Orpheus was the son of a Muse and you know how those Muses are.
Sometimes they abandon you.
And this poor boy, he wore his heart out on his sleeve.
You might say he was naïve to the ways of the world.
pelos deuses! aquele ali passeando na praia é ORFEU? ah, não, é só EOIN TADHGÁN MOLLOY, um JORNALISTA nos agraciando com sua beleza nos halls do aletheia hotel. as moiras avisaram: mesmo com os 30 anos nesse novo corpo, segue tão CRIATIVO e INGÊNUO quanto na antiguidade. repararam também que ele lembra muito JACK O’CONNELL? a maldição levou tudo, menos sua beleza. que prazer tê-lo como HÓSPEDE do nosso hotel!
Nascido em Cork, na Irlanda, Eoin é o primogênito de Eamon e Caitriona Molloy. Seu pai, um famoso produtor musical irlandês, responsável pelo sucesso de algumas bandas britânicas nos anos 80 e 90 e sua mãe, uma modelo e ativista política. Cresceu razoavelmente sob os holofotes até um acidente de carro levar sua mãe quando Eoin tinha apenas doze anos. Na ocasião, Cait estava voltando da casa de uma amiga, junto do pequeno Eoin no banco de trás, durante uma tempestade comum no inverno inglês. O acidente fez com que Eamon se distanciasse do filho, secretamente culpando-o pela morte da esposa, visto que ele havia sido o único sobrevivente do acidente.
Mesmo com o afastamento, a fama de Eamon não deixava de perseguir Eoin conforme ele entrava na adolescência. Estudar em um internato no interior da Irlanda e a forma que seu pai evitava falar sobre o primeiro e único filho incentivava ainda mais que alguns rumores começassem a surgir sobre ele e as motivações para que seu pai o mantivesse tão bem escondido. Desde histórias sobre o acidente ter deixado-o deformado ou questões acerca da sua verdadeira paternidade surgiam na mídia e Eamon, por sua vez, fazia pouquíssimo esforço em desmentir qualquer uma daquelas histórias, realmente agindo como se Eoin não existisse para além das mensalidades do internato caríssimo e uma mesada mensal que deixava para que ele pudesse viver. Eoin, por sua vez, não questionava aquilo, mas deixava que o ressentimento crescesse em seu peito.
Entretanto, o acidente havia realmente deixado uma consequência no rapaz. Por conta dos ferimentos, o irlandês desenvolveu alguns problemas motores em suas mãos, incapacitando-o de realizar atividades de alta precisão e, por consequência, impedindo-o de tocar instrumentos musicais. Tal fato fez com que o abismo entre ele e seu pai aumentasse ainda mais, visto que o amor pela música era um dos últimos pontos em comum que tinham. Fora no internato, porém, que descobrira sua paixão pela literatura através de seu professor de Inglês, que lhe apresentara autores clássicos como James Joyce e Oscar Wilde – motivado por eles, passou a escrever, ainda que de forma privada, alguns contos que somente ele sabia da existência, sem qualquer pretensão de divulgar ao mundo o que fazia. Aos poucos, o professor acabou se tornando uma espécie de figura paterna para ele, visto que Eoin passava até mesmo as férias no internato e o homem, por sua vez, vivia a vida solitária de um homem divorciado.
Ao se formar no ensino básico, mudou-se para Dublin, já adulto, cursando Jornalismo por incentivo de seu professor. Fora na Trinity College que conhecera Elizabeth, também estudante. Unidos por uma paixão pelo jornalismo cultural, passaram a trabalhar em uma revista acadêmica juntos, onde falavam sobre a vida artística e cultural local. Naturalmente, aquela forte amizade levou a um relacionamento romântico. Entretanto, a morte parecia perseguir Eoin onde quer que fosse e, algumas noites antes do casamento dos dois, Elizabeth fora tirada de sua vida por circunstâncias que ele próprio não compreendia - a investigação policial havia sido inconclusiva e o processo engavetado, deixando-o sem respostas. Beth fora seu primeiro e único amor e sua partida fez com que ele se isolasse ainda mais do mundo, colocando o trabalho como prioridade em sua vida.
