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vnvdvici:
Não passava despercebido que Natasha era uma das únicas com capacidade para lhe fazer rir, ainda que em meio a momentos de tensão. Grigori repetia para si mesmo que não era sua culpa ter colocado tantos entraves na relação que tinham por conta do Favorado, mas sabia que tinha acabado por se afastar, temeroso de que as pessoas chegassem à conclusão de que ele já tinha feito sua escolha desde o início. Sua relação com Tasha podia ser classificada, de certa forma, como íntima, de uma forma que ainda não tinha explorado com outras favoritas, especialmente porque tais construções demandavam tempo e esforço. ‘ Nesse caso, espero que não esteja considerando começar ’ lançou a ela olhar de aviso, que trazia fundo de divertimento, depois de inclinar a cabeça para trás. Inicialmente havia se preocupado sobre a morena não estar levando o processo a sério, mas agora chegava à conclusão que seria melhor se deixasse que agisse naturalmente. Era a melhor forma de lidar com as coisas. A animação decaiu, contudo, ao ouvir a pergunta retórica, porque não esperava que a Dashkov encarasse daquela maneira a dinâmica da competição. Segurou os dedos que desciam através de sua nuca e pescoço, segurando-os quando se virou para a mais nova. ‘ Você querer é muito significativo para mim ’ frisou, já que aparentemente Tasha só considerava o concurso. ‘ Gostaria de saber se a ideia de ser escolhida lhe agrada, mesmo que não possa se opor a ela ’ talvez não pudesse, por conta das regras do Favorado; pelas obrigações, pela família; se assim fosse, ele ainda podia controlar o destino dela e liberá-la. Enquanto se agachava ao lado de sua poltrona, ele podia dizer que a amiga falava com franqueza. Ele podia seguir os conselhos de Natasha, certo de que não poderia ser prejudicado por eles, pela consideração que tinham, um para com o outro. ‘ Seu casamento anterior também foi assim? ’ ousou perguntar, ingressando num campo que até então não tinha sido explorado. Porém, se estavam sendo francos, seria necessário que perguntasse em algum momento sobre a experiência passada, a fim de ter certeza se ela era capaz de seguir em frente, ou se ainda haviam pendências da relação antiga. ‘ Só estava tentando abrir seus olhos enquanto havia tempo. Temo que agora seja um pouco tarde para desistir ’ sorriso mínimo brotou em sua boca, como se zombasse da figura alheia. ‘ Você achou ofensivo? Quando eu disse que estava brincando com a comida? ’
Embora fosse tentador provocar qualquer tipo de ciúmes, ou insegurança, nas outras Favoritas, demonstrando a ligação que havia construído com Grisha através dos anos, Natasha estava bastante comportada no quesito. Ao menos pensava que sim. E não era só pelos sermões que recebia diariamente sobre como se portar, mas porque ela não desejava auxiliar a mídia à vender aquela história como o reencontro de amantes desafortunados que queriam fazer parecer. Além disso, não desejava apresentar uma postura de favorita, entre as favoritas, correndo o risco de tudo aquilo parecer armado para que, no fim, ficassem juntos. Não era o caso. Deixando que o assunto sobre o pseudo cargo morresse, ela apenas estalou a língua no céu da boca em um movimento que demonstrava implicância, impedindo-se de mostrá-la apenas para não soar ainda mais infantil. Pega de surpresa pelo toque em suas mãos, inconscientemente desceu o olhar até elas, mas não tentou se afastar. Não admitiria nem mesmo por um decreto o quão agradável a sensação era, ainda que preferisse culpar a saudade de um momento à sós com ele, a amizade, ou ainda, simplesmente o cansaço que sentia lidando com tudo o que estava acontecendo. ❝—— Eu acho que passar o resto de nossos dias com um amigo ao nosso lado, é mais do que poderíamos pedir. ❞ Não dizia aquilo para o persuadir à escolhê-la, oh não. Ela era sincera, porque sabia como pareamentos eram complicados, ainda mais na posição do castanho. Dimitri sempre a lembrava que independente de existir amor, um dia ela se casaria e teria de cumprir com as incumbências do matrimônio. Então sabia o quão privilegiados eram aqueles que encontravam, se não o amor, ao menos a amizade naqueles com quem passariam o resto das vidas com. ❝—— Então, para ser mais direta, eu ficaria feliz em ser escolhida. ❞ Até porque não seria de grande sacrifício ter Grigori ao seu lado, ainda que já houvesse expressado seu descontentamento em poder se tornar viúva de guerra. Sabia de seus sonhos para com o exército. A menção ao antigo casamento a fez retesar