Lucia Dovičáková — Dreaming About Death on Pink Sofa (oil, canvas, 2022)
cherry valley forever
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@lilicacss
Lucia Dovičáková — Dreaming About Death on Pink Sofa (oil, canvas, 2022)
Francisco Mallmann, no livro “Haverá festa com o que restar”. Urutau, 2018 https://www.instagram.com/p/CG-y_HspVQ3/?igshid=1menkdnv86xxm
se eu te soubesse indo embora eu teria ido até a esquina e olhado para trás só para ter essa imagem antes de você
Louise Bourgeois
I AM A LOT OF THINGS BUT HAVE NO TIME TO BE THEM, 2020
@ritacomedida
Louise Bourgeois, Structures of Existence – The Cells, Guggenheim Bilbao
Louise Bourgeois, The Hidden Past, 2004 Hauser & Wirth
ARGILA
ARTEZÃOS negligentes esqueceram
em nós leves resquícios de imatéria:
mas essa frágil parte que se esquiva
da terrena prisão e tenta o voo
num arremedo de pássaro cego,
e que sem asas corta um outro espaço
tingido pelas cores dos enigmas,
logo retorna ao ver o seu impulso
anular-se ante a face do mistério.
Nestes regressos, triste se agasalha
entre os desvãos da argila e nos convence
de que estamos grotescamente fixos
no chão: berço, morada, e nosso além.
MELLO, Thiago de. Vento Geral. Poesia 1951-1959. Rio de Janeiro.
Body Sculpture, Photo by Hans Breder, 1972
mapas patagônicos
via pollicoisa
O que eu sei
Sei poucas coisas sei que ler é uma coreografia que concentrar-se é distrair-se sei que primeiro se ama um nome sei que o que se ama no amor é o nome do amor sei poucas coisas esqueço rápido as coisas que sei sei que esquecer é musical sei que o que aprendi do mar não foi o mar que só a morte ensina o que ela ensina sei que é um mundo de medo de vizinhança de sono de animais de medo sei que as forças do convívio sobrevivem no tempo apagando-se porém sei que a desistência resiste que esperar é violento sei que a intimidade é o nome que se dá a uma infinita distância sei poucas coisas
Ana Martins Marques, in: O livro das semelhanças, ed. Companhia das Letras
Ainda é tarde para saber
Ainda há facas cruas demais para o corte
Ainda há música no intervalo entre as canções
Escuta: é música ainda
Ainda há cinzas por dizer
Ana Martins Marques, in: O livro das semelhanças, ed. Companhia das Letras
Ela apertou um botão e, de um gravador, começou a sair a voz de Nara Leão cantando These Foolishing Things: coisas-assim-me-lembram-você. Ela veio meio balançando ao som do violão e convidou-o para dançar, um pouco mais. Ele aceitou, só um pouquinho. Ele fechou os olhos, ela fechou os olhos. Ficaram rodando, olhos fechados. Muito tempo, rodando ali sem parar. Ele disse: ― Eu não vou me esquecer de você. Ela disse: ― Nem eu.
Mel & Girassóis, Caio Fernando Abreu
In: Os dragões não conhecem o paraíso (1988)
Essa minha secura essa falta de sentimento não tem ninguém que segure, vem de dentro. Vem da zona escura donde vem o que sinto. Sinto muito, sentir é muito lento. Parada cardíaca - Paulo Leminski
Existe o corpo,
o eixo dos joelhos, as dobras,
a força teatral dos membros, o gosto acre,
o extremo silêncio,
as mãos pendentes.
Existe o mundo,
as savanas e o iceberg,
as horas velozes, o falcão,
o crescimento secreto
das plantas, o repouso dos objetos
que envelhecem no uso, sem dor.
Existe o poema,
um dardo atirado a coisas mínimas,
à noite, às cicatrizes.
Um secreto amor os une,
as mãos na água, a memória do verão,
o poema ao sol.
Ana Martins Marques