O UngĂŒento de VĂŽo das Bruxas
O unguento de voo, tambĂ©m conhecido como unguento das bruxas, unguento verde ou unguento licantrĂłpico, Ă© um preparado, uma pomada alucinĂłgena, um consenso entre historiadores, etnobotĂąnicos, antropĂłlogos, estudiosos e praticantes das Artes Ocultas e Inominadas. Circe talvez seja a nossa primeira lembrança como referĂȘncia ao uso de ervas (no caso a misteriosa planta âMollyâ) para alterar a percepção de uma pessoa, mas o âfenĂŽmenoâ Ă© relatado nos mitos e lendas do mundo inteiro: os berserkers nĂłrdicos e os guerreiros celtas (entre outras tribos guerreiras) faziam usos de preparados que âmetamorfoseavamâ aquele que os ingeriam em animais poderosĂssimos, temĂveis e incansĂĄveis. Pitonisas se intoxicavam com gases e os xamĂŁs do mundo todo tomam barbeiragens para âverâ ou âirâ ao âOutro Mundoâ.
Mas o que Ă© Alucinação e como podemos entender este termo no contexto em que se aplicava antigamente? Hoje, bem sabemos que este Ă© um estado patolĂłgico que indica o âver ou ouvirâ algo que nĂŁo estĂĄ lĂĄ, mas na sua raiz grega, alyein, indica âvagar sobreâ ou âvagar fora de siâ e sua sucessĂŁo latina, alucinatus, âvagar em sua menteâ ou âvagar em imaginaçãoâ, e vaticinari â uma revelação, visĂŁo ou algo que Ă© revelado. EntĂŁo podemos redefinir a alucinação no campo da etnobotĂąnica mĂĄgica como um estado onde revelaçÔes sĂŁo dadas pela virtude da imaginação. Assim, a pessoa nĂŁo estĂĄ vendo algo que nĂŁo estĂĄ lĂĄ, mas simplesmente alterando os planos de consciĂȘncia e entrando em uma dimensĂŁo de revelaçÔes.
JĂĄ no sĂ©culo II Lucio Apuleio [1] contou a histĂłria de LĂșcio, um viajante que se envolve em uma experiĂȘncia mĂĄgica na TessĂĄlia (onde ele Ă© transformado num asno), uma regiĂŁo da antiga GrĂ©cia conhecida em toda a literatura greco-romana como a pĂĄtria das feiticeiras. Ele conta:
âNum dia Fotis veio correndo me ver e estava coberta de medo, ela chegou me dizendo que sua senhora, para conseguir trabalhar suas feitiçarias naquele que amava, pretendia na noite que se seguiria, se transformar em um pĂĄssaro para voar para onde desejasse; Assim ela quis que eu me preparasse secretamente para ver o mesmo. E, quando a meia-noite chegou, ela me levou com cautela a uma cĂąmara superior, e me fez olhar pelo vĂŁo da porta: primeiramente eu a vi [PanfĂlia, a bruxa] se despir de todas as suas roupas e apanhou de dentro de uma espĂ©cie de cofre diversos tipos caixinhas e potes, dos quais abriu um e deixou escorrer pelos seus dedos o Ăłleo que dali saia, esfregando-o entĂŁo por todo o corpo, das solas dos pĂ©s atĂ© o topo da cabeça, e quando começou a falar consigo mesma, segurando uma vela em sua mĂŁo, parte de seu corpo tremeu e eis que percebi uma nuvem de penas que surgiu, seu nariz tornou-se brilhoso, torto e duro, suas unhas transformadas em garras, e assim ela se tornou uma coruja. EntĂŁo ela gritou e guinchou com um pĂĄssaro daquele tipo, e desejando provar sua força, moveu-se do chĂŁo pouco a pouco, atĂ© que finalmente voou para bem longe.â
A referĂȘncia aqui Ă© bem clara, tanto no processo de metamorfose quanto a de vĂŽo noturno. Podemos tambĂ©m perguntar como LĂșcio conseguiu perceber tal transformação (talvez ele tambĂ©m estivesse sob forte efeito alucinĂłgeno?). Este trecho tambĂ©m nos dĂĄ a dica do tal preparado oleoso que Ă© espalhado pelo corpo da bruxa, uma das formas mais comuns de aplicação de vĂĄrios tipos de remĂ©dios nos dias de Apuleio.
