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A REGRA DOS CINCO (3)
Kim Taehyung. Sinopse: A pior parte de terminar um noivado na véspera do casamento, para sua surpresa, não era precisar devolver os presentes, cancelar o buffet, ou encarar os questionamentos infinitos das pessoas a sua volta. Na verdade, a pior parte era, sem dúvida alguma, encontrar um novo lar. Parte: [ 1 l 2 l 3 l ? ]
Aprendi, em pouquíssimo tempo, que não há nada pior do que sofrer de insônia em uma cidade do interior. Do lado de fora do meu quarto ouço o zumbido sonoro que o vento frio provoca, e basta uma rápida olhadela através das cortinas pesadas para perceber que a neve continua a cair, como se não tivesse intenção alguma de parar tão cedo. Meu primeiro plano, o de escapar para dar uma volta pelos arredores da casa, é completamente descartado após a constatação de que eu não aguentaria dar dois passos. Penso em ir de maneira sorrateira até a sala, e ligar a televisão antiga de tubo, mas me lembro de que os únicos quatro canais que a antena analógica consegue captar não vão ser capazes de capturar minha atenção e apaziguar meus pensamentos acelerados.
Vencida por todos meus planos frustrados, insisto novamente na ideia de tentar adormir.
Só que, por algum motivo, não consigo. Não importa se me viro para a direita ou para a esquerda, se tento aumentar ou diminuir a temperatura do aquecedor, ou se tomo uma, duas ou três xícaras de chá, até que a pequena chaleira de vidro que trouxe para o quarto chegue ao fim. O sono simplesmente não chega até mim, e o colchão confortável parece se transformar em uma placa dura de concreto, que machuca minhas costas. Depois de horas nesse pesadelo consciente, me permito voltar minha atenção para o celular esquecido sobre o criado mudo, e este parece gritar por mim, e, sem explicação alguma, me recordo das palavras de Taehyung.
Não, eu não vou fazer esse tipo de coisa.
Acabei de terminar um relacionamento de anos, por que iria baixar um aplicativo de relacionamentos?
É claro que não vou fazer esse tipo de coisa.
É só outra noite de insônia.
E eu já sobrevivi a uma dezena de noites de insônia nos últimos meses.
E é claro que não, não preciso conversar com nenhum estranho para me sentir melhor.
Não vou mesmo fazer isso.
Repito frase por frase, até que o conteúdo de minhas palavras se transforme em uma oração, mas que, para meu desagrado completo, não parece ser tão santificada ou milagrosa assim… Porque eu, no fim das contas, obviamente acabo cedendo.
Enquanto acesso a loja de aplicativos e navego pela categoria de relacionamentos, uma parte profunda de meu cérebro parece disposta a me fazer desistir da ideia, e eu sei que deveria ser grata por ter esse pequeno lampejo de racionalidade. O problema, porém, é que pareço ter despertado um monstro que está se alimentando de minha curiosidade e guiando todos meus pensamentos e, quando vejo, o aplicativo está instalado e estou selecionando caras baseando-me em suas aparências, e me sinto como se estivesse na fila do açougue escolhendo um pedaço de carne por causa de sua beleza. Patética, devo dizer.
Reúno uma pequena dose de coragem e envio alguns ois e olás, e para me surpresa as respostas surgem depressa, e talvez Taehyung não esteja tão errado assim em buscar algum conforto compartilhado neste tipo de aplicativo. Meu erro é o de me permitir relaxar, e o de ficar confortável em minha cama, com as costas apoiadas contra o travesseiro e a cabeceira da pequena cama de solteiro, porque isso me faz baixar a guarda e esquecer do absurdo que estou fazendo. E essa constatação só surge quando, no intervalo de dez minutos, no máximo, todas as conversas que tento continuar se transformar em pedidos absurdos por fotos explícitas - devo chamar de nudes? - e por coisa ainda piores.
Assim, minha experiência que se assemelha a um passeio de montanha russa não dura mais do que meia hora, e sinto que meu raciocínio volta a trabalhar da maneira correta o que me faz deletar todos os aplicativos estranhos de meu celular, e faço de minha nova meta de vida fingir que esse pequeno deslize cometido no meio da madrugada jamais aconteceu. Recoloco o aparelho sobre a mesinha de lado e apago o abajur, deixando o quarto mergulhar no escuro outra vez, e me convenço de que agora vai dar certo! Agora vou finalmente ser abençoada pela dádiva do sono. Só que, para meu infortúnio, nem mesmo todo esse desgaste emocional faz com que meu sono apareça, e meu cérebro entorpecido pela tortura de se manter desperto às duas e quarenta e três da manhã, resolve ter outra ideia nada, nada inteligente.
[02:44] essa história de aplicativos de namoro para curar insônia é a maior mentira de todas
Eu envio a mensagem e me arrependo no mesmo segundo, por que o que é que tenho na cabeça? De novo, Taehyung e eu não somos amigos. Nossa relação é estritamente profissional, e que tipo de relação profissional conta com mensagens enviadas de madrugada? Isso mesmo, nenhuma relação profissional. A constatação disso me faz esconder o celular embaixo das cobertas e afundar o rosto no travesseiro, praticamente implorando para que o sono apareça como num passe de mágica e me faça desmaiar logo, para que eu pare de tomar decisões idiotas atrás de decisões mais idiotas ainda. Rezo para que Taehyung não veja a mensagem agora, e para que eu tenha tempo de pensar em alguma desculpa até a hora em que ele resolver responder, mas o som do aparelho vibrando ao meu lado, no colchão, chega primeiro, para meu completo desespero.
[02:44] sr. kim (corretor): você deve ter usado da forma errada…
[02:44] sr. kim (corretor): noite difícil?
E sei que não devia responder. Mas eu continuo acordada, e ele me fez uma pergunta, e seria bastante grosseiro deixá-lo esperando, não seria? Porque agora ele sabe que estou acordada, e parece que não tenho escapatória a não ser lidar com as consequências de minhas próprias ações. E, por mais que eu odeie ter que admitir isso, também fico curiosa para descobrir o porque de ele estar acordado essa hora. Será que não sou a única sofrendo com a falta de sono?
[02:46] eu tenho certeza que usei do jeito certo… mas depois da terceira tentativa frustrada, achei melhor desistir
[02:46] e sim, a noite está um pouco difícil… e a sua?
[02:47] sr. kim (corretor): o que aconteceu? não encontrou ninguém legal pra conversar sobre os mistérios da vida e do universo?
[02:48] sr. kim (corretor): e sim, a noite está um pouco difícil por aqui também.
Levo algum tempo para responder, me perdendo entre várias hipóteses sem fundamento algum que poderiam justificar o porque da noite de meu corretor estar sendo complicada. Ironicamente, percebo que não sei nem mesmo quais são os motivos que estão tornando a minha um verdadeiro inferno.
[02:51] só encontrei caras que estavam mais interessados em descobrirem os mistérios do corpo feminino e do sexo virtual
[02:51 e sinto muito, não sei se isso serve de algum consolo, mas você não está sozinho…
[02:52] sr. kim (corretor): sinto muito, acho que é mais fácil conseguir ter uma conversa decente com uma mulher do que com um cara… você sabe, em termos de evolução e inteligência vocês estão anos luz na nossa frente
[02:52] sr. kim (corretor): e sim, isso ajuda, obrigado
A primeira mensagem me faz sorrir, porque Taehyung parece ter uma masculinidade bastante segura para ser capaz de afirmar esse tipo de coisa sem que pareça só uma ironia machista para diminuir o sexo feminino, mas sim um fato concreto no qual ele realmente acredita. Por algum motivo, meus pensamentos me guiam até meu noivo. Ex-noivo… E a doçura que Taehyung provoca em meu paladar é brutalmente esmagada pelo gosto amargo que as lembranças antigas evocam. Meu humor, que já não era dos melhores, parece se tornar pior em função do rumo que meus pensamentos tomam, e talvez seja por isso que fico sem saber o que responder.
[02:54] sr. kim (corretor): você acha que vai conseguir dormir logo?
[02:55] sendo realista, acho difícil…
Há uma longa pausa, e por um breve momento chego a pensar que ele acabou por adormecer, e o invejo por isso, mas uma nova notificação confirma que estou enganada.
[03:01] sr. kim (corretor): será que posso te convidar pra dar uma volta?
As palavras inesperadas me fazem arregalar os olhos, e sou pega de surpresa. Não era o que eu estava esperando. De novo, não sei direito o que responder. Penso que talvez eu tenha perdido a capacidade de ser uma pessoa sociável.
[03:03] agora?
[03:04] sr. kim (corretor): sim…
[03:05] e que tipo de lugar é esse onde é possível ir dar uma volta às 3 da madrugada?
[03:05] sr. kim (corretor): eu vou te mostrar. você fica pronta em dez minutos?
[03:07] isso depende, você passa aqui em dez minutos?
[03:07] sr. kim (corretor): em oito. até já!
[03:07] até…
São três e dez, e não há nenhuma mensagem nova, e me dou conta de que ainda estou embaixo das cobertas, com o celular em mãos e os olhos grudados no visor que permanece acesso, exibindo a conversa. Sinto que desperto de alguma espécie de sonho, ou de alucinação, não sei bem dizer, mas demora para que eu tome consciência de que realmente concordei com essa maluquice. Encontrar com meu corretor de madrugada, sem saber nem ao menos aonde pretendemos ir? Nada, nada profissional.
[03:11] espera… você tá mesmo vindo?
Envio a mensagem, me sentindo tola, mas sabendo que preciso ter uma confirmação concreta de que sim, ele está mesmo vindo.
[03:12] sr. kim (corretor): chego em cinco minutos (tive um atraso técnico)
Inferno, inferno, inferno. Que droga! Praguejo em silêncio enquanto me lanço para fora da cama, meu pé ficando enroscado no edredom pesado e o arrastando para o chão, o que faz com que eu me desequilibre e quase caia, perdendo uns bons trinta segundos. Consigo me livrar da coberta e corro na ponta dos pés até o armário antigo que cheira a naftalina, e tateio de maneira desajeita os cabides, em busca de algum casaco que seja quente o suficiente, mas não cara de avó o bastante, o que reduz bastante minhas opções. Vou na direção de uma jaqueta branca de capuz e penugem, mas minha mão paralisa no instante em que recordo de quem ganhei a peça e então, sem hesitar, alcanço um sobretudo marrom, e o combino com um cachecol tom mostarda. Pesco um par de luvas na gaveta e depois de uma rápida olhadela no espelho, que só comprova que estou uma bagunça, me esgueiro pelo corredor escuro, vencendo o percurso cheio de obstáculos que é a sala e finalmente chegando até a porta de saída. Estou terminando de calçar minhas botas quando um farol forte atinge meu rosto, me fazendo estreitar os olhos, e reconheço a caminhonete antiga de Taehyung adentrando no terreno.
Estou mesmo fazendo isso. Fugindo de casa no meio da noite como uma adolescente.
Meu coração acelerado esmurra minha costelas e deixa minha respiração alterada, e me obrigo a tomar fôlego para correr pela neve e saltar para dentro da caminhonete, vários graus mais quente do que o lado de fora, o que me faz suspirar contente. Só olho para o lado quando me acalmo, e o tremor estranho que toma conta de meu corpo desaparece, deixando que tranquilidade seja restaurada - ou ao menos parte dela. Taehyung tem os olhos grudados em mim, e o canto da boca avermelhada repuxado em um sorrisinho caloroso. Os cabelos castanhos estão bagunçados, e vejo que ele não parece ter tido tempo de arrumá-los, e isso me faz constatar que não sou a única adolescente fugindo de casa.
— Pronta? — Sua voz doce flutua até mim, e sua pergunta me parece tão difícil quanto uma questão de física quântica. Não sei se estou pronta. Como se fosse capaz de perceber que preciso de algum tempo pra encontrar a resposta, ele encontra outro assunto — Gostei das luvas… É alguma moda nova?
E é só então que me dou conta de que acabei por pegar luvas de pares trocados. Ironicamente, o verde e o vermelho combinados fazem parecer com que eu, propositalmente, esteja em clima natalino, mas isso não anula a vergonha que sinto. Enquanto minha combinação aleatória de cores e texturas é um problema, Taehyung parece não ter tido dificuldade alguma em se aprontar em minutos. A gola alta de seu suéter de lã preto abraça seu pescoço, e a cor combina perfeitamente com a calça xadrez em tons de cinza e marrom, e também com os coturnos escuros, e é ridículo o fato de alguém parecer tão bem arrumado - e charmoso - as três da manhã, depois de sair as pressas de casa.
— Tive que me arrumar no escuro — Dou uma justificativa qualquer, na esperança de que ela seja boa o suficiente para tornar meu visual multicolorido aceitável. Ele ainda está sorrindo, e continuamos parados na frente de casa, e noto que a atmosfera começa a se tornar um pouco estranha, e o pequeno vislumbre de confiança que senti ao me atirar para dentro do carro, sem pensar duas vezes, começa a enfraquecer, sendo engolido por meu nervosismo.
— Eu gostei — Ele confessa, balançando a cabeça em sinal afirmativo.
— Então, vamos? — Acrescento depressa, esperançosa de que ir logo ao ponto pode tornar as coisas mais fáceis.
Sem dizer nada, Taehyung concorda e volta a direcionar sua atenção para o carro e para estrada, afastando-a de mim e me permitindo relaxar. Os primeiros minutos de viagem são preenchidos apenas pelos ruídos provocados pela caminhonete antiga e pelo som do vento, mas não demora muito para que o silêncio comece a me incomodar, e me pego tentando estabelecer alguma conversa, por mais boba que esta seja.
— Então, onde estamos indo?
— Você já ouviu falar no Caverna do Dragão? — Franzo o cenho, confusa.
— O desenho?
Taehyung deixa uma risada sonora e divertida escapar, e o som reverbera pelas paredes de metal do automóvel, me envolvendo. Não entendo a graça.
— Não, não o desenho… O bar que fica nos limites da cidade! — Continuo confusa, porque ainda não faço ideia do que ele está dizendo, e me contento em apenas negar com a cabeça — É o único lugar que você vai encontrar aberto durante a madrugada, porque é pra onde todos que sofrem de insônia vão… Eu diria que é um verdadeiro ponto turístico.
— Por que alguém colocaria o nome de um bar de Caverna do Dragão? — Minha curiosidade não parece ser partilhada por Taehyung, que apenas balança os ombros, indiferente.
— Acho que deve ser porque é o lugar mais quente no meio das madrugadas frias… Sabe? Dragão, fogo, calor…
— Essa explicação é meio fraca, acho que tem a ver com o desenho.
— Tenho certeza de que não tem a ver com o desenho… — Ele insiste, confiante. Observo-o de canto de olho, tentando ser discreta.
— De qualquer modo, então estamos indo para um bar… Nada melhor do que beber para curar a insônia! — Digo, forçando animação e vendo-o sorrir.
— Hoje é noite de palco aberto — Ele explica — Então vamos fazer mais do que só beber.
Não entendo o que ele pretende dizer com isso, mas sinto que a resposta pode não me agradar muito e por isso opto por me manter em silêncio, deixando que o assunto morra e só renascença quando, minutos mais tarde, finalmente estamos estacionando do lado de fora uma casa de pedras no meio do nada. Ele desliga a caminhonete e o ronco do motor cessa por completo, e o silêncio passa a ser então preenchido pela música abafada que escapa de dentro da casa, que mais se assemelha a uma cabana. Há uma densa camada de fumaça escapando por uma chaminé, também revestida de pedras, e noto que o nome Caverna do Dragão, na verdade, parece ser bem adequado para o local.
— Antes de entrar, preciso te perguntar uma coisa… — Taehyung diz, assumindo uma expressão séria e que me deixa repentinamente preocupada.
