Bsb Streets!
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Bsb Streets!
Mutação
Envolto em processos sombrios
Me desnudo de mim, acendo o pavio
Qual o conteúdo do seu pesadelo?
Que imagens e símbolos faz subir os pelos?
Dos braços, das pernas até os mais singelos
Pelos que vivem nos cotovelos?
É com empenho
Que retiro das tuas mãos meus medos
Jogo no muro meus anseios
Da tinta faço sangue
Escorre ao contrário
Dos pés ao cabelo
Não te devolvo, nem ouso usar
Derreti essa prata
Transformei em colar
Chamo minha raiva para dançar
Numa valsa profunda e devagar
Descobri o significado de se misturar
Lambusar
Por pouco não estouro seus miolos
Por pouco não fiz dessa pista
Olhos e
Vísceras
LUGI
Hábito da Pele
Dores no corpo e restos de pele morta como quem troca de vestes, a pele contínua corta o chão do quarto. Quero te descrever meu domingo de manhã mas estou presa a esse retrato banhado de café. Presa a essa sensação de que minhas feridas estão descamando, de que estou a desintegrar de fora para dentro. Sensação de ter retirado meu corpo da minha pele. Corpo que se retirou para modificar e voltar forte, como lagosta do mar. Você já viu uma lagosta sem carapaça, sem dura e resistente armadura? Dizem que é só uma gosma por baixo disso tudo, que uma hora seu corpo mole se torna maior que o revestimento de creatina, ela fica apertada demais no seu casulo e tem de abandoná-lo. Se esconde por dias embaixo de uma pedra. O interessante, ao meu ver, é que ela está robusta, acabou de crescer, cresceu tanto que já não cabia em seu antigo corpo. Mesmo forte, está em seu momento mais vulnerável e exposto. Delicadamente espessa, se esconde na pedra até que se forme sua nova armadura. Ano novo, novo velho e velho novo. Ela sai pronta para … virar comida de burguês. Até onde vai a dor sem se perder a vontade de mudar o mundo? A história real da nossa gente me parece provar que é possível doer e ainda lutar para mudar essa mesa posta pro jantar.
LUGI
Sem Humanizar as Formigas
Encarar o mundo tem sido difícil. A realidade é uma só e ainda sim a experienciamos de tantas maneiras. Nova cepa, dois mil mortos por dia no Brasil, terror, caos, sem leitos de hospitais, sem equipamento ou profissionais para entubar os doentes… eu só quero escrever sobre como as formigas comem as migalhas espalhadas pela casa. Às vezes eu pego uma delas a caminhar sobre meus dedos, panturrilha, cotovelo. Antes eu achava que começava uma coisa e não terminava, hoje percebo que o processo de construção é mais complexo, preciso de mais tempo a me debruçar sobre o objeto, mais tempo de relação com aquilo que me dispus a construir, mais camadas. E, certas coisas podem e devem ser abandonadas.
Será que as migalhas levam a casa de doces da bruxa? Isso explicaria tanta formiga. O que mais me indigna é que a situação não está assim caótica somente por que as pessoas não conseguem ficar em casa, por que “o povo no Brasil é assim mesmo”. O projeto político social voltado para as necessidades da população para lidar com a pandemia foi trocado por acordo de cloroquina, passagem de pano - mais ainda - pra PM matar na favela, intensificação da uberização e precarização do trabalho. É maior do que o indivíduo. Vale pontuar que esse indivíduo, nós, o povo brasileiro, é constantemente despolitizado e levado a acreditar que as coisas são assim e não tem como mudar. O Brasil é corrupto e ponto. Entende por que eu só queria falar sobre restos de café da manhã? Mas talvez o caminho de formigas possa nos ajudar.
Seguindo o caminho desses insetos, descobrimos que não há bruxa, além de mim, há apenas doces, pequeninas migalhas de paçoca no chão e várias formigas, formigas que chegaram a seu objetivo coletivamente. A coletividade desses seres minúsculos me fez pensar sobre como o ser humano aprimorou e aprimora sua organização social e coletiva no decorrer de seu desenvolvimento histórico. Me fez pensar no poder de se organizar e em grupo organizar as demandas sociais, esse poder está em disputa, luta de classe, mas o ponto é onde a gente consegue chegar juntos. Como unir o coletivo e individual na luta de maneira real, com seus limites individuais e coletivos. Encontrar na nossa maneira única de ser alguma identificação com os grupos e se organizar de fato. Mudar a realidade é um processo coletivo e nem as formigas ou esse texto esgotam os caminhos e conexões possíveis com esse tema.