Seu trabalho acabou levando-o até o hotel Aletheia, em uma viagem de férias da qual fora obrigado a fazer. Decidido a não descansar um momento sequer daquele recesso, chegou até o hotel disposto a escrever o máximo que podia – fosse um furo jornalístico ou mais um livro de contos que ficaria apenas no HD de seu notebook, Eoin parecia estar mais preocupado em escapar de seus próprios fantasmas do que realmente refletir sobre a vida que levava e tentar buscar algo que trouxesse um pouco de música para sua vida.
Enquanto a fumaça saborizada preenchia seus pulmões, Eoin manejava a cabeça de um lado para o outro, pensativo sobre o que ela lhe dizia. Não costumava se envolver demais nos assuntos daqueles que gostava, mas sentia uma forte tendência a querer proteger Chariot de problemas - algo que era um tanto cômico, dada a natureza da amizade dos dois e sua capacidade mútua de se envolver no que não era lícito. O segredo estava ali, na natureza da coisa. Podiam passar horas em festas, experimentando das mais diversas coisas, entretanto... quando o problema estava no coração, a coisa mudava bastante de figura. Assoprou a fumaça para cima outra vez, fazendo uma careta de praxe antes de devolver o cigarro para ela. "Talvez seja diferente porque agora você se importa muito com essa pessoa. E... se quer saber, acho que talvez seus irmãos estejam certos. Eu não confiaria em ingleses além de você, tea with biscuits", riu, baixo. Não queria realmente fazer pouco dos sentimentos de Chariot, mas o humor era sua forma de lidar com qualquer coisa - e não de uma forma saudável, ele admitia. "Mas... se quer um conselho, o que eu acho que não devia aceitar porque sou eu, mas... deixa o tempo mostrar o que tá pegando. Foram muitas pessoas na lista de suspeitos e ninguém que realmente parece ter feito algo. Talvez a pessoa só estivesse na hora errada e no lugar errado", proferiu, encolhendo os ombros. "Eu tenho... um maço de mentolados e alguns remédios mais fortes para dor. Não reclame, você trouxe cigarro de morango, não pode me julgar", disse, enquanto tateava os bolsos e jogava o conteúdo para a loira. "Deve ter alguém lá embaixo com alguma coisa melhor. Quer fazer o corre?"
TW: uso de substâncias que não sei dizer se são legalizadas em Santorini, mas certamente rolam em festas no mundo todo.
Era difícil para Chariot dar razão a alguém, porque ela mesma apreciava deter toda que pudesse vier a haver numa situação. Ainda assim, escutava Eoin com atenção, primeiro porque ele era mais velho e segundo, porque o irlandês era um conhecido antigo seu, presente mesmo em meio às adversidades de suas famílias complicadas e pouco funcionais, mesmo com toda aquela insanidade de seu pai enxergar nele um potencial parceiro a longo prazo (sobretudo em termos financeiros). — Gosto de te ouvir sendo responsável, mesmo que, logo em seguida, já esteja arruinando tudo e dando rumo pras minhas ideias péssimas. — Disse num tom risonho, antes de se ajeitar um pouco mais na mesa, sendo sua vez de tragar e dispersar a fumaça na direção oposta. Daquela posição, então, alcançando a bolsa que tinha consigo, revirando-a com uma mão até poder encontrar o que queria.
Depois disso, deixou o cigarro repousando sobre o cinzeiro na outra ponta da mesa. Agora, com o que queria em mãos, podia optar por descer da mesa e ocupar uma outra poltrona, mas, ao invés disso, escorregou lentamente para o colo de Eoin. A princípio, agindo como se não estivesse fazendo nada demais, como se conhecesse o espaço e porque conhecia também; não por terem se envolvido sexualmente, mas porque quando percebeu que podia perturbar o juízo do irlandês, seu conceito de diversão mudou por algum tempo. E assim continuava, por isso estava tão focada em abrir o pequeno pacotinho que tinha consigo; o saquinho de organza, com dois comprimidos, que estavam consigo desde seu primeiro mês em Santorini, mas sem real utilidade porque as festas eram rápidas e pouco interessantes para sua permanência em geral. Agora, as pernas juntas, enquanto ainda sentada de lado, ciente de que ele precisava ser forte como era para aguentar uma mulher com seu porte se apoiando nele daquela forma, no instante em que separava a bala em formato de coração, com um arco e flecha no centro dela. Não era mesmo sua distração favorita, mas estando com Eoin... Os remédios para dor, o ecstasy e afins, pareciam ser capazes de ajudá-la de alguma forma. Simplesmente porque confiava nele também.
