Os minutos se alongaram enquanto era levada calmamente pela mão do leprechaun. Tudo que Lyhea lhe havia dito, todas as perguntas, as observações maquiavélicas de todo plano que vivia, estavam destruindo sua sanidade. Mesmo que tentasse se concentrar na brisa que voltou como um fantasma para acalentá-la, e na musicalidade da floresta, dos seres que finalmente despertaram pra vida, não era capaz de aquietar a própria alma, que afundava cada vez mais na aflição e na dúvida. Eloah permaneceu quieto ao seu lado. Ainda sem tocá-la, segurando uma ponta da fita, enquanto ela segurava a outra, a guiava a passos curtos e pacientes, como um inquilino orgulhoso da própria casa. Era um lugar indiscutivelmente bonito, e gostaria ela de apreciar detalhadamente a beleza daquele mundo do qual foi privada durante uma vida. Mas nem mesmo em liberdade sua mente descansava dos anos como “animal adestrado” numa fortaleza.
Um ódio desconhecido começou a derramar-se à conta-gotas em seu coração. Talvez criaria um ressentimento perigoso. E a cada palavra que se lembrava da voz rouca do duende, um calafrio, um tremer de raiva lhe percorria o corpo terminando num nó em sua garganta. Não se permitiria chorar por aquilo. Não de novo. Não lamentaria o próprio abandono, afinal, a pessoa que ninguém precisou lhe ensinar a amar, a queira mais do que tudo. Aquilo era seu novo argumento contra o silencio frio de seu pai. Drácula permaneceria cego e surdo para ela o quanto quisesse, ela agora tinha Jane. Mas seria mentira e engano sustentar um emocional ileso, sendo que a medida que se convencia de que Vlad se afastava, sentia o amor que preservava por ele ferir-se violentamente, infligindo-lhe pela primeira vez uma angústia estranha, a pior que já sentira. É com esses pedaços que fica uma pessoa deixada para trás? É por isso que os diabretes pregavam sobre o Amor ser uma fraqueza? Ela não se arrependia do que sentia pelo vampiro, mas não negava que talvez desejasse não tê-lo amado tanto. Os livros já previam tal dor, mas os finais eram sempre felizes, o que aconteceu com o dela?
A estrada deveria estar vazia, por que Aaren não conseguia ouvir os carros, e de todas as formas, não se sentia ansiosa para chegar. Depois de andar ao lado do duende por alguns minutos, se lembrou de que tais seres deveriam estar no exílio. Não se lembrava do motivo, mas em algumas conversas, entre os empregados de seu pai, ouvira falar deles. Diferente dos relatos, as criaturas lhe pareciam fazer bem, ou quase bem. Eram boas em semear o caos, mas com ela o fizeram derramando impiedosamente a verdade sobre sua cabeça. Estava grata, constrangida, e chateada, mas grata.
Quando finalmente ouviu um carro passar numa velocidade perigosa na estrada logo ao lado, sentiu o vento deslocado atravessar os arbustos da beirada, afastou-se instintivamente e ouviu a freada segundos depois. "Que imbecil" pensou já irritada. Não conseguia ver onde o carro parou, mas seguiu Eloah que de repente virou-se para a floresta. — Temos que descer por aqui. — ela franziu o cenho com a fala dele — Mas…? — Aaren não teve tempo de questionar, sentiu a fita ser puxada pelo leprechaun e o seguiu. Eles não se afastaram muitos metros, mas seguiram com mais cautela. Entre as plantas cobertas de neve ligeiramente suja, espiaram os dois estranhos, que pareciam um tanto perturbados de longe. Eloah soltou uma ofensa, mas Aaren não teve certeza do que ouviu. Ele queria descer mais, ela queria voltar pra casa. Mesmo sentindo-se terrivelmente mal, e impaciente para ficar perto de qualquer um, sabia que Jane a esperava, sabia que precisava conversar com ela. Talvez, ainda não fosse a hora de confessar tudo, mas gostaria pelo menos da companhia da irmã enquanto brigava com a própria mente.
Péssimo jeito de passar o dia seguinte ao aniversário. Ela ainda se amaldiçoaria por aquilo. Escondida sobre uma capa de tecido pesado, cores escuras — o que chamava a atenção de várias formas —, perambulando em Aberdeen em plena noite, era desaconselhado até mesmo pelo mais burro dos Faes. Mas o desespero a arrastara até ali horas mais cedo, e agora a frustração a mantinha. Tudo que fora fazer nos Castelos do Norte era tentar achar Drácula, tentar falar por fim com o pai, mas o cenário miserável que encontrou era um presságio desafortunado de seu futuro breve. Ágotha, a vampira que lhe fora uma espécie de tutora a vida inteira estava no ápice da loucura, ela ria, falava e agia de modo assustador, e parecia perturbada com a própria não sobriedade. Outros dois vampiros, cujo nome não se esforçou para lembrar, a acompanhavam em sua loucura. Todos os Faes ao seu redor estavam naquele estado crítico, até meus seu sobrinho de oito anos. Ainda desconhecia a explicação dos fatos, mas podia deduzir com alguma suspeita, de que os acontecimentos com o duende tinham muito relacionado com o caos que perdurava. Mas em troca das verdades valiosas que tinham lhe dado aquela noite, ela lhes seria fiel.