Bill, Ben, Stan, Eddie, Mike, Ritchie, Bev ... “it” um dos livros mais aclamados do Stephen King nem de longe é um livro sobre um palhaço assassino ou sobre uma “coisa” que personifica os medos e anseios das pessoas. O livro de 1102 páginas, em sua minoria fala sobre Pennywise. O palhaço que pensamos ser o grande protagonista da história não passa de um mero coadjuvante nas histórias das crianças que habitam a pacata cidadezinha de Derry no Maine.
King não economiza diálogos e histórias, o livro lançado em 1985 começou a ser escrito em 1981, longos 4 anos separam a morte de George pela “coisa” do gran finale da história algumas centenas de paginas depois, e pudera, a história é tão rica de detalhes que em alguns momentos Derry parece fazer parte do seu dia a dia, ao chegar na metade do livro os personagens principais já começam a fazer parte da sua vida e conhecer o Barrens passa a ser um desejo constante.
Um livro de histórias separadas. Além do momento de união dos 7 protagonistas, King faz questão de contar pontualmente a história de cada um separadamente, tal como dos seus parentes mais próximos e personagens que fazem parte do ciclo social dos protagonistas, os vilões ganham espaço para serem conhecidos internamente, abrindo mão um pouco da sua vilania.
A história se inicia em 1957 quando o irmão mais jovem de Bill é assassinado durante uma brincadeira com um barco de papel pelas ruas chuvosas da cidade, Bill abandonado pelos pais fortemente abalados pela morte do jovem Georgie, acaba buscando abrigo com seus amigos no bairro do Barrens, próximo ao lixão da cidade. A cidade que passa por situações curiosas a cada 28 anos, é abrigo de um palhaço que supostamente come crianças e quando várias delas começam a desaparecer da mesma forma que George desapareceu, Bill e seus amigos se juntam para acabar com um problema: a coisa.
A coisa que não foi totalmente derrotada, acaba retornando 28 anos depois, e as crianças agora adultas, voltam a Derry para terminar o serviço que não foi concluído. Os 7 com vidas diferentes, com seus próprios problemas pessoais e sociais retornam, só que dessa vez com uma outra visão do mundo.
Beverly casada com um homem possessivo, mas com uma situação financeiro bastante favorável, sofre com agressões físicas quase que diariamente para ser educada, da mesma maneira que era tratada pelo seu pai na sua infância. Seu marido Tom , acredita que a moralização da agressão seria capaz de ensinar Beverly. Ben, que quando jovem era gordo e sofria com a falta de amigos até conhecer os colegas no Barrens, cresceu, emagreceu, mas parece sofrer com o mesmo problema, mesmo sendo um grande arquiteto, a falta de amigos parece ser a maior dificuldade de sua vida. Eddie, que tinha uma mãe possessiva e super protetora que criava doenças mirabolantes e prendia o filho em placebos, cresce e se casa com uma mulher fortemente possessiva, além de ter muita dificuldade de se livrar dos placebos da infância que parecem ajuda-lo nos problemas da vida. Bill se casa, mas nunca conseguiu deixar pra trás as coisas que passou em Derry, se torna escritor de livros de terror (tal como o autor da obra) e passa a dar vida novamente aos medos que viveu na sua infância.
Todos menos Mike que agora é bibliotecário da cidade onde nasceu, esquecem de tudo que aconteceu em 1957 mas ao receberem uma ligação, começam a relembrar de tudo: “a coisa voltou! Precisamos terminar o que começamos”.
A História de king parece trazer inúmeros símbolos, acreditar que o passado não tem influência no presente é demonstrado como uma grande mentira. A bagagem social e pessoal que o clube dos otários ganhou na sua infância parece influenciar diretamente no dia a dia do presente, no ar que respiram , na maneira que encarram a vida e nas dificuldades que por muito aparecem na relação interpessoal.
Quando crianças os problemas que pareciam ser infantis se estenderam pela vida e passaram a coexistir: a coisa na verdade era o medo.
King personificou o medo, criou todo um universo pra demonstrar o quanto era importante a união e a amizade, e como juntos os Otários seriam capazes de enfrentar qualquer tipo de problema que viesse a acontecer, dividindo os problemas, as dificuldades pareciam diminuir e a alegria acabava emanando dos problemas por meio de piadas e brincadeiras.
Quando retornam em 1985 percebem o quanto o medo se mantinha entranhado dentro deles e como na verdade o eu criança de cada um nunca tinha ido embora. juntos mais uma vez conseguiram, aí sim, destruir a coisa. Beverly larga o marido, Ben se casa com Bev, e Bill percebe que não tinha culpa na morte do irmão.
Tudo que acontecia em Derry parecia desaparecer da memoria deles, tanto quando derrotaram a coisa em 1957, quanto em 1985 quando a derrotaram novamente. Derry parece viver no submundo da alma deles e é vivida sempre que o medo retorna com todo vapor as suas entranhas.
Em suma, It é um livro sobre relações humanas, sobre as dificuldades da vida, sobre como é difícil agir diante dos problemas e como o medo pode ser capaz de ganhar espaço na nossa vida. A sociedade pode afetar os seres humanos e o Pennywise nada mais é do que a personificação desse afeto.
“vá embora e tente continuar a sorrir. Ouça um pouco de rock-in-roll no rádio e vá em direção a toda vida que existe com toda a coragem que você consegue reunir e toda a crença que tem.” King, Stephen.