static screams~
Mal haviam se passado duas semanas desde a fatídica noite na fábrica “abandonada” e Tarquinn sentia que finalmente as coisas voltavam à sua normalidade, ao menos no que dizia respeito à sua rotina diária. Era um alívio ter se livrado da parte mais cansativa, que consistira em depoimentos e explicações sem fim - oficiais e extra-oficiais - e agora podia enfim respirar com o mínimo de paz por não ter acabado sendo acusado de alguma forma. No entanto, o assunto aparentemente estava longe de terminar e agora o policial encontrava-se em mais uma cerimônia pomposa do Governo, na qual seu Comandante seria homenageado como um herói por ter enfrentado V diretamente. Tarquinn não procurara saber detalhes sobre a história porque estava farto de falar sobre os acontecimentos daquela noite, então desejava tão somente poder fugir da festa assim que possível, como sempre costumava fazer naquele tipo de evento. A única parte boa dos últimos dias, antes de toda a confusão na fábrica, fora o retorno de Karima, sua parceira policial que estivera ausente por algum tempo realizando uma missão de teor secreto. A parceria já caminhava para o oitavo mês e a mulher era a pessoa com quem Tarquinn mais gostara de trabalhar até então; o fato de ter estado investigando-a em segredo a mando do Chanceler Tnofal era a única parte que o fazia sentir-se mal em relação a ela, ainda mais agora que o homem fora morto e o policial chegara a desconfiar de algum tipo de envolvimento de Karima no acontecido, mas ele realmente estava tentando deixar todo aquele assunto de lado ao menos por um momento, de modo que a levara à festa como sua acompanhante. Ela, como sempre deslumbrante, atraía olhares pelo salão e conseguia deixar o ambiente mais leve e divertido, alegrar o parceiro nos piores dias e descontrair qualquer situação... mas bastaram alguns minutos, somente alguns meros minutos, para todo aquele encantamento se acabar para sempre.
Quisera Tarquinn saber da desgraça que estava prestes a acontecer, não teria desgrudado dela por um segundo sequer, não a teria permitido retirar-se para ir ao banheiro, mas sim lhe puxado na direção oposta para mais uma dança, mais uma taça de champanhe... a qual o policial segurava para ela no salão, a alguma distância do corredor para os banheiros, e que agora começava a aquecer em sua mão tamanha a demora da moça. Já pensava em fazer alguma piada quando retornasse, sobre ela ter passado mal com todo aquele champanhe ou ter tido dificuldade em lidar com todo aquele tecido do vestido longo que usava, quando um grito estridente vindo de lá lhe chamou a atenção. Sempre alerta mesmo à paisana, Tarquinn correu na direção do banheiro feminino e, sem pensar, irrompeu porta adentro; a cena que se desenrolava diante de seus olhos não poderia tê-lo deixado mais chocado: @xtrangemillie e Elsie, conhecidas filhas de Chanceleres, encontravam-se aparentemente estarrecidas e próximas a uma mulher desfalecida no chão perto das cabines; a pergunta sobre o que estava acontecendo ficou presa em sua garganta e alguns passos bastaram para que seu pânico aumentasse quando pôde ver que tratava-se de sua adorada parceira. “KARIMA!” A taça voou de suas mãos rumo ao chão tão rápido quanto ele próprio ajoelhou-se ao lado da moça; os olhos cerrados na expressão aparentemente tranquila não podiam esclarecer muita coisa, mas as marcas vermelhas na pele de seu pescoço fizeram o desespero do ciborgue se estabelecer de vez. “Não. Não não não, Kari... Kari, fala comigo!” Inclinando-se sobre ela, tentou ouvir e sentir se a mulher ainda exalava alguma respiração, confirmando a falta de pulso ao posicionar dois dedos contra o pescoço ferido. O coração do homem, por sua vez, continuava batendo e de maneira enlouquecida à medida que começava a perceber a real situação.
As mãos trêmulas ajeitaram o corpo alheio e posicionaram-se sobre seu peito, iniciando as compressões de reanimação cardiopulmonar, enquanto os olhos involuntariamente já se encontravam marejados. “SOCORRO! Vão procurar ajuda!” Gritou para as duas moças paradas, tão nervoso que mal notara que mais pessoas haviam ouvido o grito e ido até lá verificar; tampouco confirmou se qualquer uma obedecera a seu pedido desesperado. Prosseguiu com a manobra, alternando a pressão no tórax com a respiração boca a boca, mas já se passara o que parecia uma eternidade e Karima não reagia. E nem reagiria. As lágrimas escorriam pelo rosto do policial e pingavam silenciosamente sobre o dela conforme percebia isso, enquanto os protestos enérgicos pedindo para que a moça lhe respondesse iam virando um murmúrio embargado que mal deixava os lábios. Finalmente, Tarquinn desistiu, limitando-se a sentar sem forças no chão; tomando a parceira morta nos braços, puxou-a parcialmente para o colo, abraçando-a automaticamente e sentindo o corpo alheio ainda aquecido, as lágrimas rolando livremente em meio a um choro que agora se fazia ouvir. “Não...Kari... o que aconteceu...o que aconteceu?!” A última coisa que lhe passava pela cabeça no momento, era o fato de estar destruindo uma cena de crime, e tampouco pensou em vasculhar as cabines a fim de encontrar algum culpado. A única coisa que sabia agora era que Karima, tão linda, alegre e sorridente há quinze minutos atrás, estava agora morta em seus braços.

















