Igarapé das Almas, 1884 / A Vida Paraense, 20 de janeiro de 1884 - Acervo Flávio Nassar
"Aspecto de maré baixa... com a vaca. Custou-nos esta página 400 réis, passagem de ida e volta no bondinho e duas polegadas de lama nos sapatos (mais 100 réis para o engraxate). Diga agora o Sr. Fiscal do Igarapé das Almas, em face de tamanho sacrifício e dum quadro tão positivo, se é menas verdade..."
"Vacarias integravam a paisagem do bairro, onde capinzais serviam como alimento para o gado que fornecia leite in natura para a população. Estavam presentes na Domingos Marreiros ocupando uma extensa área lá 'na baixa', como eram conhecidos os quarteirões menos nobres da rua em outros tempos, aqueles na maioria eram submetidos a enchentes com as chuvas abundantes que caem na cidade. Na metade do XX este latifúndio urbano foi dividido e loteado, originando casas, vilas e passagens que se estendem no lugar da antiga vacaria. Estabelecimento deste tipo também estava presente na Alcindo Cacela, onde hoje está implantada a Universidade da Amazônia-UNAMA, na fronteira com o bairro da Pedreira. Dina revela: 'Tinha aqui na Diogo Moía, a vacaria do Seu Cabral, lá pro lado da Doca, na Domingos Marreiros parece que tinha também (…) Vendia só o leite, só, eram de brasileiro as vacarias, tinha a casa dela na frente e a vacaria atrás'. A afirmativa de Dina procede para o caso da vacaria do Seu Cabral, pois em sua maioria estes estabelecimentos pertenciam a portugueses (...)
As crianças porém saiam alegremente para a rua a fim de 'tomar banho na chuva' e nadar nas valas, indiferentes para as possíveis doenças, que estas brincadeiras poderiam ensejar, relata a moradora da Domingos Marreiros, Wilma Ramos, nascida em 1946 e testemunha das transformações urbanas no bairro. Ela recorda a vacaria que ocupava o quarteirão de frente da sua casa e se estendia por grande área, fala do capinzal, do gado, dos coqueirais, que dava aspecto rural ao ambiente. O leite, diz ela, era acondicionado em grandes vasilhames prateados e mesmo questionado sobre sua pureza e higiene, era distribuído e comercializado nas carroças, ou comprado direto nas vacarias cujo freguês assistia in loco a tirada do leite".
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Venize Nazaré Ramos Rodrigues ~ Bairro e Memória: Umarizal das vacarias aos espigões (2013)