LUGI
PeNpEn
Brigas internas dentro de mim
Nenhum amor é tão fácil assim
Nem o amor te expurga de mim
Vida envolvida num mundo clarin
Colonizaram até nossos rins
Agro é pop mesmo trampolim
Mais uma linha e eu me afasto de ti
Peso nos ombros do que não escolhi
Mas sou responsa do começo ao fim
Vivo respiro te lembro lati
No américa vi
Viva em mim
Cartas que nunca chegaram a ti
Chamo de nomes pen pen que inverti
Não português nossa língua tupi
Chapo te olhando comer um caqui
Não tem talheres eu uso rachi
Romântico e lento o meu querubim
É fim de tarde, chá de jasmim
Afasta aproxima, fica um pouco aqui
Vaso quebrado teu cano entupi
Essa conversa sempre acabam em briga
Olhos que olham mas que nunca brilham
Retina Retina Retina Retina Retina Retina
Olho que olha mas que não brilha
Transformaram tudo em capital
LUGI
Brisas de Quarta Feira
Inóculo
In loco
In louco
In no culo
Nos é introduzido
No espaço biológico
Binóculo invertido
Exposição até o cú
LUGI
SEis
As horas giravam ao contrário nos ponteiros do relógio. Gargalhadas se misturavam entre as cartas do baralho. Toda vez que ela me olhava eu entendia que era para encerrar o jogo e lhe tascar um beijo, mas pairava um ar de timidez. Eu estava molhada, mas tímida. E parecia não ser a única. Nossas duplas de truco tentavam fingir não entender a sublime vontade que habitava todos: bacanal. Mas as cartas eram estáveis e eretas nas mãos, os olhos fixos na jogada do momento e o jogo não era o único a pegar fogo. Os olhos gritavam me chupe, as barbas imploravam por um puxão e os bicos dos peitos mordidas. Os quatro embriagados e arrepiados não podiam mais disfarçar o tesão. Depois do meu adversário gritar 6, eu tirei a primeira peça de roupa e coloquei She's Got The Jack para tocar.
O número quatro demonstrou fazer belos encaixes. Primeiro provamos dos adversário. Depois dos parceiros. E nesse movimento de duplas, as trocas pareceram abrir a chave. Quando as possibilidades de permuta entre os corpos se esgotou, o bacanal começou de verdade. Vinho espalhado pelo chão, cartas a voar pela janela, era possível contar as almofadas cobertas de suor, contar até as gotas de suor, mas não contava-se o número de corpos entrelaçados. O grotesco se tornou belo. O mistério brotou daquele caos. O fluido de um corpo era o fluido dos quatro a gozar em cima da mesa de truco.
LUGI
Público Particular Estado
Você nem vê
Aos poucos começa a aprender
Acha que agro é pop e que o privado é necessário pra sobreviver
Esse estado capital
É manutenção das riquezas de certas famílias no brasil, afinal
Meu brasil de vários cores e amores
Mas que história mal contada é essa que não expõe nossas dores
O quadrado que a escola reproduz é o mesmo que desmonta o sus
E pra não fala de igreja que como verme rasteja
Se duvida come sua fé de sobremesa
É preciso retornar
Retornar ao solo sagrado
Tudo nos é dado pela terra mas agronegócio usa motosserra
Tudo nos é dado pela terra mas indústria alimentícia tem outra estratégia
E a bélica ? essa é fácil deduzir
Se o produto é bala, sempre vai ter guerra, logo covas
Mas quem continua a morrer? quem sempre morreu
Uma ova que a justiça faz seu papel
Entro em discórdia com você, mas retiro deles esse anel
Parcial e seletiva, Themis favorece os que estão embaixo do seu véu
Os que patrocinam remédio, bala e carne
Amazônia arde, grileiros servindo o presidente que libera matança por toda parte
Que facilita pra hospital particular não paga imposto
Para os dinheiro dos respiradores irem para um certo bolso
Mas ele diz que nada fez
Por que muito pior seria essa gentinha no hospital de elite ganha vez
No meio da pandemia
Imagina?
População com direito constitucional, imagina?
Defender o SUS e rasgar sua cartilha
Enquanto tiver educação e saúde particular
O trabalhador vai pagar pra rico ter qualidade
Enquanto sua família vive com menos da metade
Então abre o olho e não passa pano pra quem diz falar a verdade
LUGI