lembre-se que isso silencia lésbicas, pessoas bissexuais, pansexuais e outras orientações sexuais, assim como pessoas transexuais, travestis e outras transgeneridades.
Por que o reconhecimento do termo cisgênero é importante?
Alguns setores em diversos movimentos sociais e grupos acadêmicos que estão no viés dos estudos de gênero e sexualidade entendem o termo cisgênero como reducionista e separatista. A origem da aversão ao termo se situa em várias perspectivas. No feminismo radical que não reconhece mulheres transexuais como mulheres, e sim como ferramenta do patriarcado para homens se infiltrarem em seus espaços, a ideia de uma cisgeneridade pressupõe que toda a categoria mulher esteja sendo adotada com alienação. Como se, e somente se, a biologia permitisse socializações bem específicas e evidentes.
Nessa lógica de defesa e ao mesmo tempo obliteração do gênero, onde a luta pela destruição das normas de gênero é uma das maiores bandeiras, o cisgênero implica em conformidade. No outro lado, representantes dos movimentos gays ou pesquisadores e pesquisadoras em estudos gays e lésbicos, o cisgênero aparece como mais um termo que embora deva ser refletido, pouco contribui para o enfrentamento à heteronormatividade, senão somente confundindo ainda mais e separando a população LGBT.
Ao contrário do que essas visões fazem subentender, o reconhecimento do termo cisgênero é sobretudo uma questão de problematizar a naturalização dos gêneros instalados em genitálias e completamente colados na determinação biológica-anatômica. Quando um grupo de homens passa a estudar outro grupo de indivíduos que colocam as normas de gênero em desestabilização, passa-se a marginalizá-lo como anormal, doente e transtornado. O poder que esses homens exercem, seja numa sociedade que os beneficia por causa do machismo, seja pela instauração do conhecimento científico em suas verdades, tem capacidade para determinar e descrever o outro. Se, sujeitos com ‘transexualismo’ é que são os anormais, nós que não vivenciamos distúrbios de gênero e/ou sexualidade é que somos os normais.
A demarcação entre normais e anormais, portanto, natural e não natural, não se limita somente aos instrumentos da medicina, mas alcança níveis políticos surpreendentes, constituindo sujeitos de direitos e sujeitos com alguns ou quase nenhum direito.
O fluxo natural dessa trajetória desembocou no fortalecimento identitário de pessoas que ultrapassam as normas de gênero, e, aos poucos, esses corpos que escapam tem assumido espaços de destaque graças à sua luta. Quando este grupo patologizado começa a questionar a naturalização do gênero, é coerente que forças contrárias evitem serem retiradas de seus pedestais "normais" ou "naturais". Quer dizer, quando se limita o outro numa categoria patologizadora e altamente violenta, está tudo bem. Mas quando o outro passa retirar os "normais" de sua naturalidade, aí surge a inquietação. Porque é aceitável que exista um grupo considerado doente e outro grupo saudável, normal? Porque faz parte do mesmo interesse cisnormativo em mantê-los afastados.
Delimitar a cisgeneridade como categoria de demarcação entre sujeitos de direitos visa demarcar quais tem acesso a esses direitos. Negar a cisgeneridade é negar um sistema de opressões. É negar o reconhecimento de grupos de pessoas e suas demandas. É negar sua existência. Sua humanidade. A transgeneridade, por sua vez, tem uma ampla gama de demandas necessárias que são cotidianamente privadas. O direito ao nome, ao tratamento hormonal, as intervenções cirúrgicas, etc. Por conta dessa lacuna o resultado é uma realidade de pessoas de segunda classe.
Desse modo, assumir-se cisgênero é vislumbrar o óbvio: privilégios. Ainda que por outros motivos possa haver opressões que lhe atingem. Não há como negar a complexidade dessa demarcação, que abre uma nova perspectiva acerca dos direitos. A cisgeneridade pode e deve ser ampliada. Há um padrão cisgênero a ser alcançado e esperado, e quem não supera as expectativas vive uma cisgeneridade subalterna. Quem foge da heterossexualidade compulsória ou dos estereótipos de gênero é empurrado para um campo cisgênero compreendido como inferior e menos prestigiado.
A compreensão da cisgeneridade em grupos específicos de militância está sendo introduzida e desenvolvida, porém o seu aprofundamento ainda é pouco explorado ou mesmo refletido para além dos espaços de ativismo. Reduzir pessoas na categoria cis, nesse aspecto, é um mecanismo de defesa que serve para além da demarcação, mas numa denúncia de práticas que evidenciam a norma hegemônica de naturalização do gênero, tipificando opressões comuns entre os polos cis e trans.