— Tudo bem — Digo alguns segundos a frente, concedendo permissão para que ele continue.
Um longo suspiro escapa de seus lábios, e então a seriedade que não combina em nada com seu semblante juvenil dá lugar um novo sorriso divertido, e que me parece também envergonhado.
— Você sabe cantar?
A Regra dos Cinco (2)
Kim Taehyung. Sinopse: A pior parte de terminar um noivado na véspera do casamento, para sua surpresa, não era precisar devolver os presentes, cancelar o buffet, ou encarar os questionamentos infinitos das pessoas a sua volta. Na verdade, a pior parte era, sem dúvida alguma, encontrar um novo lar. Parte: [ 1 l 2 l ? ]
Kim Taehyung tem o cheiro fresco e doce de morangos no auge da época de colheita. Ele escuta jazz, viaja quilômetros para visitar museus nas horas vagas, e faz aulas de pintura aos domingos, com um senhor diagnosticado com parkinson e que encontra prazer em ver jovens fazendo com os dedos e com pincéis aquilo que ele próprio já não é mais capaz de fazer. Kim Taehyung usa um suéter de linho azul e verde que ganhou da avó materna no seu penúltimo aniversário, e acha que café é superestimado, e que há bebidas melhores para se manter aquecido e para afastar o sono. Duas semanas e todas essas curiosidades já preenchem páginas e mais páginas de minha agenda, em uma lista ainda em construção que me faz pensar - ou melhor, que me faz ter certeza - que Kim Taehyung é alguma espécie de anjo perdido em solo terrestre.
— Eu achei mesmo que esse último apartamento fosse combinar com você — Taehyung diz entre uma garfada e outra. O molho da carne mancha o canto de sua boca e ele briga com o guardanapo de pano para conseguir limpar a sujeira. Sua voz parece conter traços de algo que se parece muito com decepção, mas seu olhar continua sereno e tão tranquilo quanto naquele primeiro dia em que nos encontramos, no café da esquina. Depois disso os cafés se transformaram em almoços, e os almoços, vez ou outra, se estendem para lanches da tarde.
— Eu também achei, você disse que ele tinha tudo que eu tava procurando… — Relembro, balançando os ombros para mostrar descontração e não parecer tão séria e decepcionada. Vi mais apartamentos nas últimas duas semanas do que pensei ser possível, e por mais que Taehyung fizesse um trabalho esplendido como corretor, me levando aos locais certos e me apresentando as melhores condições para fechar negócio, alguma coisa sempre parecia faltar.
Não tem sido fácil lidar com a sensação certeira e constantemente presente de que me tornei uma pedra em seu sapato, e de que devo adornar o lugar número um no ranking de clientes chatos e exigentes que já passaram por suas mãos. No entanto, o modo como ele parece ainda mais motivado a buscar algo inédito sempre que uma nova oportunidade é excluída, faz com que meu coração se acalme e meus pensamentos desacelerem. Kim Taehyung parece possuir um efeito calmante, que funciona tão bem quanto um suco de maracujá fresco nos dias quentes, ou um chá suave de camomila nas noites frias. E sei que me pego pensando nisso mais do que deveria, e me aproveitando de sua companhia de um jeito desleal, e que não é justo. Tenho tomado grande parte de seu tempo, porque todos meus dias continuam sendo regidos por vinte e quatro horas de puro ócio.
— Eu esqueci que você queria janelas grandes — Ele tomba o pescoço para lado e adota uma expressão infantil, que me faz sorrir em resposta — Mas tudo bem, tenho certeza de que algum lugar nessa cidade vai servir pra gente! — Espero que ele se corrija e diga que vamos ser capazes de encontrar algum lugar que irá servir para mim, mas ele não parece se dar conta de sua frase, e me convenço de que não há duplo sentido algum por trás de suas palavras… Só existe uma constatação óbvio e acolhedora de saber que ele parece tão envolvido nessa busca quanto eu, e isso, de novo, me mantém calma e motivada.
— Talvez eu devesse começar a anotar tudo que digo que quero, porque a lista está ficando um pouco grande… — Falo sem graça mas ele ri, e o som se parece com um chama quente no meio de toda aquela neve que caí do lado de fora do restaurante. Kim Taehyung é também um foco de calor no meio da tempestade gelada que tem me abraçado nos últimos dias.
— Sua sorte é que, apesar de esquecer das janelas, minha memória é muito boa. E seus pedidos não são tão difíceis assim… Uma lareira, um banheiro grande e confortável, jardineiras para montar uma horta, janelas grandes…
— Em um prédio familiar… — Completo, vendo-o assentir.
— Você é bastante exigente — Não há maldade alguma em suas palavras, mas elas fazem com que meus músculos se contraiam e meus ombros fiquem tensos, e ainda que a culpa não seja dele, e sim de uma centena de experiências passadas mal resolvidas, a postura que adoto me denuncia — Desculpa, eu não quis que isso soasse de um jeito negativo — Ele rapidamente acrescenta, como se fosse capaz de perceber a mudança em meu comportamento.
— Eu sei… Mas bom, eu me acho exigente de um jeito negativo — Confesso, e essa talvez seja apenas a segunda ou terceira coisa que ele sabe a meu respeito, porque todo o restante continua sendo um grande mistério, como ele insiste em dizer entre uma visita em um apartamento e outro. Kim Taehyung é uma caixa aberta e transparente, e eu um cofre velho cujo segredo foi esquecido.
— Isso tem algo a ver com o seu… término? — E lá vamos nós.
Taehyung e eu não falamos sobre nossas vidas pessoais. É óbvio que não falamos sobre nossas vidas pessoais porque, apesar de estarmos nos vendo quase todos os dias, há duas semanas, não somos amigos. Ele é meu corretor e eu sou sua cliente, e não faria sentido algum conversarmos sobre meu término ou sobre o porque de ele parecer ser o cara mais solitário da cidade. Mas eu sei coisas sobre ele, porque ele me deixa saber. Porque no meio de um almoço ou de um café, ele para para comentar sobre uma música nova que tem ouvido bastante com o garçom que sempre nos atende com o fone de ouvido pendurado ao redor do pescoço. Porque visitamos o apartamento de um amante de artes, e ele passou quase quinze minutos conversando com o proprietário sobre como as pinceladas de Van Gogh eram únicas e sobre como ele se sentiu minúsculo a primeira vez que ficou diante de um quadro original do artista. Porque três dias atrás, quando saímos para caminhar no sol, ele tirou seu suéter de linho e o dobrou com tanto cuidado, que por um segundo duvidei que se tratasse mesmo de apenas uma peça de roupa.
Kim Taehyung não me fala coisas sobre ele, mas me deixa saber de detalhes que parecem íntimos e pessoais o bastante para não serem compartilhados com qualquer eu. Eu falo coisas sobre mim, mas não o deixo de saber sobre nada. Mas, ainda assim, sua curiosidade parece se tornar mais forte e alguma pergunta direta e pessoal escapa de sua boca e paira no ar entre nós dois, e eu, acostumada a fazer da fuga minha melhor resposta, sempre tento desconversar da melhor maneira possível. Não porque Taehyung não entenderia, ou porque não me escutaria… Mas porque me parece ainda mais errado fazê-lo ocupar um posto que está além do seu papel. Só que hoje, especialmente hoje, parece haver algo de diferente na atmosfera, e quando sua pergunta me atinge sem aviso prévio, me pego pensando em responder. E concluo, sem esforço algum, que é o álcool fornecido pelo vinho tinto que compartilhamos que faz com que as palavras escorreguem de minha boca, e a expressão surpresa no rosto dele é quase como um presente de natal antecipado.
— Eu terminei com meu noivo porque achei que não era boa o suficiente para ele — Eu digo de uma só vez, e a confissão dita em voz alta me deixa meio zonza. Talvez eu ainda não tivesse admitido para mim mesma que esse havia sido um dos vários motivos que me fez acabar com tudo. Os malditos cinco segundos de coragem intensa.
Um silêncio alto e crescente se instaura em nossa mesa, e o arrependimento que começo a sentir cresce na mesma velocidade, me consumindo por inteira. Estou prestes a abrir a boca uma segunda vez para me desculpar e implorar para que ele esqueça disso e para voltarmos a discutir sobre os apartamentos que visitamos durante a manhã, mas ele, como se fosse capaz de prever meu próximo movimento, se antecipa e dá continuidade ao assunto, me fazendo engolir o pedido de desculpas.
— Você não pode estar falando sério…
— Por que não? — Ele respira fundo e larga os talheres sobre o prato agora vazio, e isso parece ser um sinal bastante claro de que ele está prestes a me dar uma resposta bastante elaborada, que fará com que eu seja obrigada a pensar sobre o assunto por mais do que cinco minutos, e isso não fazia parte dos meus planos. O medo de precisar me justificar pelos meus atos outra vez me invade e é ele quem me faz prender o ar em meus pulmões.
— Porque eu não consigo pensar em um mundo no qual você não seja o suficiente para um homem… Eu te conheço a só duas semanas mas você é divertida, sincera, esforçada — Ele pausa, o semblante hesitante revelando sua dúvida em pronunciar ou não as palavras seguintes — além de linda. O que é que ele tinha que te fazia pensar que você não era boa o bastante?
Quero dizer que ele tinha status, e uma família rica e importante, e um futuro promissor pela frente. Quero contar sobre os jantares de negócios nos quais fui sua acompanhante, e sobre como a tarefa de me ocupar com taças de champanhe e vinhos de nacionalidades distintas para me manter ocupada fizeram de mim uma especialista no assunto. Também quero contar sobre os passeios em família, e os olhares tortos e desdenhosos cada vez que minha origem familiar era trazida a tona, ou que algum questionamento a respeito de minha profissão era levantado. Mas não conto nada, porque não quero me sentir pequena e insignificante, e porque não quero que ele saiba que é por isso que não sou boa o bastante.
— Por que estamos falando sobre mim? Por que não falamos sobre você e sobre o fato de você estar sempre sozinho, e não parecer ter ninguém? — Ácidas. São assim que minhas palavras soam, e quero pedir desculpas no mesmo instante em que as profiro, mas Taehyung não me dá tempo, respondendo rápido demais.
— Porque eu realmente não tenho ninguém.
Ele não parece ofendido ou magoado com minha escolha terrível e nada empática de palavras.
— Tae… — Eu não sei de onde o apelido saí, mas a constatação de que ele existia em algum espaço de minha mente, e estava esperando pela oportunidade perfeita para escapar, faz meu coração acelerar, assustado — Taehyung… — Eu me corrijo, limpando a voz e respirando fundo antes de voltar a falar — Eu não quis dizer isso... Desculpa. Eu não me sinto confortável compartilhando algumas coisas, e tentei me defender falando sobre você. Sinto muito.
— Mas não deixa de ser verdade… — Ele insiste, e assisto seus ombros se encolherem. Ele puxa as mangas de seu suéter até a metade de suas mãos, escondendo-as sob o tecido quente e deixando apenas os dedos para fora — Meus pais moram do outro lado do mundo, e eu não tive a sorte de me dar muito bem com as pessoas daqui, e é isso — Ele diz, mas sei que não é só isso. Sei que não é só isso porque o modo como ele desvia o olhar para a janela ao nosso lado e fita a rua deserta, enxergando além dessa, se parece muito com algo que estou acostumada a fazer para fugir de algumas verdades que não podem ser ditas em voz alta — Mas ser sozinho não é um problema, se é isso que você quer saber. Eu falo com bastante gente no meu trabalho, e a gente sempre pode tentar encontrar alguém pra conversar por esses aplicativos novos de celular, então tudo bem.
E como se um feitiço ruim estivesse sendo quebrado, a atmosfera tensa e complicada que orbita em torno de nós se dissolve no som engasgado de minha risada. Levo a mão até a boca e tento cessar meu riso, mas tentar me controlar só faz com que a coisa toda se torne ainda pior e minha risada explode com mais força, e sou obrigada a cobrir o rosto inteiro com as mãos. A última coisa que vejo antes de fechar os olhos é a expressão perdida e desorientada de Taehyung, que mantém uma sobrancelha arqueada e os lábios comprimidos em uma linha fina, sem entender o motivo da graça.
— Eu acho que não entendi a piada — Ouço ele dizer mas não consigo responder porque ainda estou sufocando em meu próprio riso — É sério, o que é que foi tão engraçado? O negócio dos aplicativos? — E aí escuto uma sombra de diversão em sua voz, o que me faz afastar as mãos de meu rosto para fitá-lo.
Um sorrisinho tímido e envergonhado repuxa seus lábios tingidos de vinho. Ele se ocupa em passar as mãos pelos fios de seu cabelo cor de mel, e em fazer com que o óculos de grau de armação redonda e dourada volte a repousar no topo de seu nariz. A pintinha solitária chama minha atenção outra vez, e sei que se tivesse que pontuar alguma parte dele para ser gravada em minha memória, seria certamente esse detalhe.
— Você realmente usa essas coisas? — Questiono curiosa, conseguindo vencer meu acesso de riso e voltando a respirar num ritmo tranquilo.
— Ah, eu não acredito que você riu da minha cara por causa disso!
— Desculpa, é que… Eu imaginei a cena e… — Me obrigo a respirar fundo para não acabar rindo outra vez — E você não se parece em nada com alguém que usa esse tipo de coisa, é isso. Achei que você estivesse mais ocupado ouvindo música, ou lendo sobre arte, sei lá…
— Você devia ficar sabendo que esse tipo de aplicativo é muito útil em madrugadas regadas a insônia e pensamentos ruins, sabia? É sempre bom encontrar alguém com quem você nunca conversou pra ter umas conversas sem pé nem cabeça, sabendo que ainda que a pessoa te julgue, não faz mal porque as chances de vocês realmente desenvolverem alguma relação são mínimas… — Seu monólogo é tão bem descrito e dito com tanta segurança que por uma pequena fração de segundos tenho certeza de que o que está sendo dito por ele é uma grande, senão a maior, verdade absoluta, e que não pode ser discutida — Além disso, eu posso falar sobre música ou sobre arte com pessoas desconhecidas que também gostem disso.
— Isso não faz sentido nenhum, Taehyung… — Digo após refrescar meu cérebro com outro gole de vinho, que me ajuda a recolocar as ideias em seu devido lugar — Você pode conversar sobre esses assuntos com pessoas conhecidas, e pode ir atrás de um psicólogo que te escute sem te julgar, sabia? — Dessa vez me esforço para que minhas palavras não soem agressivas ou invasivas, e agradeço em silêncio quando ele sorri, sem compreendê-las de uma maneira ruim.
— Certo, e você faz isso? — Me sinto novamente sendo colocada contra a parede.
— Achei que a gente tava falando sobre você…
— Seus mecanismos de defesa fariam Freud voltar dos mortos só para estudá-la, sabia? — Ele entorta o pescoço para o lado, estreitando o olhar em minha direção como se ele próprio estivesse empenhado em me analisar. Me encolho em minha cadeira, exposta sob o olhar analítico de Taehyung.
— Não acho que eu seja digna de tanta atenção assim.
Outra onda de silêncio se alastra entre nós, e vejo o sorriso quente e acolhedor dele ser varrido para longe de mim. Assisto ainda quieta enquanto ele abre e fecha a boca, comprimindo os lábios. O que quer que seja que tenha chegado até a ponta de sua língua não encontra o caminho de saída, e vejo Taehyung engolir as palavras, deixando-as se perderem. Quando ele volta a falar, fica nítida a mudança brusca e forçada de assunto, e fico indecisa entre ficar magoada ou agradecida.
— De qualquer modo, é claro que isso faz sentido, e eu acho que você devia testar isso qualquer hora dessas, pra ver como tenho razão! — Ele volta a defender seu ponto de vista — Você pode até se sentir melhor depois de conseguir falar sobre algumas coisas com algum estranho.