— A gente só tem um. — E para uma herdeira de quase um bilhão de libras, não ter nada em abundância era quase vergonhoso, mas agora soava como uma ótima desculpa para aproximar mais seu rosto do dele, o outro braço passando pelos ombros masculinos com uma familiaridade realmente fraterna, mas também... Provocativa. — Quer fazer as honras? — Ofereceu, antes de colocar a língua para fora e posicionar a bala contra ela. O ideal era misturar, triturar ou qualquer coisa do tipo, mas sua ideia inicial era mais divertida: convidá-lo para um beijo e deixar que ambos tivessem a saliva envolvida pela substância dissolvida. Como de praxe, considerando que fora rara alguma situação de envolvimento direto entre eles sem a questão das substâncias no ar também.
Não segurou a risada diante do comentário, assentindo em seguida. Detestava ser a voz da responsabilidade no geral - acreditava fielmente que aquele papel não lhe cabia -, mas, quando se tratava das pessoas que gostava, a coisa mudava um pouco de ótica. Guardava seus melhores conselhos para eles - atualmente, aquele grupo seleto se limitava a Chariot e Nesrin, mesmo que, como a ex-loira havia dito, ele estragasse tudo logo depois incentivando algum comportamento péssimo. Seguiu-a com olhar, observando-a tatear a bolsa em busca de alguma coisa. Naquele tempo, deitou a cabeça mais uma vez na poltrona, fechando os olhos enquanto sentia os músculos da destra começarem a dar sinal de vida. Precisava de alguma coisa, e rápido, antes que a dor aumentasse...
Chariot, sempre ela, seu anjo da guarda em forma de herdeira inglesa se aproximou com o saquinho em mãos, ocupando seu colo. Não fez muito da situação, fosse pela mente levemente enevoada ou pela familiaridade daquele ato, no conforto que lhe trazia. Sabia que se sentiria péssimo pela manhã, quando lembrasse mais uma vez que Montrose havia sido a primeira pessoa a riscar as fortalezas que havia construído dentro de si desde a morte de Elizabeth, impedindo que qualquer um se aproximasse de seu coração daquela forma; ela não havia lhe prometido nada além daquilo: momentos de diversão e provocação mútua misturados a cumplicidade e carinho que nutriam um pelo outro. Acrescentar mais uma camada naquela mistura poderia ser fatal e, dado o estado dos dois, Eoin guardava sua última centelha de racionalidade para evitar que ela soubesse o que se passava por trás do seu riso fácil e diversão.
Quis provocá-la diante da falta de mais comprimidos, mas a dor em suas mãos e a necessidade de se anestesiar dos pensamentos era tão grande quanto imaginava ser a dela. Levou os olhos azuis até seu rosto, se permitindo admirá-la por alguns segundos. "Você sempre tendo ótimas ideias", sussurrou, baixo, momentos antes de unir seus lábios em um beijo tomado pela urgência, pela vontade e por algo que Eoin não estava disposto a nomear nem mesmo para si.
Em sua defesa, naquela tarde, ainda não estava bêbado. Não, muito pelo contrário. Talvez fosse a ressaca da noite anterior, mas nem mesmo o seu café de costume havia tomado ainda. Não fosse a aparição de Alexander, Eoin certamente não teria se movido da cadeira da piscina por algumas horas. Ainda sim, encarou o papel amassado que ele jogava em si, franzindo a expressão para o que ele dizia, sem saber realmente se estava entendendo. "Por que eu? Eu lá sei grego?", disse, genuinamente confuso, esfregando os olhos. É, talvez uma respostinha cômica não fosse lhe ajudar naquela situação. Respirando fundo, o irlandês assentiu, tentando trilhar uma rota racional para discutir aquilo, antes que os pulsos do lutador estivessem na sua cara. "Não fui eu, eu jamais escreveria uma matéria desse jeito. Não cubro esportes, Alexander. E também não escrevia algo tão terrível assim", observou, apontando alguma frase pessimamente escrita. A verdade também é que, desde a conversa com Chariot, havia decidido não escrever uma só palavra sobre o desaparecimento enquanto as investigações ocorriam. Não sabia quem estava envolvido que era próximo dela, mas a ideia de que alguma coisa pudesse afetar a inglesa era o suficiente para que tentasse controlar um pouquinho seus dedinhos da fofoca. "Eu posso tentar te ajudar a descobrir, se quiser, se for bonzinho e se comportar feito um mocinho".
