Certa noite, como agora, eu me meti com alguns versos de fernanda young quando a mesma assim escreveu que "saudade deveria sempre render um verso, perfeito, visto que para nada serve."
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Certa noite, como agora, eu me meti com alguns versos de fernanda young quando a mesma assim escreveu que "saudade deveria sempre render um verso, perfeito, visto que para nada serve."
Será que, ainda hoje, é possível sentar-se no chão de algum lugar da sua própria casa e teatralizar cenários de um futuro acometido na certeza da sua existência, porque, esse sim, é de que temos certeza. Mas o futuro, esse, é quanto tempo depois do que eu sinto agora?
Yorimil Um homem atento à direção. Latino-americano, com certeza. Após buscar o passageiro — neste caso, eu — embarcamos. Destino: vinte e três minutos contados. Do trabalho à casa, Yorimil me conduz. Percebo o cuidado no gesto. Ele sobe os vidros, repentinamente, quando o carro deixa o asfalto e cai na terra batida. Pensei: vai ligar o ar-condicionado. Não. Ao retornar ao asfalto, Yorimil baixa os vidros e deixa o ar encontrar os cabelos dele e os meus. Eu percebo: um trevo de quatro folhas pendurado no retrovisor. A decoração — a bandeira dos Estados Unidos da América. Um latino discriminado ajoelhado aos pés de uma nação, buscando no símbolo a sorte, encontrando-o em outra pátria. Brasileira. Se essa for a questão: por quê, Yorimil? Percebo o cuidado no gesto. Novamente. Outra estrada de chão. Vidros sobem. Mas a rua é disforme — e ele não vê problema nisso. O carro é confortável. Tenho vontade de iniciar uma pesquisa na área da linguística. Nunca tive perfil. Coisa de aquariana? Signo é uma besteira. Mas e se for isso? Linguística? Sociolinguística? Tenho vontade de ligar para Yorimil, mesmo que, no percurso, não tenhamos trocado mais que: “boa tarde”, “com licença”, “obrigado”. Tenho vontade de perguntar se ele responderia a uma pesquisa — para ajudar meus alunos estrangeiros. O Brasil tem potencial. As crianças no Brasil podem brilhar à sua maneira, com suas particularidades, com a salvaguarda de sua própria origem e cultura. Yorimil, podemos costurar nossas diferenças e construir um tecido maior. Que perguntas eu ousaria fazer? Transformar a corrida em campo de pesquisa — é possível? Que perguntas poderiam nascer no banco de trás? Seria possível colher respostas entre um semáforo e outro? Uberização — o conhecimento em trânsito.
Mas facilitar renda — isso eu não sei se facilita. Yorimil, a corrida acabou. Mas o que você me trouxe de volta, não pode mais ser desembarcado de mim.
Entre costuras - I. Espartilho (on Wattpad) https://www.wattpad.com/1614023918-entre-costuras-i-espartilho?utm_source=web&utm_medium=tumblr&utm_content=share_reading&wp_uname=helowisa Quando uma cliente misteriosa entra na pequena loja de tecidos da Sra. Elena, o que deveria ser apenas mais uma venda se transformara em um encontro estranho e fascinante. Entre tules, espartilhos e silêncios longos demais, surgira uma conversa inesperada sobre história, desejo, liberdade e as formas sutis como o mundo molda o corpo das mulheres. Mas algumas presenças deixam marcas. Depois que ela vai embora, Elena percebe que aquele encontro aparentemente comum despertou memórias que estavam guardadas há muito tempo - lembranças ligadas a um passado que ela raramente revisita, a um chaveiro que nunca conseguiu abandonar, e a perguntas que talvez seja perigoso demais fazer agora. Às vezes, tudo começa com algo simples. Uma visita. Um olhar demorado. Ou um pedaço de tule cor mogno. Algumas histórias começam muito antes de percebermos que estamos dentro delas.
CAP. 1) "Um passo após o outro, num claqueado que ecoava pelo chão construído nas sobras de diferentes tipos de granito, ela vinha. Eu podia vê-la pela vitrine. Não havia quem não olhasse para ela, ainda mais durante a chuva torrencial que desaguava o céu inteiro porta afora.
