Mundos Opostos
Epílogo
Um ano e sete meses depois...
Os objetivos de Arthur sempre giraram em torno de suas paixões artísticas, seus projetos sociais e da busca por aprimoramento.
Até Lua entrar em sua vida.
Tão logo o rapaz entendeu que sua feiticeira de olhos verdes havia chegado para ficar, entrelaçando-se em cada fibra de seu coração, ele refez suas concepções e retraçou seus sonhos. Mais do que isso, Arthur deu a Lua uma parte de si mesmo e se empenhou em apagar a solidão que leu nos olhos dela quando se conheceram.
Entretanto, não se preparou para as recompensas que adviriam de suas mudanças.
Dois anos e três meses que era amado e amava profundamente.
Um ano e cinco meses que segurara pela primeira vez o filho que Lua lhe dera.
Um ano que era o marido mais realizado da face da Terra.
Seu mundo deu um giro de cento e oitenta graus.
Tudo porque um dia seu caminho se encontrou com o da mulher que o compreendia em todos os momentos e lhe abraçava forte quando ele se sentia perdido.
Claro que o casamento não era fácil. Afinal, cada um trazia suas experiências e seus conceitos.
Mas quando saiu da igreja, segurando Rogério em um dos braços e Lua no outro, numa cerimônia apenas para familiares e amigos, Arthur teve certeza de que nenhuma dificuldade algum dia apagaria a sensação de completude que o matrimônio e a paternidade lhe traziam.
E era o terceiro Natal que o sentimento de felicidade plena o alcançava e passeava, como uma das doces canções de Lua, por todo ele.
Aos poucos, os traumas criados naquela festividade estavam ficando para trás.
Era certo que o primeiro Natal que passou com a esposa, quando ela ainda era sua namorada e estava de três meses de gravidez, foi um pouco angustiante, pois Lua vomitou a maior parte do tempo, então acabaram indo embora, da casa dos pais dele, tão logo deu meia-noite.
A comemoração do ano passado já contava com a presença de seu garotinho.
Mas, por Rogério ter apenas cinco meses, a família concordou em fazer uma ceia simples no apartamento de Arthur e Lua, no Pacaembu.
Por tudo isso, Arthur não negaria a euforia que sentiu quando os pais propuseram fazer o Natal daquele ano na fazenda de Porto Feliz, no interior de São Paulo.
Viu aquele convite como uma oportunidade para apagar as memórias sofridas que lhe restaram do lugar.
Gostou ainda mais quando o pai prometeu que apenas a família estaria presente na celebração.
Então, desde a manhã anterior, dia 23, estavam todos ali: Kátia, Ricardo, Tamires e o namorado, tia Maria, Lua, Rogério e ele.
Enquanto o burburinho corria solto no andar de baixo, faltando menos de uma hora para a ceia, Arthur estava no quarto que Kátia havia montado exclusivamente para receber o neto na fazenda, cercado de brinquedos.
Não precisava olhar no espelho para saber que sorria de orelha a orelha. Na verdade, sentia que o sorriso alcançava até mesmo o seu coração.
Era a melhor sensação do mundo.
Não deveria existir nada mais valioso do que ver o filho descobrindo o mundo à sua volta e olhando a cada dois minutos para saber se o pai continuava ali, em sua companhia, o protegendo e aprovando o que ele estava fazendo.
Rogério era uma cópia do pai. Tinha os cabelos e olhos escuros de Arthur.
Mas, o rapaz dava o braço a torcer, a personalidade era toda de Lua.
Ao contrário do que pensaram durante a gravidez, pois seu garotinho foi muito agitado na barriga da mãe, Rogério era um bebê muito tranquilo, carinhoso e sorridente. E era sua razão de viver.
Apesar do sorriso ininterrupto que exibia, Arthur estava consciente do nó querendo fechar sua garganta.
Depois do nascimento do filho, se tornara ainda mais sentimental... o que acreditara ser impossível.
O garotinho pegou do chão a moto em miniatura vermelha, que Arthur havia lhe comprado no dia anterior, e andou até o pai, num caminhar que ainda era um pouco vacilante, pois completaria um ano e meio apenas dali a dez dias.
— Peçosa, papai.
— Isso mesmo, meu benzinho, parece com a Preciosa do papai.
— Qué Peçosa, papai.
— Estendeu os bracinhos, para que Arthur o pegasse no colo.
O rapaz o acolheu em seus braços, beijando-lhe os cabelinhos lisos. Não conteve outro sorriso. Rogério estava começando a articular as frases, por isso algumas vezes era impossível entender o que ele falava.
— Ainda que a provocadora de sua esposa adorasse lhe dizer que compreendia cada palavrinha e o obrigasse a lhe punir com “castigos” mais e mais elaborados após o filho dormir.