Enquanto estava gritando e ameaçando as pessoas, tudo poderia estar consideravelmente bem. Naquele momento, entretanto, enquanto fazia aquele movimento, o instinto de sobrevivência de Eoin estava sendo posto à prova: Alexander estava se agachando diante dele, os ombros largos ocupando mais do espaço da altura do irlandês. Os olhos claros queimando, mirando-o, antes de pegar o papel da mão do menor, amassando-o em sua destra, enquanto a oposta ia até a nuca do rapaz e puxava-o de modo a fazê-lo se sentar na cadeira, aproximando seus rostos e podendo falar ainda mais diretamente com ele, enquanto os dedos apertavam ainda mais a região da nuca de Eoin. Um novo aviso. — Se você fala e entende um idioma tão fodido quanto irlandês, o que te custaria o grego, com a porra do Google? Eoin, Eoin... Vamos lá, você não vai querer me ver bravo. Ou foi você ou você já sabe quem foi e não vai me fazer de otário... Lembre-se que já tenho uma investigação correndo, não me importo que abram outra por de repente sumir com meu velho conhecido irlandês bêbado.
Fosse uma pessoa mais apegada a sua vida ou com o mínimo de noção, a intimidação de Alexander certamente teria funcionado, afinal, estar do outro lado do punho de um lutador profissional - por mais fudido que este estivesse - não era exatamente uma posição agradável para ninguém. Entretanto, fosse a abstinência de dois dias (!!!!) sem bebida e sua vontade de sentir alguma coisa que não fosse pena de si mesmo, o irlandês permanecia com a mesma expressão de quem se divertia. "Cuidado, Crowther, imagina se publicam por ai que você gosta de ficar pertinho de outros caras?", ironizou, deixando a cabeça ir para trás com a força colocada na sua nuca. "Se tem outro jornalista por aí querendo te ferrar, não sou eu", respondeu. "Uma dica: evite ameaçar sumir com pessoas, especialmente jornalistas, se não quiser ter suas fofocas espalhadas por aí", proferiu, descendo os olhos azuis na direção de Alexander, semicerrados, em algo que quase parecia um desafio. "Eu não escrevi nada de você, te dou minha palavra", disse, por fim, mesmo ciente que sua palavra valia muitíssimo pouco para o americano.
Fosse uma pessoa menos confiante de si, Eoin não teria ensaiado todo um discurso de pedido de desculpas para Josh. Mesmo com tantos anos trabalhando no meio jornalístico, o irlandês ainda não havia aprendido a controlar duas partes importantes de si: de um lado, sua sede por uma boa matéria, um bom perfil reflexivo sobre alguma personalidade muitas vezes interpretada de forma errônea pelo público - algo que enxergava ali, na história de Josh se porventura ele desejasse dividir essa história -; o outro lado era a sua bondade. Detestava invadir espaços, incomodar os outros. Sentia-se em uma batalha constante tentando conciliar aqueles dois lados e, em situações como aquela, via o quanto ainda precisava aprender. "Se eu dissesse que foi uma feliz coincidência, iria acreditar?", disse, acomodando-se próximo dele, mas não o suficiente para que estivesse invadindo seu espaço pessoal. "Não estava planejando essas férias, mas... bem, aqui estou. E não quero ficar na piscina enquanto a vida acontece", proferiu. "Eu sei... desde... bem. Você sabe, eu sei, todos sabemos. Especularam muita coisa sobre e te confesso que não comprei muito das teorias online sobre o porquê de tudo. Não quero... que revire um passado que não deseja, mas acho que seria uma história e tanto saber o seu lado das coisas".