É importante reconhecer a cisgeneridade para ouvirmos nitidamente as narrativas de pessoas trans, para desconstruir transfobia e o cissexismo que patologizou suas experiências, para reconhecer os privilégios e as intersecções entre as opressões, para ter empatia.
[TRADUÇÃO] Laverne Cox fala sobre a capa da revista com Caitlyn Jenner
Link original: http://ow.ly/SiFgo
Em 29 de maio de 2014, a edição da revista Time que proclamou o "fenômeno transgênero" foi revelada comigo na capa. No dia 1 de junho de 2015, um ano e 3 dias mais tarde, a capa da Caitlyn Jenner na revista Vanity Fair foi publicada anunciando o #CallMeCaitlyn.
Estou muito emocionada por todo o amor e apoio que Caitlyn tem recebido. Me parece renovador, de fato, quando uma pessoa trans pode apresentar sua autenticidade para o mundo pela primeira vez e ser celebrada por isso universalmente. Muitas pessoas comentaram sobre o quão bela Caitlyn está nas fotos, como ela está "arrasando". Devo ecoar esses comentários e dizer que ela está linda mesmo! Arrasa Caitlyn! Se joga!
Mas isso me tem feito refletir criticamente sobre minhas próprias vontades para trabalhar num ensaio fotográfico, para mostrar várias formas de glamour, poder, sensualidade, afirmação do corpo, empoderamento racial, imagens de vários lados da minha mulheridade negra e trans. Eu amo trabalhar com ensaios fotográficos e criar fotografias que deem inspiração para meus fãs, para o mundo e acima de tudo para mim mesma. Mas eu também espero que seja o meu talento, minha inteligência, meu coração e espírito que mais fascine, inspire, emocione e encoraje as pessoas para pensar criticamente sobre o mundo ao arredor delas.
Sim, Caitlyn está maravilhosa e linda, mas o que eu acho mais bonito nela é seu coração e alma, o jeito que ela se permitiu para o mundo perceber suas vulnerabilidades. O amor e a devoção que ela tem pela família e que eles tem por ela. Sua coragem em deixar o passado para trás através da sua verdadeira essência tão abertamente. Essas coisas estão além da beleza para mim.
Um ano atrás quando minha capa da revista Time foi publicada eu vi postagens de várias pessoas trans dizendo que eu estava lindíssima e que isso não representa a maioria das pessoas trans. (foi novidade para mim me sentir lindíssima, mas irei me acostumar com isso). O que eu acho que elas disseram é que sobre certa iluminação, sobre certos ângulos eu posso alcançar certos padrões de beleza cisnormativos.
Agora, existem muitas pessoas trans que por conta da genética e/ou falta de acessibilidade nunca poderão alcançar esses padrões. Mais importante: muitas pessoas trans não querem alcançá-los, e nós não deveríamos. Devemos ser enxergadas como nós mesmas e respeitadas como nós mesmas. É importante notar que esses padrões estão ligados à raça, classe e capacidade, dentre outras intersecções.
Sempre estive consciente que eu nunca representaria todas as pessoas trans. Não é uma, nem duas ou três pessoas trans que podem representar. É por isso que nós precisamos de representatividade diversificada com pessoas trans na mídia, para multiplicar as narrativas trans e retratar nossas belezas tão diversas.
Eu comecei a hashtag #TransIsBeautiful como forma de celebrar todas as coisas que fazem a singularidade da população trans, coisas que não necessariamente estão alinhas com os padrões cisnormativos de beleza.
Para mim, é necessário celebrar todo dia cada aspecto de mim mesma, especialmente aqueles que não estão alinhados com as ideias de outras pessoas sobre o que é a beleza. #TransIsBeautiful, seja você trans ou não, é sobre estar celebrando todas as coisas que nos fazem únicos.
A maioria das pessoas trans não tem os privilégios que Caitlyn e eu temos. São essas pessoas trans que nós precisamos apoiar, dar acesso à assistência médica, trabalho, moradia, ruas e escolas seguras, e lares para os mais jovens. Devemos apoiar as histórias daqueles que estão em maior risco. Estatisticamente pessoas trans negras são pobres e estão subempregadas.
Eu tenho esperado nos últimos anos que o imenso amor que tenho recebido do público possa ser traduzido para a vida de todas as pessoas trans. Pessoas trans de todas as raças, de expressões de gênero, de capacidades, de orientações sexuais, em situações de imigração, de empregabilidade, de transição, de genitália, etc...