— Certo, vou tentar lembrar disso quando não conseguir dormir — Falo da boca pra fora, sabendo que falar sobre meus problemas mais pessoas com algum estranho, através de um aplicativo de namoro, está longe de ser uma prioridade em minha vida.
— Espero mesmo que lembre… E depois disso acho que já dá pra ter certeza de que minha vida está longe de ser interessante o suficiente para ser tema de um almoço, então, o que mais você pode me falar sobre você? — Ele arrisca uma segunda vez, de maneira sorrateira e sutil.
Outra vez sinto um formigamento incômodo na ponta de meus dedos, e a curiosidade dele em relação a mim volta a se mostrar tão gritante e escancarada que não há como eu fingir que não percebo o modo como ele me olha, esperando que eu abra o livro sobre minha vida para ele e deixe que ele descubra tudo sobre mim. E, por mais que eu tente, não consigo entender o motivo de toda sua preocupação em conhecer o que existe por trás de minha fachada bem construída. Penso em perguntar se toda sua curiosidade é proveniente de seu lado corretor de imóveis, buscando delinear o perfil de sua cliente, ou se é Kim Taehyung quem quer conhecer todas as camadas escondidas de minha vida.
— Bom, eu também não acho que minha vida seja interessante pra ser tema de um almoço, então a gente devia tentar pensar em outro assunto… — Afirmo na defensiva, optando por deixar que minha pergunta exista apenas em minha mente.
— Eu só queria entender porque você resolveu voltar pra uma cidade tão esquecida no mapa como essa… — Ele se explica, como se também estivesse preocupado em esclarecer suas razões — Mas eu sei quando alguém não está pronto pra falar sobre algo, então tudo bem…
— Obrigada — Agradeço sem graça, dando outro gole em minha taça de vinho para fugir do olhar amigável de Taehyung. Me esforço para lembrar do motivo de estarmos sentados aqui, e o peso proporcionado por meus cinco segundos de coragem logo está recaindo sobre meus ombros outra vez, servindo como uma ancora para me manter ligada a realidade.
— Mas já que não vamos falar sobre o passado ou sobre o presente, talvez você pudesse me falar o que espera do próximo ano.
— Você não desiste mesmo, não é? — Ele busca esconder o riso atrás de sua própria bebida, mas seus olhos se estreitam em duas semi-luas, sorrindo em conjunto com seus lábios — Você sabe o que eu quero… Um apartamento.
Apesar da brincadeira, minhas palavras são as mais sinceras o possível. É só isso que quero. Um apartamento. E ainda estou tentando me convencer de que, a partir do momento em que estiver em uma nova casa e minha, todo o restante de minha vida vai voltar para os eixos. Mas, ao mesmo tempo em que o respondo e que paro para pensar sobre isso, também sou atingida por um segundo pensamento que me faz engolir a seco, aterrorizada. Será que é esse o motivo de eu continuar encontrando defeitos em todos os apartamentos que Taehyung me mostra? Será que não estou pronta pra encarar tudo de frente, e recomeçar do zero? Será que me sinto incapaz de reorganizar minha vida, e de tomar as rédeas de meu futuro em minhas próprias mãos, e por isso continuo adiando o inadiável?
Ou, na mais absurda das hipóteses, será que eu simplesmente não estou pronta pra admitir que a companhia dele me faz bem demais, e que não me sinto pronta para perder isso? Porque sei… Sei que no instante em que o apartamento perfeito aparecer, ele desaparece de minha vida. É assim que as coisas funcionam, não é? Droga, sei que isso não faz o menor sentido. Nem sei porque acabo deixando que meus pensamentos sigam nessa direção, sem nexo algum. Mas sei que posso culpar a bebida, e o fato de não conhecer ninguém na cidade e me sentir sozinha. É também sei que é por isso que tenho construído todos meus dias ao redor de meus encontros com Taehyung, e da busca por meu apartamento - ainda que a ordem dos fatores nessa frase me deixe ligeiramente preocupada, ainda que eu finja que não.
Balanço a cabeça como se isso fosse capaz de fazer com que os pensamentos incoerentes que rodeiam minha mente sejam lançados para longe, e volto a prestar atenção no garoto em minha frente, que ainda repousa seus olhos cor de âmbar sobre os meus, sem pressa ou preocupação alguma. Ele apoia sua taça na mesa outra vez, e o assisto suspirar calmamente, retirando o guardanapo de pano de seu colo e o jogando ao lado de seu prato vazio, sobre a mesa. Seus cotovelos são colocados sobre o tampo de madeira e ele usa ambas as mãos para apoiar o queixo, trazendo o rosto mais para frente. Quando sua voz me atinge, sei que não se trata de apenas mais meia dúzia de palavras vazias, mas sim de uma promessa.
— Tudo bem. Eu vou te ajudar a encontrar um novo lar.
Sumi, mas estou de olho aqui kkkjkkk como você tá?? Tá tudo bem?? Saudades!!
que saudadesssssss :( eu to bem!!!! com saudades de interagir por aqui, e você?
oi, só queria te contar que suas histórias me fazem muitíssimo bem, você é maravilhosa
muito obrigada :( eu fico feliz demais de ler isso, juro
Qmdas tá de matar de vdd, ansiosa demais pro próximo capítulo!
dsahdksajhdsaj eu to muito ansiosa também, apesar de estar sofrendo pra escrever...
Tira uma dúvida que eu estou quase surtando de ansiedade o 17 th do Im jaebum só vai até o 7 porque os outros não consigo encontrar de jeito nenhum e eu estou muito ansiosa pra terminar de ler obrigada pela atenção 🤗🤗
não tem os outros porque eu não terminei de escrever :( pra ser honesta eu nem lembrava dessa fic mas aí eu li sua ask, e fui reler ela, e agora to ARRASADA porque eu parei na pior parte possível né... que inferno :( dklasjdlaskf vamos ver se fico motivada pra terminar ela
A Regra dos Cinco (1)
Kim Taehyung. Sinopse: A pior parte de terminar um noivado na véspera do casamento, para sua surpresa, não era precisar devolver os presentes, cancelar o buffet, ou encarar os questionamentos infinitos das pessoas a sua volta. Na verdade, a pior parte era, sem dúvida alguma, encontrar um novo lar. Parte: [ 1 l ? ]
27 de Novembro de 2018.
Às vezes, tudo de que você precisa são de cinco segundos de coragem intensa e insana. Cinco segundos e pronto, você vai conseguir. É isso que chamam de a regra dos cinco. É claro que a pessoa que pensou que essa seria uma boa ideia nunca se deu ao trabalho de revelar que, após os cinco segundos de coragem, há milhões de segundos e minutos e horas de puro desespero que se arrastam por dias e mais dias, até se transformarem em semanas, meses e talvez anos. Se eu soubesse que meus cinco segundos de coragem iriam resultar em tantas dores de cabeça e crises existenciais assim, é bastante provável que eu tivesse pensado melhor antes de cancelar um noivado na véspera do casamento, e voltar para a casa dos meus pais. Mas tudo bem, a coisa toda não é tão ruim quanto parece. Tenho certeza que ao olhar para além do caos provocado pelos famosos cinco segundos de coragem, não é só destruição que você irá encontrar.
Passei os últimos dois dias atravessando o país em um carro alugado, da pior classe possível, e tendo que enfrentar uma nevasca infinita, e a ideia de me enterrar viva no meio de toda aquela neve que me cercava só deve ter surgido umas vinte e quatro vezes ao longo de toda viagem. Viu só, não foi um número tão absurdo assim, se considerarmos que resolvi arruinar um casamento inteiro e um futuro promissor da noite para o dia, quase que literalmente. Certo, mas o que me levou a tomar uma decisão como essa? Bom, essa a pergunta que não quer sair da minha cabeça, e é por isso que depois de quase duas semanas do fatídico dia, eu continuo sendo assombrada pelas consequências dos meus cinco segundos de coragem.
— Você sabe que não precisa mesmo fazer isso não é, meu amor? — Minha mãe repete pela centésima vez desde que voltei para casa. Essa é a frase mais dita por ela, e tenho certeza absoluta de que se meu pai fosse tão falante assim, seria também sua oração preferida — Essa casa sempre será sua, e não vejo sentido algum em você precisar se mudar, já que pretende ficar na cidade! — Ela completa enquanto derrama sobre meu prato uma porção generosa de ovos mexidos decorados com bacon, e sinto pena de dizer que não como mais isso desde a época em que fui para faculdade. Talvez ela não veja sentido em eu querer encontrar um apartamento para mim, mas apenas a questão alimentícia já me parece uma excelente razão, sem contar em todas as outras que listei em meu planner, na categoria “motivos para não pensar em continuar morando com suas pais!”.
— Eu estou velha demais pra ficar dependendo de você e do papai — E me contento em dar a mesma resposta de sempre, na falta de uma melhor, enquanto faço um excelente trabalho em remexer os ovos já mexidos com o garfo — Se eu tiver um lugar só meu, acho que isso vai me ajudar a reencontrar algum rumo para minha vida, entende?
É isso que eu espero. Casa nova, vida nova.
O problema, no entanto, é que não achei que seria tão complicado assim embarcar nessa jornada cheia de mudanças. Cinco segundos de coragem? Ok. Ideia do que fazer após isso? Nenhuma. A verdade é que, quando cancelei o casamento em cima da hora, pensei apenas em algumas coisas… Bom, primeiro pensei que Minhyuk jamais iria me perdoar, e eu acho que estava certa nesse ponto. Ele parece não querer me ver nem mesma pintada de ouro e a verdade é que não posso culpá-lo, já que acabei partindo seu coração. A segunda coisa que passou por minha cabeça foi como seria difícil cancelar o evento e avisar os convidados, e a dor de cabeça tremenda que isso seria. E, de novo, eu estava certa. Lidar com as perguntas infinitas e com todos os julgamentos enviesados que eram direcionados para mim, de forma nada discreta, pareceram abrir uma cratera sobre meus pés e pensei que seria engolida por todos os pontos de interrogação que me rodeavam enfurecidos, como um furacão sem curso certo. Duas semanas se passaram, mas ainda me sinto girando em círculos, sendo soterrada pelo pessoa de todas as perguntas que não fui capaz de responder.
A terceira coisa que pensei foi que eu teria que voltar para a casa dos meus pais, e que isso, definitivamente, também não seria fácil, e bingo! Certa novamente. O cuidado constante e excessivo, e a sensação de ter voltado a ter dezessete anos não são nem de perto agradáveis. É claro que os cafunés de minha mãe e os beijos carinhosos de meu pai serviram como um remédio milagroso quando desci do carro alugado e afundei na neve, carregando minhas malas e inseguranças, e quando o choro preso no fundo de minha garganta finalmente encontrou vazão. Assim como também é claro que ser mimada com xícaras de chocolate quente e risos compartilhados, cada vez que eu surtava achando que tinha cometido o maior engano da minha vida, também foram uma santa cura. Mas esse sentimento de conforto e gratidão logo foi substituído pela necessidade quase que urgente de encontrar um lugar só para mim. E é aí que entra a quarta coisa que tomou conta dos meus pensamentos nos últimos dias: encontrar um novo lugar para morar. E isso seria fácil, é claro. Existem lugares para se morar em todas as cidades do mundo, não é? Não havia possibilidade alguma de um assunto tão sem importância também me provocar noites mal-dormidas. Mas, dessa vez, eu estava perdidamente errada.
— Algum problema com os ovos? — A voz de minha mãe chama minha atenção uma segunda vez e percebo que estou espalhando os pedaços amarelados pelo prato sem me preocupar em comê-los, o que não deve surpreendê-la, tendo em vista que tenho feito isso manhã após manhã, em um ritual já conhecido. Talvez essa seja minha deixa para me livrar do café da manhã, afinal de contas.
— Não, eles estão ótimos — Minto, tentando esboçar meu melhor sorriso e sabendo que a expressão que cresce em meu rosto não chega nem perto dele — Mas estou atrasada, marquei de encontrar um novo corretor de imóveis para ver alguns apartamentos! — Digo ao mesmo tempo em que me levanto depressa e alcanço minha bolsa esquecida sobre o balcão da cozinha. Antes que minha mãe tenha tempo de prolongar a conversa, estou colocando os pés para fora de casa e sendo atingida pelo vento gélido e cortante que denuncia que estamos em pleno inverno, ainda que em minha mente o v seja substituído pelo f.
Fico terrivelmente triste ao lembrar que precisei devolver o carro alugado para economizar meu dinheiro, e minha tristeza parece ir crescendo a cada novo passo que dou em direção à parada de ônibus. É isso que minha vida se tornou. Um eterna e vazia caminhada até paradas de ônibus. Meus pés protegidos pelas botas de cano alto afundam na neve e o peso de meu próprio corpo parece se tornar maior e cada metro percorrido, e por mais que tenha repetido esse mesmo trajeto por vários dias, ainda me pego deslizando vez ou outra em alguma região mais lisa do gelo. Suspiro frustrada e o frio faz com que uma neblina esbranquiçada escape por minha boca, se dissipando no ar em minha frente, como um fantasma. Queria poder dizer que o universo é legal comigo e contribui para que meu ônibus passe depressa, mas não é isso que acontece. E por que é que o universo resolveria ser legal comigo quando eu resolvi ferrar com tudo que já parecia destinado à acontecer, não é? Terminar um noivado, largar o emprego, voltar para a cidade natal… Certo universo, você tem todo o direito de rir da minha cara. Que tipo de pessoa insana toma todas essas decisões importantes de uma só vez? O barulho do meu meio de transporte se aproximando é o que faz com que meu fluxo de pensamentos trágicos seja interrompido. Assim que me sento no fundo do veículo, me permito fechar os olhos e tento relaxar por alguns minutos, para aproveitar a viagem até o centro da cidade. Pelo menos na técnica de ignorar o sacolejo incômodo que atinge o ônibus eu me tornei especialista.
As ruas principais da cidade de pouco mais de dez mil habitantes estão começado a receber enfeites de Natal, e por algum motivo isso começa a me deixar um tanto nostálgica. Entre uma árvore decorada e um poste de luz colorida, sou obrigada a lidar com uma saudade que não faz sentido, e com uma espécie de antecipação preocupada acerca de tudo que o futuro me reserva. Sei que é a primeira vez depois de anos que não irei me reunir com a família de Minhyuk para comemorarmos a data, e essa constatação me deixa com um gosto amargo no céu da boca, e talvez isso seja um sinal de que preciso de algo que sirva para adoçar minha vida. Ignoro o fluxo de pessoas animadas que passa por mim e caminho com cuidado pelas calçadas, temendo que os resquícios de gelo da madrugada me façam escorregar. Acumulei três roxos na última semana, e não me sinto preparada para adicionar mais um hematoma em minha coleção recente. Basta algumas quadras para que eu chegue até uma das maiores cafeterias da cidade, e não me surpreende em nada perceber que o local está bastante lotado. E por que não estaria? Estamos no inverno, e ainda não passou do horário do café da manhã, e eu não poderia mesmo ser a única desesperada por uma bebida quente, para espantar a temperatura congelante que me faz encolher os ombros.
Afundo minhas mãos frias nos bolsos de meu sobretudo creme e resolvo encarar a fila que conta com cerca de sete pessoas quando sinto uma mão grande e quente repousar em um dos meus ombros, me pegando de surpresa. A aproximação inesperada e repentina me faz dar um pequeno salto e giro o pescoço apenas o suficiente para me deparar com um par de olhos castanhos que me fitam com certa hesitação, praticamente encobertos pela franja morena que recai sobre a testa do estranho, consideravelmente mais alto do que eu.