os músculos por um instante, sendo desconfortável regressar às memórias. Mas Grisha tinha o direito de saber, por isso ela limpou a garganta. ❝—— Eu ainda não o amava, se é o que deseja saber. Alexey e eu não tivemos muito tempo, mesmo que o cortejo tenha se estendido por alguns meses. Mas ele era gentil e carinhoso, e eu adorava a forma como ele me via. Ele não me enxergava como uma esposa troféu, um rostinho bonito; ele elogiava minha inteligência e meus talentos, mesmo desejando exclusividade no último. ❞ Ter parado de cantar em nome do noivado, ainda era um tópico sensível. Mas altruísta como era, não se importaria em manter aquilo caso fosse o melhor para a posição de czarina que pudesse vir à ocupar. Dando um pequeno sorriso, voltou à si, dedos ainda em contato com a região agora mais relaxada de Grisha. ❝—— Você ainda não aprendeu que eu não desisto? ❞ Provocou, contudo, precisou piscar os olhos lentamente com a sugestão seguinte, como se assimilasse o que dizia, demorando um segundo a mais para o responder. ❝—— Talvez um pouco. Você enxerga mesmo assim? Acha que o tratei como um brinquedinho? ❞
Passar tanto tempo longe tinha lhe feito sentir falta de muita coisa. Por outro lado, no entanto, não havia previsto o quão sufocante seria receber toda aquela atenção depois de meses acostumando-se a ser praticamente invisível. Era útil, sim, que levantasse tanto barulho quanto o seu retorno; evitava que aqueles contra si agissem de modo impensado e que o colocassem em perigo imediato. Eles teriam de ser espertos, mas Niklaus seria mais — gastaria horas, dias ou o tempo que fosse investigando aqueles responsáveis por seu adoecimento no ano passado. O frustrante, na prática, era a necessidade de conciliar todos os seus esforços com a agenda lotada que consistia em aparições e reuniões: responsabilidades que acompanhavam o título nobre. Por isso havia gastado grande parte de sua energia na reunião, seu papel nesta ainda mais desafiador que de costume. Se antes podia simplesmente oferecer opiniões e sugestões livremente e ser ouvido, agora precisava comprovar que ainda estava em condições de aconselhar, além de ter de explicar tantas vezes o que lhe ocorrera e como retornava da suposta ‘morte’. Era desgastante, e tudo que o rapaz queria portanto era paz pelo restante daquele dia. O que ficava difícil ao perceber que alguém mais se juntava à Galeria de Artes, dirigindo-lhe à palavra. Incapaz de demonstrar nada além da educação que lhe fora dada, mesmo inquieto internamente, Niklaus virou-se na direção do indivíduo. “Desculpe, o que disse? Estava com a mente longe”
A liberdade, que já era limitada em se tratando das Favoritas, havia apenas piorado desde a noite do baile, e ainda que insistissem que deveriam esquecer o que quer que tenham ouvido pelos corredores do castelo, era difícil ignorar a história quando um armário a acompanhava por onde quer que fosse. No entanto, após um acordo com o seu próprio segurança, que havia lhe custado uma e suas jóias, Natasha não tinha do que reclamar. O acordo, era muito simples: ela lhe dava um de seus colares e, em troca, ele permitia que ela passasse algum tempo sozinha. Mas quem escolhia onde ela podia estar, ainda era o segurança, já que tinha acesso às rotas de guarda e, assim, poderia assegurar que eles não seriam punidos por descumprir ordens do czar. Naquela tarde, por exemplo, ele instruiu que fossem até a Galeria de Artes, e a deixaria ali por cerca de duas horas antes de voltar. O guarda cumpriu sua parte do acordo ao abrir a porta para ela, deixando que entrasse antes de se afastar — não era tão justo assim que houvesse ficado com uma de suas jóias, já que ele também ficava livre por alguns momentos, mas ela não podia reclamar. Percebendo que não estava sozinha, Natasha escolheu começar seu pequeno tour pela obra que o loiro parecia admirar. ❝—— Dizem que quanto mais se olha para o precipício, mais ele te olha de volta. ❞ Iniciou, fazendo uma alusão à paisagem retratada, só então pendendo a cabeça na direção alheia e reconhecendo Niklaus, o sorriso surgindo nos lábios quase que automaticamente. ❝—— Eu não acredito que está aqui! ❞
vnvdvici:
Seria um problema se, de repente, tivesse de explicar a todas o motivo de estar fazendo as perguntas que fazia. Não esperava questionamentos em retorno, tampouco que suas perguntas fossem ridicularizadas, até porque já era difícil demais formular alguma coisa sem que soasse estranho ao deixar seus lábios. Acima de tudo, ele não esperava repreensões de Natasha, tendo se recostado no assento, levando uma mão para massagear o queixo, enquanto ponderava sobre o que era dito. Era verdade que a morena o conhecia o bastante para que pudesse chutar o que ele precisava, mas isso fez com que Grigori considerasse que não devia ter começado com aquela pergunta em se tratando dela. Isso porque Tasha tinha acabado de sair de um casamento que, até onde ele sabia, não passava de conveniência, e entendia que arranjos quase nunca dependiam de sentimentos românticos. ‘ Assim faz parecer que está dando respostas em uma entrevista para o cargo ’ sorriso discreto surgiu em seus lábios ao pensar que a Dashkov era articulada e estava fazendo uso de seus melhores argumentos para impressionar – não que ele precisasse ser impressionado. O que não esperava era a virada repentina, o contato dos dígitos com as costas, o qual apenas provava o quão tenso ele estava. Isso porque bastou que a favorita fizesse o mínimo movimento para que ele sentisse os músculos começarem a relaxar e para que um gemido baixo escapasse de seus lábios. Era quase injusto que fosse coagido a responder naquelas condições, mas ainda assim o fez, depois de pensar a respeito. ‘ De fato, você pode ser essa pessoa ’ concordou, sem muita cerimônia, porque, numa análise superficial, nada a faltava à representante de Tazovsky, algo que ele já sabia. ‘ E pela forma como fala, sou levado a acreditar que é o que quer, também ’ ainda que se tratasse de afirmação, seu tom carregava uma pontada de dúvida, como se ele esperasse por uma confirmação. ‘ Você está certa: não estou atrás de sentimentos românticos, porque isso é secundário para o que temos aqui. Só estou curioso para saber o que estão esperando em retorno. Algumas moças podem ter vindo com uma ideia de romantismo que não sei se sou capaz de corresponder ’
O sorriso poderia ter passado despercebido caso não o conhecesse — como ela gostava de se vangloriar — tão bem. E bastou que percebesse o movimento para que relaxasse, e o correspondesse da mesma forma. Esperava ser boa o suficiente mentindo para não deixar transparecer que, sempre em sua companhia, ficava tensa. Isso, contudo, não tinha embasamento em sentimentos românticos ou algo similar, ela apenas não sabia exatamente como se portar. Seja reservada, não o toque, mantenha conversas leves. Eram algumas das instruções que ela ouvia, e jurava de dedinho que tentava obedecer à todas, mas então tudo ficava robotizado demais e não eram mais Natasha & Grigori; eram quase dois estranhos. Deste modo, o sorrir alheio, por mais leve que fosse, foi o combustível necessário para que pisasse no acelerador e deixasse aquela conversa toda para trás, relaxando. ❝—— Se fosse um emprego, estaríamos falando de números agora, dorogoy¹. ❞ Gracejou, bem humorada, ao pé de seu ouvido, aplicando um pouco mais de pressão nos dedos que subiam e desciam pela sua nuca e ombros. Ela sentia falta de um momento como aquele com Grisha, sem telespectadores, podendo conversar. Diferente dela, ele pouco se gabava sobre isso, mas definitivamente era uma das pessoas que mais a conhecia. Fora o primeiro à quem revelou seu sonho de cantar, com quem discutia sobre as incumbências de seus títulos; era alguém que a entendia, e vice-versa. ❝—— Eu querer, mudaria algo? No final, a escolha é sua. ❞ A resposta era isenta de acusação, eram apenas os fatos. Grigori podia até não ter noção disso, porque, convenhamos, era lerdinho no que tangia mulheres, mas ele tinha o poder de destruir muitos corações com aquilo. E às favoritas, cabia apenas a tentativa de proteção. Vê-lo lamentar a fez parar com a massagem, rodeando a poltrona em que ele estava sentado para que o encarasse, agachando-se à sua frente para manter olho no olho. Em seus olhos, contudo, com o meio da sobrancelhas franzido, demonstrava que ela tinha empatia por seu problema. ❝—— Sentimentos românticos surgem com a convivência, Grisha. Não que eu seja uma especialista, mas o pouco que sei, é isso. E, se quer o depoimento de quem já foi sua namorada por alguns meses, você supera as suas próprias expectativas. ❞ Afagou levemente a mão alheia antes de se colocar em pé outra vez, retornando para a posição em que massageava às costas do amigo. ❝—— No labirinto de heras, você me perguntou o que eu faço aqui, perdendo tempo com você ❞ caçoou a última parte, tentando engrossar a voz para ficar semelhante à dele. ❝—— e eu sinceramente ainda não sei a resposta, mas sei que não é perda de tempo. E sei que não estou brincando com a comida. ❞ Finalizou, outro momento do encontro entre eles sendo mencionado.