Espero, assim como eu sei que a Caitlyn também, que o amor que ela está recebendo possa ser traduzido para mudar os corações e os pensamentos sobre quem são as pessoas trans, bem como para políticas públicas para apoiar a vida e o bem-estar de todos nós.
A luta continua...
Vamos superar a ideia de que mulheres e homens transexuais são biologicamente homens e mulheres, respectivamente?
Biologicamente nascemos com vaginas, pênis ou um espectro entre isso. Gênero é uma experiência de identificação, e a transexualidade parte da quebra com o gênero que é imposto por um sistema cisnormativo e binário, ou seja, que só aceita homens e mulheres de acordo com a genitália.
Não é curioso como um feto ganha materialidade humana a partir do sexo revelado, e disso surge uma rede de expectativas para o/a menino/a? Nesse sentido, o gênero é produzido ao corpo-sexuado por tecnologias de generificação (Berenice Bento, 2008).
[TRADUÇÃO] Suécia acrescenta pronome de gênero-neutro em dicionário
Matéria original: http://ow.ly/SiDkB
O dicionário oficial da língua sueca irá introduzir um pronome de gênero-neutro este mês, anunciaram os editores da Academia Sueca.
“Hen” irá ser adicionado para “han” (ele) e “hon” (ela) como umas das 13.000 novas palavras na última edição do dicionário Swedish Academy’s SAOL. O pronome é usado para se referir a uma pessoa sem que ela revele seu gênero – tanto porque é desconhecido, ou porque a pessoa é transgênero, ou porque o falante ou escritor considera que o gênero seja uma informação supérflua.
“Para aqueles que usam o pronome, é obviamente uma conquista visto que agora está no dicionário” disse um dos editores, Sture Berg.
A palavra “hen” surgiu nos anos 60 quando o uso geral de “han” (ele) se tornou politicamente incorreto, e foi destinada para simplificar a língua evitando o uso desajustado da construção “hon/han” (ela/ele). Mas a palavra realmente nunca vingou. Ela ressurgiu por volta do ano 2000, quando a pequena comunidade transgênero do país se apossou dela e o seu uso teve êxito nos últimos anos. A palavra pode ser encontrada agora em artigos oficiais, sentenças judiciais, na mídia e em livros e assim vem perdendo parte de sua conotação do ativismo feminista.
O dicionário da Academia Sueca é atualizado a cada 10 anos. Palavras novas são inclusas pela sua frequência e relevância. A nova edição entrará em venda no dia 15 de abril.
Em dezembro de 2014 nos EUA, a regulamentação que proibia lésbicas, homossexuais e bissexuais de doarem sangue foi derrubada. Atualmente, somente homens homossexuais que não tiveram relações sexuais em 12 meses podem doar sangue.
Uma pesquisa (http://ow.ly/SjqYp) da Universidade da Califórnia sobre o impacto da proibição mostrou que 615 mil bolsas de sangue deixam de serem coletadas todos os anos devido a estas restrições, que ao invés de levarem em conta o comportamento de risco, levam em conta a orientação sexual.
No Brasil, a portaria 2.712/2013 do Ministério da Saúde que regulamenta os hemocentros mantém a mesma norma de 12 meses para doadores gays. É possível conferir isso no artigo 64.
Assim foi o caso que aconteceu em Belém, no dia 21 de janeiro de 2015. Onde o fato de ser gay foi mais importante do que ter ou não um comportamento de risco. Ivo Couto, 37 anos, foi proibido de doar sangue por ser gay e estar num relacionamento há um ano e seis meses, mesmo tendo apresentado testes de sangue que comprovassem seu estado de saúde. Link da matéria: http://glo.bo/1Ds7Fes
[TRADUÇÃO] Uma história de amor e cirurgia de mastectomia em palavras e imagens
Matéria original: http://ow.ly/SiCEt
Conheça Kris e Bridge, um casal recém-formado, cheio de amor, prestes a comemorar o aniversário de um ano neste mês. Apesar das histórias de amor não serem todas iguais, o romance entre Kris e Bridge é excepcionalmente especial e excepcionalmente delicado. E o que eles passaram através desse primeiro ano de casamento é excepcionalmente intenso.
Kris estava comprometido em um relacionamento e tinha uma filha com seu parceiro quando descobriu que era transgênero. Após uma procura por semelhantes na comunidade trans e bastante “busca interior”, ele começou a transição do gênero no começo de 2013. No verão daquele ano, Kris e seu parceiro terminaram.
Embora Kris diga que o término não foi por causa da sua transição, o fim do relacionamento fez o seu mundo virar de cabeça para baixo, e ele começou a questionar tudo, e eventualmente, voltou a viver como mulher.