— Foi com você que troquei alguns e-mails sobre apartamentos à venda, não é? — Ele questiona, e parece se lembrar de que sua mão continua em meu ombro, e num movimento apressado e nada sutil trata de afastá-la de mim, deixando-a pender ao lado de seu corpo — Ah, eu sou Taehyung. Kim Taehyung… E acabei te reconhecendo por causa da foto do seu perfil — Ele justifica, sem graça.
Oh. Certo. O corretor de imóveis.
— Isso mesmo, sou eu — Tento forçar um sorriso e vejo-o retribuir o gesto, e só então me dou conta de que ele esta segurando - ou ao menos tenteando equilibrar em apenas uma mão - uma caixinha de papelão que contém dois copos médios de café — Achei que tivéssemos marcado um pouco mais tarde.
— Ah, você precisa fazer algo antes? Desculpe, eu acabei ficando em dúvida se havíamos marcado as oito e meia ou as nove, então resolvi chegar mais cedo — E então ele abre um sorriso que consegue me deixar tonta por alguns segundos, porque por um breve instante é quase como se sua aura fosse brilhante demais para ser observada por alguém que tem tido dias tão sombrios quanto os meus. Sua luminosidade tenta invadir meus dias nublados, e isso me causa um desconforto momentâneo, e dou um passo para trás, quase que de modo inconsciente, como se precisasse me proteger — Eu acabei pegando dois cafés, já que a fila estava ficando grande, e não sabia se você iria resolver enfrentá-la. Aliás, peguei tamanho médio porque hoje o frio resolveu piorar, e deixei o açúcar por sua conta! — Percebo que ele fala demais, e que parece não se dar conta disso, porque não há traço algum em sue rosto bem delineado que indique que ele sente muito por estar derramando dúzias de palavras sobre mim, enquanto me contento em apenas observá-lo em silêncio.
— Não tenho nenhum compromisso… Deixei o dia reservado só para visitar os apartamentos — Respondo calmamente, e ele não precisa mesmo saber que tenho todos os dias vagos… Uma grande e infinita agenda de dias vagos — E aceito o café, se você não se importar…
— Mas é claro, sem problemas, ele é para você mesmo — Ele rebate de imediato, soando simpático e se apressando em me entregar um dos copos enquanto saímos da fila — Será que podemos nos sentar um momento? Eu sempre gosto de repassar algumas coisas antes de darmos início as visitas, só pra ter certeza de que eu e você estamos na mesma página…
Concordo com um breve balançar de cabeça e ele se apressa em nos guiar até uma mesa que parece estar vaga, a não ser por uma bolsa transversal de couro marrom que repousa sobre uma das cadeiras. Antes de se sentar, Taehyung puxa a cadeira vazia para mim, em um gesto de cavalheirismo que me deixa confusa, e é apenas quando já estou em meu lugar que ele ocupa o seu próprio, sentando-se em minha frente. Assisto enquanto ele retira a tampa plástica do copo e rasga dois pacotinhos de açúcar, derramando todo o confeito dentro de seu café antes de tornar a fechá-lo. Imito seu gesto, me contentando com apenas meio pacote de açúcar, e ele volta a falar após esboçar um sorriso discreto mas que não passa despercebido por mim.
— Nos e-mails que trocamos você me disse que pretende morar sozinha, certo? — Faço que sim novamente, dando um gole no líquido quente e sentindo meus músculos relaxarem com a nova onda de calor que se alastra por meu interior — Acho que você sabe que por se tratar de uma cidade mais antiga, vai ser complicado encontrar apartamentos que sejam muito pequenos, ou que tenham apenas um quarto… Se estivéssemos em Seoul eu teria uma dezena de studios pra te apresentar, mas aqui o meu trabalho fica um pouco mais complicado.
— Não tem problema — Digo, reencontrando minha voz. Taehyung mantém seus olhos cor de âmbar selados aos meus durante toda a conversa, desviando toda sua atenção para mim e para minhas palavras. Me sinto invadida e exposta, e a sensação de ter alguém me colocando em enfoque me deixa retraída. Os últimos dois corretores estavam mais preocupados em me arrastarem para apartamentos que não tinham absolutamente nada do que eu procurava do que em me ouvirem falar algo, e a preocupação excessiva de meus pais me causa mais sufocamento do que um sentimento de valorização, e busco acreditar que seja esse o motivo que me faz ficar incomodada com o profissionalismo genuíno do homem em minha frente. Isso e o fato de que faz tempo desde a última vez em que alguém parou para prestar atenção em minhas palavras, sem esperar pelo fim delas para me bombardear com questionamentos. Agito a cabeça discretamente, ansiosa por me livrar do rumo desconexo de pensamentos que comecei a seguir, e volto a me orientar em torno do objetivo deste encontro: meu futuro — Se o apartamento tiver dois quartos, ou até mais, mas for pequeno e estiver dentro daquele orçamento que te passei, você pode me mostrar…
O moreno estampa os lábios cheios e avermelhados com outro sorriso, satisfeito com minha resposta. Assisto-o bebericar seu café mais uma vez, e me ocupo em prestar atenção no modo como os fios castanhos claros, lisos e bem aparados, de seu cabelo se estendem até a metade de sua nuca, numa espécie de mullet moderno que não vai de encontro com sua aparência juvenil, mas que ainda assim parece combinar perfeitamente com o maxilar marcado e com os demais detalhes de seu rosto, como a pintinha solitária que adorna a ponta de seu nariz, parecendo uma estrela que se perdeu de sua constelação. Basta olhar em volta para chegar a evidente conclusão de que Kim Taehyung, assim como eu, também não se parece com alguém que faz parte dessa cidade esquecida no tempo e no mapa. Me pergunto se é assim que ele me enxerga também… Como uma peça tentando ser encaixada em um quebra-cabeças incorreto, e que já se encontra completo.
— Bom, eu fiz uma lista com alguns apartamentos que acredito serem interessantes pra você... Podemos ver dois agora na parte da manhã, e mais dois durante a tarde, se você não se importar em passarmos o almoço juntos — Seus olhos inquisidores me fitam e aguardam pacientes por minha resposta. Ele parece determinado em me mostrar os melhores lugares que eu poderia encontrar na cidade, e, durante uma fração de segundos, que surge como uma faísca em meio a escuridão, sinto que todas minhas oportunidades repousam em suas mãos.
— Tudo bem — São as únicas palavras que escapam de minha boca, e ele se mantém em silêncio como se estivesse esperando por uma resposta um pouco mais longa, ou elaborada… Me recrimino e me remexo em meu lugar, sentindo-me culpada. Não é como se eu fosse antipática ou incapaz de ter uma conversa, ou de ao menos contribuir para que um diálogo exista… É só que passei os últimos dias mergulhada em um silêncio tão intenso que parece que minha voz ainda está perdida em algum lugar dentro de mim. Todas minhas palavras foram monólogos mentais endereçados a mim mesma, e depois de tanto tempo tentando prestar atenção apenas no que se passava dentro de mim e de minha cabeça, parece que me tornei uma fracassada na arte de olhar para o lado de fora, e interagir com o mundo exterior. Os cinco segundos de coragem e suas fantásticas consequência. Respiro fundo, sentindo o ar frio machucar minhas narinas, e faço um esforço para me animar e encontrar energias para encarar o dia, e para facilitar para meu novo corretor. Casa nova, vida nova. É isso — Então, por onde começamos?
Quick Musical Doodles and Sex (18)
Min Yoongi Sinopse: Por mais que eu tentasse, eu simplesmente não conseguia me livrar daquilo. Do maldito som insistente de gemidos altos que vinham do apartamento vizinho. [ parte: 0 l 1 l 2 l 3 l 4 l 5 l 6 l 7 l 8 l 9 l 10 l 11 l 12 l 13 l 14 l 15 l 16 l 17 l 18 l ? ]
Vazio.
Tudo parece assustadoramente vazio sem Yoongi.
Dizer que a semana seguinte se arrasta me parece um eufemismo porque o tempo parece ter congelado, e todos os dias são iguais, como se eu estivesse presa em algum momento específico e miserável que parece intransponível. A mesma rotina cansativa, tediosa e vazia. As mesmas pessoas, as mesmas perguntas, os mesmos problemas, e tudo vazio. A mesa desocupada na biblioteca, a cadeira vazia na aula de literatura e o silêncio que escapa do apartamento ao lado e perturba meu sono: vazio - porque nem mesmo em meus sonhos ele aparece. Por mais de uma vez, me peguei pensando se não alucinei sobre a existência de Min Yoongi porque, assim, repentinamente, é como se ele tivesse se transformado em um fantasma, deixado de existir e de fazer parte desse plano terrestre.
Não escuto mais suas músicas altas madrugada a dentro, nem o som dos passos desleixados subindo as escadarias e guiando-o para a porta ao lado, e muito menos o tilintar de suas chaves sendo remexidas. Na faculdade, seu lugar no refeitório continua vago dia após dia, e seus amigos parecem cuidar para que ninguém acabe o ocupando. Durante a aula de literatura, tive que suportar nosso professor questionando seu sumiço, me fazendo perguntas diretas, e o peso ainda maior de não ter resposta alguma para nenhuma delas. Não sei, não sei, não sei. Mas a coisa toda parece piorar quando chego na biblioteca, todas as tardes, e meu olhar treinado e saudoso paira sobre sua mesa, ansiando por qualquer vislumbre mínimo que seja de seu rosto. Ao menor sinal da porta se abrindo e fechando, toda minha atenção é roubada e desviada, e, não importa se já fui frustrada uma centena de vezes, parece que minha esperança de vê-lo outra vez consegue ser sustentada em razão da saudade ridícula que sinto.
― Descobriu alguma coisa? ― Eu questiono assim que Jisoo termina de atender um aluno, e ela deixa um suspiro longo e dramático escapar como forma de resposta, antes de deixar os livros devolvidos de lado e olhar para mim. Desisti de fingir que não me importo e que não quero saber notícias sobre ele, porque a exaustão que fingir indiferença me causou se tornou insuportável.
― Você é mesmo muito masoquista ― Minha melhor amiga reafirma. Tenho certeza absoluta de que essa foi a frase mais dita por ela nos últimos dias, e que não pensei nem mesmo por um instante em refutá-la, porque sei que, infelizmente, essa é a mais pura verdade.
A equação é bastante simples, até mesmo para alguém como eu, especialista em humanas. Quero saber sobre Yoongi. Saber sobre ele. Mas não consigo eu mesma ir atrás dele, e nem me aproximar. Por medo, insegurança, mágoa, já nem sei mais pontuar com precisão qual o problema que me mantém refém de mim mesma. Mas sei que todo esse comportamento incoerente só resulta em um grande masoquismo sem tamanho.
― Então, descobriu? ― Pergunto novamente, ignorando seu comentário e também meus pensamentos, buscando conseguir qualquer informação que seja sobre o paradeiro de Yoongi. Outro suspiro.
― O Hobi disse que ele não apareceu na república nenhum dia, e que tentou conversar com o Namjoon mas tudo que ele sabe é que ele está concentrado trabalhando em alguma coisa, e por isso desapareceu… Acho que é algo normal, porque os amigos não parecem preocupados…
Hobi. É assim que Jisoo chama o Hoseok agora, e não consigo evitar a inveja que sinto porque também queria que as coisas estivessem em ordem para que eu pudesse chamar o Yoongi de Yoon, ou de Gui, ou de qualquer coisa que indicasse que ele ainda faz parte da minha vida.
― Entendi… ― Respondo, na falta de algo melhor para dizer.
― Se tá tão preocupada com o sumiço dele, é só ceder e ligar pra ele ― Jisoo diz como se fosse fácil e simples. Como se eu, no ápice do desespero por notícias, já não tivesse tentado fazer isso. Só que não consigo. Alguma coisa me trava, porque sei que se eu ligar, vamos ter que conversar sobre tudo que aconteceu, e não sei se quero fazer isso. Não sei se consigo fazer isso. É vergonhoso dizer mas fugir sempre me pareceu a opção mais fácil, e foi meu comportamento padrão em inúmeras situações, e é terrivelmente complicado mudar as coisas depois de tantos e tantos anos agindo da mesma maneira. É como se meu corpo estivesse treinado e eu fosse incapaz de encontrar outros caminhos possíveis para agir de outra forma.
― Não to tão preocupada, é só que… ― Me interrompo, incapaz de pronunciar em voz alta que é só porque todos seus sumiços são encerrados com um retorno marcado por hematomas espalhados por seu rosto, como aconteceu da última vez ― Se o Namjoon disse que ele está trabalhando em algo, então é só isso que está acontecendo. Talvez ele se concentre melhor longe ― Dou de ombros, fingindo desinteresse.
Jisoo rebate com uma série de contra-argumentos, que só deixam explícito o quanto sou uma mulher covarde e ridícula por estar sofrendo de saudade e ainda assim não ir atrás para resolver as coisas, o que só me deixa ainda mais frustrada comigo mesma, e por mais que eu saiba que ela só está tentando me ajudar, resolvo ignorar suas palavras e focar em meu trabalho. Há uma dezena de livros para serem catalogados e arquivos para serem atualizados, e me focar nisso faz com que o expediente passe mais depressa.
Já é quase hora de ir embora quando o ressoar do sino na porta repercute por toda biblioteca, chegando até meus ouvidos e fazendo meu olhar se erguer de maneira quase que instantânea. Ao contrário da maioria dos alunos que adentra no local, vejo o garoto ficar paralisado ao lado da porta. As mãos estão agarrando com força as alças da mochila pendurada em suas costas, e o corpo alto e de músculos definidos permanece balançando para trás e para frente, inquieto e parecendo estar completamente fora de seu habitat natural. A lembrança de minha promessa vazia me atinge em cheio e meu coração acelera por conta da culpa que sinto. No mesmo segundo em que tento traçar um plano para fugir do balcão e me esconder, ele vira o rosto e seus olhos se encontram com os meus, me deixando sem escapatória. O sorriso que cresce em seus lábios cheios e avermelhados e que deixa seus dentes a mostra faz com que minha culpa cresça ainda mais, porque ele parece genuinamente feliz em me encontrar, e isso faz com que eu me sinta péssima.
― Inferno… ― Murmuro baixinho mas sou ouvida por minha amiga, que desgruda os olhos do computador e observa enquanto Jungkook se aproxima, até parar diante do balcão. Vejo a boca de Jisoo se abrir assim que ele me cumprimenta, empolgado demais.
― Oi, noona! ― Sua voz transborda ansiedade e doçura ― Você não ligou, então achei melhor tomar a iniciativa e vir atrás de você…
Fico muda por alguns segundos, e meu silêncio crescente começa a fazer com que o sorriso que Jeon traz no rosto murche, e um semblante preocupado começa a tomar conta de seus traços. Jisoo me dá um cutucão por baixo do balcão, em uma tentativa de me fazer voltar para realidade, e deixo um choramingo engasgado escorregar por meus lábios.
― Ah, sinto muito por isso… Eu andei meio ocupada nos últimos dias ― Minto, e não preciso nem mesmo olhar para Jisoo para saber que ela está me recriminando com seu olhar inquisidor.
― Eu imaginei, não tem problema… Eu também fiquei corrido com alguns trabalhos e o futebol ― Me pergunto se minto tão mal quanto Jungkook, e espero muito que a resposta seja não.
Paro para finalmente prestar atenção nele e reparo que os fios escuros e recém cortados de seu cabelo ainda estão úmidos, e que uma fragrância leve de sabonete se desprende de sua pele, denunciando que ele acabou de sair do banho. As chuteiras penduradas do lado de fora da mochila são a prova definitiva de que ele estava treinando. Seus dedos tamborilam sobre o balcão, e sinto vontade de pedir para que ele se acalme. No entanto, tenho ciência de que deixá- lo saber que seu nervosismo é evidente só o deixaria ainda mais nervoso, e pensar sobre isso me faz perceber que eu e Jeon somos semelhantes em alguns aspectos.
