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@thesecretcrusade
IG: @rodrigo_lopes_escritor
Sorrir mesmo com tantos problemas não é problema algum. Precisamos disso para sobreviver.
Com ardor, John
@ventosdeuminvernofrio
era ridículo; ele me roubara tudo, até as palavras.
Winter softness
Cucao, Isla de Chiloé, Los Lagos, Chile.
O que o Sol faz com as flores - Rupi Kaur
A vista da montanha que eu nunca mais vou ter.
Existe um luto sobre o qual ninguém me avisou.
Não é o luto de quem enterra alguém. É o de quem precisa enterrar a própria vida enquanto continua respirando.
Há um abismo entre sobreviver e continuar existindo. Eu o conheço pelo nome.
Antes, eu media o tempo pela distância das trilhas, pelo frio do vento nas montanhas, pela lama nos pés, pelo ronco das motos, pela velocidade do skate, pelo silêncio que só existe quando se está perto demais do céu. A liberdade não era um sonho; era o lugar onde eu morava.
Então veio um único dia.
Um único assalto.
Um único disparo.
E toda uma vida desabou em segundos.
Há quem diga que sobrevivi.
Mas sobreviver é uma palavra estranha. Ela pressupõe que a vida permaneceu inteira. A minha não permaneceu. Uma parte de mim ficou caída naquele asfalto, junto com o sangue, os sonhos e a mulher que acreditava que o amanhã seria apenas mais uma montanha a ser conquistada.
O mais cruel não foi aprender a sentir dor.
Foi descobrir que existem dores que não moram no corpo.
Como convencer uma alma que conheceu o infinito a aceitar uma janela quando ela nasceu para os horizontes?
Como ensinar um coração que voava a não sentir falta das asas?
Há dias em que tudo desmorona outra vez. A recuperação parece uma estrada que nunca termina. A dor se senta ao meu lado como uma velha conhecida. E, mesmo sabendo que a culpa jamais foi minha, ainda preciso repetir isso para mim como quem tenta impedir uma ferida de reaprender a sangrar.
Depois daquele dia, a vida deixou de ser um lugar onde eu vivia.
Ela se tornou um lugar onde eu sobrevivo.
Sobrevivo aos olhares que me atravessam antes mesmo de enxergarem meu rosto. À curiosidade escondida nas perguntas sobre as muletas. À lembrança constante da mulher que fui, enquanto vejo, pouco a pouco, o brilho dos meus olhos se transformar em memória.
Às vezes penso que já não podem mais me matar.
Porque existe uma morte que acontece muito antes da última respiração.
Ela acontece quando arrancam de alguém o futuro que havia imaginado para si.
E, desde então, caminho entre dois mundos.
Em um deles, me despeço da mulher que fui.
No outro, tento descobrir se ainda existe alguém capaz de nascer dos próprios escombros.
Talvez este livro seja justamente isso.
Não a história de uma mulher que levou um tiro.
Mas da alma que precisou decidir, todos os dias, se aprenderia a renascer... ou se passaria o resto da vida se despedindo da vista da montanha que nunca mais voltaria a ter.