Quando Natasha era uma criança, sua avó costumava fazer o mesmo chá todas as noites para que dormisse. Não importava o quão frustrante houvesse sido o dia da garotinha, o chá de Sveta resolvia todos os seus problemas. Chá de zveroboi. Depois que a avó faleceu, não recebeu mais o chá, e quando precisava se sentir segura, reconfortada, fazia por conta própria. E era por isso que estava no jardim dos castelos. Tinha certeza de que havia visto as pequeninas flores amarelas em algum canto ali, e pelo que aprendera com Sveta, elas estavam no ponto certo de ir para a chaleira. ❝—— Ai estão vocês! ❞ Soltou, assim que vislumbrou o amarelo canário da planta, colhendo algumas, o corte sendo feito alguns dedos acima da raíz, para que a planta pudesse crescer outra vez. Estava pronta para voltar, quando a visão de @anikv adentrou seu campo, e ela esboçou seu melhor sorriso forçado para a outra. ❝—— Vossa Graça! ❞ Cumprimentou, embora não houvesse prestado a reverência de sempre. Não conhecia a garota nem em camadas superficiais, sendo levada apenas pelo lembrete da família de que não poderia se aproximar de um Pavlenko.
O jantar havia sido servido há pouco, mas ela não sentia vontade alguma de retornar para seu quarto. A lembrança do pesadelo ainda era recente, e se não bastasse isso, ainda haviam os burburinhos sobre o assassinato de um funcionário. E a morte, bem, esta parecia sempre a acompanhar. Fato é que a sempre controlada duquesa de Dashkov, não estava assim tão controlada. E ela precisava de uma âncora. Normalmente recorreria ao irmão mais velho, mas com suas responsabilidades com o ducado, Pyotr não podia estar ali. Rya, bem, ela não se via no direito de afogar suas preocupações na irmã mais nova. Então, tinha Grigori, mas, bem, era complicado desabafar com ele naquele cenário. E embora sua melhor amiga estivesse diferente, ainda era sua melhor amiga. Era tarde quando bateu à porta de @vranye em trajes de dormir — festas do pijama costumava ser algo que apreciavam, mas como haviam crescido, o que ela escondia no meio do roupão era uma garrafa de vinho. ❝—— Eu preciso conversar. ❞ Soltou assim que a porta abriu, espiando ambos os lados para ter a certeza de que não havia ninguém vendo aquilo. ❝—— Me deixa entrar? ❞ Indagou ao revelar da garrafa, sorriso sem humor sendo oferecido à Zeklos. Juntas, costumavam ser imbatíveis, e Natasha sentia falta de ser imbatível.
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Assim como Natasha reconhecia a sua, a voz feminina foi facilmente identificada pelo czarevich, associando-a a um rosto. Somente a Dashkov para explanar com segurança sobre particularidades dele. ‘ Pelo visto, não está dando certo. Você descobriu bem rápido. Eles podem fazer o mesmo ’ repuxou um dos cantos da boca, se aproximando de onde ela estava. Sim, em parte, ele estava satisfeito por poder se esconder da mídia. Noutro tanto, contudo, surgia a preocupação mencionada. ‘ Não é assim que tratamos jovens nobres e belas em Moscóvia ’ contradisse, meneando a cabeça, com um sorriso discreto. Podia ter conhecimento a respeito dos boatos que cercavam a família alheia, mas considerava que não passavam de superstição, assim como fantasmas. Ademais, não seria de bom tom sugerir que uma das Grandes Casas Nobres estava envolvida com bruxaria, em um país que não admitia outra religião senão a da Igreja Ortodoxa e dos Três Santos. ‘ Depende. Há algo de cristão em crer que temos um espírito, mas você nunca foi lá muito ortodoxa, não é? ’
৴ ⊰ 、𝙁𝙇𝘼𝙎𝙃𝘽𝘼𝘾𝙆
❝—— Não compare a minha genialidade à deles, ou irei me ofender. ❞ Ela o conhecia melhor do que a imprensa, que sempre tivera acesso limitado, e à uma parte muito específica de Grisha: sua posição na corte. O conheciam como o herdeiro, o grande sucessor escolhido pelos sankts. Já ela, o conhecia como era. E se não tudo, ao menos uma parte maior do que a mídia tinha acesso. ❝—— Eles devem estar procurando entre as fantasias mais pomposas, como aquela ali. ❞ Gesticulou na direção de um homem mascarado, o terno usado refletindo sempre que a luz o atingia. Era bonito, mas extravagante demais para combinar com o homem ao seu lado. ❝—— E como elas são tratadas por aqui, Vossa Alteza? ❞ Era impossível controlar o sutil tom de desdém sempre que se dirigia à ele pelos pronomes de tratamento. Mas não era de seu título ou posição que caçoava, e sim da intimidade entre eles. Poderiam ser amigos, mas ainda assim ele seria seu czar, e ela não se incomodaria em prestar reverências, desde que pudesse o adular com isso vez ou outra. ❝—— Eu acho que há algo de não cristão em acreditar que estejam vagando na Terra também. ❞ Dera uma pequena risada, o sutil dar de ombros ao considerar que ele estava certo em seu julgamento. ❝—— Mas essa noite não se trata da morte, hun? Estamos aqui para celebrar sua vida. Feliz Aniversário, dorogoy¹!❞