Olhando para o passado, Kris disse que sabia porque parou a transição, foi por causa do pavor de nunca encontrar um amor como alguém transgênero. Mas apenas alguns meses depois, Kris deu início à uma jornada que provaria o quão errado ele estava.
Depois do rompimento, Kris entrou no OKCupid e conheceu uma linda moça chamada Bridge. A história de amor deles começou na noite do primeiro encontro, quando eles ficaram o tempo todo conversando, conversando e conversando. Kris e Bridge não resistiram e foram morar juntos apenas duas semanas depois. Bridge diz que naquele momento, “Ele me convidou, e eu fiquei para sempre”. No início do namoro, Kris contou à Bridge que ele tentou fazer a transição. Bridge estava permissiva, dizendo, “Eu não sabia naquele momento que a história dele de fazer a transição continuaria comigo em sua vida, mas sabia que essa ideia não me assustou ou tenha mexido comigo”. Kris estava apaixonado e descreve o relacionamento assim:
“Nós nos entendemos verdadeiramente e completamos um ao outro de uma forma que nunca vivenciei com outra pessoa. Nós apressamos – realmente apressamos – o nosso relacionamento: nos casamos legalmente depois de três meses. Sim, foi uma loucura, uma irresponsabilidade e a melhor decisão que eu já tomei. Nós éramos, naquela época, duas lésbicas deslumbradas com a possibilidade do casamento.”
Mas logo cedo Kris começou a sonhar acordado durante a noite, “O que eu fiz?”. Ainda que Bridge sabia que Kris tentou fazer a transição antes, eles estavam agora casados como duas mulheres. Kris tentou esconder o seu conflito interno da esposa. Ele estava preocupado sobre como viriam ele, caso se assumisse de novo e preocupado se Bridge acharia que ele tinha a deixado de lado. Se preocupou com as pessoas que o usariam como exemplo para argumentar que as pessoas trans tomam decisões por caprichos, o que fazia ele chorar o tempo todo.
Finalmente, depois de dois meses do casamento, Kris contou para Bridge, “Eu acho que sou genderqueer”. Lentamente Kris foi se abrindo aos poucos para Bridge. Para seu alívio, eles ficaram cada vez mais próximos. Um peso foi saindo e Kris podia sentir-se chegando perto daquilo que ele nasceu para ser. Em algum momento, Kris contou para sua esposa que ele gostaria de fazer a transição, e ela não apenas deu apoio como ficou orgulhosa em ser sua companheira nessa jornada. Bridge fez um corte de cabelo bem masculino em Kris e começou a explorar um lado meio sapatão dela. Bridge diz:
“Foi tudo muito libertador, sentimental, excitante, encantador e sexual para nós dois em abrirmo-nos em nossas apresentações. Nós fizemos amor como se estivéssemos amando a nós mesmos. Eu senti que encontramos um monte de respostas na nossa cama. Eu acredito que o sexo é uma forma belíssima de experimentar o gênero e os papéis sexuais, e trazê-los para esse mundo como confiança. Nós conversamos sobre nossos processos intensivamente, mas foi uma bela forma de expressão para, em seguida, levar as nossas ideais ao quarto de um jeito sexual muito positivo.”
Bridge começou a tratar Kris no masculino facilmente. Embora, chama-lo de “marido” foi difícil porque isso desafiou a identidade sexual dela como lésbica. Eventualmente ela diz que se descobriu queer. “Eu fui atraída por muita gente diferente, e eu definitivamente estive atraída pelo meu marido em toda a glória de sua transição”.
Em 29 de dezembro de 2014, Kris fez a cirurgia de mastectomia com Bridge ao seu lado. Após o procedimento, Bridge disse, “Aí está você! Você se parece muito mais consigo mesmo”. Sobre o amor e o apoio de Bridge durante a cirurgia e a recuperação, Kris diz:
“Ela cuidou de mim como alguém que eu jamais conheci, com amor e compaixão. Minha esposa se tornou minha maior aliada, uma verdadeira companheira. Eu dei tudo a ela do que eu sou, e ela fez o mesmo. Nós construímos a vida que nós merecemos, e isso é a coisa mais bonita que eu já vi... Este amor é incrível, e eu sou sortudo por tê-lo achado, mas não foi assim até que eu comecei a realmente viver como a pessoa que eu estava destinado a ser, foi aí quando o nosso amor começou a ser o que é hoje. Me esconder só colocaria uma barreira entre a gente na qual nenhum de nós chegaria perto do que somos agora.”
