Como ser um (bom) pai.
Prólogo - O momento da decisão.
"MÃE (s.f.)
termo usado para designar um coração capaz de amar infinitamente. é sentir por dois, sorrir por dois, sofrer por dois. é dar o melhor de si, duas vezes. é aquela que cura com um abraço. que sara machucado com um beijo. aquela quem deu - a luz - AMOR."
Eu nunca fui uma pessoa fácil de perder as esperanças. Mesmo com tudo que já aconteceu na minha vida eu me forçava a ver o lado bom das coisas.
Quando minha mãe esqueceu de me buscar no jardim de infância eu fiquei feliz porque teria o tanque de areia todo pra mim. Quando meu mp3 quebrou indo pra escola - em um ônibus cheio de adolescentes que eu não suportava - fiquei feliz porque poderia ouvir as fofocas das meninas a minha volta (e descobri tanto combustível pra chantagens que fiquei sem fazer minhas lições de casa por um mês inteiro!). Quando Mélie quebrou meu braço durante uma lutinha besta de irmãs fiquei feliz porque certamente ficaria semanas sem lavar a louça. Quando tive que ir para uma escola nova em uma cidade nova fiquei feliz, porque sabia que ali teria chances de fazer amigos de verdade, e até quando o meu par do baile nunca apareceu na minha porta para me buscar fiquei feliz, porque não precisaria ficar apenas com um menino durante a noite toda (e que noite!). Nem mesmo quando meu noivo me abandonou no altar eu deixei de ter esperanças, muito menos no amor, na felicidade.
Mas agora, em uma sala branca e agoniante, sem vida e claustrofóbica eu via as esperanças saindo de dentro de mim, se misturando com o medo que saia de meus poros e logo em seguida os sentia esmurrando a minha cara sem dó nem piedade.
- Transplante?
- Senhorita Paulsen, você precisa entender que nessas situações não há mais nada a fazer, seu filho possui um defeito anatômico congênito chamado atresia das vias biliares. Nesse caso, como o canal da bile não se desenvolve, ela fica represada no fígado, que evolui para cirrose...
- Eu não entendo seu idioma Doutor, seja mais especi...
- Se o Ethan não receber um fígado saudável, ele morre.
Senti o olhar de pena do médico sobre mim ao mesmo tempo que senti o ar escapar de meus pulmões, tentei falar o que estava em minha mente as as palavras lutavam para não sair da minha boca.
- Eu não... não entendo... ele tem só seis anos! Eu... vocês disseram que... - Peguei um lencinho que ele me ofereceu, a contra gosto, para secar as lágrimas que molhavam o meu rosto - Vocês disseram que salvariam o meu menino!
- Nós já fizemos todo o possível! Ethan já está em primeiro na fila para receber o orgão, mas...
- Mas o que? - Perguntei, temendo qualquer coisa que pudesse escutar.
- Nenhum doador é compatível com ele, e temo que não temos tempo para esperar um doador aparecer, por isso... - Olhei para o médico a minha frente com mais atenção, ansiosa para ouvir a solução que estava prestes a me falar - Por isso preciso saber se o pai do Ethan não estaria disposto a fazer os exames de compatibilidade e salvá - lo.
- Eu não acredito que você vai mesmo fazer isso - Amélie sorriu negando com a cabeça enquanto olhava meus exames e data da fertilização. - Eu vou mesmo ser tita! - Abraçou um ursinho que estava sobre a minha cama e o tacou em minha direção.
- Não só titia, se tudo der certo eu... eu quero que você seja a madrinha.
Sorri ao ver seu sorriso sumir, e depois voltar ao seu rosto três vezes maior.
- Eu... - seus olhinhos encheram de lágrima.
- Não precisa agradecer! - Sorri ainda mais quando ela me mostrou a língua e veio na minha direção pra me abraçar - Você é a minha irmã, minha melhor amiga, não poderia escolher alguém melhor. - Escutei ela fungar e rir.
- Não mesmo, eu sou a melhor pessoa do mundo. - Sorriu metida, mas parou ao sentir o ursinho que joguei atingir sua cara.
Ficamos brincando de lutinha por mais alguns minutos e rindo de pura felicidade, até que vi um semblante de preocupação tomar conta da minha irmã.
- Noa.
- Oi?
- O Gilbert sabe disso?
Olhei pra ela com questionamento e raiva, e antes que eu pudesse falar qualquer coisa ela retomou a conversa.
- Eu sei - levantou os braços como alguém que se rende. - Sei que você não gosta de falar sobre ele...
- Não, não gosto. - Levantei da cama e comecei a arrumar os documentos que antes estavam sendo lidos por Melie - E ele não precisa saber de nada.
- Eu sei, me desculpa, não quis dizer que você deve dar explicações da sua vida pra ele... é que vocês ficaram tantos anos juntos e...
- E nos separamos. - Vi a pena que minha irmã sentia em seu olhar, e aquilo me incomodava mais que tudo - Olha Melie, o Gilbert fez as decisões dele, e eu não vou deixar que elas assombrem a minha vida. Estava bem com ele, mas estou melhor sem ele, tá bem? A minha vida é minha, eu já estou com vinte e sete anos e quero ser mãe, não vou esperar um príncipe encantado realizar o meu sonho e muito menos vou me explicar pro cara que me deixou...
- Tá bem, tá bem! Me desculpa? - Melie colocou a mão no meu ombro e sorriu com ternura.
- Vem, me ajuda a arrumar tudo que vou precisar pro grande dia. - Sorri colocando um ponto final na discussão. - Você acha que o Julio pode me buscar na clínica?
- Mas é claro! Você acha que me casei com ele por amor? Me casei porque ele é um ótimo motorista! - Gargalhei de sua piada e afirmei com a cabeça, encorajando suas palavras malucas. - Ele vai ficar louco quando souber que está prestes a ser padrinho! - Rimos e continuamos a arrumar toda aquela bagunça causada por nós duas em turma tarde de fofocas, alegrias e conversas. - Mas e o pai do seu filho? Você ao menos perguntou o nome dele?
- Senhorita Pulsen?
Balancei a cabeça e voltei a prestar atenção ao médico em minha frente.
- O pai?
- Sim, se o pai de Ethan concordar, poderemos fazer o transplante o mais rápido possível.
- Mas e eu? Eu não posso? - Passei minhas mãos suadas pela calça, meu nervosismo era tanto que começava a sentir um calor descomunal. Como explicar ao médico do meu filho que não sei, literalmente, quem é o pai?
- Infelizmente seu exames mostram que sua compatibilidade com Ethan não é a mais adequada para o procedimento. Senhorita Paulsen, acha que o pai de Ethan concordaria?
Levantei da cadeira e peguei minha bolsa, prestes a sair daquela sala horrorosa.
- Doutor - abri a porta com minha decisão tomada. - Eu vou fazer com que ele concorde.