"Na verdade, acredito." Josh respondeu sobre o reencontro deles ser uma coincidência. Aquele hotel tinha um jeito estranho de trazer o passado de volta à tona para fazê-los encará-lo, e não dava para ignorar que isso parecia um padrão para a maioria das pessoas. Não que todos os rostos que via fossem lembranças ruins, mas ainda assim... Josh ajeitou-se no assento, voltando-se para Eoin, escutando o que ele tinha a dizer para convencê-lo de participar da entrevista. Quer dizer, era fácil quando se já o conhecia e sabia que ele não tinha más intensões, mas relembrar de seu passado ainda era doloroso. E não era só por causa do acidente, e sim tudo que aconteceu depois também. Josh não tinha apenas o psicológico para consertar, mas também o físico. As dores que carregou foram uma das piores partes, e os remédios não prescritos que arrumava para fazê-las irem embora conseguiram fazê-lo querer se afastar ainda mais de tudo e de todos. "Certo. Eu aceito. Mas... não agora." Josh não estava tentando enrolar Eoin e nem nada do tipo. Estava feliz em vê-lo, de verdade. Qualquer birra que tivesse com ele era apenas... bem, coisas do passado. "Preciso colocar uns pensamentos em ordem." Explicou melhor, o que era um tanto verdade. Mas estava na Grécia justamente para ter um tipo de recomeço, então por que não adicionar a primeira entrevista em anos na mudança? Só que ainda sentia que podia falar a coisa errada, então era melhor começar com uma conversa amigável com Eoin primeiro. "Talvez eu te entreviste primeiro." Josh falou de brincadeira, afinal, ele só queria colocar o papo em dia. Como amigos. "Por que escolheu a Grécia para suas férias não planejadas?"
Sentiu o alívio se espalhar por seu corpo ao ouvir a resposta de Josh, assentindo em seguida com a cabeça. Não tiraria sua razão caso não acreditasse, Eoin estava bastante ciente da falta de ética de alguns jornalistas, tendo ele próprio ultrapassado seus limites pessoais uma vez ou outra. Entretanto, havia algo naquela história em especial que o fazia não querer cometer deslizes. Talvez estivesse projetando seus próprios sentimentos acerca do acidente de seu passado em Harlow, mas desejava tratar tudo aquilo com cuidado, sem que relembrar o passado fosse mais doloroso do que pudesse ser. "Claro, claro. Claro. Tem todo o tempo que precisar, inclusive... de voltar atrás, em algum momento", esclareceu, tranquilamente. Não queria parecer vitorioso ou satisfeito demais com o aceite. "Isso sim seria uma novidade", comentou, com um riso curto. A mudança do tom era bem vinda e um alívio - um sinal que talvez as coisas fluíssem melhor. "Não escolhi, foi meu patrão, na verdade. Alguma coisa sobre... estar me matando de trabalhar e ele estar com medo de ter que lidar com mais um burnout no escritório. E você? Não... te vejo como uma pessoa de praias", disse.
Alexander sabia que deveria se manter distante de confusões e novas encrencas. Claro que levava em conta os pedidos de Esmeralda e Vivian sobre isso, por exemplo, mas também não tinha lá muito sangue frio para lidar com a raiva súbita que o consumia; por isso cruzava os corredores do hotel com bem mais pressa e passos mais pesados que o usual, pronto para dirigir-se até onde pudesse de modo a encontrar seu alvo. Então, quando finalmente o encontrou, foi sucinto ao jogar na direção dele a matéria com todo o caso envolvendo o desaparecimento da noiva, naquela folha de papel amassada. Alexander era ótimo em bater primeiro e perguntar depois. — Algum jornalista engraçadinho traduziu essa matéria do grego e jogou em outra página, em inglês. Por que isso me soa tendo vindo do jornalista irlandês bêbado que eu mais vejo nesses corredores, Eoin? Foi você?
Em sua defesa, naquela tarde, ainda não estava bêbado. Não, muito pelo contrário. Talvez fosse a ressaca da noite anterior, mas nem mesmo o seu café de costume havia tomado ainda. Não fosse a aparição de Alexander, Eoin certamente não teria se movido da cadeira da piscina por algumas horas. Ainda sim, encarou o papel amassado que ele jogava em si, franzindo a expressão para o que ele dizia, sem saber realmente se estava entendendo. "Por que eu? Eu lá sei grego?", disse, genuinamente confuso, esfregando os olhos. É, talvez uma respostinha cômica não fosse lhe ajudar naquela situação. Respirando fundo, o irlandês assentiu, tentando trilhar uma rota racional para discutir aquilo, antes que os pulsos do lutador estivessem na sua cara. "Não fui eu, eu jamais escreveria uma matéria desse jeito. Não cubro esportes, Alexander. E também não escrevia algo tão terrível assim", observou, apontando alguma frase pessimamente escrita. A verdade também é que, desde a conversa com Chariot, havia decidido não escrever uma só palavra sobre o desaparecimento enquanto as investigações ocorriam. Não sabia quem estava envolvido que era próximo dela, mas a ideia de que alguma coisa pudesse afetar a inglesa era o suficiente para que tentasse controlar um pouquinho seus dedinhos da fofoca. "Eu posso tentar te ajudar a descobrir, se quiser, se for bonzinho e se comportar feito um mocinho".