Com tanto acontecendo no palácio, era demais esperar que ele estivesse com cabeça para o Favorado. Isso, no entanto, não retirava a responsabilidade assumida por Grigori, embora ele estivesse, mais do que nunca, com a intenção de assumir uma postura prática em relação ao processo. Depois de pedir que organizassem um dos salões menores do Palácio de Maxim para aquela tarde, garantiu que duas poltronas fossem dispostas, uma de frente para a outra, e aguardou, pacientemente – ao menos daquela vez – o ingresso da favorita no recinto. Do lado de fora, as demais deviam aguardar que seus nomes fossem chamados, sem que Grisha tivesse estipulado um tempo limite para cada conversa. Podia se empenhar em encontros, mas a data da primeira eliminação se aproximava, e ele precisava estar certo da decisão que tomaria. Depois dos usuais cumprimentos polidos, o Morozov inclinou-se, apoiando os braços nas coxas, para questionar: ‘ Seja sincera, senhorita… Acha que pode vir a ter sentimentos românticos por mim? ’
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Amor é um privilégio não concedido à pessoas como nós. A resposta ensinada pelo pai, que a tratava quase como um objeto quando o assunto era casamento, foi a primeira coisa que lhe ocorreu ao ouvir a pergunta de Grigori, e ela sabia que ele, dentre todas as pessoas, a entenderia. Mas não era o que queria dizer, por mais inteligente que soasse. Umedeceu os lábios com a língua, o deslizar delicado dos dedos pela cintura, para que estes encontrassem repouso nos próprios joelhos, enquanto o encarava. Se Grisha não fosse seu amigo, ela poderia aproveitar o momento para mentir, dizer que tinha sonhado com o Morozov, ou que passou os últimos dias pensando apenas nele. Mas se tratando dele, era incapaz de o fazer. Respirou fundo, certa de que, para quem sempre tinha tanto a dizer, estava calada à tempo demais, e foi um sorriso sem mostrar os dentes que ofereceu ao outro antes de começar. ❝—— Se me perdoe a sinceridade, eu não creio que você esteja atrás de sentimentos românticos, Vossa Alteza. ❞ Ponderou por um instante, o leve mordiscar do lábio inferior sendo uma mania de quando estava nervosa, ansiosa. ❝—— Você precisa de alguém que o apoie em suas decisões, alguém em que confie para que possa se ausentar quando a guerra o chamar. Precisa de alguém inteligente e perspicaz para os assuntos da corte; alguém que se doa ao peso da coroa. Precisa de uma amiga. ❞ Fizera uma pequena pausa, os olhos afiados cravados no homem à sua frente. Levantou-se, apenas para que pudesse se posicionar às suas costas, os dedos hesitando, mas acabando por tocar-lhe os ombros, em um início de massagem. Por mais que tentasse se conter, tratá-lo como se a intimidade que tinham não existisse, era quase impossível. ❝—— E eu posso ser essa pessoa. Além de acreditar que das amizades podem surgir o amor. ❞ Concluiu, agora os dedos explorando a região de seu pescoço, como se pudesse aliviar a tensão. ❝—— A grande questão é: pensa o mesmo? ❞
kxstya:
Longe de toda a movimentação, cuidando da parte menos barulhenta e mais distante da festa, Kostya caminhava pelos corredores garantindo o controle de todas as partes do espaço. Tudo por ali corria perfeitamente bem, o que queria dizer que ele infelizmente teria de retornar ao salão pois não havia aparente motivo para ficar por ali. Isto até ouvir um som estranho e um pouco desesperado, como gritos abafados vindos de algum lugar. Franzindo o cenho em confusão, olhou em volta até que finalmente compreendesse de onde vinha o som - de uma pequena sala ao fundo do corredor. Parecia uma espécie de armário, e apesar de conhecer bem o lugar (para alguém que se encontrava ali há pouco), não fazia a menor ideia do que era aquele espaço. Estranhou a facilidade de adentrar a sala, considerando o escândalo que alguém fazia ali de dentro, e assim que entrou pôde reparar na presença de uma jovem sentada. Analisou o local brevemente: parecia uma espécie de