Porém, daquela vez, Arthur não teve dúvida de que Rogério queria que o pai o colocasse sobre a moto — algo que o rapaz vivia fazendo escondido de Lua, precisava confessar.
— A moto do papai está na nossa casa, meu bem. A gente veio de carro.
Pois é, Arthur cedera à necessidade de comprar um carro para a família.
Mas, obviamente, jamais cederia em sua paixão por Preciosa.
— Qué casa... Qué bola, papai...
— O garotinho apertou o pescoço do rapaz, arrancando- lhe uma risada.
E Arthur pressentia que seu Rogério também teria a mesma paixão que ele, para desespero de sua Lua.
— Oxente, que o Rogério está ficando tão obcecado por esta Preciosa quanto você!
Falando na esposa...
Arthur girou o corpo, com Rogério no colo, e encontrou Lua à porta do quarto, com as mãos na cintura, mais linda do que nunca (Que feitiçaria poderosa usava aquela mulher para enlouquecer seus batimentos cardíacos sempre que ele a via?).
Seus cabelos estavam presos num rabo de cavalo comprido, jogado sobre o seio direito.
E o vestido amarelo, marcado na cintura, alcançando o meio das coxas, era uma puta sacanagem quando ele não poderia simplesmente jogá-la numa cama e arrancar a peça com um único puxão.
Sentiu “aquela” parte de sua anatomia querer ganhar vida.
O desejo por Lua ainda era poderoso. Para ser franco, era maior do que antes; o que parecia agradar muito a esposa, pois ela não perdia a oportunidade de provocá-lo, como naquele instante em que as sobrancelhas arqueadas davam lugar ao sorriso espetacular, enquanto o fitava intensamente.
— Mamãe, qué bola... Peçosa...
Felizmente, Rogério voltou a falar, desviando Arthur dos pensamentos pecaminosos que invadiam a sua cabeça.
— Oh, meu amorzinho, a gente não pode ir embora agora, senão você não vai ver o “bum”.
— Lua pegou o garotinho do colo de Arthur, que sentiu aqueles mesmos fogos de artificio, do qual a esposa falava em linguagem infantil, dentro de si, quando as mãos dela resvalaram seu peito.
— Bum... bum... — Rogério se pôs a imitar. Lua beijou a bochecha do filho, sorrindo, mas seus olhos estavam presos aos de Arthur, que aproximou a boca da orelha da esposa e sussurrou:
— O pai dele está mais ansioso para ver outro tipo de fogos de artifício em nosso quarto mais tarde.
— Fitou-a, deliciado com o rosto corado de sua feiticeira.
— Tome vergonha na cara, Arthur Papadopoulos Aguiar!
— Ela deu um tapinha em seu peito, mas riu, em seguida, fazendo um carinho no rosto dele.
— Melhor descermos, amor. Quero contar pra todos a novidade antes da ceia...
Quer dizer, menos pra sua tia, que já sabe, né?
— Tenho certeza de que meus pais e Tamires vão ficar muito felizes com a notícia que você tem pra dar, doçura.
— Ele beijou-lhe os lábios. Então, pegou Rogério, que lhe estendia os bracinhos.
— E nós dois também estamos muito felizes pela mamãe, não é, meu garotão?
— Mamãe... — Rogério balbuciou.
— Ai, meu Deus, eu amo tanto vocês dois!
— Ela colocou os braços em volta deles, abraçando Arthur e Rogério ao mesmo tempo.
— Também amamos muito você, meu amor.
— Arthur lhe beijou os cabelos, e o filho o imitou.
Saíram do quarto abraçados e encontraram a família reunida, na espaçosa sala de estar, cujos móveis rústicos proporcionavam um ambiente rural acolhedor.
Arthur não podia negar que a mãe, apesar dos muitos defeitos, tinha um toque de fada para a decoração.
E também não era justo dizer que ela não se esforçara, assim como o pai e Tamires, para mudar.
Desde o nascimento de Rogério, Kátia estava mais participativa e mimava tanto o neto que Lua temia que ela o deixasse cheio de gosto.
Era notório que ela se empenhava em ter uma relação próxima com o garotinho. Se era para compensar sua ausência na criação dos filhos, Arthur não tinha certeza.
Mas lhe deixava feliz o fato de sua mãe ter recebido Rogério tão bem e, até mesmo, apesar do tom polido, conversar com Lua sempre que se encontravam.
O que o surpreendia mesmo era Tamires ter apresentado um namorado para a família e que o relacionamento já tivesse quase um ano, uma vez que ele conhecera Álvaro, o presidente de uma rede de hotéis “rival” , no Natal passado.
Tudo bem que naquela época o cara foi apresentado como um amigo.