Hadrian está buscando sair um pouco do hotel para conseguir concentrar a cabeça no trabalho, de fato. Precisava escrever e com a ida e volta de ter que fugir de pessoas conhecidas não estava ajudando a mente focar. No momento está sentado em uma cafeteria, batendo a cabeça entre a caderneta e o notebook — oscilando entre idas e vindas nas páginas e então seguindo o digitar frenético. Em todas as vezes que trabalhava em um livro, tinha raiva de si mesmo por não ser uma pessoa organizada e deixar para estruturar as ideias somente depois. Era muito mais fácil orquestrar as palestras e as aulas do que aquilo. De qualquer forma, ali entrou Eoin na história. Aguardava o velho amigo chegar para dar detalhes do projeto que o convidou para documentar por mensagem. O que começou com um SMS verificando se ele estava muito longe da ilha, acabou com a coincidência de estarem no mesmo hotel. Teriam ambos que adiar compromissos considerando aquelas investigações, então não tinha hora melhor para baterem as ideias e ele poder contar das investigações que fazia.
Praticamente arrancava os cabelos indo da digitação veloz e da xícara de café, quando viu o velho amigo se aproximar. "Ei, mate. Não é que você tá por aqui mesmo" e com um sorriso apontou para cadeira a sua frente. "Só ignora meu rosto, longa história" já se adiantava, porque sabia que o roxo do olho e maxilar não sumiriam tão cedo ainda que minimiza-se com a presença do óculos de sol. "Você não tem noção do quanto fico feliz em ver você. Ta trabalhando em algo ou veio de férias?" teriam tempo de falar sobre os detalhes de tudo, mas tinha curiosidade ao que levou o outro para ilha tão povoada de antigos conhecidos. Nesse meio tempo já chamou o garçom para que fizessem o pedido.
A mensagem do velho amigo foi uma surpresa bem vinda, ao meio do caos que habitava o hotel. Não era pelo fato de encontrar aquele rosto conhecido entre tantas antiguidades que lhe surpreendia, mas o fato de que havia se lembrado dele. Claro, dividiam uma paixão pela escrita da história como tinha por poucos do seu círculo social, mas depois de tantos perfis de milionários excêntricos e roqueiros que buscavam redenção ao olhar do público, escrever sobre algo tão universal quanto um achado arqueólógico era uma mudança de ares bem vinda. Naturalmente, mexeu em sua agenda para encaixar o café com Hadrian sem muitos trabalhos - naqueles dias, andava tão imerso nas questões locais que não havia sido realmente um desafio simplesmente jogar alguns compromissos para dias a frente. Além do mais, estava curioso com o que ele tinha para dividir consigo.
Prontíssimo em sua skin de férias, entrou no café já buscando pelo velho amigo, reconhecendo-o em uma das mesas. O olho roxo foi a primeira coisa que notou de diferente, franzindo a expressão. "Não acredito que me deixou de fora da diversão e só me procurou para o trabalho", observou, com um riso leve, decidido a não questionar demais sobre o que diabos havia acontecido, especialmente pelo seu pedido. Estava aprendendo que, para um lugar que se vendia como um paraíso nas ilhas gregas, aquele lugar estava cheio de situações. "Eu sei que não devia me surpreender que esteja por aqui também, mas tô meio aliviado. É bom te ver, Hadrian", disse. "Estou de férias... mas trabalhando. Você me conhece, não consigo ficar parado assando no sol. Mas foi bom receber sua mensagem! E aí, o que está aprontando além de cavar buracos na areia e entrar no clube de luta?", perguntou ao amigo, acenando ao garçom para pedir uma xícara comicamente grande de café.
