Assisti a uma peça hoje que terminava com essa pergunta. Mentira, não terminava não, começava com ela. Ou começava com Elza? A peça. A cantora? Terminava com a mulher. Ou começava?
"E agora? A resposta já tá na pergunta. Agora. Eu sou o agora”.
Agora, eu estou na minha casa, completamente atravessada pela vida de Elza. Com um choro preso aqui dentro. Que já se soltou. Mas que continua aqui. E que sei que vai continuar mais um tanto de tempo, por mais que eu não o queira mais.
Não deve estar fazendo muito sentido pra você esse texto, né? Pra você que não viu a peça. Ou pra você que não assistiu a minha vida. Ou pra você. Mas é que esse texto é pra mim, sabe? Pra essas palavras sairem de dentro de mim. E levarem com elas o que precisa sair também. Mas eu quero que você leia. Eu quero te mostrar esse pedaço meu, ainda que despedaçado. Eu quero te dizer, te pedir… assista ao musical Elza. Não perde, tá? É sério.
Eu assisti, hoje, pela segunda vez. A primeira foi na sexta-feira antes do segundo turno das eleições. Foi foda. Foi forte. Igual hoje. Quinta-feira pós-eleições. Só que diferente. Só que, agora, não consigo dizer o quanto é politicamente foda essa peça, no sentido mais importante da palavra política. Só consigo dizer, pedir… assista ao musical Elza. Não perde, tá? É sério.
Agora, eu estou atravessada pela vida dessa mulher. E o choro que tá aqui dentro é egoísta. É sobre o meu umbigo. É meu. E eu saí da peça sem entender isso, sem entender que choro era esse que tava aqui entalado. Porque ela não diz de mim. A peça diz dela, delas, da gente. Não de mim. Cheguei em casa, ainda sem entender, ainda sem chorar. Subi pra tomar banho. Entrei no chuveiro. Chorei. Entendi.
“E o vento que fala nas folhas
Contando histórias que são de ninguém
Mas que são minhas e de você também"
Tem um pedaço da peça, um pedaço da vida da Elza, que foi de um grande amor. Bonito. Intenso. Difícil. De doação. De entrega. De dúvidas. De amor. E nada mais. E tudo mais. De um companheiro alcoólatra. De incompreensão. De desilusão. De devoção. De amor...
“Sei que aí dentro ainda mora um pedacinho de mim
Um grande amor não se acaba assim
Feito espumas ao vento
Não é coisa de momento, raiva passageira
Mania que dá e passa, feito brincadeira
O amor deixa marcas que não dá pra apagar"
Você já entrou no chuveiro pra lavar de si o choro que não se controla? Colocou no mais quente pro barulho alto do chuveiro não te deixar escutar os soluços? Abriu no máximo pras lágrimas se perderem no meio de tanta água? E desabou encolhida no chão gelado porque não adiantava nada, o choro ainda doía e ainda molhava mais que o chuveiro? Eu já. Algumas muitas vezes.
E, hoje, assim que senti a água do chuveiro molhando meu corpo, aquele choro entalado saiu. Talvez por memória do próprio corpo. E eu senti raiva. De ter vivido isso. De ter sofrido assim. De quem me fez sentir isso. Ele. Eu mesma. E eu sinto gratidão. Na mesma intensidade. De ter vivido isso. De ter sofrido assim. Por quem me fez sentir assim. Ele. Eu mesma.
“Os depois ressignificam os antes”.
Mas o meu corpo não aprendeu ainda a lidar com esses dois sentimentos pela mesma coisa me habitando, juntos. É esquisito. E mesmo grata por tudo isso. Mesmo me dando conta tantas vezes que ter vivido isso me faz ser a mulher que sou agora. Me faz ser a mulher que quero ser. Eu tenho muito medo, muito medo mesmo, de sentir tudo isso de novo. De desabar no chão do banheiro.
“Depois que você cai, você acredita que não vai cair mais do mesmo jeito ou, pelo menos, que aprendeu a cair. Mas a gente não é gato que cai de pé. Eu tô falando da metáfora. Eu tô falando da realidade”.
Eu fico me esforçando bastante pra me lembrar de cuidar de mim, antes de qualquer coisa. Lembrar de não me apagar tentando acender outra pessoa. Lembrar que com o sofrimento veio a maturidade e com a maturidade veio o aprendizado. E que mesmo que a gente não aprenda a cair, a gente aprende a levantar. Mas preciso lembrar disso. Esqueço fácil. Esse texto é pra isso. É pra mim. Mas eu quero que você leia. Eu quero te dizer, te pedir… me ajuda?
“A fala cura. Falar estilhaça a máscara do silêncio”.
E agora?
A resposta já tá na pergunta.
Agora.
Eu sou o agora.
* trechos da peça, de acordo com minha memória meio falha :)
** O espetáculo Elza está em cartaz no Sesc Pinheiros, em São Paulo, até dia 18/11! Não perde, tá? É sério.