“... Naquela noite ele havia tido um pesadelo, ele estava dentro de uma trincheira em plena segunda guerra mundial, onde se passava um combate sangrento, o céu estava amarelado, os alemães pareciam brotar do chão, era tudo tão desumano, violento e cruel! Ali naquela trincheira de sonhos ele fora atingido por uma baioneta de um fuzil alemão, ele sentia o cheiro nítido da morte que rondava as trincheiras, e quando ele sentiu a dor que vinha de suas entranhas ele acordou e estava em sua trincheira, no fundo de sua trincheira em uma maldita guerra amazônica...”.
Trincheiras Última parte
Eles tinham cerca de setecentos metros até a clareira onde ficava o ponto de encontro, o pequeno grupamento que era simplesmente uma fração da imensa companhia que acabará de ser dizimada a pouco, lutava como nunca pela sobrevivência!
Os morteiros e bombas, tiros eram muitos, e eles corriam, o sinal tinha sido lançado na rede antes da morte do comandante. O resgate estava vindo, bastava chegar vivo até a clareira.
Uma verdadeira caçada era feita na floresta, o combate era intenso e os inimigos avançavam em grande número e eles iam avançando, vez ou outra rastejando, mas na maioria das vezes correndo, o caminho difícil aumentava o sofrimento, a mata fechada o calor tudo dificultava e no seu encalço o inimigo.
O soldado viciado, cansado e com alma ferida, lutava em nome de seu instinto de sobrevivência, em seu bolso havia uma carta topográfica com a localização de todos os postos avançados de nosso exercito, carta esta que jamais poderia cair nas mãos do inimigo, ela fora entregue a ele pelo tenente antes de morrer.
Se a guerra era um inferno a floresta amazônica também o era, com suas grandes arvores e suas copadas fechadas que deixava tudo semi-escurecido e quente, ali eles usavam um GPS, o calor infernal e a batalha davam um toque de um verdadeiro inferno.
Todas as guerras são um inferno com combates cruéis, e nessas guerras existem os heróis que independentemente, arriscam suas vidas pelos demais, as guerras é o lar dos bravos, mas também é o lar dos covardes, era o lar dos que não tinham escolha e era o lar dos que queriam um motivo ou dar um motivo a suas vidas.
A posição havia sido perdida e um soldado anônimo ficou para traz a dar cobertura e segurar os inimigos por algum tempo, por algum tempo ele segurou até que seu FAL se calou... Eles continuaram sem olhar para traz...
Tudo o que ocorria era obra do destino? Não se sabe, pois o soldado viciado não acreditava em destino.
Ele só acreditava que poderia sobreviver a aquilo tudo e que em milhares de tiros disparados nenhum o acertaria.
Próximo da clareira fincada no meio da selva, as esperanças iam aumentando, o fôlego diminuía e a única coisa que saia de seus lábios era; — Lá esta a clareira...
E era verdade a escuridão da floresta se abria em uma grande clareira ensolarada.
Mas o inimigo no encalço era implacável, suas armas portáteis pareciam ter munição infinita, e pareciam se multiplicar.
Não é necessário descrever a violência e a crueldade no campo de batalha. Não é preciso mais se lembrar dos corpos de nossos soldados esticados pela selva e seus sonhos de voltarem para casa destruídos.
Disse um soldado antes da guerra;
— Mãe eu vou para a guerra, não sei se volto, mas se voltar eu serei outro homem.
A guerra transforma os homens...
Poucos chegaram à clareira, quando de chofre um helicóptero inimigo apareceu, era uma maquina de ataque chamada de apache.
Vários disparos eram descarregados no campo de batalha, em meio a clareia, a ultima esperança, eram tiros de alto calibre vindos da maquina voadora, deixando assim os soldados sem saída, de um lado o poderoso apache, do outro a infantaria inimiga.
Não havia saída, era somente lutar até a morte e rezar por um milagre, eram doze homens contra um helicóptero de ataque e mais de cinqüenta inimigos.
Quando uma explosão foi ouvida, era o apache explodindo em mil pedaços, atrás da explosão apareciam dois helicópteros de ataque AH Sabre, com uma bandeirinha verde e amarela pintada na fuselagem, junto deles uma outra aeronave Black Hawk de resgate.
A explosão do apache foi inesperada e a chegada do apoio e resgate que já era esquecido também foi algo inesperado.
E naquele turbilhão de tiros e explosões eles corriam em direção do Black Hawk que havia pousado, foi nesse momento que o soldado viciado tomou um tiro na perna e caiu no chão, o impacto do tiro quebrou sua perna e ele nem podia mais correr, mesmo com o apoio dos Sabres, os inimigos eram muitos.
Um dos outros soldados que seguia correndo parou e retornou para ajudar o amigo, ele disse;
— Eu vou levá-lo, não o deixarei aqui.
— Não, eu já era, leve esse documento com você.
— Já era uma ova você não vai morrer, você vai morrer, mas não agora!
O soldado jogou seu amigo nas costas e saiu em disparada para o helicóptero enquanto os AH Sabre destruíam e dizimavam as posições inimigas para dar cobertura.
Eles decolaram, somente sete sobreviventes, todos soldados rasos, o que restou de uma enorme companhia de nosso exercito.
Entre eles estava o soldado viciado que dali em diante não usaria mais drogas.
Enquanto os helicópteros voavam baixos sobre a floresta amazônica, floresta esta que era o motivo da guerra, ele se lembrava da musica Soldados da Legião Urbana...
Ele se lembrou que muitos caíram em batalha naquele dia e que ele nem sentiu ou ouviu o gemido de dor de seus compatriotas, que jamais sairiam daquela selva e seus corpos seriam engolidos pela selva.
Se estava vivo é porque talvez houvesse um propósito em sua vida.
Quanto à guerra, ela iria acabar um dia, não importando quem fosse o vencedor, pois no final todos perdem mesmo.
Pelo menos ali não existia mais lugar para ele, ele agora iria voltar para sua mãe e para sua amada um outro homem.
E a guerra era de outros agora...
FIM