escritório pequeno, com uma cadeira giratória ocupada por uma moça de vestes extravagantes e uma taça vazia na mesa junto de alguns materiais de escritório. Só quando a mente finalmente compreendeu o aviso dela que olhou para trás no exato momento em que a porta terminava de fechar, e a maçaneta não parecia disposta a ajudá-los. “Ah, mas que merda” Grunhiu, era só o que faltava. A brincadeira não viera em bom momento, por isso não o fizera rir, mas chamara sua atenção mesmo assim. Virou-se na direção da jovem, a fim de dedicar-lhe o foco. “Te garanto que essa será a menor das suas preocupações.” Seu tom não era tão duro, mas tampouco parecia divertido. Ficar preso em um espaço daquele com uma mulher certamente não poderia oferecer a melhor das aparências à sua ética de trabalho. Voltou a se concentrar na maçaneta por alguns longos segundos, tentando abrí-la de qualquer jeito, mas percebendo que era em vão. Soltou o ar por fim, apoiando-se contra a porta e dessa vez de fato prestando a devida atenção na presença que lhe acompanhava. “Como veio parar nessa sala?” Perguntou, antes de dedicar-se a analisar o rosto alheio. Que, inclusive, era estranhamente conhecido. “Ei, nós não…nos conhecemos?” Perguntou, pensativo, tão focado em se lembrar da jovem que mal percebera que seguia com sua máscara, o que certamente não ajudaria a outra a responder sua pergunta.
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Seus olhos brilharam por um instante, com a possibilidade de escapar dali. Veja: era uma mulher ativa, e já havia se entediado por ficar trancada tanto tempo no local, além do que, estava perdendo uma festa enorme no salão principal, e não que fosse convencida, mas sabia que sentiriam sua falta — era parte do espetáculo, afinal. Contudo, suas esperanças em voltar para aproveitar a festividade foram por água à baixo quando a porta fechou-se atrás do desconhecido, e se não estivesse tão desanimada, Natasha até gritaria com ele. Mas, além do desânimo, seria hipocrisia, considerando que ela própria havia caído naquela armadilha por primeira vez. Desta forma, apenas suspirou, derrota impressa em suas feições ao fixar orbes esverdeados no desconhecido. ❝—— Eu já tentei. ❞ Ela avisou, contudo, um sorriso cruzou seus lábios ao vê-lo tentar abrir, e chegou a aproximar a cadeira da mesa, para que assim pudesse apoiar os cotovelos sobre o mogno e, posteriormente, o queixo sobre o dorso das mãos, cruzadas. Casualmente, divertia-se com homens teimosos, e àquela altura, o considerava um, visto que já havia avisado que tentara abrir a porta e, mesmo assim, ele tentava fazer o mesmo. Com tanto sucesso quanto ela. ❝—— Você é forte. Porque não tenta, hun... derrubar a porta? ❞ Ela sugeriu ao vê-lo tentar mais um pouco, mas o tom indicava que apenas caçoava da situação. Como dito anteriormente, ela divertia-se com situações como aquela. E o que mais a divertia, era o fato de, mesmo estando prestando tanto esforço, o desconhecido continuar mascarado. Não sentia incômodo para respirar, ou, sequer, para olhar o que fazia? Envergonhada em admitir que estava ali em busca de uma relíquia para o jogo da noite, ela dera levemente de ombros quando questionada. ❝—— Não que eu seja incapaz de manter relações sociais, eu as aprecio. Mas às vezes precisamos de um tempo sozinhos, hun? Foi assim que eu descobri que essa maçaneta precisa de conserto. ❞ Existia alguma verdade em suas palavras, e quando o outro sugeriu que se conheciam, ela se levantou da cadeira. A expressão era pensativa ao rodear a mesa, apoiando-se então contra o móvel. A mão foi levada ao queixo, e os olhos estreitos como se analisasse o rosto alheio. Mas o que analisava, era sua máscara, e com um estalar da língua ela finalmente concluiu, balançando a cabeça em uma negativa. ❝—— Acho que está me confundindo com a Chapeuzinho errada. ❞ Gracejou, desta vez, mais humorada do que na primeira tentativa de brincadeira. Contudo, lhe ocorrendo que poderia ser mal interpretada, dado o cenário em que estavam inseridos, ela limpou a garganta, ajeitando a postura. ❝—— Digo, fica complicado o reconhecer se continuar me escondendo seu rosto. Não deve ser tão ruim assim... ❞ Bem, se prestasse mais atenção, até poderia lembrar do tom de voz, os então dos ombros largos. Mas não estava atenta à isso, curiosa demais com o revelar da face alheia para se ater aos detalhes que poderiam denunciar seu reconhecimento.