― Você faz parte do time de futebol? ― Jisoo questiona, parecendo interessada de verdade. Ele finalmente desvia o olhar do meu, parecendo só agora se dar conta de que eu não estou sozinha.
― Eu tento ― Confessa, numa humildade exacerbada que não é compatível com o papel que ele desempenha.
― Ele é o capitão ― Afirmo, e me arrependo no mesmo segundo porque: 1) vejo as bochechas de Jeon ficarem rosadas e ele torna a sorrir, como se o fato de eu me lembrar dessa informação significasse algo grandioso e, 2) porque vejo Jisoo me encarar como se eu estivesse diante do melhor pretendente possível para ocupar o espaço vago que Yoongi deixou.
― O que te traz até aqui, capitão? ― Ouço Jisoo indagar, se tornando tão sorridente quanto Jeon, e fico aterrorizada. Dessa vez sou eu quem dá um beliscão em seu braço por trás do balcão, esperando que ela entenda o recado. Jungkook volta a olhar para mim, e vejo seus ombros largos se retraírem, tensos. Ele se encolhe como se quisesse sumir.
― Eu só queria saber se você não quer tomar um café, ou um suco… Ou o que você quiser ― Sua voz vacila. Assisto sua língua percorrer o lábio inferior enquanto ele se ocupa em umedecer a boca, e reparo na pintinha solitária que repousa logo baixo de seu sorriso.
― A gente pode combinar ― Respondo com um sorrisinho amarelo sob o qual tento esconder outra promessa que não sei se posso cumprir. Dessa vez, ao contrário da semana passada, Jeon não parece animado com minha promessa vaga, e a frustração fica estampada em seu rosto.
Eu pareço estar destroçando seus sonhos bem diante de seus olhos.
― Eu quis dizer hoje ― Ele dispara, sem rodeios, e sou pega de surpresa. Abro e fecho a boca uma, duas, três vezes, incapaz de responder algo porque me sinto encurralada. Mas aí, como um passe de mágica, a pilha de livros sobre os quais mantenho minha mão direita apoiada parece me enviar uma desculpa perfeita via osmose.
― Hoje vai ficar meio complicado, Jungkook… Eu tenho que levar todos esses livros pra casa ― Finjo um desânimo que não existe, e evito encontrar o olhar de Jisoo para que minha mentira não seja exposta por ela e descoberta por ele. Só que, para meu desespero, ele não se abala com isso, e nem se deixa intimidar.
― Eu posso te ajudar a carregar… ― Ele rebate prontamente, como se tivesse a resposta na ponta da língua, e fica óbvio que ele está na frente no placar, e que minha derrota é cada vez mais eminente.
― Ah, que maravilha! Viu só, você não precisa carregar tudo sozinha! ― Jisoo se intromete, quase rindo de minha situação lamentável. Quero xingá-la e exigir que ela me ajude, porque é esse o papel que ela deveria desempenhar como minha amiga, porém é claro que dessa vez sua torcida está toda voltada para Jeon.
― Não, imagina! ― Digo agitada, balançando as mãos no ar em sinal de negação ― Não precisa se preocupar com isso, sério! Eu consigo levar tudo sozinha.
Jisoo e Jeon permanecem em silêncio, minha resposta gerando decepções diferentes para cada um.
― Tudo bem, então… ― Jungkook finalmente parece se dar por vencido, e o assisto baixar o rosto e fitar as próprias mãos, que se encontram entrelaçadas sobre o balcão ― Quem sabe outra hora… ― O volume de sua voz é bem mais baixo agora, e ele evita meu olhar, como se estivesse envergonhado demais para me mirar nos olhos.
Não tenho tempo de me desculpar e nem de dizer nada que amenize a situação, porque em uma fração de segundos ele está se afastando e caminhando de modo arrastado em direção a saída, e Jisoo está me encarando com uma descarga exagerada de decepção reluzindo em seus olhos afiados. De novo o gosto amargo da culpa se alastra por meu paladar e faz minha cabeça pesar, me deixando enjoada. Meu fluxo de pensamentos se torna acelerado e sinto minha frequência cardíaca se elevar, as batidas de meu coração esmurrando minhas costelas e se tornando audíveis em meus tímpanos.
― Jungkook! ― O nome dele escapa de minha boca depressa demais, e mais alto do que o volume permitido dentro de uma biblioteca. Minha voz desperta a atenção dos poucos alunos que ainda se encontram no local, e resmungo pelo meu deslize inconsciente. Vejo-o paralisar em seu lugar e girar sobre os calcanhares, ficando de frente para o balcão uma segunda vez, os olhos castanhos buscando os meus, e um deslumbre de confusão surgindo em seu rosto ainda corado ― Eu saio daqui quinze minutos… ― Digo, dessa vez num tom de voz mais baixo, mas que ainda assim é capaz de vencer a distância que nos separa e chegar até ele ― Se você quiser esperar…
É sua vez de ficar sem resposta, e aguardo pacientemente até que seu silêncio seja quebrado por sua resposta animada.
― Claro! Eu te espero lá fora, pra não te atrapalhar! ― Ele afirma depois de alguns segundos, e o sorriso animado volta a surgir em seus lábios. Suas mãos agarram novamente as alças de sua mochila e ele ergue os ombros, reassumindo uma postura segura e determinada. Reparo que o fato de estarmos conversando a uma certa distância, tendo que aumentar nossas vozes, parece incomodar algumas pessoas presentes a julgar pelo modo como nos encaram, e ele nota a mesma coisa, porque começa a se curvar e a se desculpar várias vezes seguidas, sem deixar que seu sorriso desapareça. A cena me faz sorrir, ainda que a contragosto.
Ele se despede com um aceno curto e caminha de costas até a porta, desaparecendo para fora desta. Eu desabo em minha cadeira no mesmo instante em que Jisoo pula para fora da sua, parecendo prestes a explodir de tanta empolgação.
― Essa é literalmente a primeira coisa sensata que você fez nas últimas semanas! ― Ela exclama, batendo palmas silenciosas ― Achei que ia deixar ele sair daqui com aquela carinha de cachorro abandonado e não fazer nada a respeito! Até eu fiquei sensibilizada… Isso é um perigo, sabia? Ele pode conseguir o mundo com aquele olhar manhoso de filhotinho renegado!
Sinto vontade de rir mas minha preocupação com o rumo que as coisas podem tomar me impede disso.
― Só concordei com isso pra tirar logo da cabeça dele que existe a possibilidade de acontecer alguma coisa entre nós…
― E não existe mesmo? ― Minha amiga questiona, arqueando uma sobrancelha em sinal de suspeita.
― Jisoo… Pelo amor de Deus…
― Sim ou não? ― Ela insiste, e resolvo ser o mais clara o possível.
― Não existe a menor possibilidade… Eu não sinto nada pelo Jungkook, e nem por ninguém.
― Claro, só pelo nosso querido Yoongi ― Seu timbre ao pronunciar o nome de Yoongi é enjoado, deixando claro que ela lamenta muito por meu coração ser estúpido o suficiente para querer alguém como ele.
― As coisas do coração… ― Dou o assunto por encerrado, e milagrosamente Jisoo entende o recado e deixa a conversa de lado.
Os quinze minutos restantes de meu expediente passam voando, quase que em um piscar de olhos, para meu total desespero. Depois de me enrolar por mais alguns minutos, até meu atraso começar a se tornar um problema, resolvo colocar um fim nisso e junto minhas coisas, jogando tudo para dentro da bolsa. Estou contornando o balcão quando a porta se abre novamente, e de canto de olho reconheço Jeon. Ele se aproxima depressa, e por um segundo penso que ele está vindo cancelar nosso café, ou ao menos é por isso que espero.
― Tudo bem? ― Pergunto assim que ele para ao meu lado.
― Tudo ótimo, vim te ajudar com os livros!
― Certo, os livros… ― Vejo Jisoo levar a mão até a boca para esconder o riso. Caminho derrotada para dentro do balcão outra vez e pego a pilha de sete livros grossos em meus braços, fazendo um esforço tremendo para carregá-los. Jeon espera até que eu esteja do lado de fora da área reservada para os funcionários para tomar os livros de mim, e protesto quando ele tenta passar todo o volume para seus braços ― Shhhh! Eu levo alguns!
― Imagina, eu consigo levar todos! ― Ele insiste, ainda tentando tomar posse dos exemplares.
― Te deixo levar quatro! ― Ele hesita mas concorda, se contendendo em pegar apenas parte do peso.
Praguejo mentalmente quando começamos a caminhar para fora do campus e o peso dos livros começa a se tornar maior, em razão do cansaço. Minha desculpa fantástica se transformou em um verdadeiro pesadelo, e tudo isso porque fui incapaz de ser sincera com Jeon, temendo ferir seus sentimentos, quando os meus próprios estão em frangalhos. Ótimo. Fantástico. Simplesmente incrível. Ele puxa assunto sobre como foi meu dia e sobre como é meu trabalho na biblioteca, demonstrando interesse em todas minhas respostas curtas e objetivas. Reparo que o caminho que fazemos está nos guiando até o bloco de música, e não consigo controlar os sinais de ansiedade que surgem quando nos aproximamos de um grupo de alunos. Mãos suadas, taquicardia, respiração desregulada… Meus olhos fazem uma inspeção completa em todos os rostos ali presentes, mas nenhum deles pertence a Yoongi.
― Noona? ― Jeon chama por mim e me dou conta de que deixei de prestar atenção em suas palavras por um momento.
― Desculpa, achei que tinha visto alguém…
Depois disso, o restante de nossa caminhada é acompanhada por nosso silêncio.
(***)
O café escolhido por Jungkook fica a poucas quadras da universidade, e agradeço mentalmente pelo estabelecimento estar localizado no caminho de casa. Há poucas mesas ocupadas, e o ambiente, apesar de pequeno, é bastante reconfortante e com uma atmosfera familiar, o que me faz relaxar. Optamos por uma mesa que fica ao lado da vitrine de vidro que deixa todo o lado de dentro exposto. A mesinha redonda conta com duas cadeiras, uma de frente para a outra, e a toalha azul marinho com girassóis estampados combina perfeitamente com o arranjo floral que adorna a mesa, servindo para apoiar dois cardápios. Ele repousa os livros numa extremidade da mesa, e imito seu gesto, empilhando o restante dos volumes, e deixando bastante espaço vago para nós.
Percebo, só agora, que seu comportamento animado desapareceu durante o caminho, e o garoto que se encontra sentado em minha frente só parece perdido e sem saber como agir nessa situação. Chega a ser irritante como tenho me sentido culpada por tudo nos últimos dias, e como a presença de Jeon faz com que esse sentimento fique ainda mais aflorado, me causando um desconforto tão grande que reflete em meu físico, porque estou inquieta e sem saber como agir também. Nosso silêncio compartilhado começa a se tornar desconfortável mas nenhum dos dois demonstra ser capaz de pensar em alguma solução para resolver o problema, e é por isso que quase agradeço em voz alta quando a garçonete se aproxima de nossa mesa, pronta para anotar nosso pedido.
― Ah, nós ainda nem olhamos o cardápio… ― Jeon responde quando ela nos questiona sobre o que vamos querer. Ele parece envergonhado pela situação, e tento ajudar da maneira que posso.
― Eu só vou querer um suco de laranja, por favor ― Vejo-a anotar o pedido em seu bloco de papel e então voltar a mirar Jungkook.
― E uma vitamina de banana pra você? ― A voz da garota é gentil e pelo modo como ela elabora sua pergunta, percebo que Jungkook já é um cliente antigo, e que seu pedido já é reconhecido pela funcionária. Ele, no entanto, parece disposto a disfarçar isso por algum motivo, e nega sua pergunta com a cabeça, veemente.
― Vou querer um café ― A resposta faz a mulher franzir o cenho por instante, mas ela não tece mais comentários e logo se afasta de nossa mesa, deixando para nós a responsabilidade de impedirmos que o silêncio torne a surgir.
― Acho que depois de um treino uma vitamina seria melhor do que um café, não é? ― Digo brincando, tentando reverter o clima estranho que se instaurou entre nós. Jeon dá um sorrisinho tímido e balança os ombros, despreocupado.
― O treino de hoje não foi tão pesado assim, acho que um café vai dar conta do recado… E seu trabalho na biblioteca? Você sempre tem que carregar esse peso todo? ― Ele pergunta, os olhos semi cerrados crescendo ao que ele me fita com curiosidade estampada na face.
― Não, quase nunca na verdade… É que às vezes não dou conta de catalogar todos os livros na biblioteca, então preciso levar alguns pra casa pra analisar eles com mais cuidado e saber onde enquadrá-los lá na biblioteca ― Bom, não é uma mentira completa.
― Ah, parece meio cansativo… Você gosta de trabalhar lá?
― Eu curso letras, sabia? ― Ele dá um tapinha na testa, como se tivesse esquecido desse detalhe, e então deixa um riso baixo escapar ― Mas sim, eu gosto de trabalhar lá… É meio terapêutico na maior parte do tempo.
― Talvez eu devesse frequentar a biblioteca mais vezes pra estudar de verdade ― Ele assume, na típica postura de estudante culpado no final do semestre, e dessa vez sou eu quem acaba rindo ― Aí, além de melhorar minhas notas, também ia poder te ver com mais frequência. Duas vitórias simultâneas!
E meu riso cessa. Sou salva pela garçonete que reaparece trazendo nossas bebidas e agarro a oportunidade de mudar de assunto para conversar sobre o lugar, e descobrir como Jungkook o conheceu. Ele parece decepcionado pelo rumo que a conversa toma, mas logo tudo se torna mais leve e as palavras começam a fluir sem dificuldade alguma. Descubro que além do futebol, ele ainda divide seu tempo entre os estudos e o taekwondo e fico perplexa com a nova informação. Ele passa boa parte do tempo contando sobre como é sua vida na república, e acabamos conversando sobre o relacionamento de Jisoo e Hoseok, e ele parece tão feliz quanto eu por ver que os dois estão se dando tão bem, e fazendo as coisas funcionarem.
― E você? ― A pergunta me pega desprevenida, e fico sem entender a que ele está se referindo.
― Eu?
― É… Faz tempo que não vejo você e o Yoongi ― A forma como ele pronuncia o nome de Yoongi é praticamente igual ao modo de Jisoo falar, e fica evidente que os dois não parecem conviver muito, apesar de terem vários amigos em comum. Só que, de qualquer forma, não entendo porque Jeon está falando sobre Yoongi agora, e é por isso que permaneço quieta, esperando que ele explique o que espera ouvir de mim ― Vocês estavam juntos, não?
Não sei se sinto vontade de rir ou de chorar, ou de talvez de realizar as duas atividades ao mesmo tempo, num ataque de loucura. Acho que nunca me passou pela cabeça que alguém pudesse pensar que Yoongi e eu éramos um casal, e ouvir isso em voz alta, saindo da boca de alguém que não eu mesma, me faz perceber que talvez toda minha ilusão não fosse assim tão utópica e fruto de minha imaginação. O que, definitivamente, não me ajuda muito…
― Ele só era meu colega na turma de literatura, e é meu vizinho… ― Acho que ainda é, pelo menos. Faz dias que não escuto som nenhum no apartamento ao lado, mas acho que ele não se mudou. Eu escutaria alguma coisa caso ele tivesse se mudado, não? Pelo amor de Deus, é claro que ele não se mudou. Que inferno. Por que sempre que o nome de Yoongi surge nas conversas meus pensamentos se tornam são confusos e acelerados assim?
― Ah, eu achei que vocês estivessem namorando… E como vocês nunca mais apareceram juntos, e sumiram da faculdade, achei que tivesse acontecido alguma coisa entre vocês.
Odeio o rumo que a conversa toma, porque o gosto salino já familiar começa a tomar conta de minha garganta e a saudade que sinto da presença de Yoongi aperta meu peito, fazendo com que eu queira me encolher.
