o amor de angorró por raiô
Muito tem se falado sobre essa reta final do No Limite e o quanto o jogo parece engessado, já que desde o episódio da Fusão vimos uma aliança majoritária (dentro de outra aliança majoritária) se manter firme e o episódio de ontem, o 18º, teve a oportunidade dessa aliança se romper e isso não ocorreu. Mas por que será?
Faz um tempo que um vocabulário emergiu nas discussões por todas as redes e desde então ele não saiu mais: representatividade. E uso exaustivo dessa palavra tem efeitos até os dias atuais, de forma muito direta e expressiva. A gente precisa entender que mesmo num jogo que vale um prêmio que pode e muda vidas, há certas coisas que as pessoas não abrem mão, não se permitem a chance de quebra-las; os nossos valores. Aquilo que é imutável, que é pessoal, e imensurável. Cada um de nós tem algo assim, uma linha que não cruzamos, não importem as circunstâncias.
Essa temporada do No Limite tem me mostrado isso, o quão importante, além das relações sociais, é também de suma importância entender o que é valioso pro outro, o que o outro não vai abrir mão e pautar as estratégias em torno disso. No início, dentro da tribo Lua (Angorró em Pataxó) um G5 se formou: Vitor, Ipojucan, Charles, Bruna e Dayane. Esses cinco dividiam três das representatividades que permearam a temporada: três deles LGBTQIA+, quatro deles negros e duas delas mulheres. E essas pautas são importantes pra eles. O que seus adversários, pela minha lente, falharam em tentar jogar com eles foi justamente não levar essas questões em consideração. Na tribo Sol (Raiô em Pataxó), Lucas e Pires formavam a aliança mais forte, dois homens gays, e as meninas se uniam em prol da representatividade feminina – Ninha, Flávia, Dea e Tiemi. Então percebam que a todo momento havia alguma representação em questão. O clímax veio com o pedido de Tiemi (representando a cultura nipônica) em ser eliminada pra que Janaron seguisse representando a cultura indígena Pataxó no programa.
Mas, qual o propósito desse meu texto? Quero falar sobre a representatividade que me toca. Ser um homem gay me faz compreender a fala do Lucas, por exemplo, que pode ter sido minimizada por parte do público.
“Mas o Lucas sabe que é o número 4 daquela aliança, por que não ir pra maioria com os ex-Sol?”
Essa foi a fala mais ouvida por mim. Lucas é alguém que vem defendendo a luta pelos seus. Chegar na final significa uma mudança drástica na vida de qualquer um deles, mas imagina uma final em que 4 dos 6 competidores em jogo são LGBTQIA+? Qual foi o último reality que você, espectador, assistiu e teve uma reta final assim? Ou melhor, qual foi o último reality que você assistiu que quase 1/3 do elenco era composto por pessoas LGBTQIA+? Eu não lembro e arrisco dizer que nunca houve. E aí tudo faz mais sentido do porquê os meninos seguem juntos independente de quem é mais forte ou mais fraco.
Saber que você tem com quem contar porque essa pessoa sente o que você sente é indescritível. É você achar o seu lugar no mundo e ter a certeza que de lá ninguém te tira. A gente passa grande parte da nossa vida procurando ser aceito. E eles se aceitaram na sua representatividade. O jogo pode quebrar relações, mas esses laços não se rompem. Óbvio que os meninos nunca terem trocado de tribo faz com que essa relação seja muito mais forte, eu compreendo isso. Mas não há como não pensar que ainda assim o que dividimos em comum é maior que tudo isso.
A todo momento somos postos à prova. A todo momento esperam que nos traiamos porque é assim que o mundo nos vê, às vezes. Como se houvesse apenas um espaço e se somos mais que um, temos que brigar por esse espaço. Assistindo a um reality no canal ao lado, a Mulher Pepita disse algo que me marcou; era mais ou menos assim “Não quero que só eu chegue onde eu cheguei, quero que as que vem depois de mim consigam estar onde eu estou. Não sou sozinha nesse mundo”. E ver a relação dos meninos me traz muito essa sensação. Esse espaço de acolhimento em que eu vejo os meus prosperando, o que me faz prosperar também.
Então assim. Eu, como fã de Survivor e qualquer reality de competição, sei bem que essa reta final pode estar realmente morna e previsível. Posso concordar com isso. Mas ao mesmo tempo eu consigo admirar o trabalho árduo que esses meninos fizeram pra chegar até aqui, em minoria dentro da minoria e prosperar.
O amor de Angorró por Raiô resulta nesse top 6 com 4 representantes LGBTQIA+ e, sinceramente, eu não poderia estar mais feliz e representado por eles. Com o fim do mês de junho que foi em prol da luz LGBTQIA+, eu, sendo um homem gay, me sinto feliz demais de poder me reconhecer num programa de competição e nos finalistas. É sobre isso e tá tudo bem demais.