… That, and my hair.
Agora sentia-se tola por ter adentrado a saleta em busca de uma das relíquias. Porque estaria tão longe do salão de bailes? É claro que, se não estivesse presa no que parecia ser um escritório, e ainda houvesse encontrado de fato uma das relíquias, a frustração não faria parte de seu estado de espírito. Mas para seu azar, a saleta estava com a porta quebrada e só abria pelo lado de fora. E é claro que ela apenas notou quando já era tarde demais. Testou a maçaneta ao menos cinco vezes só nos primeiros dez segundos após a constatação de que estava trancada, como se de alguma forma mágica fosse abrir caso aplicasse mais força, ou raiva. E nada. Então começou a gritar, implorando para que alguma boa alma houvesse se afastado tal como ela da festividade e a ouvisse sobre a música. Foi em vão. Tentou bater na porta algumas vezes e, depois, até chegou à implorar aos três sankts maiores, mas nada. E mesmo que não fosse de desistir, ela se rendeu, sentando-se na cadeira giratória após livrar-se da máscara, que agora repousava sobre a mesa de mogno preto. A taça que havia levado consigo já havia acabado, e Natasha achou uma boa ideia girar na cadeira. Foi em uma meia volta que a porta se abriu, revelando @kxstya. ❝—— NÃO FE—.........cha. ❞ Ela tentou avisar, contudo, era tarde demais. E agora os dois estavam presos. ❝—— Tomara que a lua cheia não surja essa noite, ou terei de me preocupar em ser devorada.❞ Ela brincou, embora o tom não fosse de piada, fazendo breve referência à máscara que o desconhecido usava.
៹ ✞ ╰ Era o dia dos mortos, o seu dia preferido do ano todo; o dia em que poderia sentir-se normal, apesar dos fantasmas que atormentavam-na, sejam estes mentais ou reais. Só que precisava dar o seu toque naquele baile tão representativo para com ela e os seus, e sabia muito bem como. Aproximou-se da primeira pessoa que passava perto de si, tomando a mão alheia com cautela para o seu campo de visão. ‘ Aceita uma leitura de mãos? ’ Indagou fingindo certa inocência, um sorriso convidativo desenhado nos lábios femininos e o tom de voz esperançoso que ansiava por uma resposta positiva.
A sobrancelha foi arqueada assim que puxou a mão para si, cruzando os braços como se isso fosse capaz de impedir a outra. E os olhos analisaram a figura loira de cima à baixo por um instante. ❝—— Por menos queimaram minha avó, deveria tomar cuidado. ❞ Ela alertou, e embora o tom sugerisse repreensão, estendeu a mão para a outra pessoa. Natasha era simplesmente fascinada por bruxaria, e tinha herdado os diários de Artemissa que não foram queimados junto dela na fogueira. ❝—— O que há reservado para mim? ❞
‘ Essa sala bem poderia estar cheia de estranhos ’ disse, para ninguém em específico, olhando ao redor. ‘ Não posso reconhecer ninguém por causa das fantasias ’ e não queria apontar que esse era o cenário propício para rebeldes e espiões, porque só estragaria o clima festivo. Por isso, voltou-se para a primeira a pessoa que viu, abordando tópico aleatório — algo que tinha lido num livro uma vez: ‘ Também é do tipo que acredita que os mortos estão vagando livremente entre nós na noite de hoje? ’
❝—— Eu pensei que você, dentre todas as pessoas, adoraria esta noite justamente por isso. ❞ Iniciou de forma inofensiva, reconhecendo o tom de voz de Grigori e vendo uma possibilidade de adulação. ❝—— Já que ama se esconder da mídia. ❞ Concluiu, um sorriso ladino esculpindo-lhe os lábios quase que automaticamente. Ela sabia que deveria se conter, ao tratá-lo de forma íntima quando em público, mas não era tão boa em reprimir seus desejos. E eles eram amigos, afinal, mesmo que todo o contexto tornasse isso pouco válido. ❝—— Isso é um teste? Você sabe, falta isso aqui para me queimarem na fogueira ❞ Ela sinalizou uma medida pequena com o indicador e o polegar da destra, e embora tenha soltado uma risada nasalada, um arrepio percorreu-lhe a coluna com a mera lembrança do sonho da noite anterior. ❝—— e seria heresia dizer que acredito. ❞ Completou, dando uma piscadela à ele. Por mais que tentassem evitar pontos em comum com Artemissa, algumas coisas haviam sido plantadas no âmago dos Dashkov de tal forma que eram incapazes de ignorar.
