De todas as formas de matar já concebidas pelo ser humano, uma das mais covardes é o crime de ódio, em que a vítima é abatida apenas em virtude do que é, e não de algo que tenha feito ou deixado de fazer. Nesse sentido, deve-se exigir máximo rigor na punição ao assassinato do adestrador de cães Edson Neris da Silva.
Edson, "que parecia homossexual", foi selvagemente espancado por uma gangue de inspiração chauvinista na praça da República paulistana, na madrugada de domingo.
O Brasil, em parte devido a sua composição étnica variegada e a sua história de país de imigração, foi poupado do vírus da intolerância racial, pelo menos em suas cepas mais mortíferas. A inexistência de um racismo do tipo balcânico por aqui, porém, deu lugar ao mito da "democracia racial brasileira". O simples fato de as pessoas não se matarem por causa da cor da pele está muito longe de configurar uma democracia.
Se esse termo deve significar igualdade de condições, o Brasil ainda tem um longo caminho a percorrer: os salários recebidos por negros e mulheres são substancialmente menores do que os de brancos na mesma posição; homossexuais são agredidos nas ruas com uma frequência maior do que se suspeita, para citar dois exemplos triviais.
Paradoxalmente, a vantagem da ausência de uma intolerância do tipo forte dificulta o combate ao racismo e à homofobia. Não é raro ver manifestações segregacionistas, que deveriam ser suprimidas pela raiz, sendo desculpadas como brincadeira inocente, piada no máximo de mau gosto. Isso ajuda a perpetuar o ciclo geração-aceitação da intransigência.
Em que pese esse caráter furtivo do racismo cordial brasileiro, não resta dúvida de que ele é preferível à barbárie generalizada. Daí a necessidade de combate firme a episódios como o assassinato de Neris da Silva.