Pedra, Papel e Tesoura (Alice Feeney)
O casamento é um jogo de poder silencioso e cruel, onde, na maioria das vezes, as regras são escritas com o veneno do ressentimento acumulado. Pedra, Papel e Tesoura, de Alice Feeney, destrincha sem nenhuma piedade a decadência terminal de uma relação de dez anos entre Adam, um roteirista de cinema viciado em trabalho que sofre de prosopagnosia ( a incapacidade neurológica de reconhecer feições e rostos humanos, dependendo de pistas como a voz ou o andar para identificar a própria esposa ) e Amelia. Eles ganham um fim de semana em um sorteio e viajam para uma capela reformada e totalmente isolada na Escócia, em Blackwater, naquela que deveria ser a última tentativa desesperada de salvar o matrimônio falido. O livro opera como uma autópsia afetiva detalhada, nos lembrando, através de cartas anuais escritas pela esposa a cada aniversário e nunca enviadas, que o amor e o ódio dividem o mesmo travesseiro:
“Você realmente conhece a pessoa com quem se casou, ou está apenas dormindo ao lado de um completo estranho que sabe exatamente onde ficam as suas piores fraquezas?”
O estranhamento psicológico aqui é brilhante, doentio e assustador. Como o protagonista não consegue enxergar a face da mentira na própria mulher devido ao seu transtorno neurológico, toda a narrativa ganha um tom de despersonalização angustiante. O leitor habita a paranoia de um homem que pode estar jantando com o seu próprio carrasco sem perceber, dependendo exclusivamente de pequenos detalhes mundanos, do tom de voz artificial ou do perfume para saber se quem está na sala é quem diz ser. O desconforto reside na certeza absoluta de que ambos guardam segredos mortais e estão jogando uma partida onde perder significa a aniquilação total do outro. A capela escocesa isolada funciona como uma panela de pressão onde segredos enterrados há uma década começam a emergir através de bilhetes anônimos e jogos perturbadores espalhados pelos cômodos gelados.
Descobrimos que a cegueira facial de Adam não é o único filtro distorcido nessa relação. Amelia alimenta um rancor corrosivo pelo fato de o marido ter construído sua carreira de sucesso roubando as ideias e a propriedade intelectual de seus próprios manuscritos não publicados, deixando-a na invisibilidade doméstica por uma década. O encerramento da obra gera uma revolta profunda pela genialidade perversa da traição armada. A indignação nos domina por completo ao percebermos que as cartas mentiam, os pontos de vista mudavam de dona no meio do livro e que a teia de mentiras e assassinatos foi tecida com pura malícia e frieza calculada ao longo de anos. É um desfecho implacável que nos faz fechar o livro com um sentimento de profunda repulsa pelas máscaras morais que usamos no dia a dia do casamento.











