PAÇO DE MATO: - Aldeia na Serra da Freita. Apontamento histórico.
Nas faldas da serra da Freita, margem direita do rio Caima, frente a Viadal, situa-se uma pitoresca aldeia chamada de Paço de Mato, com a vetusta idade de mais sete séculos, pois já existia em 1284 d.c., tempo do rei D. Dinis. Apesar de ser grande em extensão é pequena em população; mas também é merecedora de referência, até porque aqui temos fortes raízes, já que nosso avô paterno, António de Almeida, era daqui natural.
Também com ascendência neste pequeno povoado é a família Franco Nogueira, de Vila Franca de Xira, e que deu ao país o último Ministro dos Negócios Estrangeiros, de Salazar, Alberto Marciano Gorjão Franco Nogueira, como abaixo melhor se demonstrará.
2. Paço de Mato, cerca de 1284 d.c.
A data mais antiga que conhecemos, e que refere a povoação, tal como Viadal, data das Inquirições de 1284 d.c. Outra documentação coeva (1) referente à estirpe dos Cambras, também a menciona. Estes, possuíam aí propriedades nos séculos XIII e XV, donde advirá o seu nome, de acordo com a lenda.
A Paço de Mato, se refere, em 1514, o Foral de Cambra (2), dado por D. Manuel I, nesse ano. Aí, se descreve a povoação da seguinte maneira:
- "Os de Paço do Mato do regno que tiraram pera aldeia duas galinhas".
Relativamente ao nome do lugar, apoiamo-nos na lenda. Esta, leva-nos à caça e à existência aí de uma habitação (3) pertença de um nobre, ou seja, o "paço", onde ele pernoitava, quando vinha à procura dos veados e outra caça grossa. Daí a provável explicação para o nome do então lugarejo: - "Paço de Mato".
Conforme acima referido, “Os Cambras” poderiam muito bem terem aqui instalações para pernoita, sobretudo no tempo da caça grossa que era muita e até da troviscada – pesca no rio – que deveria ser abundante, em trutas e bordalos.
Sabemos, por experiência própria, que em dias de invernia os eirós/enguias subiam o rio Caima e eram apanhados esporadicamente pelos moradores dos lugarejos ribeirinhos, ainda na década de cinquenta do século findo.
Outras explicações para o nome de Paço de Mato.
Consultado o "site" da Junta de Freguesia de Roge (4), também aí encontramos outra justificação, a saber: -
"Paço do Mato. Topónimo composto. Paço, tal como referimos, deriva do latim patatiu -, com o significado de palácio. Mato, tem um sentido evidente: nome comum "mato", derivado impróprio de "mata", que pode ter origem latina.
Sobre a origem do topónimo existem várias “estórias”, contadas pelos moradores do lugar. Uma delas, diz que o topónimo tem origem nos maus acessos ao lugar, que obrigava os moradores para lá chegar a ‘andar passo a passo pelo mato’.
Outra versão diz ser o “nome oriundo da existência no lugar de um paço, habitado por princesa, que sendo expulsa do reino foi obrigada a viver desterrada no mato, donde paço do mato".
Embora com pouco suporte documental, a história da aldeia, nos três séculos seguintes, ao Foral, não deve ter sido muito diferente das restantes em redor e sobre as quais nos temos debruçado, noutros escritos, nomeadamente as vizinhas Tabaçó e Viadal. (5)
A aldeia nos séculos XIX e XX.
Para os séculos XIX e XX, é-nos possível deixar algumas efemérides ocorridas no lugar; sendo a mais intrigante aquela que respeita ao facto de ter pertencido, até há pouco décadas à freguesia de Roge, uma parcela de terreno, frente a Paço de Mato, sita na margem esquerda do rio Caima, desde a Urtieira, junto ao caminho para a Povoa dos Chões, e até ao sítio da Tapada. Em boa verdade, deveria ser da freguesia de Cepelos, mais propriamente do lugar de Viadal.
Diz-nos a lenda que no Choilinho havia moradores que viviam sozinhos. Tendo adoecido, os de Viadal não lhe prestaram a devida assistência; tendo-se incumbido de tal tarefa os seus parentes de Paço de Mato. Por tal motivo os habitantes terão feito doação de todos os seus bens a esses familiares.
Certo é que na Inquirição de D. Dinis, ano de 1284 d.c., havia no Choilinho ou ali mesmo ao lado em Covas um ou dois moradores, mas que por razões desconhecidas tiveram de abandonar o local, conforme por nós referido em “Viadal, ao Tempo do rei D. Dinis”.