O Olisbos numa representação grega
Os alcaloides contidos nas plantas usadas na confecção dos unguentos na Europa Medieval podem causar a morte quando tomadas oralmente em quantidades excedentes a certo limite de toxidade. Se absorvidos por outras rotas e em doses menores que as letais, elas causam efeitos alucinĂłgenos. Os povos antigos descobriram que a lenta penetração de uma dose baixa destes alcaloides pode causar experiĂȘncias mentais prazerosas. Uma forma de administração destes componentes no corpo era a aplicação de unguentos - os famosos unguentos de voo das bruxas! De acordo com relatos da inquisição, os unguentos eram aplicados na pele em diferentes partes do corpo ou atravĂ©s das mucosas, pelo uso da vassoura untada ou de âfalosâ de madeira. O eufemismo âcavalgadaâ era usado para o âcongresso sexualâ, e âa vassoura entre as pernas da bruxaâ era o eufemismo para âdentreâ. De fato, a vassoura nada mais Ă© do que um equivalente medieval de um objeto ritual antigo, chamado âolisbosâ, ou como alguns autores clĂĄssicos o chamaram âpenis coriaceusâ. Este era um pĂȘnis moldado em couro que as bacantes carregavam nas procissĂ”es, e era o pĂȘnis artificial (vassouras e outras âvaras menoresâ) que o Diabo usava nos encontros do Sabbath relatados pelas bruxas durante os processos inquisitoriais [2] .
Os relatos mostram repetidamente que as bruxas falavam não só de ungirem seus corpos, mas também suas vassouras. Durante o julgamento de cinco mulheres acusadas de bruxaria em Arras, em 1460, a seguinte confissão foi registrada:
âQuando elas desejavam realizar um feitiço, com um unguento que o Diabo havia entregado a elas, e elas untavam uma vara de madeira que era tudo menos pequena, e suas palmas e suas mĂŁos inteiras igualmente; e assim, colocavam uma vara pequena entre suas pernas, e diretamente voavam onde queriam ir, sobre boas cidades e florestas e ĂĄguas, e o Diabo guiava-as ao lugar onde elas devem realizar suas assembleias.â [3]
Obviamente, a menção ao âDiaboâ era uma forma de ocultar o âHomem de Negroâ, o mestre ou magister de um grupo de bruxos.
NĂŁo havia interesse nos unguentos durante o perĂodo da Inquisição. Eles procuravam âreaisâ apariçÔes de SatanĂĄs, e nĂŁo alucinaçÔes induzidas por plantas dentre os camponeses. A maior parte das acusaçÔes foi julgada em cortes civis locais, e assim, a coleta, posse ou uso de plantas associadas Ă s âbruxasâ (ou seja, a grande maioria) era no mĂnimo suspeita. Ainda assim, a maioria dos julgamentos nĂŁo tinha nada a ver com plantas, ou voo ou conhecimento de ervas, ou ainda, qualquer religiĂŁo de deusas. As acusaçÔes focavam-se nas vacas produzindo leite azedo, na infertilidade das mulheres e animais, colheitas perdidas e na cruel pobreza. [4]
Estudos indicam que as drogas penetram lentamente pela barreira da pele e gordura corporal. Ao misturar o sumo (espremendo-se a planta atĂ© obter seu suco), decocto (redução de atĂ© 1/3 atravĂ©s de fervura) ou alcoolatura (material seco curtido em ĂĄlcool de cereais) em um meio gorduroso a absorção Ă© bastante aumentada. O âmeio gordurosoâ tambĂ©m possui uma histĂłria bastante peculiar, que explica as inĂșmeras mençÔes de que as bruxas visitavam cemitĂ©rios e patĂbulos para roubar partes de corpos, ou de que sacrificavam crianças e atĂ© mesmo bebĂȘs. Antigamente acreditava-se que qualquer unguento (mesmo os medicinais) funcionava melhor se preparados tomando como base a prĂłpria gordura humana, em especial a gordura de bebĂȘs. Por outro lado, mesmo que possamos encontrar algumas receitas com este elemento sinistro, a gordura de porco (que chora como uma criancinha quando abatido) Ă© o elemento mais provĂĄvel. Um traço comum nos receituĂĄrios (grimĂłrios) era o uso de termos muitas vezes âdemonizadosâ da Ă©poca, assim como toda a natureza foi. HĂĄ uma referĂȘncia disso no âfermentado das Bruxasâ exposto em Macbeth (ato 4, cena I), onde figuram o meimendro negro (Hyoscyamus Niger), a cicuta (Conium maculatum, Cicuta Virosa) mais diretamente, mas o teixo (Taxus baccata) Ă© apresentado como âsangue de ratoâ, e o âdente de loboâ faz referĂȘncia Ă ergotina (cravagem). Nesta Ă©poca vĂĄrias plantas eram associadas Ă s bruxas e ao diabo e tomaram nomes populares que envolviam prefixos como âSatan, Telfel, Hexenâ, como âSatanpilzâ (cogumelo de SatĂŁ), âSatanwurzâ (salsicha de SatĂŁ), Teufelsbeere (bagas do diabo), Teufelsarsch (bunda do diabo), Hexenauge (olho de bruxa), Hexendorn (espinho de bruxa), isto tudo de uma lista bastante extensa coletada no apĂȘndice do livro Witchcraft Medicine. [5]
Agora existe uma moda de se preparar âunguentos de voo modernosâ, com a garantia de que nĂŁo sejam venenosos. Mas sem o risco, nĂŁo hĂĄ qualquer resultado. As receitas nĂŁo sĂŁo mais do que invencionices inĂłcuas que servem a um crescente comĂ©rcio esotĂ©rico, que pouco ou nada tĂȘm a ver com as receitas dos antigos grimĂłrios.
