(POV) into the game
A primeira coisa que Tarquinn percebeu ao abrir os olhos após colocar os óculos do jogo, era que estava repentinamente deitado de bruços sobre uma superfície fria e úmida. Não demorou para a visão se acostumar com o interior escuro do que logo identificou como uma espécie de caverna pequena. A segunda coisa que notou era que estava completamente nu, por isso a imediata identificação do solo gélido sob o corpo. Sentou-se sobressaltado e confuso, apenas para então dar-se conta de que o braço e perna esquerdos, há tantos anos perdidos e substituídos por próteses robóticas, estavam de volta intactos, em carne e osso. Teria ficado vários minutos admirando aquela descoberta, não fosse a constatação de que, além de nu, estava banhado em sangue. Notou ainda uma enorme cicatriz profunda bem antiga em forma de arranhão, que atravessava seu peito na diagonal quase até o umbigo.
A essa altura, momentaneamente esquecido de que tudo não passava de um jogo - devido à qualidade dos detalhes e a imersão absoluta - se sentiu um tanto quanto desesperado, o que só piorou quando uma breve olhada ao redor revelou um cenário de pleno horror: identificou um corpo jogado mais ao fundo da caverna, desfigurado, dilacerado, mordido, arranhado, quase completamente devorado e com um enorme buraco no peito onde deveria estar seu coração. Flashes de “lembranças” no formato de visões em primeira pessoa - um mecanismo do jogo para ajudar a situar o jogador sobre seu personagem - lhe revelaram que fora o autor da carnificina; viu-se transformado em fera atacar e devorar a bela jovem, arrancar-lhe o coração com as enormes garras e comê-lo ainda pulsando como se fosse uma iguaria. Antes que pudesse sentir-se nauseado, respirou fundo e mentalizou que era tudo um jogo e nada daquilo realmente havia acontecido, apesar de estar em profundo choque e arrependido da escolha que fizera em ser um lobisomem, já que não esperava se envolver em crueldades daquele nível.
Bem, tentaria não repetir a situação se possível, mas por enquanto precisava se recompor e voltar para a cidade. Hesitou um instante sobre o que fazer com o corpo na caverna, mas lembrou-se de que estava em um século remoto onde dificilmente seria ligado ao crime - duvidava até mesmo que o corpo sequer fosse encontrado - então decidiu apenas abandonar o local o mais rápido possível. Um novo flash lhe mostrou que deixara suas roupas em algum lugar na floresta densa antes de se transformar na criatura, o que lhe deixou um tanto mais aliviado. Após alguns minutos de caminhada no fim da madrugada lá fora, as encontrou convenientemente perto de um riacho; um rápido banho improvisado na água fria foi suficiente para se limpar de todo aquele sangue. Quando em sua vida se imaginaria em tal situação?! Vestiu seu traje cordobés completo com chapéu e capa, lembrando-se da origem de seu personagem e das informações recebidas sobre ele: um homem completamente diferente de si, manipulador, sem escrúpulos. Mas era exatamente essa a diversão, poder ser outra pessoa em uma realidade totalmente alternativa, e ele estava ali para aproveitar a experiência ao máximo. Tomou o rumo da cidade e, apesar do choque inicial, sentia-se extremamente empolgado e curioso para o que Damián Casillas encontraria e faria a seguir.












