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@talvezvoce
jå me acostumei a demorar pra dormir, esperando o momento de atravessar pra te ver. só pra te ver sem te ver. e quando os olhos abrem, o pedaço que encontrei de ti se despede de mim. e eu tento fingir não acordar, pra quem sabe a saudade não acordar. isso é só pra te ver e ainda mais, só pra te ver. - lucas murillo
Eu me esforço pra te ouvir, pra me ouvir, pra fingir que estou me escutando e ouvindo os outros. Ă como se tudo devesse fazer sentido, tudo estĂĄ tĂŁo certo, as linhas foram feitas para que vocĂȘ pudesse escrever com perfeição cada traço que quis colocar nesse papel. AtĂ© quando justifica escrever certo? O ideal mesmo seria preencher cada espaço dessa redação com letras tuas, ou procurar algo que nem coubesse nessas pĂĄginas? As duas respostas me dĂŁo medo.
Pra quem jĂĄ buscou tantas vezes a mesma coisa - e encontrei sĂł duas vezes - eu duvido muito que vĂĄ encontrar de novo, e nĂŁo venha me dizer o que eu jĂĄ sei, que sempre a gente acha, que nĂŁo era pra ser e alguĂ©m ainda vai escrever o que a gente nem sabe que precisa ouvir. Dessa vez parece que jĂĄ me esgotaram de tinta, de adesivos, colagens, rabiscos e o que vocĂȘ quiser chamar que seja isso. Ă como se nĂŁo tivesse mais papel. Eu acabei. Quem sabe eu deixei passar a minha chance certa e enchi ela de incertezas e insuficiĂȘncia. Nada Ă© suficiente depois de perceber que a Ășnica coisa suficiente, foi pouco. Ă o paradoxo com mais sentido na minha vida, e ao mesmo tempo, sem sentido algum, nĂ©.
Quem sabe eu nem precise mais de histórias de ninguém, talvez devesse ser quem eu sou com o que recebi até agora, e com o que eu puder interpretar do que eu mesmo li de mim. E quem precisa ganhar isso? Nem eu ia gostar de estar no seu lugar - ou no lugar de alguém - que quisesse ter esse espaço.
Talvez tenha sido vocĂȘ e agora nĂŁo Ă© mais ninguĂ©m, nem eu mesmo.
- Lucas Murillo
Fui eu mesmo quem pagou as entradas pra assistir o espetĂĄculo que nĂŁo queria ver. Ă que a gente sabe como vai ser o final e sem motivo bons pra dizer nĂŁo, fica difĂcil. O resultado, o ultimo movimento, ah... esse eu jĂĄ conheço. Começa com o incomodo no peito, a falta de ar que vocĂȘ me causa, a lĂĄgrima que nĂŁo consegue sair e nem devia. Chega um momento que nem os teus calmantes me acalmam, remĂ©dio nenhum parece fazer efeito essa hora, e o efeito que eu queria eu nĂŁo encontro em nenhum lugar. Tomei as doses de vocĂȘ - mais do que o recomendado - e agora vicei. SĂł que eu preciso de doses maiores pra suprir a falta de sei lĂĄ qual substĂąncia vocĂȘ ativa em mim. TĂŽ faz horas procurando o botĂŁo que desliga o corpo e a cabeça. Eu sinto que jĂĄ achei ele vĂĄrias vezes quando precisava, e agora - talvez precise mais que antes - simplesmente nĂŁo sei como fazer. Onde fica o modo apĂĄtico que nĂŁo liga se tu nĂŁo vem, nĂŁo responde ou nĂŁo pensa de mim? O ponto que eu to Ă© duvidar qual foi a brecha, o momento e milĂ©simo de segundo que eu deixei a dopamina liberar. Eu me conheço e sei bem os limites de quando nĂŁo devo me permitir, sĂł passei disso sem perceber e agora nĂŁo sei como eu volto.
Tem como eu pegar esse erro e tornar num aprendizado Ășnico e inesquecĂvel? Como se reler esse texto nĂŁo me deixasse mais cair no mesmo infinito erro que eu cometo toda vez, nesse mesmo ponto, e o pior Ă© que eu sei que vai passar, acabar e eu vou suspirar dizendo que sabia que ficaria bem.
JĂĄ questionei sobre o ciclo que eu me coloco: de saber que as coisas que começam eventualmente acabam e por isso, agora talvez eu siga com a cama vazia. Qual o ponto de querer construir um prĂ©dio que eu sei que vai cair? Melhor sĂł passar por eles, ver o que dĂĄ pra ver, entender o que os outros tem de diferente e sair quando quiser, nĂŁo me comprometo a montar a minha base pro prĂłprio edifĂcio, se Ă© que vocĂȘ entende. Fica difĂcil escrever isso enquanto sinto o gosto do teu corpo entre os dedos da minha mĂŁo, o cheiro que grudou no meu peito enquanto deitava perto e me acalmava. Bom, vamos lĂĄ: eu vou intensificar tudo de novo, criar esses sentimentos que talvez nĂŁo existam, resolver tudo, passar por tudo, desistir de sentir e dizer: eu sabia que passaria, ainda bem que passou. Vamos ver se vocĂȘ muda meu ciclo e me faz ficar.Â
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By Marta Bevacqua