Nem tudo precisa ser resolvido hoje. - por Julio Vicari, 2025
No começo da manhã, abri os olhos antes do alarme descontrolado e estressante do relógio. A luz filtrava pelas frestas da janela, dançava preguiçosa nas paredes do quarto. Lá fora, a cidade já acordava com sua pressa habitual, buzinas apressadas, passos firmes nas calçadas, gente resolvendo a vida às sete e meia da manhã. Mas eu fiquei ali. Respirei fundo. Ainda estava deitado, sentindo o peso invisível das coisas que queria resolver. A a conversa que vinha adiando com a irmã, o projeto parado no computador, a louça de ontem. Tudo isso, empilhado feito caixas mal organizadas na mente.
Durante muito tempo, acreditei que só se vivia em paz quando tudo estivesse no lugar certo. Como se a vida fosse uma espécie de cômodo a ser constantemente arrumado, e onde sempre há algo fora do lugar. Só que arrumar o mundo todo, num único dia, era o tipo de tarefa que esmagava qualquer ânimo. Naquele instante, olhando o teto, pensei em algo que ouvira de uma senhora na fila da farmácia dias atrás: Meu filho, viver é fazer o que dá, quando dá. E descansar quando não dá.” Não era uma frase de livro, nem de curso motivacional, mas era de uma sabedoria rara. Porque há um tipo de coragem em deixar para depois o que não cabe no agora. Uma sabedoria em aceitar que há dores que precisam de tempo, decisões que pedem silêncio para encontrar respostas, e pendências que não são monstros, são apenas lembretes de que estamos vivos.
Levantei-me devagar. Preparei o café com calma, sentei na cadeira de madeira junto à mesa no quintal de casa, observei os pássaros discutindo em cima do muro. Resolvi lavar só metade da louça. O projeto ficou para a tarde e a conversa com a irmã para domingo. Hoje, não!
Na xícara quente entre as mãos, encontrou um tipo de paz nova. Aquela que não vem da resolução imediata, mas da aceitação mansa: nem tudo precisa ser resolvido hoje. E tudo bem. Talvez, apenas talvez, a vida também se organize sozinha, quando a gente para de querer controlá-la com tanta pressa.
E o dia passou como qualquer outro, sem ansiedades.