Com uma exímia delicadeza, a porta se abriu para ela e fechou.
— Boa tarde — ela disse calmamente, tocando os tecidos com a ponta dos dedos da mão esquerda, devagar, como se ponderando sobre alguma coisa — A senhorita teria... como é mesmo o nome disso? Para colocar sobre uma peça do tipo saia colada ao corpo... — Ela deslizou até o balcão e se encostou devagar, os olhos passeando por ele antes de se fixarem em meu rosto.
— Eu… eu acredito que… quer dizer… talvez você esteja se referindo à.... acho que tenho aqui... é... se você se refere à parte superior... se entendi corretamente... você fala de... um espartilho?
A mulher sorriu, assentindo devagar com a cabeça, os olhos firmes e fixados em algumas itens e botões atrás de mim. Corria lentamente os olhos por algumas das inúmeras opções que pudessem ser utilizadas para criar e recriar um infinito de modelos.
Depois de longos minutos, de uma torturante espera, ela suspirou passando a mão de dedos longos pela lateral de seu proprio busto e peito com uma expressão imaginativa como quem prova das suas ideias em si mesma.
— Você sabe... — recomeçou — de onde surgiram os espartilhos? — Encarou-me novamente pelo que foram, talvez, 20 segundores inteiros. — e sorriu.
Eu não fui capaz de dizer coisa alguma, e seu sorriso lento, quase um desafio silencioso, também satisfeito como quem já previa minha reação, voltou a falar iniciando sua explicação.
— Historicamente, o espartilho tem sido uma das peças de vestuário mais controversas e significativas, representando um abismo entre o patriarcado e o feminismo — ela parou abruptamente para olhar alguns tecidos de tule coloridos — esses tecidos são tão, tão bonitos... — suspirou.
— Você menciona algo entre controverso e significativo... o que você quer dizer com isso? — questiono-a realmente interessada na conversa.
— Falar sobre o espartilho, é pensar que, se pensarmos no papel da mulher na sociedade, uma única peça de roupa pode ter tanto beneficiado quanto limitado as mulheres. Quanto às limitações... veja... foi como um símbolo de repressão patriarcal, mas... se pensarmos no benefício foi como uma forma de expressão estética ou empoderamento. — novamente passa a sorrir. Um sorriso indecifrável, impossível de ler.
O telefone em seu bolso, começa a tocar. Ela o alcança, encara a tela, olha para o chão, batuca os dedos no balcão, olha novamente para os tules, para a tela do celular, mas não o atende, espera que a ligação pare. Digita algo concentrada. Eu a interrompo.
— A senhora gostaria de levar algum item? — pergunto ansiosa.
— Apenas um pedaço desse tule marrom mogno, se puder. — pede e vira as costas para continuar em suas mensagens.
Eu corto o pedaço, coloco na sacola. Ela retira ansiosa o valor correspondente da carteira, em dinheiro. Coisa que não se vê.
— Preciso ir, obrigada. Daqui uns dias voltarei — responde a sorrir baixo, seu olhar firme, dá as costas e caminha firme para fora.
O ambiente fica silencioso novamente, pronto para que eu volte a ouvir a chuva a desmanchar o céu lá fora. Olho as vitrines, os moldes, os tecidos, as réguas, os botões, os laços, os enfeites, e todos os outros itens infinitos. E imagino essa mulher novamente. Imagino uma madrugada inteira de músicas e recortes, costuras, moldes, sorrisos, linhas, fios, toques físicos, sedas, tules...
— Eu devia imaginar que isso é simplesmente uma invenção maluca da minha cabeça em seus cinquenta e seis anos de existência. Isso é uma loja, e ela só veio comprar. — falo alto para mim mesma.
Então o telefone toca. "
JAGANNATHAN, Shreya; DAS, Anaisha.The history behind corsets: how a piece of clothing sparked controversy, criticism and empowerment. The Wildcat Tribune, 1 fev. 2022. Disponível em: https://thewildcattribune.com/13604/ae/the-history-behind-corsets-how-a-piece-of-clothing-sparked-controversy-criticism-and-empowerment/. Acesso em: 28 de fevereiro, 2026.
