O homem morre organicamente, mas vive (ou pode viver) na história.
Acordei em mais um domingo de quarentena, me deparei com uma surpresa, uma reprise do primeiro título de Fórmula 1 de Ayrton Senna. A partir disso, comecei a pensar sobre a história, a história como um documento que pode ser lido através do tempo, um produto humano desenvolvido para as próximas gerações.
Vigotski se apoia no método materialista dialético para construir a psicologia geral, que hoje é conhecida como psicologia histórico-cultural (ou sócio-histórica), e é sobre esse viés que ele vê e interpreta o mundo. É interessante entender que - em Vigotski - um bebê é potencialmente humano; e esse só alcança a “humanidade” através do que aprende com os humanos. Quando nascemos o mundo já está dado (produto de gerações), nossos pais passam os primeiros anos da nossa vida nos ensinando o básico, coisas que os outros bebês animais já nascem sabendo, comer, sentar, andar (...). O filhote humano é muito inútil se comparado aos outros, mas seu potencial de desenvolvimento é incomparável.
Assim, resumidamente, mas bem resumido mesmo, é através da linguagem que temos acesso a tudo que há, existe e existiu. É através da própria linguagem que utilizamos a nossa imaginação para criarmos coisas novas e entender o que ainda não foi explicado. É através da linguagem que podemos ter acesso a história humana. Entendo que temos muito a aprender com tudo o que nossos antepassados viveram, muitos erros não seriam repetidos se déssemos mais atenção à história - uma pena. Mas não é sobre esse ponto que quero focar no momento.
Vamos lá. Nós humanos nos contagiamos com a emoção, com a conquista dos outros, com a dor e a glória que é escrita com os dias de vida de alguém. Eu particularmente chorei revendo as corridas de um ídolo mundial que morreu muito antes do meu nascimento - estranho (?). A musiquinha que é tocada em cada vitória do Ayrton Senna aquece o meu coração, pesquisar sobre as conquistas dele - para mim - é entender e ver o potencial humano em meio a circunstâncias favoráveis e desfavoráveis. Ganhar um corrida de Fórmula 1 com uma marcha é um feito incrível, é inimaginável levar um carro nos braços com tanta garra, mas é história - e verídica. Além disso, salvar um colega de profissão, parece cena de filme, mas há 27 anos Senna saiu da pista para desligar o carro de Erik Comas na Bélgica, evitando uma tragédia. Que cena! Uma grande atitude que mostrou o homem atrás do nome.
Em outro momento memorável, Ayrton liderava o GP do Japão (1991) para conquistar o tricampeonato mundial da Fórmula 1. Porém, o brasileiro já havia conquistado o título (...) assim, Senna deixou Gerhard Berger passar na última curva para que o colega vencesse a prova. A cena é linda e comovente, ao som dos gritos de Galvão Bueno, que narrou a cena histórica, o momento é eternizado:
"Ele encosta. Ele faz o final para Berger! Ai vem Senna! Eu já sabia! Eu já sabia! Senna deixa Berger passar! Ayrton Senna do Brasil, tricampeão mundial de Fórmula 1! Ele tira o pé na entrada da reta, deixa o amigo Berger passar, é dia de festa para todo mundo. Berger conquista sua primeira vitória. Senna mostra como é feito um grande ídolo e um grande esportista!".
Enquanto o austríaco ultrapassava Senna para receber a bandeirada quadriculada, minha mente - em pleno 2020 - viaja maravilhada nos mil sentidos que eu dou a esse momento tão significativo. Como a história é louca.
É incrível como a história de alguém pode nos fazer suspirar, chorar, ter esperança... Eu nem era viva quando alguns dos meus ídolos morreram (Raul Seixas, Freddie Mercury ...) mas a história deles me faz ser quem sou eu, sim. É através da arte deles, das estórias e histórias que eu me inspiro e me identifico. Me pergunto em quem eles se inspiraram, quem eles admiravam.