৴ ⊰ 、𝙉𝘼𝙏𝘼𝙎𝙃𝘼 𝘿𝘼𝙎𝙃𝙆𝙊𝙑 attend at ʜᴀʟʟᴏᴡᴇᴇɴ czarevich's birthday
❝ Ô sol vê se não esquece e me ilumina preciso de você aqui.❞
— Vitor Kley
TW: O texto a baixo contém uma descrição de cena com terror noturno, sem consentimento, estupro, violência contra a mulher e morte. Se esses forem um dos seus triggers, eu desaconselho a leitura.
ℬ𝑒𝑐𝛼𝑢𝑠𝑒 𝑖𝑡 𝑖𝑠 𝘣𝑖𝑡𝑡𝑒𝑟 𝑏𝑦 𝐍. 𝐃𝐀𝐒𝐇𝐊𝐎𝐕
Abnegação (s.f.): Ação caracterizada pelo desprendimento e altruísmo, em que a superação das tendências egoísticas da personalidade é conquistada em benefício de uma pessoa, causa ou princípio; dedicação extrema; altruísmo.
Quando Natasha era uma criança, exemplos de abnegação em sua vida eram raros, para não dizer impossíveis. Mas sua avó era um exemplo, sempre pronta para fazer o que fosse preciso por seus filhos e netos, sempre pronta para sacrificar-se para que todos os outros pudessem viver. Altruísta ao extremo, Sveta de Dashkov havia de fato morrido por um de seus filhos quando Tasha ainda era jovem, e naquele momento ela tinha aprendido uma lição mais valiosa que qualquer diamante: altruísmo mata.
Mas nem por isso deixou de agir de forma diferente. Aquela era sua sina, e tinha certeza de que um dia viria a ser sua destruição.
viktcrjk:
A questão intrigou o guarda, mantendo-se silencioso por imaginar que viria uma complementação. Deu mais uma tragada, acompanhando a movimentação alheia e antes que decidisse realmente dizer algo, finalmente quebrando o silêncio, ela o fez antes. A complementação veio, como o esperado. Quase o fez sorrir, mas por pouquíssimo. “Pode ser os dois?” Devolveu, utilizando do mesmo tom mais voltado para brincadeiras. “E você, vossa graça? Se encaixa com alguma dessas opções ou é uma terceira?”
As mãos fecharam-se em punhos, em busca de auto controle, à medida em que a fumaça densa invadia seus pulmões. Há tempos que não tragava, uma vez que o tabaco sempre impregnava nos fios negros e ela preferia evitar o estresse do marido. Que Deus o tenha. Àquela altura, buscava o alívio de outras formas, fosse mordiscando as cutículas ou gastando o precioso dinheirinho que outrora havia conquistado com as apresentações. A resposta que chegou a seus ouvidos a trouxe de volta, e ela dera uma pequena risada, acenando com a cabeça. ❝—— Presumo que esteja sendo um sacrifício ter seu momento interrompido por mim, então. ❞ Encurtou a distância que os separava ao ouvir a indagação, apoiando-se contra o parapeito presente no terraço. Os olhos seguiam as figuras abaixo, no jardim. ❝—— Gastar os pulmões prejudica a saúde. ❞ Afirmou, não negando ou dizendo que fazia aquilo, e então, pendeu a cabeça em sua direção. ❝—— Já minha companhia, é bastante especial para que todos desfrutem. ❞ Soaria arrogante caso não usasse de tom mais divertido, esboçando um sorriso para o guarda. ❝—— Mas estou curiosa sobre a terceira opção, senhor. Conte-me sua ideia. ❞