Guernica
Tantos tons de cinza pintam nossas mentes. Pessoas insípidas, em tons mais claros, coloridas pela indiferença. Pré-conceitos, escurecemos a mancha de quem nem sequer conhecemos baseado em impressões, interpretações de outras telas. Mas cada um se imprime ao pincelar, colocamos mais de nós do que da imagem a qual pretendemos ilustrar. Quando se molha o pincel no preto para contornar alguém, mostra-se qual moral pintaríamos de branco —ou quais hipocrisias deixaríamos em cinza. Quais tintas se deixaria de lado por medo de perder a mão e fazer de tudo mancha, quais tons se ignoraria por medo de sujar as próprias mãos em erros os quais a água e o tempo não levam pelo ralo. É que a cada traço em que se busca definir o outro, também se prende em linhas difíceis de colorir sem ultrapassar. Mesmo pois em fato não há como eternizar o estático, tão somente uma sucessão de imagens que apenas parecem ter continuidade. Não se é o mesmo a cada decisão tomada, a cada passo adiante, a cada pausa para pensar. Mesmo quem observa em constante caminhada seria incapaz de imagear a mente. As sombras têm seus motivos como as nuvens são capazes de anoitecer o dia. Não é que não seja preto no branco, mas é que mesmo as escalas em cinza são insuficientes para o caos da identidade humana. Não é apenas que não seja preto no branco, mas é que também não é Guernica.

