Olha, para mim a história dos mortos tem certa magia, não sei se é só eu que penso assim, mas eu acho que tem. Quando escuto alguém falando de um ente querido que já se foi, assisto um filme biográfico, leio um poema ou escuto uma música - esses produtos que ficam como lembrança de alguém me fazem lamentar a sua morte, mas acima disso, me mostram que na história o homem vive. Sorte daqueles que além de histórias, têm fotos, vídeos, músicas, quadros, obras... daqueles que já se foram. Parece que quanto mais provas dos dias orgânicos dos falecidos temos, mais eles continuam presentes.
Para mim, uma prova dessa suposição é Domingos Montagner. Nada mais desesperador para a garota de 19 anos que eu fui do que aceitar a morte do ator que tanto admirava. Foi a primeira vez que tive que lidar com a morte. Até hoje assisto seus filmes e novelas em reprises aleatórias, ele sempre me parece tão vivo e presente. Ah. Enquanto lamento que ele não possa ter vivido mais, me conforto na eterna figura que ele representará, um ator magnífico, um homem cheio de virtudes em vida, com um legado que será lembrando por seus filhos e admiradores.
Nessa perspectiva, em Canto para minha morte (1976), Raul Seixas canta:
Oh morte, tu que és tão forte
Que matas o gato, o rato e o homem
Vista-se com a tua mais bela roupa quando vieres me buscar
Que meu corpo seja cremado e que minhas cinzas alimentem a erva
E que a erva alimente outro homem como eu
Porque eu continuarei neste homem
Nos meus filhos, na palavra rude
Que eu disse para alguém que não gostava e até no uísque que eu não terminei de beber aquela noite
Nos filhos, os genes - ou parte deles - continuam biologicamente. Mas na memória daqueles que tocamos, vivemos - ou melhor, viveremos depois de mortos. Na palavra rude, na gargalhada, nos grandes feitos e circunstâncias, de formas boas e ruins.
É um fato que Ayrton Senna entrou para a história dos homens, para história da Fórmula 1. Inclusive seu acidente mudou a Fórmula 1 para sempre, tornando o esporte mais seguro. Provavelmente ele continuará sendo lembrando por muito tempo. Assim como todos que tiveram a chance de deixar alguma marca no mundo, todos de formas e níveis diferentes, mas escrevendo e fazendo história - ao seu modo. Nesse sentido, vendo o mundo de forma linear preciso citar um trecho do prefácio que Jerome S. Bruner escreveu em 1967 para o livro A mente e a memória: Um pequeno livro sobre uma vasta memória (LURIA,1968). Bruner teve a oportunidade de conversar com o próprio Luria, e é trecho de uma conversa que ele descreve no prefácio:
Lembro-me de uma caminhada com Luria em umas das últimas vezes que nos encontramos, um ou dois anos antes de sua morte em 1977. Estávamos em Bruxelas e discutíamos um dilema vigotskiano. Tratava-se da questão de como as invenções na linguagem e na cultura provocavam a manutenção de potencialidades insuspeitas no homem, uma vez que a mente se ampliava pela incorporação de inovações culturais e históricas. "É inútil", lembro-me que ele dizia, “sonhar em ter uma psicologia completamente preditiva, tendo em vista como o homem e a história são, e como podem vir a ser um dia. Mas talvez o melhor que possamos fazer é o que estamos fazendo: compreender o que podemos e ter ideias inspiradas que nos levem a uma observação criteriosa do restante.”
- BRUNER, 1967, p.16 e 17.
Concordo com Luria, sim, o futuro é realmente um grande talvez, e a psicologia nunca poderá prever com exatidão, pois o homem muda e com ele a história dos homens. Mas temos muito a aprender com a história, e com os feitos dos que já passaram. Seja para entreter, inspirar ou avançar, o produto dos homens tem um significado incrível - repleto de sentidos.
Hoje, eu simplesmente reflito sobre tudo isso.
Por fim, Cohen reafirma a minha ideia
“And everybody knows that you live forever
When you've done a line or two”
sim, o homem morre organicamente, mas vive (ou pode viver) na história.
- Texto por Larissa Gomes, revisão ortográfica Vitória R.