Assoprou a fumaça para cima, deitando a cabeça para trás enquanto deixava o calor deixar seu corpo - talvez a fumaça levasse consigo suas preocupações, a dor na mão e o nervosismo que sentia diante dos últimos acontecimentos. Queria não se preocupar, não se deixar importar demais com as pressões externas mas, lá no fundo, Eoin sabia que onde quer que estivesse, aquelas preocupações o acompanhavam. Era bom, porém, se distrair - e tinha muito a agradecer a Chariot por lhe arrancar de seu habitat natural. Algo dentro de si lhe dizia que aquela distração não era feita apenas para o seu bem, mas o irlandês não iria perguntar - preferia acreditar que ela sabia que poderia falar com ele se quisesse. Caso não, ele continuaria ali, dividindo substâncias e lhe fazendo companhia pelo tempo que fosse.
Foi pego de surpresa, porém, com a pergunta dela. Com um suspiro pesado, ele se mexeu no sofá quente do cômodo, buscando uma posição de conforto para que pudesse ver a amiga. Cuidadoso, ele assentiu com a cabeça. "Vezes o suficiente para não surpreender mais. O que tá pegando, loirinha?", perguntou, se debruçando para frente apenas o suficiente para alcançar o cigarro da outra.
— É sempre doloroso? Digo, não que não tenham me decepcionado antes, mas é mais complicado agora. Ter apostado tantas fichas em uma pessoa e, de repente, não ter mais certeza se ela é quem diz ser... Não me lembro de já ter causado algo do tipo em alguém, então acho que é por isso que dói tanto agora que é comigo, certo? — Ponderou. Permitiu que o cigarro fosse recolhido, observando Eoin no gesto; sempre tão calmo, sempre tão focado no que quer que fosse... A própria dor, a física e a emocional, ou às próprias oportunidades diante de si? Parecia um homem otimista demais para acabar sobrecarregando com aquele tipo de assunto, então talvez fosse melhor mudar o tópico. Para isso, aproveitando a curta distância, sua destra alcançou os fios curtos dele, afagando a região. Chariot era do tipo que apreciava afetos, mas principalmente quando dava; também gostava de receber, mas não significava que sabia, exatamente, porque sempre tivera um jeito mais arisco diante de demonstrações de amor; unicamente, porque temia a ideia de ser retribuída e então, deixada logo em seguida. — Não é nada. Aquela coisa horrível do casamento mexeu um pouco comigo, só isso, porque, bem, uma das pessoas acusadas era importante pra mim e fim; mas deve ter servido de lembrete pra que eu tenha sempre em mente que só posso confiar em outros ingleses, como meus irmãos dizem... —Riu baixo sem humor, descendo um pouco o indicador na direção da bochecha de Eoin, até finalmente alcançar seu cigarro de novo. Era de morango e ela esperava alguma reclamação dele por isso, como ouvia sempre de outras pessoas. — Ou no máximo, você, irlandês. E só porque tenho vários motivos pra isso, então é exceção, também. Sorte a sua, bebê Cork.
— Aliás, na pressa toda de nos encontrarmos aqui... Você conseguiu trazer alguma coisa? Eu não gosto e não apoio, você sabe, mas eu tô com tanta coisa na cabeça que puta merda... Eu só queria sumir, mas nem isso dá pra fazer porque não podemos sair da cidade. Então... Confio em você.
Enquanto a fumaça saborizada preenchia seus pulmões, Eoin manejava a cabeça de um lado para o outro, pensativo sobre o que ela lhe dizia. Não costumava se envolver demais nos assuntos daqueles que gostava, mas sentia uma forte tendência a querer proteger Chariot de problemas - algo que era um tanto cômico, dada a natureza da amizade dos dois e sua capacidade mútua de se envolver no que não era lícito. O segredo estava ali, na natureza da coisa. Podiam passar horas em festas, experimentando das mais diversas coisas, entretanto... quando o problema estava no coração, a coisa mudava bastante de figura. Assoprou a fumaça para cima outra vez, fazendo uma careta de praxe antes de devolver o cigarro para ela. "Talvez seja diferente porque agora você se importa muito com essa pessoa. E... se quer saber, acho que talvez seus irmãos estejam certos. Eu não confiaria em ingleses além de você, tea with biscuits", riu, baixo. Não queria realmente fazer pouco dos sentimentos de Chariot, mas o humor era sua forma de lidar com qualquer coisa - e não de uma forma saudável, ele admitia. "Mas... se quer um conselho, o que eu acho que não devia aceitar porque sou eu, mas... deixa o tempo mostrar o que tá pegando. Foram muitas pessoas na lista de suspeitos e ninguém que realmente parece ter feito algo. Talvez a pessoa só estivesse na hora errada e no lugar errado", proferiu, encolhendo os ombros. "Eu tenho... um maço de mentolados e alguns remédios mais fortes para dor. Não reclame, você trouxe cigarro de morango, não pode me julgar", disse, enquanto tateava os bolsos e jogava o conteúdo para a loira. "Deve ter alguém lá embaixo com alguma coisa melhor. Quer fazer o corre?"