Sabemos, pelos nossos apontamentos, que esta problemática é antiga. Já D. João V, em 1716, incumbiu Belchior Teixeira Louseiro, pároco de Roge, de proceder à delimitação da freguesia (6). Desconhecemos quais as razões, mas uma delas bem poderia ser, já então, as terras da margem esquerda do Caima, junto a Viadal, especulamos.
Verdadeiro é que em reunião da Câmara, ano de 1911, foi apreciado "um ofício da Comissão Paroquial de Cepelos (7) protestando contra o pedido de aforamento do monte baldio, sito na margem esquerda do rio Caima, feito pelos moradores de Paço-do-Mato, da freguesia de Roge, pois que tal monte pertence à freguesia de Cepelos". Foi decidido esperar "até que se averigue se é verdadeiro o alegado".
Como se induz, os de Paço do Mato venceram a contenda. Não deve ser difícil averiguar, nos arquivos municipais, o que então foi decidido e para quem ficaram os terrenos. Parece que a ponte, dita da Fontainha, a ligar Paço de Mato a Viadal, terá sido construída por essa altura. O Mestre chamar-se-ia de Pisco. As descrições existentes, sobre a mesma, referem-na como sendo dos séculos XVII/XVIII.
Outros acontecimentos do séc. XX.
. 1912, uma mulher (8) de Paço-do-Mato, que guardava gado nos montes morreu debaixo de uma pedra, ao abrigar-se do vento. Nesse acidente um rapaz ficou gravemente ferido.
. 1925 dois médicos do Porto vieram operar a esposa (9) do Sr. Manuel das Pelouqueiras de Paço do Mato que havia muito tempo sofria horrivelmente de um cancro que se lhe manifestou no seio direito. A operação decorreu na farmácia do farmacêutico Teixeira da Silva.
. 1951 foi ano de invernia e nevões. Por tal motivo morreu (10) o viadelense, Manuel Tavares Júnior, morador em Paço do Mato, na serra da Freita. Tinha 51 anos.
. 1956 vive aqui um afamado cantador, chamado de Albino Tavares da Macieira. Eram seus companheiros de cantigas: - Augusto Tavares da Mouta Velha e Adão Tavares de Carvalhal do Chão.
. Aí pela década de setenta do século XX, chegou a ter duas lojas, aqui ditas vendas, de vários produtos de mercearia e, sobretudo, de bebidas; sendo seus proprietários:
a) Manuel Soares, junto à capela. Este tinha a particularidade de confiar na clientela jovem, que o ia acordar à noite, fora de horas, para petiscarem e beberem. Eles (11) é que se serviam e deixam lá o dinheiro correspondente ao consumo efetuado.
b) Albino Macieira. Ver fotos.
. 1984 a estrada está a ser aberta. A ligação completa ao Chão do Monte, em Vilar, só aconteceu em 1992.
A Velhinha Fonte de Paço de Mato.
Ao fundo do lugar e agora com pouco uso, devido aos furos e desvio das águas das nascentes (12), localiza-se a “Velhinha Fonte” que, deduzimos, era utilizada desde os primórdios da povoação.
Certo é que por meados da década de cinquenta do século XX, ao fim da tarde, era um corrupio de gentes, sobretudo crianças e jovens raparigas adolescentes a encherem as suas cântaras e latas de zinco com água para as necessidades domésticas. Por vezes até “botavam cantarolas” audíveis em Viadal, sobretudo na Defaifa.
Sabedores da sua existência, visitamos o local em 2024, onde verificamos que foi objeto de obras de melhoramento, talvez em 1915, e onde são legíveis duas letras O.M., que traduzimos por obra municipal. Ver foto elucidativa em anexo.
O Ensino Primário em Paço de Mato.
Sobre esta temática ver o nosso trabalho com o título “A Escola Primária de Tabaçó (parte III)” publicado na Voz de Cambra de fevereiro de 2018.
É-nos ainda possível, por consulta aos Censos e por já os termos publicado parcialmente na Voz de Cambra, indicar a evolução da população da aldeia durante nos últimos cento e dez anos.
. 1911 ......................... 121
. 1940 ......................... 138
. 1960 ......................... 144
. 2011 ....................... 98
. 2021 ......................... 74
Fonte: - Anos de 1911 a 1960 - Ver dados por nós publicados na V.C nº 499 de 15.1.1992.
- Ano de 2011 e 2021 - INE - CAOP.
Dos 74 habitantes recenseados em 2021; 35 eram homens e 39 mulheres. Consultado o quadro acima, verifica-se ainda que o número máximo de gente foi atingido em 1960, encontrando-se, na presente data, em acelerado decrescimento.
Dada a proximidade, referimos que em 2021 a vizinha aldeia de Carvalheda (13) registava somente 15 habitantes; sendo que 6 eram homens e 9 mulheres. Aqui vivia, por volta de 1932, Francisco Marques então correspondente do Jornal de Cambra.