Costureira, alfaiate, modista, bordadeira, estilista, modelista, aprendiz, cliente, fornecedor, figurinista, passadeira, agulha, alfinete, dedal, tesoura, carretel, bobina, bastidor, fita, fita-métrica, giz, régua, molde, papel, ferro, tábua, manequim, máquina, overloque, galoneira, cortador, linha, zíper, botão, colchete, velcro, elástico, renda, entretela, forro, ombreira, paetê, miçanga, aplicação, viés, algodão, linho, seda, cetim, veludo, jeans, tule, chiffon, crepe, malha, tricoline, organza, tafetá, lã, gabardine, sarja, musseline, costura, alinhavo, bainha, barra, franzido, bordado, chuleado, arremate, ajuste, reforma, remendo, modelagem, corte, medida, busto, cintura, quadril, ombro, manga, punho, gola, colarinho, decote, corpete, saia, pala, prega, fenda, recorte, ateliê, vitrine, arara, provador, espelho, balcão, mostruário, rolo, retalho, gaveta, aviamentos, mesa, luminária, pedal, tecido, prova, acabamento, detalhe, criação, coleção, encomenda, vestido, blusa, camisa, calça, paletó, terno, saia-lápis, vestido-de-noiva, fantasia, uniforme, bolso, botão-de-pressão, caseado, franzir, desmanchar, pregar, cortar, medir, marcar, passar, costurar, ajustar, reforçar, customizar, estilizar, drapear, plissar, engomar, tingir, bordar, alinhavar, provar.
Um passo após o outro, num claqueado que ecoava pelo chão construído nas sobras de diferentes tipos de granito, ela vinha. Eu podia vê-la pela vitrine. Não havia quem não olhasse para ela, ainda mais durante a torrencial chuva que desabava loja afora. (continua)
Mark Horst, American artist. oil on canvas
O período do dia normalmente é dividido em três: manhã, tarde e noite. Haverá ainda, quem diga que existam sub-períodos, isto é o mesmo que "fui ao mercado essa manhãzinha" que significa "fui cedo, mas antes das 09 horas. Serão então, na realidade, subperíodos? Veja, digo isso por uma grande razão de observação, inquietude e curiosidade. Veja bem, ouça o que direi. Há quem diga que o entardecer começa às 18 horas. Sentei-me na cadeira a fim de pensar sobre isso. Das 17 às 18 horas, eu vi o céu mudar. De raios de sol, ao barulho calmo do piar dos pássaros, as folhas remexendo no ar de todos os sentidos, do vento à levar embora o dia. Lembro de sentir o piar acelerar, e uma ventania acelerar no réu rasgado de tons finos de azul e cinza. Eu me pego pensando que, normalmente, não tenho tempo para analisar esses instantes. Quem poderia? Talvez o marimbundo, o instrutor de trilha, o professor de biologia. E indígenas. O profissional amante da floresta. Sempre penso em sua existência quando penso em resguardar o que me é de mais humano. Para restaurar a vida, é preciso olhar para ela. As vezes penso que indigenas podem conceber uma divisão de mais periodos em um dia. Pois a cada hora, o dia vai deixando de ser dia. A gente vai deixando de ser vida. O que resta nesse fato? É que o dia vai sim, voltar a nascer.
!!!!!!!!!!!!!
