Ana Paula, parte 3 [texto]
Vez ou outra dava uma espiadela pelo retrovisor. Nas primeiras, nas pernas de fora, pouco cobertas pela saia da garota. Com safadeza e vontade. Depois pelos seios, não lá muito grandes, mas valorizados pela roupa. Até o rosto. Bonito, nariz furado, uma argola passando por ele. Os cabelos, ondulados, escuros. Rosto que tentava passar uma confiança, uma força que (ainda) não eram dela. Os olhos amendoados, denunciavam, contando uma história diferente daquela que ela tentava passar com as roupas que vestia, com a pose que usava.
Olhando para ela, Tavares não pode deixar de pensar na sobrinha, filha de sua irmã. Do quanto que se preocupava da menina sair de noite, com os amigos. Deveriam ter mais ou menos a mesma idade, a sobrinha e a passageira de seu táxi. Preocupado.
Tão logo parou no lugar indicado pela garota, ela já foi pagando o valor da corrida. Ele pegou o dinheiro devolvendo o troco. Junto com as notas e moedas, entregou a ela um cartão.
A princípio Ana estranhou o papel dado para ela juntamente com seu troco. Virou-o entre os dedos, lendo o nome do motorista e o telefone, escrito embaixo.
- Olha, normalmente a gente dá esses cartões quando a gente leva algum turista, que tá conhecendo a cidade, pra caso ele precise e tal, mas leva um. Vai que...
Ana o olhava nos olhos. Neles, a garota não via nada além de uma genuína preocupação
- Brigada – disse, e abriu a porta. Saindo do táxi, para noite. Para ele.