O dia terminou. Em uma conversa informal com um motorista de aplicativo, de volta à casa. Aos tropeços, abriu o portão e deixou cair o molho de chaves junto de alguns papéis. A cabeça ecoava todos os gritos, murmúrios, muchochos e conversas que se espalharam pelos corredores da escola — e enfim, o retorno. No meio do caminho, a ideia: e por que não um traguinho, então? O corpo relaxava, a cabeça produzia barulho mais devagar. Durante o aquecer da xícara, do café que ansiava beber desmedidamente, deixou-se cair no sofá, as pernas escorregando pelo couro amarelo, gasto e antigo. O livro, intocado desde a compra, brilhava sobre o braço da poltrona. Decidi que seria bom dar continuidade. Já no entorpecer da maconha fresca, veio a vontade de ouvir a canção recém-lançada Parachute. E logo dançava no meio da sala rodeada de plantas, os braços chacoalhando, o quadril aquecido pelo movimento sensível do corpo humano. Uma dança milagrosa, pulsando sentidos e memórias dos instantes mais singelos da vida. Uma dança tão lenta que o coração parecia desacelerar para acertar o compasso. Uma dança tão frenética e estonteante quanto o susto que, horas antes, havia paralisado o corpo. Ao ouvir o ronco de um motor de carro. O mesmo ronco do motor dos pais ao voltar sem aviso. Perto o bastante para surpreender, esgueirar os olhos pela janela, tentar adivinhar o que acontece atrás de uma realidade que nunca compreenderam. Todas as portas interditadas. Justo no dia em que ouvi você dizer: “sim, você era assim mesmo” — e ver a máscara cair naquela cozinha de paredes ensebadas, o óleo do tempo grudado como o tempo gasto para moldar esse trauma. Trauma de reconhecer-se também em suas maldades, em suas outras faces. No meio da divagação, lembrei da ausência de cortinas em minha casa. E da janela aberta demais para os olhos alheios, fechada demais para o meu sossego. Com o corpo ainda paralisado, ouvi de novo: o ronco. o motor. numa única direção. Pensei: que louco seria permanecer dançando quando chegassem? O carro estacionado, vocês acenando repetidas vezes, na ponta dos pés, o corpo a se chacoalhar. E eu, ainda no fluxo, o sorriso se abrindo na face de quem experimenta. Daria de cara com vocês. E deixaria-me chacoalhar pela sala, o corpo deliciando-se nas alamedas diversas dos sentidos. Vocês, a gritar para que eu ouvisse. E, da janela transparente para dentro, dançava o corpo faminto de expressão, de libertar o ego, de sugar o mundo das ideias, de consumir-se em todos os universos. Daria de cara com vocês. Os gritos ao meu nome, as batidas na lataria, o portão a ranger em alarde. Vocês, agarrados ao ferro, em êxtase dissonante. Meus pais. Sempre do portão para fora quando o assunto é a minha liberdade. Lésbica. Exótica.