O dia terminou. Em uma conversa informal com um motorista de aplicativo, de volta à casa. Aos tropeços, abriu o portão e deixou cair o molho de chaves junto de alguns papéis. A cabeça ecoava todos os gritos, murmúrios, muchochos e conversas que se espalharam pelos corredores da escola — e enfim, o retorno. No meio do caminho, a ideia: e por que não um traguinho, então? O corpo relaxava, a cabeça produzia barulho mais devagar. Durante o aquecer da xícara, do café que ansiava beber desmedidamente, deixou-se cair no sofá, as pernas escorregando pelo couro amarelo, gasto e antigo. O livro, intocado desde a compra, brilhava sobre o braço da poltrona. Decidi que seria bom dar continuidade. Já no entorpecer da maconha fresca, veio a vontade de ouvir a canção recém-lançada Parachute. E logo dançava no meio da sala rodeada de plantas, os braços chacoalhando, o quadril aquecido pelo movimento sensível do corpo humano. Uma dança milagrosa, pulsando sentidos e memórias dos instantes mais singelos da vida. Uma dança tão lenta que o coração parecia desacelerar para acertar o compasso. Uma dança tão frenética e estonteante quanto o susto que, horas antes, havia paralisado o corpo. Ao ouvir o ronco de um motor de carro. O mesmo ronco do motor dos pais ao voltar sem aviso. Perto o bastante para surpreender, esgueirar os olhos pela janela, tentar adivinhar o que acontece atrás de uma realidade que nunca compreenderam. Todas as portas interditadas. Justo no dia em que ouvi você dizer: “sim, você era assim mesmo” — e ver a máscara cair naquela cozinha de paredes ensebadas, o óleo do tempo grudado como o tempo gasto para moldar esse trauma. Trauma de reconhecer-se também em suas maldades, em suas outras faces. No meio da divagação, lembrei da ausência de cortinas em minha casa. E da janela aberta demais para os olhos alheios, fechada demais para o meu sossego. Com o corpo ainda paralisado, ouvi de novo: o ronco. o motor. numa única direção. Pensei: que louco seria permanecer dançando quando chegassem? O carro estacionado, vocês acenando repetidas vezes, na ponta dos pés, o corpo a se chacoalhar. E eu, ainda no fluxo, o sorriso se abrindo na face de quem experimenta. Daria de cara com vocês. E deixaria-me chacoalhar pela sala, o corpo deliciando-se nas alamedas diversas dos sentidos. Vocês, a gritar para que eu ouvisse. E, da janela transparente para dentro, dançava o corpo faminto de expressão, de libertar o ego, de sugar o mundo das ideias, de consumir-se em todos os universos. Daria de cara com vocês. Os gritos ao meu nome, as batidas na lataria, o portão a ranger em alarde. Vocês, agarrados ao ferro, em êxtase dissonante. Meus pais. Sempre do portão para fora quando o assunto é a minha liberdade. Lésbica. Exótica.
O dia terminou. Em uma conversa informal, com um motorista de aplicativo, de volta à casa. Aos tropeços abriu o portão, e ante a entrada a derrubar o molho de chaves e alguns papéis. A cabeça ecoando todos os gritos, murmuros, muchochos, e conversas de todo tipo que tinham acontecido pelos corredores da escola, e enfim, de volta à casa. E no meio do caminho, a ideia… e por quê não um traguinho, então? Relaxando os músculos, a cabeça à produzir barulho mais lentamente. Durante o esquentar da xícara, do café que ansiava desmedidamente beber, depois de deixar-se cair no sofá, as pernas escorregando pelo couro amarelo gasto antigo. O livro que, intocável desde sua compra, pairava brilhante sobre o braço. Decidi que seria bom dar continuidade. Já no entorpecer da maconha fresca. É que então, logo então, a tomar-se de si pela vontade de ouvir a canção recém lançada “parachute”, vagou uma dança no meio da sala rodeada de plantas verdes, com os braços a chacoalhar como o quadril que se esquentava nas curvas produzidas pelas ações sensíveis do corpo humano. Numa dança milagrosa, a pulsar sentidos e memórias dos pequenos instantes mais singelos da vida. Numa dança tão lerda, de fazer o coração desacelerar para acertar as batidas corporais à sintonia dessa obra de arte que os ouvidos foram capazes de sintetizar. Numa dança tão frenética e estonteante. Que horas antes havia paralizado o corpo de uma única e seca vez. Ao ouvir o ronco de um motor de