― Nosso trabalho acabou, então acho que não tínhamos mais motivos pra continuarmos nos falando ― Era pra essa ser a verdade. Tenho certeza de que tudo seria mais fácil agora se fosse isso que tivesse acontecido de fato.
― Então, tem algum problema se eu fizer isso? ― Ele questiona, sua voz uma oitava mais baixa, hesitante. Jeon afasta seu olhar do meu, como se fosse incapaz de me encarar, e suas bochechas ganham um tom rubi. Não entendo sua pergunta até que vejo sua mão deslizar sobre a mesa até alcançar a minha, seus dedos quentes encontrando o espaço vago entre os meus, e os envolvendo em um encaixe que me faz partir os lábios, surpresa.
O contato entre nossas mãos dura apenas uma fração de segundos, mas é tempo suficiente para que minha pele formigue e para que meu coração se perca em suas próprias batidas, em função do nervoso que sinto. Minha reação é quase instantânea, e assim que puxo minha mão para fora da mesa, acabando com nossa proximidade, Jeon deixa um suspiro engasgado escorregar de sua garganta, e repousa as costas contra o assento, parecendo cansado.
― Desculpa… ― Peço perdão, mesmo sem saber o motivo de estar me desculpando. Talvez por não conseguir corresponder os seus sentimentos, talvez por ter deixado que as coisas chegassem nesse ponto, não sei ao certo. Só sei que não gosto de vê-lo dessa forma, e que sinto vontade de implorar pra que ele fique bem, e não continue me olhando com os olhos de cachorrinho perdido, como diria Jisoo.
― É por causa da minha idade? ― Sua pergunta tímida faz com que ele aparente ser ainda mais jovem.
― Jungkook… Acredite em mim, a sua idade é definitivamente o menor dos problemas ― Minha resposta sincera parece ser capaz de melhorar seu humor, ainda que minimamente, mas ainda reconheço a curiosidade estampada em seu olhar, e sei que não vou conseguir fazê-lo entender qual o problema sem ser o mais clara o possível.
― Então, o que é?
Penso em dizer que é tudo culpa da minha burrice, e da minha personalidade masoquista de querer sempre as pessoas mais complicadas possíveis. Só que sei que essa não é a verdade, porque tenho convicção plena de que no auge de minha inteligência eu ainda assim escolheria Yoongi, e toda complicação que vem acompanhada com ele. Porque ainda que a ideia de que haja outra garota em sua vida seja quase que um fato concreto, sua ausência ainda me perturba, e por mais que meus cinco segundos de coragem tenham sido pisoteados pela frustração na qual me afundei ao vê-lo com outra, a saudade que sua falta me provoca faz com que eu sinta uma necessidade gritante de ser corajosa outra vez.
E evitei pensar nisso nos últimos dias, e cultivar esse sentimento, porque não sei conseguiria lidar com outra dose de tanta frustração assim, mas agora, sentada diante de Jungkook, e sabendo que só há uma pessoa no mundo que eu gostaria que estivesse ocupando seu lugar, sei que já estou me afogando em outra frustração gigantesca, que me engole todos os dias. Porque é frustante não saber de Yoongi. É frustrante não poder enviar uma mensagem durante a manhã, ou receber uma ligação de boa noite. É frustrante não ter meu sono interrompido por suas criações musicais durante a noite, ou ter a campainha tocando para anunciar uma visita sua. É frustrante não encontrá-lo na aula de literatura clássica, ou na biblioteca, escondido atrás de seu notebook e concentrando com seu fone de ouvido. É tudo frustrante.
― Você é um cara incrível, Jungkook… De verdade. Consigo usar as duas mãos pra citar todas as garotas que eu conheço e que iriam adorar estarem sentadas aqui com você agora, juro.
― Mas não sou o cara que você quer ― Ele completa, demonstrando estar bastante ciente disso ― É o Yoongi, não é? ― Me parece inútil mentir e dizer que não, quando a verdade está estampada em minha testa. Concordo, assentindo com a cabeça ― E qual o problema então? Eu tenho certeza de que ele não é burro de não querer você também, então… O que acontece?
As palavras seguras dele são quase como um carinho em minha autoestima, e quero agradecê-lo por isso. Fica nítido que apesar de parar chateado por não ter seus sentimentos correspondidos, ele está mesmo disposto em tentar entender a situação, e é por isso que resolvo ser franca e explicar tudo. Por isso e porque, repentinamente, parece que preciso desesperadamente de uma segunda opinião, que não seja baseada no instinto protetor de Jisoo. Sem medir minhas palavras, acabo revelando tudo. Desde a surpresa em descobrir que ele era meu vizinho, até a parte em que me deparei com a garota o abraçando. Jungkook demonstra interesse por todos os detalhes, até mesmo aqueles que poderiam ser facilmente descartados da narrativa. Ele escuta tudo com atenção, fazendo pequenas pausas para elaborar perguntas que, agora, servem para me fazer falar mais e mais, perdendo a noção do tempo. Em determinado momento da conversa, reparo que o clima entre nós já parece melhor, menos denso… A atmosfera estranha de antes tendo desaparecido por completo, e nossos ombros relaxados. Não é mais como se ele esperasse algo de mim, e sinto que só conversamos como se fossemos apenas dois bons amigos, o que me deixa surpresa.
Não achei que era nesse desfecho que as coisas terminariam.
Entre uma pergunta e outra, quando nos ocupamos em comentar sobre as possibilidades envolvendo o sumiço de Yoongi, Jeon faz um pausa para chamar a garçonete e pedir para que ela leve o café, praticamente intocado, embora, e traga uma vitamina de banana, tamanho grande.
― Você não gosta de café, não é? ― Questiono ao vê-lo dar um gole longo na bebida nova, que deixa um bigode de espuma em seu rosto.
― Odeio… Mas uma hora atrás achei que o problema era minha idade e que tomar café fosse me fazer parecer mais velho ― Ele confessa, rindo e se engasgando com o líquido, o que também me faz rir.
― Inacreditável, Jeon Jungkook!
― Você devia encarar isso como uma prova de amor genuína ― Ele afirma, mas há uma leveza por trás de suas palavras, o que me faz perceber que ele está tranquilo, apesar de tudo. É quase como se no fundo ele já esperasse que tudo terminasse desse jeito, mas não quisesse perder a chance de arriscar. Pensar sobre isso me faz refletir sobre minha própria vida, e sobre todas minhas escolhas, ou sobre a evidente falta delas ― Tá pensando no que? ― Ele indaga, interrompendo minha reflexão.
― Não tenho coragem de conversar com ele sobre tudo isso…
É estranho falar sobre Yoongi e sobre como me sinto com outra pessoa que não seja Jisoo, mas há algo na forma como Jeon me escuta que me faz querer falar e falar e falar, sem ter medo de me sentir julgada. Ele me ouve com atenção e com olhos gentis e compreensivos, e me sinto acolhida, reconfortada. Chego a me sentir egoísta por pensar que posso esperar pelo surgimento de uma amizade entre nós, mas busco me contentar com esse momento específico, e em aproveitá-lo da melhor forma possível.
― Você tem medo dele não corresponder aos seus sentimentos? Olha, se serve de consolo, eu sou o exemplo vivo de que você vai sobreviver! ― Ele brinca, e oscilo entre me sentir culpada ou aliviada por ele ter compreendido minha situação.
― Sinto muito… ― Repito, e ele entorta os lábios, me repreendendo.
― Não precisa se desculpar, não é assim que funciona. Você não tem culpa por não gostar de mim, assim como não tem culpa por gostar de Yoongi…
― Engraçado, porque nós últimos dias é só isso que eu tenho sentido, culpa atrás de culpa. Inclusive, agora mesmo também to me sentindo culpa por estar falando sobre todas essas coisas com você, sabendo que você provavelmente devia estar esperando alguma coisa diferente…
Assisto em silêncio enquanto ele arruma sua postura e se inclina para frente, apoiando ambos os cotovelos sobre a mesa e usando as mãos para sustentar seu rosto juvenil. Ele respira fundo e toma fôlego, e me preparo para suas palavras.
― Pra ser sincero, eu não esperava nada muito diferente… Acho que as únicas pessoas que não perceberam que você e o Yoongi estão juntos são vocês mesmos. Você sabe que eu e ele temos vários amigos em comum, e eu perdi as contas de quantas vezes ouvi eles falarem sobre vocês dois, como se vocês fossem um casal… Aliás, falar isso em voz me faz perceber como fui idiota em achar que valia a pena arriscar ― Jeon ri, mas não há humor algum presente em sua risada ― Se você parar pra pensar, acho que nós dois estamos mais ou menos na mesma situação, né?
― Só que você foi corajoso, e eu não… E isso parece a coisa mais importante, no meio dessa confusão toda ― Nos encaramos frustrados, compartilhando um tipo estranho de cumplicidade.
― O que não faz sentido, porque suas chances de ter sucesso são bem maiores do que as minhas.
― Não tenho tanta certeza disso…
― Não tem como ter certeza, mas você sabe que as estatísticas estão ao seu favor ― Ele dá uma piscadinha, tentando descontrair a conversa pesada ― E você sabe que sempre pode partir pro plano clássico das comédias românticas, não sabe? ― Ele dá outro gole na vitamina, criando outro bigode claro.
― Vitaminas de banana e comédias românticas, sua aparência esconde mesmo coisas incríveis ― Sua gargalhada ressoa pelo ambiente, e o modo como ele ri faz com que a base de seu nariz fique enrugada, de um jeito adorável ― E não faço ideia de qual plano você está falando.
Ele agita a cabeça em negação, parecendo desacredito com minha falta de referências provenientes de comédias românticas.
― Se você viu ele com outra garota, ele também precisa te ver com outra pessoa… Ou, se você quiser mesmo deixar isso pra lá, você ainda pode usar o segundo plano infalível ― Ele faz uma pausa longa antes de prosseguir ― E se envolver com alguém, que te ajude a esquecer ele.
As sugestões sugeridas por Jungkook fazem meus ouvidos arderem, e me custa acreditar que compreendi com exatidão o significado por trás de suas frases bem construídas. Dessa vez, nenhum dos dois se apressa em quebrar o silêncio tímido que ganha força, porque ambos parecemos ocupados demais tentando digerir o que foi dito. Espero pelo momento em que Jeon vai rir sem graça e dizer que estava brincando, mas conforme os segundos correm pelo relógio, torna-se mais e mais claro que ele acredita mesmo que há alguma possibilidade de levarmos seus planos em consideração, e isso faz com que uma sensação esmagadora de angústia paire sobre mim, me deixando desconfortável.
Respiro fundo e tento espantar o nervosismo para pensar com clareza, disposta a tentar fazer Jungkook compreender o quanto vê-lo se colocando nessa posição me deixa muito mais triste do que agradecida. Ele mantém seu olhar ansioso preso ao meu, o rosto ainda apoiado sobre a mão. Abrimos a boca ao mesmo tempo para reiniciar a conversa, e isso faz com que um riso baixo compartilhado flutue no espaço que nos separa, deixando-nos sem graça. Ele entende que a resposta cabe a mim e aguarda até que minha voz ressurge, preenchendo o silêncio.
― Quero te falar uma coisa, mas não quero que você entenda do jeito errado, e leve a mal… ― Peço, e espero até que ele concorde com a cabeça para continuar ― Eu jamais sairia com você pra provocar ciúmes em Yoongi, ou em qualquer coisa pessoa. E eu também jamais me envolveria com você pra tentar esquecer alguém…
― Você usou bastante a palavra jamais… ― Ele diz sem jeito, encolhendo os ombros.
― Ok, vamos tentar inverter a situação! Imagine que eu sou apaixonada por você ― Me arrependo da escolha de palavras, porque pela expressão que cruza o rosto de Jeon me parece que ele já imaginou isso uma centena de vezes. Afasto o pensamento, tentando me manter focada ― E que você é apaixonado por outra garota, mas que não deu certo com ela, e você desistiu e precisa muito seguir em frente. Então, sabendo disso tudo, eu me ofereço pra te ajudar a esquecer dela, e digo que você tem total liberdade pra me usar ― Ele começa a franzir a cenho, os lábios sendo esmagados e formando uma linha reta e que transparece seu incômodo com minha fala ― E que eu aceito ficar com você e me iludir mesmo sabendo que você não gosta de mim, e que só está tentando não pensar mais na outra garota… Como é que isso soa pra você? Como é que você se sentiria sabendo que estaria me beijando, desejando que fosse outra pessoa?
Silêncio.
Ele parece lutar contra a vontade de sustentar seus argumentos, e a de ter que dar o braço a torcer e concordar comigo.
― Soa péssimo ― Diz por fim, concordando com meu ponto de vista.
― É por isso que eu jamais faria isso com você, Jungkook… Você é especial demais pra se contentar com esse tipo de coisa, quando você pode ter algo bem melhor, tenho certeza ― Seus olhos dourados ganham um brilho intenso, o que faz meu coração se acalmar ― Você merece alguém que queira estar com você simplesmente por estar, sem explicações ou desculpas, e sem esperar nada em troca, sabe? Você é novo demais pra entrar nessa de se autossabotar, e não correr atrás daquilo que você merece de verdade.
― Você torna minha vida difícil sendo tão incrível assim… ― Ele ri, me deixando sem graça ― Mas, você tá ouvindo suas próprias palavras? Eu só posso concordar com isso com uma condição ― Aguardo, vendo-o se inclinar em minha direção e deixar o semblante divertido de lado para assumir uma postura séria, que me faz prender o ar nos pulmões ― Você precisa parar de se sabotar também.
Suas palavras caem como um pedaço de concreto sobre meu peito.
Passamos de estranhos conhecidos, para recém amigos e chegamos num nível que me faz sentir como se eu estivesse diante de meu próprio terapeuta, tendo que enfrentar as consequências de todos os mecanismos de defesa que criei ao longo dos anos para não precisar sofrer com decepções ou com a mera ideia da derrota, e de sair machucada de algo, antes mesmo de me arriscar. Tenho certeza de que a única coisa que me impede de chorar na frente de Jeon é o resto de dignidade que consegui preservar no meio desse caos todo. No entanto, no instante em que ele vence a barreira que nós separa e sua mão busca pela minha uma segunda vez, agora num gesto completamente diferente do de anteriormente, sei que ele entende o que suas palavras provocam em mim, e em como é difícil ouvi-las em voz alta, saindo da boca de outra pessoa.
― Eu só to falando isso porque você também é especial demais, noona… ― Seu polegar desliza sobre meu pulso, num carinho gentil e que busca transmitir conforto ― E porque se a única coisa impedindo que você seja feliz é o seu medo de ser feliz, eu espero que você consiga resolver isso logo, porque você merece tudo aquilo que deseja, mesmo que nesse momento isso se resuma a Yoongi.
― Você parece mais maduro do que eu falando essas coisas… ― É a vez dele de achar graça, e, como se estivesse tentando não me deixar desconfortável, sua mão se afasta da minha e ele volta a relaxar as costas contra o encosto da cadeira, voltando a dar atenção para sua bebida.
― Viu só, eu não sou só um rostinho bonito!
Perco as contas de quantas vezes agradeço Jungkook por ele ser tão compreensivo e por entender perfeitamente a situação, e também de quantas vezes peço desculpas por não ter sido sincera com ele antes, e ele me olha feio todas as vezes, repetindo que não faz sentido nenhum eu continuar me desculpando por isso, e me fazendo prometer que vou parar de me sentir culpada. Dessa vez, quando faço uma nova promessa com ele, espero do fundo do coração ser capaz de cumprir.
