Dores no corpo e restos de pele morta como quem troca de vestes, a pele contínua corta o chão do quarto. Quero te descrever meu domingo de manhã mas estou presa a esse retrato banhado de café. Presa a essa sensação de que minhas feridas estão descamando, de que estou a desintegrar de fora para dentro. Sensação de ter retirado meu corpo da minha pele. Corpo que se retirou para modificar e voltar forte, como lagosta do mar. Você já viu uma lagosta sem carapaça, sem dura e resistente armadura? Dizem que é só uma gosma por baixo disso tudo, que uma hora seu corpo mole se torna maior que o revestimento de creatina, ela fica apertada demais no seu casulo e tem de abandoná-lo. Se esconde por dias embaixo de uma pedra. O interessante, ao meu ver, é que ela está robusta, acabou de crescer, cresceu tanto que já não cabia em seu antigo corpo. Mesmo forte, está em seu momento mais vulnerável e exposto. Delicadamente espessa, se esconde na pedra até que se forme sua nova armadura. Ano novo, novo velho e velho novo. Ela sai pronta para … virar comida de burguês. Até onde vai a dor sem se perder a vontade de mudar o mundo? A história real da nossa gente me parece provar que é possível doer e ainda lutar para mudar essa mesa posta pro jantar.