Mas Arthur sabia muito bem ler os sinais e teve certeza de que alguma coisa já rolava entre eles. “E aqueles dois combinam perfeitamente”, o rapaz concluiu. Uma aura de poder os envolvia.
Fora que os olhos acinzentados de Álvaro, sempre tão sérios, por trás dos óculos quadrados, tinham o mesmo brilho implacável que Tamires exibia algumas vezes.
— Eu quero dar uma notícia pra vocês — Lua falou, de repente, despertando Arthur, que nem havia percebido que Kátia tirara Rogério de seus braços.
— Santo Deus, você está grávida de novo!
— Era um brilho de alegria que via nos olhos da mãe?
— Não, dona Kátia, não estou grávida.
O Rogério ainda é muito pequeno. Vamos esperar mais um tempinho para “encomendarmos” outro bebê.
— Lua deu um sorriso delicado.
— Oh, claro... eu entendo. — A mãe suspirou, ajeitando a roupinha de Rogério.
— Você tomou mesmo gosto por ser avó, hein, Kátia?
— Tia Maria praticamente arrancou o sobrinho-neto dos braços da cunhada.
Olha quem fala...
Arthur teve que se segurar para não fazer aquele comentário, enquanto abraçava Lua por trás.
Mas não conteve a risada quando Tamires pegou o sobrinho do colo da tia e foi para o outro lado da sala, sendo acompanhada pelo olhar de adoração de Álvaro.
E Arthur conhecia muito bem aquele tipo de olhar.
— Tia, não aperte o Rogério assim, pobrezinho. Dá uma olhada como ele fica assustado.
— Todas vocês estão assustando o meu neto, isso sim.
— Ricardo aproximou-se de Tamires.
— Vem com o vovô, moleque.
— Acho que esse povo está mais preocupado em disputar o Rogério do que te ouvir, sweetie — Arthur sussurrou no ouvido de Lua, que riu.
— Hum-hum... A Lua está tentando falar, família.
Ricardo, Tamires, Kátia e tia Maria pareceram bastante constrangidos subitamente, encarando Lua.
— Eu queria contar pra vocês que assinei contrato com uma gravadora e vou entrar em produção do meu segundo CD — a esposa falou.
— E alguns dos meninos das oficinas do espaço de artes vão participar de uma das músicas.
A família reagiu como Arthur esperava: abraçaram Lua, parabenizando-a.
E tia Maria ajeitou os cabelos, toda sorridente, gabando-se por estar se saindo muito bem como a empresária da “diva”.
Mas o rapaz acreditava que ninguém conseguiria sentir mais orgulho do que ele por sua Luinha.
Ela não apenas estava realizando outro sonho
— após pouco mais de um ano cantando todas as quartas-feiras no Bar Geração e tendo angariado muitos fãs nas redes sociais —, como também ajudara ele e Cristiano a idealizarem cada oficina de artes no antigo prédio do hotel Aguiar, que recebeu o nome de Espaço de Artes Esperança, e dava sua contribuição, ensinando meninos e meninas carentes a desenvolverem seus talentos musicais.
— Parece que todo mundo encontrou seu caminho nesta família e vai muito bem, obrigado.
— Ricardo abriu um sorriso satisfeito, colocando Rogério no chão.
— Agora só falta a Tamires anunciar que vai se casar ou ter um bebê.
— Papai! — A irmã o admoestou, tão ruborizada quanto Álvaro, ao seu lado.
— Nós estamos morando juntos, seu Ricardo.
Já nos consideramos casados — Álvaro falou naquela voz grossa e séria que intimidava um pouco Arthur, o rapaz confessava.
— Oh, são muitas notícias para um único dia!
Preciso de uma taça de champanhe.
— Kátia soltou um suspiro dramático, arrancando risadas de todos.
— Na verdade, precisamos cear antes que a comida preparada pela Tamires e pelo Álvaro perca todo o sabor.
A ceia foi feita no clima festivo que havia se instalado na sala de estar. Conversas paralelas. Risadas.
Rogério disputando a atenção de todos, mas preferindo ficar sentado no colo do pai — para alegria gigantesca de Arthur, que não cansava de comentar como o garotinho era apegado a ele.
Arthur não negaria, contudo: aguardava a meia-noite com ansiedade.
Não pelos fogos. Muito menos para abrir os presentes, que estavam embaixo da árvore na sala de estar.
Ele esperava ansiosamente aquele horário para que pudesse abraçar cada membro de sua família, desejando feliz Natal, um ritual tão recente entre eles, mas que o rapaz valorizava como se tivesse acontecido por toda a sua vida.
Talvez por ter desejado tanto que acontecesse.