carros. Igual ao ronco do motor dos pais após o retorno sem aviso. De na verdade, estar perto o bastante para surpreender, esgueirar os olhos pela janela, tentar ver o que acontece por trás de uma realidade que nunca compreenderam. Todas as portas interditadas. E interditadas bem no dia em que ouvi você dizer que “sim, você era assim mesmo.”, e ver a sua máscara cair naquela cozinha de paredes ensebadas com óleo do tempo, que é o mesmo tempo que precisaram para desenvolver esse trauma. Trauma de reconhecer-se também em suas maldades, em suas outras facetas. No meio da divagação, lembrei que me aflige a ausência de cortinas em minha casa. E que me desespera a janela com acesso direto à rua, aberta demais para os olhos alheios e fechada demais para o meu próprio sossego. E com o corpo ainda paralisado é o que novamente ouço. É o que ouço. O ronco. E o motor. Numa única direção. Penso: que louco seria, permanecer dançando quando chegarem? O carro estacionado, vocês acenando repetidas vezes, na ponta dos pés, o corpo a se chacoalhar. E eu, ainda no fluxo, com um sorriso abrindo a face de quem experimenta. E eu daria de cara com vocês. E deixaria-me a chacoalhar pela sala, o corpo deliciando-se nas alamedas mais diversas dos sentidos. E vocês, a gritar para que o ouvissem. E claro, da janela transparente a dentro, dançava o corpo faminto pelo momento de maior expressão humana, da libertação de seus egos, da vontade de sugar o mundo das ideias, de consumir-se em todos os universos, de experimentar verdadeiramente das maiores situações que se possa viver. E daria de cara com vocês. Os gritos ao meu nome, a batidas na lataria do carro, o portão a ranger em alarde. Vocês, agarrados ao ferro, em êxtase dissonante. Meus pais. Sempre do portão para fora quando o assunto é a minha liberdade. Lésbica. Exótica.
#terceiro
O dia terminou. Em uma conversa informal, com um motorista de aplicativo, de volta à casa. Aos tropeços abriu o portão, e ante a entrada a derrubar o molho de chaves e alguns papéis. A cabeça ecoando todos os gritos, murmuros, muchochos, e conversas de todo tipo pelos corredores da escola, enfim, de volta à casa. E no meio do caminho, a ideia... e por quê não um traguinho, então? Relaxando os músculos, a cabeça à produzir barulho mais lentamente. Durante o esquentar da xícara, do café que ansiava desmedidamente beber, depois de deixar-se cair no sofá, as pernas escorregando pelo couro amarelo gasto antigo. O livro que, intocável desde sua compra, pairava brilhante sobre o braço. Decidi que seria bom dar continuidade. Já no entorpecer da maconha fresca. É que então, logo então, a tomar-se de si pela vontade de ouvir a canção recém lançada "parachute", vagou uma dança no meio da sala rodeada de plantas verdes, com os braços a chacoalhar como o quadril que se esquentava nas curvas produzidas pelas ações sensíveis do corpo humano. Numa dança milagrosa, a pulsar sentidos e memórias dos pequenos instantes mais singelos da vida. Numa dança tão lerda, de fazer o coração desacelerar. As batidas do corpo buscavam a sintonia dessa obra de arte que os ouvidos eram capazes de sintetizar. Numa dança tão frenética, estonteante. Mas horas antes o corpo havia paralisado de súbito. O ronco do motor. Igual ao ronco dos pais, quando voltavam sem aviso. Perto o bastante para surpreender, esgueirar os olhos pela janela, tentar ver o que acontece por trás de uma realidade que nunca compreenderam. Todas as portas interditadas. E foi bem no dia em que ouvi sua máscara cair naquela cozinha de óleos grudados e memórias congeladas. No meio da divagação, lembrei da ausência de cortinas. A janela escancarada, aberta à rua. O medo do súbito. E de novo: o ronco, o motor, sempre numa única direção. Penso: que louco seria permanecer dançando quando chegassem? O carro estacionado, vocês acenando repetidas vezes, na ponta dos pés, o corpo a se chacoalhar. E eu, ainda no fluxo, com um sorriso abrindo a face de quem experimenta. E daria de cara com vocês. Os gritos do meu nome, a batida nas latarias do carro, o portão a ranger em alarde. Vocês, agarrados ao ferro, em êxtase dissonante. Meus pais. Sempre do portão para fora quando o assunto é a minha liberdade. Lésbica. Exótica.
