Carta
"Das reminiscentes coisas (28-04-2025)"
Tendo reparado que fazem hoje 21 dias desde a última vez que nos falamos pessoalmente, não somente penso na sua coleção de números favoritos, mas também nos primeiros dias, semanas, em que fomos nos conhecendo. É estranho pensar que se eu tivesse a capacidade, se eu pudesse, viveria novamente todos esses dias, mesmo sabendo da dor que viria a sentir no final.
Não poupo, o papel, desta. Tocou em uma ferida tão profunda, teu desprezo, que nem mesmo um inimigo seria capaz de fazer tal estrago. Me entregaste ao longo dos dias palavras tão doces e gentis, que acariciaram minha alma e que eu daria o mundo para sentir o sabor delas novamente. Essas, no entanto, ainda que permaneçam no meu coração, são apenas casca oca e sem timbre. Nossa noite de jogos não aconteceu, mas nesse tabuleiro entre nós atingiu sobre mim a derrota; contra quem nem mesmo jogava em sua oposição.
Por que haveria eu de querer reencontrar todos esses sentimentos, dada a chance? Respondo:
Por que a descoberta da sua existência e essência, dos seus gostos, trejeitos e imperfeições, do seu temperamento sereno e implacável como a natureza, foram para mim como a descoberta de um lugar confortável que meu coração pudesse repousar. Foste para mim a grama a se deitar, a árvore a dar sombra e as palavras num livro para ler; e li. Me afeiçoei pela história e não pude terminar a leitura antes que a chuva interrompesse.
Então digo que sim. Te conheceria pela primeira vez de novo. Contaria horas iguais com você de novo, ouviria musicas junto com você de novo, assistiria filmes e séries com você de novo; descobriria seus números favoritos, e cores, e frutas, tudo de novo. Reaprenderia libras e comemoraria seus inúmeros aniversários, acendendo velas cujo vento se opõe, e lhe assistiria comer bolo. Planejaria nossa noite de jogos com você de novo, e assistiria sua apresentação de vida em datashow, e você a minha, como queria. Faria mapas do tesouro com você de novo, e te levaria no meu lugar secreto, fosse em sonho ou realidade, de novo. Trocaríamos beijos inocentes e abraços apertados, e você me abandonaria de novo, como seu pai fez contigo e minha mãe comigo, eu sofreria de novo. Pensaria em todas as maçãs que te levei, e choraria, de novo e de novo, até meus olhos desbotarem e ficarem castanhos como os seus.
De alguma forma, sua significância pra mim é tanta que eu me permitiria passar por tudo isso de novo, só para redescobrir que você existe, pequena cientista.