Na mesma data, em Viadal, foram recenseadas 59 pessoas; sendo que 28 eram homens e 31 mulheres.
A ERMIDA E FESTA DE NOSSA SENHORA DA LUZ.
Tem Paço do Mato uma pequena ermida em honra de Nossa Senhora da Luz. Aí pelos anos cinquenta do século findo a sua festividade coincidia com a de Viadal, na segunda-feira de Páscoa. Hoje, a de Nossa Senhora da Ouvida regressou à data originária, ou seja, na primeira oitava de Páscoa - domingo de Pascoela - como era já no século XVIII.
Regredindo no tempo, não encontramos qualquer menção à capela de Paço de Mato nas Memórias Paroquiais de Rôge, o que leva a concluir que a sua edificação será mais recente. Com efeito, visitado o local em 1996, altura em que a ermida tinha sofrido um restauro, encontramos no templo duas datas: - uma sobre a porta principal, ano de 1874 e outra junto à pedra sineira com a data de 1932. A de 1874 será, pensamos, da primeira construção e a outra relativa a alguma reconstrução.
Como íamos acompanhado de nosso pai, conhecido de todos os moradores, foi-nos fácil termos acesso à chave e ao interior da pequena ermida. Observado o altar, vimos lá Nossa Senhora da Luz, ladeada de outras imagens sagradas, descritas, no "site" acima referido, do seguinte modo: -
"No seu interior, além da imagem da sua padroeira, escultura quinhentista em pedra ançã, guarda mais duas preciosas imagens (14) também elas em pedra ançanense representando Santo Amaro e S. Gonçalo de Amarante. Colocada no altar-mor, do lado esquerdo, surge ainda uma imagem de Santo António em gesso plocromado, do século XX. O altar-mor, em madeira foi adquirido na década de cinquenta no Seminário Apostólico S. João de Brito, que funciona na Cruz de S. Domingos em Macieira de Cambra".
Relativamente ao espaço envolvente da capela, notamos que ele nos remetia para o século XIX. Com efeito, ainda existiam casas cobertas a lousa e as demais a telha. Uma delas ostentava mesmo a data de 1891 e a iniciais - A.T.V. - do seu proprietário.
Regressamos à ermida, na segunda-feira de Páscoa, 21 de abril do ano de 2003. Era dia de festa da padroeira. Assistimos à consagração eucarística, pelas 11 horas, seguida da tradicional procissão.
A missa foi campal no largo fronteiro à capela. Assistiram ao evento cerca de seis dezenas pessoas, naturais da aldeia e circunvizinhas. A cerimónia foi acompanhada por um grupo de jovens que, supomos, eram da freguesia. Já na procissão, que seguiu o percurso habitual, vimos três andores, enfeitados de rosas e que nos pareceram pesados.
Por leitura da obra do Conde de Samodães, por nós referida na VC nº 719 de 15 de Julho de 2001, é-nos possível indicar que em 1904 a festividade se realizou na primeira oitava de Páscoa, ou seja, no domingo de Pascoela.
(1) - Tavares, Anita Pereira - A Medieva Terra de Cambra: Território e Sociedade.
Universidade de Coimbra. Volume I, pág. 92 e sgts. Ano de 2013.
(2) - In, Foral de Cambra, pág. 21.
(3) -Na VC nº 627 de 15 de julho de 1997, já afloramos esta temática, a propósito da festa de Nossa Senhora da Ouvida em Viadal. Também publicamos já, na VC de 15 de outubro de 1994, foto da aldeia.
(4) - in, Internet. Ano de 2025.
(5) – Viadal, ao Tempo do Rei D. Dinis. In, Ribacaima.Tumblr.com, blog da nossa autoria.
(6) – In, Monografia de Vale de Cambra, pág. 199.
(7) – in, nº 173 de 28/5/1911 do Jornal de Cambra e Monografia de Viadal.
(8) - In, JC nº 247 de 24/11/1912.
(9) - in, J. Estarreja nº 1946 de 17/5/1925.
(10) - in, JC nº 589 de 28/2/1951.
(11) - Informante de Viadal, hoje com cerca de 76 anos.
(12) – Decorridos mais de cinquenta anos sobre o “25 de abril de 1974”, as aldeias serranas de Vale de Cambra, continuam sem abastecimento de água e sem saneamento básico, o que muito nos entristece.
(13) - Ano de 2021 - INE - CAOP.
(14) - De acordo com o que nos informaram em 1996, estas imagens terão vindo da igreja matriz.
- Ao contrário dos santuários de Função e de Viadal, o INVENTÁRIO ARTÍSTICO DE PORTUGAL - Distrito de Aveiro - Ano de 1991, não refere o de Paço de Mato.