#segundo
O dia terminou. Em uma conversa informal, com um motorista de aplicativo, de volta à casa. Aos tropeços abriu o portão, e ante a entrada a derrubar o molho de chaves e alguns papéis. A cabeça ecoando todos os gritos, murmuros, muchochos, e conversas de todo tipo pelos corredores da escola, enfim, de volta à casa. E no meio do caminho, a ideia... e por quê não um traguinho, então? Relaxando os músculos, a cabeça à produzir barulho mais lentamente. Durante o esquentar da xícara, do café que ansiava desmedidamente beber, depois de deixar-se cair no sofá, as pernas escorregando pelo couro amarelo gasto antigo. O livro que, intocável desde sua compra, pairava brilhante sobre o braço. Decidi que seria bom dar continuidade. Já no entorpecer da maconha fresca. É que então, logo então, a tomar-se de si pela vontade de ouvir a canção recém lançada "parachute", vagou uma dança no meio da sala rodeada de plantas verdes, com os braços a chacoalhar como o quadril que se esquentava nas curvas produzidas pelas ações sensíveis do corpo humano. Numa dança milagrosa, a pulsar sentidos e memórias dos pequenos instantes mais singelos da vida. Numa dança tão lerda, de fazer o coração desacelarar para acertar as batidas corporais à sintonia dessa obra de arte que os ouvidos foram capazes de sintetizar. Numa dança tão frenética e estonteante. Que horas antes havia paralizado o corpo de uma unica e seca vez. Ao ouvir o ronco do motor. Igual ao ronco do motor dos pais após o retorno sem aviso. De na verdade estar perto o suficiente para chegar de supetão e esgueirar os olhos para dentro da casa e para tentar ver o que acontece por trás de uma realidade que eles não sabem qual é. Pois não lhe sobraram acessos, todas as portas foram interditadas. Bem no dia em que ouvi a sua máscara cair naquela cozinha com óleos grudando momentos congelados do passado. No meio da divagação, lembrei que me aflige a ausência de cortinas, e me desespera a janela com acesso direto à rua. O chegar de súbito. E é o que ouço. O ronco. E o motor. Numa única direção. Penso, que louco seria, permanecer dançando quando chegarem? E ao estacionar do carro, ficariam a acenar repetidas vezes, e até ficariam na ponta do pé, com o corpo a chacoalhar-se. E a dança no seguir de seu fluxo, se intensificando agora com um sorriso a surgir na fase de quem a experiencia. E eu daria de cara com vocês. Chacoalhando-se ainda mais, começando até a suscitar um ou dois gritos de meu nome. E claro, da janela transparente a dentro, dançava o corpo faminto pelo momento de maior expressão humana, da libertação de seus egos, da vontade de sugar o mundo das ideias, de consumir-se em todos os universos, de experimentar verdadeiramente das maiores situações que se possa viver. E eu continuaria a dar de cara com vocês. Agora a gritarem desesperados portão a fora, de baterem nas latarias do carro para que o barulho pudesse fazê-los de alarde para o convite de entrarem. E deixaram-se loucamente, a agarrar o portão e, em êxtase frenético, fazê-lo grunhir e riar com estrondosos e dissonantes barulhos. Meus pais. Do portão para fora quando o assunto em questão for a minha liberdade. Lésbica. Exótica.
#primeiro
The Hαnged Man
Commissioned illustration for a tarot card deck.
Prints here!
De todas as coisas que demorei a entender na vida, essa foi uma. Nada é maior do que nossos desejos.
Se tua voz paira em mim... porque é a única possibilidade que eu tenho para olhar em seus olhos. É quando fala para mim. E eu te olho profundamente, mas nem sempre aos olhos. Porque são perigosos. Se miro em teus olhos, olho por um segundo. Rápido, gélido. E alterno entre os ombros, a roupa, a parede, o ambiente. Olho e não olho. Tenho medo de te olhar, e não te conheço. Só sei que disse ser bruxa. Terás feito alguma bruxaria a cair sobre mim? Dize-me: foste tu que me enredaste ou fui eu que me ofereci ao feitiço dos teus olhos?