Hoje, 7 de agosto, Caetano Veloso completa 78 anos e esse é o tradicional texto-homenagem da Nina.
“Vaca Profana” foi uma letra encomendada por Gal Costa nos anos 80. Porque Caetano estava na Europa, pegou a Espanha como cenário e colocou Gal ali. E tão bonita quanto a amizade entre Gil e Caetano é a amizade de Caetano e Gal. Há várias canções do Caetano que mostram Gal Costa como um mistério desvendado - ou ele faz uma análise quase que distanciada, exemplo de “Recanto Escuro” (que também é sobre si mesmo); ou ele estabelece diálogo com essa mulher fatal com quem conversa sobre signos em “Da Maior Importância” (“escorpião, sagitário, não sei quê lá” - Gal já admitiu que Caetano compôs essa canção quando “pintou um clima muito estranho” entre os dois). Uma amizade colorida por todos os tons do amor, por todos os tons de duas pessoas que se conhecem muito bem, mas apenas uma fala da outra (que canta).
Eu me lembro da primeira vez que ouvi “Vaca Profana” e não foi na voz da Gal. Disco acústico de 1986, Totalmente Demais abre com “Vaca Profana”. Uma canção que começa com “respeito muito minhas lágrimas, mas ainda mais minha risada” merece sim qualquer tipo de atenção - pare tudo que estiver fazendo para ouvir isso daqui. Como as risadas se tornam lembranças talvez contadas nos dedos e hipervalorizadas no isolamento/distanciamento.
“Vaca Profana” propõe uma viagem política e cultural espanhola de cara, mas também, a cada passo, a bússola aponta para um lugar diferente: “Picassos movem-se por Londres / Bahia, onipresentemente / Rio e belíssimo horizonte”. E não me surpreendeu que, depois do meu primeiro ano em São Paulo, ela fizesse tanto sentido. Tem até um trecho para isso, na canção: “São Paulo é como o mundo todo / no mundo, um grande amor perdi”. Isso também reforça que essa é mais uma entre as várias composições do Caetano nível “interprete como quiser” - ele é especialista nisso. Para cada pessoa, um sentimento diferente é ressaltado. Para mim, “Vaca Profana” faz as pazes com a solidão enquanto a solidão é um ato de coragem.
Há muitos outros trechos relevantes e significativos na canção, você pode usar “quero que pinte um amor Bethânia / Stevie Wonder, andaluz” como biografia de perfil no Tinder, por exemplo, ou dizer que é “tímido e espalhafatoso” no Instagram, uma descrição que combina muito bem com quem tem o Sol em Leão. Sem mágoas, estamos aí. De perto, ninguém é normal.
Esse é mais um ano propício a dizer, e talvez seja o ano mais importante para reforçar o privilégio que é conviver no mesmo tempo e espaço desse homem que preenche meus dias com sua arte, com a qual mais me identifico. Eu tenho certeza que Caetano vai dar um jeito de ser imortal.