Passamos o restante da noite conversando sobre trivialidades, e em determinado momento, quando penso em perguntar se nos tornamos amigos, Jeon lê meus pensamentos e resolve deixar claro que agora que conseguimos nos entender eu não irei conseguir me livrar dele tão cedo. E ele não faz ideia de que ouvir isso saindo de sua boca me deixa aliviada.
― Você nunca ia conseguir carregar esse peso todo sozinha até aqui! ― Ele exclama convencido, cruzando a calçada que leva até a portaria de meu prédio.
Depois de muita insistência de sua parte, aceitei sua ajuda pra trazer os livros até em casa, e também porque Jeon jurou de pé junto que iria me seguir escondido se eu não o deixasse me acompanhar, alegando que já era tarde demais para andar sozinha pelas ruas escuras. Seria mentira dizer que não aproveitei os minutos de caminhada ao seu lado, e que a noite com ele não fez com que grande parte do mal estar que cultivei durante as últimas semanas diminuísse relativamente. Por alguns segundos, ainda que breves, consigo deixar de lado tudo aquilo que sobrecarrega meu coração e meus pensamentos, e sou capaz de me aproveitar da leveza que a presença de Jeon provoca em mim.
Assim que adentramos no hall do prédio, vejo-o fazer uma busca rápido pelos elevadores e dar um suspiro derrotado ao só encontrar escadarias.
― É sério isso? Só falta você falar que mora no último andar… ― Me contento em rir e tomar a dianteira, começando a subir os degraus e ouvindo-o resmungar atrás de mim, seguindo meus passos ― Francamente, já estou começando a me sentir explorado mesmo…
No último andar, somos recebidos pelo silêncio.
Não há som algum saindo do apartamento ao lado, e nem sinal de luz escapando por debaixo da porta, e mesmo que esse tenha sido o cenário que encontrei nos últimos dias, a lembrança da ausência de Yoongi me gera desconforto, e me obrigo a fingir uma animação que de repente não existe mais, apenas para que Jungkook não fique preocupado. Ele para ao lado de minha porta e coloca os livros no chão, esticando os braços e se alongando enquanto busco pela chave certa.
― Achei que você fosse um atleta!
― E eu sou, mas tomei vitamina demais… ― Confessa num tom infantil e manhoso, passando as costas de sua mão pela testa para limpar uma gota de suor. Resolvo imitá-lo e apoiar os livros no chão para facilitar minha busca pela chave correta, e nos distraímos irritando um ao outro, em um competição teórica estúpida para tentar descobrir quem aguentaria subir e descer as escadas mais vezes, carregando os sete volumes.
Consigo destrancar a porta somente quando me recupero de uma crise de riso, que me impede de fazer as coisas direito. Assim que deixo a passagem livre, Jeon volta a tomar os livros em seus braços, sendo mais rápido do que eu e tomando posse de todo peso, com um vislumbre de teimosia e orgulho estampando seu rosto sorridente. Reviro os olhos e deixo a passagem livre, esperando que ele entenda o recado, mas ele ainda parece disposto a brincar.
― To esperando seu convite formal pra eu poder entrar… ― Diz ele, dando um sorriso enviesado que beira uma falsa inocência.
Limpo a garganta e me certifico de usar meu melhor timbre de voz quando volto a falar, utilizando de uma formalidade exagerada, mas que o faz sorrir ainda mais.
― Mil perdões, Jungkook! Será que você gostaria de entrar no meu humilde apartamento pra deixar esses livros lá e então…
Não tenho a oportunidade de terminar a minha frase.
O som de passos alheios se tornando cada vez mais altos e precisos chega até meus ouvidos e me deixa desnorteada, com o restante das palavras engasgadas no fundo da garganta. Um zumbido incômodo ecoa por meus tímpanos e ressoa por todo meu cérebro, e quase não consigo ouvir a voz intrusa que surge sem aviso algum, fazendo com que minha calmaria momentânea dê lugar para uma tempestade de sentimentos difusos.
E não importam as circunstâncias, ou o tempo que se passe, porque assim que o timbre baixo e arrastado me atinge, tenho certeza de que seria capaz de reconhecê-lo aqui ou do outro lado do mundo, depois de um minuto ou de uma eternidade de silêncio total. Porque cada parte dele está gravada em mim.
― Será que nunca te falaram que não é seguro convidar um cara pra entrar na sua casa essas horas? O que os vizinhos vão pensar de você?
Já falei que te amo demais hoje?
hoje ainda não, mas pode falar que aceito hihi
Quick Musical Doodles and Sex (17)
Min Yoongi Sinopse: Por mais que eu tentasse, eu simplesmente não conseguia me livrar daquilo. Do maldito som insistente de gemidos altos que vinham do apartamento vizinho. [ parte: 0 l 1 l 2 l 3 l 4 l 5 l 6 l 7 l 8 l 9 l 10 l 11 l 12 l 13 l 14 l 15 l 16 l 17 l ? ]
Está tudo bem, e eu consigo fazer isso.
É com esse mantra que inicio o dia, determinada a acreditar em cada consoante e vogal que compõem as palavras que insisto em repetir mentalmente, quase como que numa forma de meditação barulhenta. Estou certa de que sou capaz de passar vinte e quatro horas sem chorar, e de que me preocupar com os problemas da faculdade e de meu trabalho na biblioteca vão me ajudar a não me preocupar com meus problemas pessoais, o que parece ser um excelente motivo para sair do meu estado constante de inércia e me movimentar outra vez. Então, outra vez, repito: está tudo bem, e eu consigo fazer isso.
Colocar os pés para fora de casa, depois de quase três dias inteiros de cárcere privado voluntário, me causa um estanhamento que não consigo traduzir em palavras. O primeiro sopro de ar fresco e puro que inalo parece ser capaz de purificar meus pulmões, ainda que eu tenha plena ciência de que a atmosfera de Seul continua tão poluída quanto três dias atrás. O percurso que faço desde a porta de meu apartamento até a esquina de minha quadra é conturbado e regido por passos acelerados e preocupados, e me ocupo em olhar ao redor uma dezena de vezes, buscando ter certeza de que o terreno está completamente livre. Só que sei que isso é uma grande estupidez, porque parece ingênuo demais acreditar que serei capaz de fugir de alguém. E não, não somente de alguém… mas de alguém que, além de morar na porta ao lado, também estuda no mesmo campus.
No entanto, passei as últimas setenta e duas horas me convencendo de que não havia possibilidade alguma de perder mais aulas e dias de trabalho por conta de uma decepção amorosa. E, depois de contar com a ajuda de inúmeras frases motivacionais encontradas no google e em sites baratos de auto-ajuda, cheguei a conclusão de que estava mais do que na hora de tomar as rédeas de minha própria vida e colocar minha rotina nos eixos novamente. E não importa se estou a beira de um colapso nervoso, se minhas mãos estão tão suadas que chegam a manchar minha camisa branca cada vez que busco enxugar os dedos, ou se sinto que vou desmaiar quando começo a avistar os blocos da universidade ao longe. Estou plenamente pronta para isso. Ainda que eu não me sinta plenamente pronta. Dizer que estou rindo de nervoso seria um eufemismo, porque toda minha inquietação inconsistente beira níveis tão absurdos que chego ao ponto extremo de cumprimentar cada uma das pessoas que passam por mim, ainda que eu não conheça absolutamente nenhuma delas.
Agradeço mentalmente quando cruzo o gramado extenso e florido sem ser interrompida ou atropelada por ninguém. Meus pés treinados para encontrarem o caminho até meu armário me guiam pelos corredores cheios com maestria, e procuro manter o olhar preso ao chão, temendo ser surpreendida pela presença de pessoas inesperadas. Ou esperadas. O conflito que gira em torno dele ainda me incomoda e me rouba horas de sono e quantias grandiosas de oxigênio, mas prometi que não me focaria nisso. Me concentro apenas em pegar o material necessário para enfrentar as aulas do dia, e então me dirijo para a primeira aula, e depois para a segunda e para a última. A manhã se divide em intervalos que passam depressa, e em horas que se arrastam e parecem durar semanas, mas fico orgulhosa ao notar que fiz mais anotação em uma manhã inteira do que nas últimas semanas, e então uma luz se acende sobre minha cabeça e chego a uma observação fantástica: preciso me manter ocupada.
Tenho certeza de que é essa a solução perfeita pra resolver todos meus problemas. Não há nada que não possa ser esquecido com um cérebro sobrecarregado de sonetos, versos alexandrinos, teoria literária e obras quilométricas de escritores barrocos. Traço um plano mental mas resolvo que, antes de colocá-lo em execução, preciso me alimentar, porque os hábitos terríveis que cultivei nos últimos dias precisam ser urgentemente extintos. Contudo, assim que começo a caminhar em direção ao refeitório, o sentimento de pânico e sufocamento reaparecem, e não importa quantas vezes eu repita em voz alta que "sim, posso fazer isso!", logo me dou conta de que não, não posso. Não há garantia alguma de que vou encontrá-lo do lado de dentro do restaurante universitário, mas ainda que ele não esteja presente, tenho certeza de que algum de seus amigos vai surgir em meu campo de visão e arruinar minha paz já perturbada. Meus pés hesitam a poucos passos da entrada principal, e seguro a alça de minha bolsa com força, até os nós de meus dedos se tornarem esbranquiçados.
Penso por alguns segundos sobre o que fazer, até que um grupo barulhento de estudantes me atropela e sou puxada outra vez para realidade, concluindo que preciso matar o horário de almoço em outro lugar. De preferência em algum lugar distante de todos os blocos e que seja pouco frequentado, para diminuir ainda mais os riscos de acabar cruzando com qualquer pessoa indesejada. Agradeço quando o lugar perfeito ilumina meus pensamentos em uma fração de segundos, e não hesito em me mover para longe do refeitório, determinada a priorizar meu bem estar. Enquanto guio meus passos para o gramado que contorna toda a construção, para seguir em direção a quadra de esportes, busco por meu celular na intenção de ligar para Jisoo. Me obrigo a ignorar as novas notificações, mas sinto um aperto no peito ao notar que nenhuma delas pertence a Yoongi. A sensação é tão incômoda quanto a de receber inúmeras mensagens ao longo dos últimos dias, mas o silêncio dele parecer doer de um jeito que machuca mais do que sua tentativa constante de entrar em contato. A última mensagem, recebida um dia atrás, ainda não foi aberta, e me contentei em ler seu conteúdo através da notificação. Não foi preciso esforço algum para decorar as palavras, que ficam se repetindo e se repetindo e se repetindo cada vez que baixo a guarda.
[03:42] yoongi: o que você acha que romeu faria nessa situação?
Odeio com todas as forças admitir que a pergunta desestabilizou meu coração, demoliu minhas defesas e colocou a sombra de um sorriso em meu rosto. Assim como odeio admitir que cada vez que lembro de suas palavras, um sentimento agridoce toma conta de meu paladar, porque ao mesmo tempo em que quero procurá-lo e debater o que Romeu faria em uma situação dessas, e como Julieta se portaria, também quero manter distância, e deixar que tudo que aconteceu fique apenas no passado. Só que não parece haver saída fácil, e nem modo indolor de lidar com tudo. Suspiro frustrada ao perceber que estou de novo deixando que meus pensamentos teimosos acabem por orbitar ao redor do nome de Yoongi, e de tudo que ele representa para mim.
Assim que alcanço a arquibancada e me sento no terceiro nível, resolvo concluir a tarefa inacabada e disco o número de Jisoo, levando o aparelho até o ouvido enquanto meus olhos curiosos assistem ao jogo de futebol que acontece diante de mim, sem prestar muita atenção. Uma sequências de vários toques ecoa pela linha, e estou prestes a desistir quando uma voz desconhecida surge do outro lado, atendendo o celular dizendo meu nome de maneira animada, e me pegando desprevenida. Franzo o cenho, em sinal de confusão, e levo um momento para conseguir encontrar as palavras para responder.
― Quem é? Esse celular não é da Jisoo?
― É o Jimin!
Ah, que maravilha. O que Jimin está fazendo com o celular da minha melhor amiga? E é claro que de todas as pessoas do mundo, seria logo um amigo de Yoongi o responsável por atender minha ligação, e por demolir toda e qualquer esperança utópica de acreditar que é possível viver em uma redoma impenetrável, na qual tudo que pertence ao universo dele é incapaz de chegar até mim e me atingir.
― Tudo bem com você? ― Ele pergunta, o entusiasmo de sempre ainda presente em sua voz, tornando quase impossível minha tentativa frustrada de ficar irritada com ele.
― Tudo sim… O que você está fazendo com o celular da Jisoo?
― Ah, ela tá na fila junto com o Hobi, tentando pegar mais sobremesa! ― Permaneço em silêncio, ainda tentando compreender o que isso tem a ver com Jimin estar atendendo o celular de Jisoo e, como se ele fosse capaz de ler meus pensamentos, a resposta de minha pergunta não pronunciada vem logo em seguida ― E como ela largou o celular aqui em cima da mesa, eu vi que era você ligando e achei que podia atender…
― Certo… ― Digo por fim, indecisa entre dar abertura para continuarmos o assunto ou encerrarmos a conversa de uma vez. Jimin, porém, torna a falar e resolve o dilema por mim.
― Faz dias que não te vejo na faculdade, e Jisoo comentou que você tava doente ou coisa assim… ― Agradeço mentalmente ao saber que Jisoo inventou uma desculpa qualquer para esconder o motivo real por trás de meu sumiço, e faço uma nota mental para lembrar de agradecê-la mais tarde ― Já tá se sentindo melhor?
― To sim, inclusive já voltei… Obrigada por perguntar ― Agradeço por a voz delicada e preocupada de Jimin parecer genuína, e ele demonstra ter se preocupado de verdade com meu sumiço, o que talvez nem faça tanto sentido assim… ― Na verdade era sobre isso que eu queria falar com a Jisoo, será que ela ainda vai demorar muito na fila?
Jimin demora alguns segundos para responder e pelo som de vozes que ganha força do outro lado de linha chego a conclusão de que ele afastou o celular de seu ouvido para analisar o ambiente ao seu redor.
― Acho que vai, tem umas cinco pessoas na frente dela… Você quer que eu dê algum recado pra ela?
Não paro para pensar sobre isso, mas sei que deveria.
― Você pode dizer pra ela me encontrar na arquibancada da quadra aberta? Vou ficar aqui até a hora de irmos pra biblioteca… ― E assim que concluo a frase, as palavras parecem continuar presas na ponta de minha língua, me gerando um desconforto. Me pergunto se deveria ter confiado em Jimin para fazer a informação chegar até ela, mas a voz do garoto chega até mim tão depressa outra vez que não mal tenho tempo de continuar pensando sobre isso.
― Claro, deixa comigo… Eu aviso e ela já aparece aí! E fico feliz que você voltou, qualquer hora dessas passo lá na biblioteca te dar um oi ― E pela primeira vez a sinceridade presente em sua voz parece ser ofuscada por uma promessa vazia ― Bom, na verdade acho mais fácil a gente se encontrar por aí ― Uma risadinha precede suas palavras, e ele volta a ser o Jimin honesto de antes.
― Tudo bem, obrigada Jimin ― Agradeço e me despeço antes que ele tente prolongar ainda mais nossa conversa.
Noto que boa parte da positividade que passei as últimas horas cultivando foi parcialmente arruinada, e a vontade que sinto de largar tudo para trás e voltar correndo para meu apartamento, para me esconder embaixo das cobertas e ignorar o mundo ao meu redor, reaparece com força total, me soterrando. Mas resisto ao impulso quase instintivo de me levantar e deixar que minhas pernas me guiem porque encarei uma manhã inteira e agora só me restam mais algumas horas, e aí então o dia terá chegado ao final, e vou poder me orgulhar de ter suportado tanto tempo assim longe de meu abrigo seguro.