Bridge tem dado um apoio inabalável para Kris e isso tem sido uma parte importante da jornada dele:
“Se alguém não acredita na autenticidade da transição de uma pessoa designada como mulher ao nascer para o gênero masculino, eu estou aqui para lhe contar através da minha experiência que eu sabia que o meu marido era algo sério. Eu assisti e confortei ele em seus momentos ruins porque ele tinha que viver com os seios... No dia que o Kris descobriu que ele faria a cirurgia... Ele ficou tão feliz, como não o via em algum tempo. Eu sinto que sempre estaremos juntos nessa. Eu sempre estou por dentro dos altos e baixos que cercam os estágios da transição dele. Eu uso “nós” e “a gente” sempre quando descrevo para os outros o que ele está passando. Eu apenas me comprometi. Mesmo antes do casamento, meu coração se comprometeu com a ideia de estarmos juntos. Às vezes me perguntam sobre como sou capaz de aguentar tudo isso. Eu nunca vi a transição do Kris como algo que eu tenha que “aguentar”. Eu apenas vi isso como algo que ele tem feito todo esse tempo comigo: me ajudar a ser uma pessoa melhor. Nós estamos apenas um pouco mais literais do que a média dos casais em tornarem-se pessoas melhores no casamento.”
Kris e Bridge estão criando a filha de Kris juntos com o seu ex-marido. Eles estão atualmente no processo de tentar ter uma criança juntos.
A fotógrafa Sarah Perry se ofereceu para documentar a transição de Kris, as cicatrizes, as injeções de testosterona, os sorrisos e as lágrimas, porque eles queriam contar a história do relacionamento deles.
Kris diz:
“Estar no meio da transição foi uma das coisas mais difíceis pela qual passei, isso me faz ser uma pessoa melhor. No fim do dia isso fez a minha vida muito melhor. Nós, pessoas transgêneras, encontramos tantos obstáculos – gente que nos odeia simplesmente por sermos quem somos, um sistema de saúde que não está ao nosso lado, famílias que geralmente nos abandonam e nos maltratam - mas, nós podemos fazer do nosso jeito. Nós podemos bater o pé e dizer “Eu posso ter o que eu quero e preciso, enquanto sou quem eu realmente sou”.
Kris e Bridge querem que todo mundo saiba:
“Nós somos tão diferentes como parecidos com qualquer outra família. Dan Savage estava certo: isto melhora. Encontre ajuda, encontre alguém, porque está por aí, eu prometo”.
Laysa Machado, mulher transexual, atriz com experiência no teatro e diretora da Escola Estadual Chico Mendes, desde 2009, em São José dos Pinhais, no estado do Paraná. Tem graduação no curso de história e pós-graduação em Teoria do Conhecimento Histórico. Trabalhou durante 11 anos como professora de geografia em Guarapuava, cidade em que nasceu.
Em 2014 participou da produção do documentário "A Morada Transitória". O filme faz um recorte da vida de Laysa, que descreve a infância pobre, a morte da mãe e o distanciamento do pai. Fala sobre a invisibilidade trans, seu processo de transição e o acolhimento no colégio em que trabalha. O curta-metragem pode ser assistido por aqui: http://vimeo.com/97786658
O título do curta faz referência ao monólogo homônimo encenado por Laysa, em que ela incentiva o protagonismo e empoderamento das narrativas de pessoas trans. Uma apresentação do monólogo pode ser vista aqui: http://youtu.be/9mYtLy4EXfU
Uma campanha argentina que incentiva o respeito às diversas identidades de gênero e orientações sexuais, criada pela Secretaria de Direitos Humanos e Pluralismo Cultural de Buenos Aires.
Vale lembrar o avanço dos nossos hermanos argentinos que desde 2012 possuem uma lei de identidade de gênero aprovada pelo Senado, o que permite travestis e transexuais determinarem o seu gênero e a mudança de nome no registro civil.
Já aqui no Brasil, tivemos várias propostas de leis semelhantes, mas até hoje nenhuma foi aprovada. Atualmente, temos o projeto de lei João Nery - em homenagem ao primeiro transhomem brasileiro (que se tem notícia), João W. Nery, autor do livro "Viagem Solitária - Memórias de Um Transexual 30 Anos Depois" - realizada com base na lei argentina, uma co-autoria entre o Deputado Federal Jean Willys (PSOL-RJ) e a Deputada Federal Erika Kokay (PT-DF). Quem quiser acompanhar a tramitação do projeto, é só acessar este link da Câmara dos Deputados: http://ow.ly/SijOH