E assim que o relógio indicou o horário e o caseiro acionou os fogos, logo após Lua cobrir os ouvidos de Rogério com protetores, Arthur, sem esconder os olhos rasos d’água, abraçou um por um, apertado, sabendo que poderia dizer de boca cheia: Eu tenho uma família de verdade.
Depois de todos se cumprimentarem, foram para a varanda assistirem à queima de fogos que Ricardo encomendou exclusivamente, segundo o idoso mesmo dissera, para o neto, que, ao contrário de muitas crianças, tinha adoração por aquele espetáculo pirotécnico.
Os fogos de artifício pipocavam a certa distância, majestosos, alguns prateados, outros numa tonalidade de vermelho.
Mas Arthur prestou pouca atenção neles, pois logo seu olhar foi atraído em outra direção.
Na realidade, focou-se completamente numa pessoa. Lua.
Ela tinha avançado à frente dele, postando-se ao lado de Ricardo, que estava com Rogério no colo. Podia descrever a esposa com inúmeras palavras:
linda, talentosa, doce, batalhadora, forte, generosa, ótima mãe.
No entanto, as palavras pareciam nunca fazer justiça quando tentava traduzir o que ela lhe provocava toda vez que seus olhos a encontravam. Era uma mistura de muitos sentimentos, que o deixavam tão repleto, como se fosse explodir da mesma forma que os fogos se espalhando pelo céu naquele momento.
Dois anos ainda não foram suficientes para entender aquelas emoções avassaladoras.
E talvez o amor que sentia por ela não coubesse nem em toda uma vida.
O que Lua lhe inspirava, pressentia, não era uma dessas histórias com começo, meio e fim.
Existia uma sensação de infinito dentro dele, como se aquele amor não pertencesse a um ciclo, mas sim permanecesse acontecendo para sempre.
Seus olhos ficaram cheios de lágrimas ao mesmo tempo que a esposa se virou, sorrindo do jeito que fazia o coração de Arthur galopar.
Ela começou a caminhar em direção a ele.
Tinha agora as sobrancelhas franzidas.
E Arthur soube no mesmo instante que ela estava preocupada pelo marido estar isolado, ali atrás, distante de todos.
Abriu um sorriso para tranquilizá-la. Gostaria de dizer-lhe que estava parado lá por puro encantamento, porque olhá-la o atraía um milhão de vezes mais do que assistir ao espetáculo que proporcionavam os fogos. Porém, não conseguia pronunciar nenhuma palavra.
Uma magia poderosa transitava entre eles quando as mãos se entrelaçaram e Lua olhou em seus olhos.
— Eu nunca vou me acostumar em pensar que você é meu marido.
— E foi ela quem falou, na voz doce que o fazia ter vontade de fechar os olhos, deleitando-se.
— Parece o sonho mais lindo que já tive na minha vida.
Os olhos de Lua ainda espelhavam aquela inocência que o cativou e o fez jurar protegê-la até o último dia de sua vida, ainda que ela fosse a mulher mais forte que já conhecera.
— Também sinto a mesma coisa, meu amor — forçou a voz sair clara.
— E eu gosto da ideia de estarmos sonhando juntos.
Ela sorriu, deitando a cabeça sobre o peito dele.
Arthur a enlaçou, apertando-a forte e beijando-lhe os cabelos. De repente, Lua se afastou, olhando-o com doçura.
— Eu ainda sinto a intensidade de cada batida do seu coração.
E ele bate num ritmo tão parecido com o meu, transbordando o que sentimos um pelo outro.
— A esposa prendeu-lhe o rosto nas mãos. — Eu te amo.
Ele engoliu em seco, lembrando-se de quando se declarou pela primeira vez a ela, após o show no asilo.
— Esta é minha frase preferida, doçura.
Só perde para: “Caralho, eu te amo demais, Lua”.
Ela jogou a cabeça para trás, rindo, e Arthur não conseguiu resistir à vontade de lhe capturar os lábios com os seus.
Puxou-a para a mais perto e a beijou, escondidos atrás de um vaso de planta, como dois adolescentes.
Separaram-se. Ela ficou na ponta dos pés e sussurrou em seus ouvidos: — Vou colocar o Rogério pra dormir.
Me lembrei que você prometeu me mostrar alguns fogos de artifício lá em cima, no nosso quarto.
— Mordiscou-lhe a orelha e se afastou rápido.
— Mulher malvada, volte aqui!
E a diabinha saiu correndo, deixando-o acompanhado apenas do eco de sua risada musical.
Mas ela que o aguardasse. Teria aquela noite e o resto de sua vida para fazer todo o amor que sentia com sua eterna feiticeira de olhos verdes.
FIM.........
A web chegou ao fim. Dedico esse Capítulo final as minhas leitoras lindas…