Puxo o ar com força para dentro dos pulmões e regularizo minha respiração, fechando os olhos para me concentrar nela por um breve momento. Quando sinto que estou mais calma e no controle das coisas novamente, começo a revirar minha bolsa atrás de um pacote de bolachas água e sal, e de minha garrafa de água, que resolvi encher de chá pela manhã - e não me parece tão errado assim tentar apelar para tudo que pode me ajudar a manter a calma em meio a uma crise, e tenho certeza de que posso confiar em uma grande dose de chá. Resolvo ler algumas anotações enquanto me alimento e, depois de alguns minutos, quando minha concentração finalmente parece ser restabelecida, o som dos garotos jogando futebol e dos pássaros que sobrevoam o céu se torna distante, praticamente deixando de existir.
Me perco nos poemas góticos de Lord Byron e não vejo o tempo passar. É só quando os versos se tornam complexos demais, e todas as metáforas aparentam ser elementos concretos, e não abstratos, que resolvo fazer uma pausa e confiro o horário em meu relógio de pulso, temendo me deparar com novas notificações em meu celular. Pouco mais de quinze minutos se passaram desde a ligação com Jimin, e estranho o fato de Jisoo ainda não ter aparecido. Conhecendo-a tão bem, tenho certeza de que nessas circunstâncias ela apareceria o mais rápido o possível, disposta a me bombardear com dezenas de perguntas sobre tudo que está se passando dentro de minha cabeça, e interessada em saber se já cheguei a alguma conclusão sobre o que devo fazer.
Penso em ligar outra vez para ela, apenas para garantir que Jimin não esqueceu de passar meu recado, mas antes resolvo fazer uma varredura completa pelos arredores, apenas para me certificar de que ela não está mesmo chegando. E me arrependo. No mesmo segundo, de forma instantânea e automática, num sentimento primitivo e que corrói minhas entranhas e me faz desejar com todo meu ímpeto ser capaz de voltar no tempo para evitar a fração de segundos insignificante na qual meu olhar se encontra com o de Yoongi.
A surpresa que sinto é tanta que chego e ficar desorientada por um momento, minha visão se tornando turva e contaminada por diversos focos coloridos de luz, e a sensação de deslocamento me faz apoiar as mãos contra o concreto rústico da arquibancada, em busca de apoio. Um nó se instaura no fundo de minha garganta e o ar se torna rarefeito, me fazendo sufocar, e a tremedeira que toma conta de todo meu corpo é involuntária e incontrolável. E de repente me parece óbvio o deslize cometido por mim. Consciente ou inconscientemente falando, não sei. O que sei é que ter confiado à Jimin a localização de meu esconderijo secreto não deveria ter sido uma opção. Me sinto traída, mais por mim mesma e por meu cérebro do que pelo garoto, porque não posso julgá-lo por querer ajudar Yoongi.
Yoongi.
Não consigo desviar o olhar.
É como se estivéssemos ligados por uma conexão magnética que não nos permite oscilar, e correr o risco de nos perdemos. E digo isso porque toda confusão mental que senti nos últimos dias se torna clareza quando minha vista cansada de minhas paredes brancas encontra um sopro de vida na imagem dele. O modo como a camisa branca de mangas cumpridas e tecido fino repousa sobre seus ombros, escorregando por um deles e deixando parte da clavícula a mostra… Os raios tímidos de sol reluzem em sua pele alva e foram um arco-íris na sombra provocada pelo brinco de cruz que adorna sua orelha esquerda. O jeans cinzento e rasgado de sempre, os vans escuros, tudo nele grita conforto, ainda que sua presença me deixe caótica.
A distância que nos separa se torna menor e menor e menor a cada novo passo dado, e não consigo forçar meu cérebro a se preparar para o impacto iminente que está prestes a acontecer, porque todos meus instintos estão em pane. Quero pensar em como agir quando ele finalmente me alcançar, mas só consigo pensar que não é justo que alguém carregue tanta beleza assim. Não é justo que meu coração machucado ainda encontre alguma espécie de prazer masoquista ao se deparar com seus olhos amendoados cor de topázio derretido, ou ao avistar outra vez o tom descolorido de seu cabelo. Os fios teimosos dançando contra o vento, parecendo ainda mais claros sob o sol. E quando reparo nos lábios rosados e cheios, que estão comprimidos em uma linha reta e sem vida, que só completa seus traços inexpressivos, sei que perdi. O gosto da derrota incontestável predominando em meu paladar.
Perdi porque sei que todos meus esforços se transformam em medidas insignificantes diante dos efeitos que Yoongi provoca em mim. Porque posso construir muralhas, e trancar todas as portas de acesso, que ainda assim há atalhos e passagens secretas que ele parece conhecer melhor do que eu mesma, e quando penso que estou munida do mais pesado armamento para mantê-lo longe, ele me prova o contrário. Sua aproximação não se dá em etapas, ou de forma gradual. Ela me atinge de súbito, e não tenho tempo para reação alguma. É na fração de um lapso de consciência que ele se esgueira até mim, e me toma por inteiro, de corpo e alma.
Um suspiro se desprende de minha garganta travada, e não sei precisar se seu conteúdo é de alívio ou pura lamúria. Porque parte de mim agradece sua presença e venera cada um de seus passos, mas parte de mim quer mandá-lo parar, implorar para que ele reverta o sentido de seu caminhar e me deixe em paz. E como se minha confusão e incerteza fossem também a dele próprio, eu o vejo hesitar, seus movimentos se tornando estáticos e fazendo-o paralisar a apenas alguns metros de mim. Meus lábios se partem em sinal de confusão, e por um segundo é como se o olhar de Yoongi estivesse distante de mim, focando em alguma outra coisa que parece colocá-lo novamente em seus eixos. E quando ele imita meu gesto e parte seus lábios, é outra voz que escuto.
― Noona! ― O timbre animado que soa próximo de meus ouvidos me faz dar um pequeno pulo em meu lugar, derrubando uma caneta que permanecia esquecida sobre meu colo.
O excesso de estímulos me faz interromper o contato visual que sustento com Yoongi para prestar atenção no que está acontecendo ao meu redor. Vejo uma figura de cabelos negros e completamente suados se inclinar para baixo para alcançar o objeto perdido, e quando o garoto volta a erguer o tronco e colocar seus olhos em mim, estranho não ter reconhecido sua voz.
― Jungkook… ― O nome dele escapa de forma automática, em um volume que é centenas de vezes mais baixo que o utilizado por ele.
― Te assustei? ― Ele pergunta ainda sorridente, devolvendo a caneta para meu colo e usando as costas da mão direita para limpar o suor que se acumula sobre sua testa, bagunçando os fios de cabelo que pendem ali durante o processo ― Achei que você tivesse me visto jogando futebol ― Ele continua, tombando o pescoço em direção a quadra para enfatizar suas palavras.
― Ah, eu não estava prestando muita atenção… ― Confesso, e minhas palavras insensíveis parecem deixá-lo frustado a julgar pelo modo como o sorriso radiante e inocente que ilumina seu rosto desaparece, e ele afasta o olhar do meu, sem graça.
Aproveito a deixa para olhar para trás em busca de Yoongi, mas tudo que encontro é um campo extenso e vazio. Olho ao redor insistentemente, em busca de qualquer sinal que me de alguma garantia, ainda que pequena, de que não estava alucinando sobre sua presença, mas não encontro nada. O único vestígio de sua presença é o aperto doloroso que pesa sobre meu peito, numa sensação de perda irreparável. Jungkook diz mais alguma coisa mas suas palavras soam longe demais, e não consigo identificar o conteúdo por trás de sua nova frase. É só quando os dedos quentes dele seguram meu braço, e o escuto perguntar se está tudo bem, que me sinto voltar para a realidade. Me obrigo a dar costas para o fantasma de Yoongi e direcionar meu olhar para Jeon, que me observa com um semblante preocupado.
― Tudo bem, noona? ― Ele repete a pergunta, e sua mão vai parar em minha testa enquanto ele parece tentar mensurar minha temperatura, franzindo o cenho. Seu toque febril é reconfortante e depois de tantos dias trancafiada em meu apartamento, sem nenhum contato humano, e me pego fechando os olhos e me perdendo na sensação calorosa de ter alguém por perto ― Você tá se sentindo doente? Precisa que eu te ajude com algo? ― Seu tom alarmado me faz abrir os olhos novamente, e é irracional a vontade de sinto de rir de sua pergunta, porque sim, me sinto doente… Mas não sei como explicar a razão por trás disso. E também não sei se devo explicar, não para Jungkook… E não quando ele me fita como se eu fosse a responsável por colocar as estrelas no céu.
― Não é nada demais, só andei indisposta ― Balanço os ombros, em uma tentativa não muito bem sucedida de soar despreocupada ― E desde quando você joga futebol? ― Tento mudar de assunto e agradeço mentalmente quando Jeon se anima novamente e me deixa de lado, pelo menos momentaneamente.
― Desde que entrei na faculdade! Eles precisavam de um atacante e eu estava de bobeira ― É a vez dele de dar de ombros, tentando tirar a credibilidade por trás de sua performance de atacante e sua importância no time.
― Você não tem que voltar pro jogo? ― Questiono quando reparo que a partida parece continuar, apesar de sua ausência. Há um vislumbre de culpa cruzando seu rosto, mas ele se apressa em negar com a cabeça, se recostando contra o piso superior da arquibancada e apoiando seus antebraços neste, em uma pose relaxada ― Tá mentindo pra mim, Jeon Jungkook? ― Arqueio uma sobrancelha, desconfiada.
― O quê?! ― Ele exclama e arregala os olhos em minha direção, repousando as duas orbes escuras sobre mim. Sua reação alvoroçada o entrega por completo e ele suspira derrotado ― Não me olha assim ― Diz, me fazendo esboçar um sorrisinho de canto ― Eu posso me dar ao luxo de ficar fora de uma partida e mandar eles se virarem.
― Por que você é o capitão, por acaso? ― Digo brincando, mas seu silêncio me atinge de imediato, me fazendo reconhecer que há verdade por trás de minha ironia ― Você é mesmo o capitão do time de futebol da faculdade? ― Ele se contenta em estender o braço esquerdo em minha direção, e pela primeira vez me dou ao trabalho de reparar em seu uniforme, e na faixa preta que envolve o músculo saltado de seu braço.
― É tão difícil assim de acreditar? ― Ele parece ofendido de novo.
― Não! ― Digo depressa ― Quer dizer sim, mas não pelos motivos que você deve estar pensando?! ― Me perco em meu próprio raciocínio, sem saber como me fazer entender. Jeon apoia o pé sobre o nível no qual estamos sentados e usa o joelho para sustentar seu braço, enquanto se inclina em minha direção e aguarda por minha explicação.
A nova posição faz com que a barra da bermuda preta escorregue por sua coxa, deixando grande parte desta exposta. Meus olhos se guiam para a região sem minha permissão, e reparo nas veias sobressaltadas e no brilho que o suor confere a sua pele levemente bronzeada, que ganha um tom dourado graças aos raios de sol que refletem sobre nós. É ridículo que um garoto tão novo e com um sorriso tão inocente e angelical tenha músculos tão definidos assim. Assim como também é ridículo o contraste entre Jeon e Yoongi.
E lá está ele invadindo meus pensamentos novamente, e atrapalhando minhas tentativas de me manter longe.
― Noona? ― Jungkook chama minha atenção, e volto a prestar atenção em seus olhos.
― É só que você é novo demais pra já ser capitão ― Justifico com a primeira coisa que me vem a cabeça.
― Eu sou só dois anos mais novo que você ― Ele rebate prontamente, como se a resposta estivesse ensaiada na ponta de sua língua ― E idade é só um número, de qualquer jeito… Não tem nada a ver com a minha maturidade.
― Não foi isso que quis dizer, Jungkook… Desculpa se pareceu ― Começo a arrumar minhas coisas, porque me dou conta de que estou prestes a ficar atrasada para meu turno na biblioteca, e porque algo na atmosfera que envolve Jeon e eu parece se transformar, tornando o clima tenso.
― Não precisa se desculpar, noona… Só não queria que essa história de idade influenciasse em algo ― Ele fala a segunda parte em um tom de voz mais baixo, e interrompo o que estou fazendo para olhar em sua direção, reparando no tom avermelhado que se estende por suas bochechas até suas orelhas. Vejo-o usar uma mão para jogar os fios suados de cabelo para trás, e ele então se ocupa brincando com a barra de sua camisa branca, que vez ou outra gruda em sua pele molhada, marcando seu abdômen.
― Tudo bem ― Digo por fim, na falta de uma resposta melhor. Não quero pensar demais sobre nada disso, porque Jeon é uma incógnita e já tenho pontos de interrogação demais para resolver.
― Você já precisa ir?
― Tenho que estar do outro lado do campus em vinte minutos, então sim… ― Termino de jogar o material dentro da mochila, puxando o zíper e fazendo menção de levantar quanto a voz dele ressurge.
― Quer que eu te faça companhia? ― Ele arrisca, e de canto de olho o vejo encolher os ombros, receoso e envergonhado. Sua mudança de humor é nítida, e pergunto se tenho alguma responsabilidade nisso. Fico triste ao notar que o sorriso acolhedor e infantil desapareceu, e tento pensar em alguma forma de colocá-lo novamente em seu rosto, mas me parece perigoso demais dar alguma espécie de abertura para Jungkook, quando não tenho intenção alguma de deixá-lo chegar mais perto.
― Não precisa, acho que seu time está querendo que você volte! ― Tento soar o mais divertida que posso, mas não há animação alguma presente em minha voz ― Até outra hora! ― Me despeço do modo mais casual possível e começo a descer a escadaria da arquibancada, deixando-o para trás. Estou no último degrau quando o ouço me chamar, dessa vez pelo meu nome e não pelo honorífico, o que me pega de surpresa.
Olho para trás e o encontro de pé, uma das mãos coçando a nuca e a outra apoiada em sua cintura fina. Ele estreita os olhos em minha direção, tentando vencer a claridade provocada pelo sol, e sua voz me atinge uma segunda vez, agora com bem menos segurança.
― Será que podemos fazer alguma coisa? Juntos? A gente podia sair pra jantar qualquer dia… ― Ele emenda uma palavra na outra, tentando tornar seu convite o mais claro o possível, ainda que tudo em sua semântica seja indireto.
Fico muda por alguns segundos, e seria mentira dizer que consigo pensar em uma resposta coerente, porque meu cérebro parece uma página em branco, sem conteúdo algum. A situação se torna mais e mais constrangedora, parecemos duas crianças que acabaram de se conhecer e precisam tomar uma decisão importante juntos. Desisto de pensar em algo que faça sentido.
― Eu te ligo ― A promessa vazia escapa por meus lábios e a vejo chegar até ele, e sua reação imediata é de me retribuir com seu melhor sorriso, que faz seus olhos sorrirem junto.
Por um pequeno instante, me odeio por saber que não vou ligar.
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Hellloooooooo armygas! passando pra avisar que AMANHÃ tem CAPÍTULO NOVO de QUICK MUSICAL DOODLES AND SEX yaaaaaaaay! Enquanto isso, vocês podem ser gentis e me mandar perguntinhas sobre a história ou sobre qualquer coisa aqui ou lá no curious cat, pra animar a noite hihi!
Por favor, mais da história do yoongi
Logo logo hihi
Moça, eu engoli sua fanfic do Yoongi. Vai continuar?
Vou sim, em breve tem capítulo novo!
Tu tem masterlist?
https://biasmut.tumblr.com/post/167140447358/masterlist-reblog%C3%A1vel
Pelo amor de Deus posta mais desse imagine do yoongi. Preciso desse final, meu deus!!!!
logo logo eu posto capítulo novo! ^-^
Moça comi sua fic do Yoongi. Pelo amor de Deus continua 🤧🤧
FKSAJKFJASKFLJASL fico feliz que você esteja bem alimentada!!!