se sentiu tão bonita quando alguns fios de cabelo lhe roçaram o rosto, escapando do coque feito às pressas. o vento faziam com que eles dançassem e essa dança provocava ligeiras cócegas.
seu coração era mesmo um oceano e o livro que apoiava no colo fazia-o transbordar.
estava no ônibus, sentada próxima à janela e completamente absorta na estória que se desenrolava. as folhas do livro, amarelas, eram calorosas, mornas, e aqueciam seu coração.
num ímpeto, entretanto, parou de ler. apesar da narrativa ser tão bela, ela não resistia às cores do mundo, e teve de observar pela janela as árvores do inverno, fechando o livro mas mantendo o dedo entre as páginas que havia acabado de ler.
já havia reparado, há muito, que as folhas das árvores estavam aos poucos mudando de cor e caindo, uma por uma. lentamente, formavam um tapete cheiroso e ressequido nas ruas de cimento. sabia que folhas e flores arrancadas não duravam; então pensou que, quando descesse do ônibus, pegaria uma que já estivesse posando no chão.
não deixava de ser uma demonstração de ternura...
"que espetáculo bonito, quase um turbilhão"...
com muita gratidão, ela se maravilhava. era tudo tão poético. era tão bonito o privilégio dado aos olhos de enxergar, a bênção de sentir os aromas e também de sentir os pelos se eriçarem com a brisa gélida.
a menina começou a olhar em volta, sua feminilidade aflorando, ela mesma se transformando numa flor por dentro. de repente sentiu que era capaz de abençoar todos e qualquer um que olhasse para ela, porque seus olhos e seu sorriso desejavam tanto, mas tanto, que todas as pessoas do mundo tivessem um bom dia, um bom dia de verdade, que poderia canalizar essa energia doce e convertê-la em sorte, em outros sorrisos, em pensamentos felizes.
meu Deus, que Sol lindo se postava lá fora, com suas pequenas explosões originando os raios que esquentavam a pele da menina, anos e anos e anos-luz à frente.
lembrou-se que a luz solar precisava de oito minutos (no tempo do relógio humano) para atingir a Terra, o que significava que, se o Sol de repente morresse, demoraríamos 28.800 segundos para percebermos a escuridão total.
poderíamos nós estar vivendo esses últimos minutos agora e nem saberíamos. poderíamos, a cada segundo, estarmos nos aproximando mais e mais da plenitude, da morte física, mas continuaríamos executando as tarefas que nos foram impostas (pelos outros ou por nós mesmos), tarefas que quase sempre não realizamos com prazer, apenas com idealizações sobre o futuro e com a falsa necessidade do dinheiro em mente.
"esses podem ser os meus últimos minutos", ela pensou.
continuou olhando pela janela. as pessoas pareciam tão apressadas...
mas um malabarista fazia suas acrobacias no sinal e ria.
os pombos caçavam migalhas de comida no chão. uns pareciam satisfeitos e repousavam austeros nos fios dos postes.
algumas crianças atravessavam o sinal correndo, lutando mentalmente contra o sinal que já piscava vermelho pra elas. não pareciam carregar consigo a necessidade de correr, mas talvez fosse divertido despejar um pouco de adrenalina no sangue.
também não muito distante, apenas 3 pares de bancos à frente no ônibus no qual a menina estava, um casal conversava, seus rostos a poucos centímetros de distância, as bocas insuficientes para matar a sede que ambos tinham, e sorrisos, ah, sorrisos, como a menina amava sorrisos, queria poder registrá-los todos, colecioná-los.
(mas na verdade, já o fazia...)
então ela lembrou que tinha um bombom de chocolate na mochila, pegou e degustou lentamente, aquele prazer que só o chocolate é capaz de proporcionar.
"esses podem ser os meus últimos minutos", ela pensou.
projetou o rosto pra fora da janela, só pra sentir o vento mais intensamente. depois, abriu o livro na página marcada e continuou a ler.