VOCÊ ACORDA MORTO
«Há uma pichação no cemitério da Cardeal Arcoverde pela qual guardo muito espanto. É bruta e ruidosa, são dois versos, um grito: acorda morto! Gosto porque não tem vírgula, só ponto de exclamação (mas o gesto verdadeiro não precisa de ponto de exclamação…!). Leio esse mandamento todo dia de manhã: acordamorto, acordamorto, acordamôr; acorda, amor; acorda, morto; acorda morto. Gosto porque é um chamamento à ressurreição e gosto porque, sem a vírgula, parece estar falando não com os mortos, mas com os passantes, os que espiam rapidamente pela janela do ônibus a caminho do trabalho: Você acorda morto, Você está acordado, mas não está vivo. Gosto dessa involuntária maldição ao trabalho sem alegria, trampo de mundo caduco, serviço.»
— Victor Heringer, Vida Desinteressante.














