Era uma vez, e não era uma vez, uma menina. Vamos chamá-la de menina, mas era mais do que apenas uma menina. Ela também era uma boneca, ora de cêra, ora de pano, ora de porcelana. Ela também era uma mulher, mas não uma mulher completa. Ela nunca havia dado à luz, e por mais que, pelas novas regras sociais da mulher moderna ela não devesse se importar com isso, muito menos pensar que não ter filhos fizesse dela menos mulher, ela se importava - e ela achava sim, que não era completa porque em seu útero nunca crescera nada. Ela queria ostentar um barrigão como as suas ancestrais e andar com uma mão nas costas, por causa do peso, e queria falar de suas dores de grávida, dos seus desconfortos de grávida, de suas delícias de grávida, dos desejos e das dores no bico do seio; ela queria falar sem parar sobre o que havia dentro dela, sobre a vida crescendo e se agitando dentro dela; ela queria ser como qualquer mulher comum e queria ser uma mulher comum qualquer, que fala e fala e fala sobre seu estado de prenha, de gerar uma vida, como se fosse a primeira mulher no mundo a passar por aquilo.