Chas Clifton, em âIf Witches No Longer Fly: Todayâs Pagans and the Solanaceous Plantsâ [6] , conclui seu artigo com uma constatação bastante interessante:
âEstes pagĂŁos contemporĂąneos que usam enteĂłgenos tradicionais sĂŁo cautelosos ao discuti-los. Muitas destas substĂąncias tĂȘm sido divulgadas como âbaratos legalizadosâ, e em uma sociedade que estĂĄ acostumada a ver as âdrogasâ como agradĂĄveis pilulazinhas e cĂĄpsulas, os usos dos perigosos e fronteiriços enteĂłgenos tradicionais com seus bagunçados efeitos colaterais ocasionais podem nĂŁo apelar atĂ© mesmo aos autodescritos Bruxos. Assim, por todas as afirmaçÔes feitas de conexĂ”es com as vĂtimas da âEra das Fogueirasâ, a maioria das bruxas contemporĂąneas e outros pagĂŁos escolheram virar as costas para o que pode realmente ser a Ășnica conexĂŁo com uma era anterior de prĂĄtica xamĂąnica â os enteĂłgenos tradicionais euro-asiĂĄticos.â
Ainda existem âbrujasâ que vendem suas pomadas (ou unguentos, se preferir) de Datura no MĂ©xico e esta Ă© realmente uma contraparte exata aos unguentos das bruxas da Era Medieval, que eram feitas tomando-se por base o Meimendro (Hyoscyamus Niger), a Datura (Datura stramonium), o HelĂ©boro (Helleborus niger), o AcĂŽnito (Aconitum spp.), a Papoula (Papaver somniferum) e a Beladona (Atropa belladonna), entre outras ervas muito tĂłxicas. Todas elas sĂŁo ervas âsolanĂĄceasâ, ou seja, âconsoladorasâ - da mesma maneira em que a bruxa era considerada uma âconsoladora socialâ, uma envenenadora e uma curandeira.
Notas:
[1] Em âO Asno de ouroâ (ou Metamorfoses), Livro III, Cap. XVI
[2] Cf. The Roots of Witchcraft (Harrison, M.)
[3] How do Witches Fly, pg 6
[4] Phamako Gnosis, Plant Teachers and the Poison Path - Dale Pendell - Toloache, Flying Herbs and the Witchâs Garden: Tropane Alkaloids, Daimonica, pg 246
[5] Witchcraft Medicine â Healing Arts, Shamanic Practices, and Forbidden Plants, Claudia MĂŒller-Ebeling, Christian RĂ€tsch and Wolf-Dieter Storl â Pag 210 a 220
[6] Se as Bruxas nĂŁo voam mais: Os PagĂŁos de Hoje e as Plantas SolanĂĄceas
Bibliografia e leitura recomendada:
Mastering Herbalism â A Pratical Guide, Paul Huson, Ed. Madison Books (Lanham, NY, Oxford)
How do Witches Fly â A practical Approach to Nocturnal Flights
Witchcraft Medicine â Healing Arts, Shamanic Practices, and Forbidden Plants, de Claudia MĂŒller-Ebeling, Christian RĂ€tsch and Wolf-Dieter Storl
Phamako Gnosis, Plant Teachers and the Poison Path, Dale Pendell
The Roots of Witchcraft (Harrison, M. â Ed. The Citatel Press, Secaucus, NJ, 1974
Lucius Apuleius - O Asno de Ouro (The Golden Ass â Ed. Penguin)
If Witches No Longer Fly: Todayâs Pagans and the Solanaceous Plants
ADVERTĂNCIA
As plantas, fungos ou animais discutidos aqui sĂŁo altamente tĂłxicos. Qualquer experimentação com estes itens sĂŁo fortemente desencorajados. A autora nĂŁo assume qualquer responsabilidade pela experimentação e uso incorreto, e os textos nĂŁo sĂŁo mais do que âcuriosidades etnobotĂąnicasâ. :)