Josh estreitou os olhos enquanto uma figura conhecida se aproximava. Estava na área da recepção, mas em um dos cantos sentado em um dos bancos do hall, bebericando um café enquanto dava uma boa olhada na vista pela janela próxima. "Você realmente está aqui." Falou quando Eoin se aproximou. Não tinha nada contra o rapaz, apesar de ter ignorado a mensagem dele na madrugada da festa. Não era nada pessoal, a noite só tinha se tornado trágica. Mesmo assim, Eoin era uma lembrança do passado. O conhecia por causa do pai dele, que já trabalhou como produtor musical da The Styx 5... ele nunca foi muito próximo de Eoin, e ele ter se tornado um jornalista não ajudava depois de tudo. "Não me diga que veio até aqui só para tentar uma entrevista." Josh perguntou com um sorrisinho no rosto. "Estou brincando." Ele bem sabia que coincidências demais existiam naquele hotel. "Faz muito tempo que não falo com um jornalista, sabe?"
Fosse uma pessoa menos confiante de si, Eoin não teria ensaiado todo um discurso de pedido de desculpas para Josh. Mesmo com tantos anos trabalhando no meio jornalístico, o irlandês ainda não havia aprendido a controlar duas partes importantes de si: de um lado, sua sede por uma boa matéria, um bom perfil reflexivo sobre alguma personalidade muitas vezes interpretada de forma errônea pelo público - algo que enxergava ali, na história de Josh se porventura ele desejasse dividir essa história -; o outro lado era a sua bondade. Detestava invadir espaços, incomodar os outros. Sentia-se em uma batalha constante tentando conciliar aqueles dois lados e, em situações como aquela, via o quanto ainda precisava aprender. "Se eu dissesse que foi uma feliz coincidência, iria acreditar?", disse, acomodando-se próximo dele, mas não o suficiente para que estivesse invadindo seu espaço pessoal. "Não estava planejando essas férias, mas... bem, aqui estou. E não quero ficar na piscina enquanto a vida acontece", proferiu. "Eu sei... desde... bem. Você sabe, eu sei, todos sabemos. Especularam muita coisa sobre e te confesso que não comprei muito das teorias online sobre o porquê de tudo. Não quero... que revire um passado que não deseja, mas acho que seria uma história e tanto saber o seu lado das coisas".
a camiseta de rugby do time irlandês estava em suas mãos, mas não era sua. encontrou no vestiário masculino, totalmente perdida, e antes de deixar nos achados e perdidos, decidiu perguntar para as pessoas que encontrasse no caminho. ao ver o rapaz mais a frente, acelerou os passos, falando um pouco mais alto para ser ouvido. "com licença, senhor!" o abordou, parando ao seu lado. "essa camiseta é sua? encontrei no vestiário agora a pouco."
Gostasse de admitir ou não, precisava voltar a se exercitar. As dores nas mãos haviam se intensificado desde o início daquelas férias forçadas - uma ironia da vida quando pensava que o propósito de tudo aquilo era que relaxasse e colocasse a vida nos eixos. Era um pouco bobo, porém, que estivesse tão cansado após uma aula de hidroginástica junto de uma turma que, por baixo, tinha pelo menos mais três décadas de vida a mais do que ele. Estava sonhando com a pausa para o cigarro que daria após terminar de se arrumar quando ouviu a voz de alguém próxima o suficiente dele para que não pudesse fingir não ter escutado. Erguendo os olhos azuis na direção do som, deparou-se com o professor. Desceu o olhar para o punhado de tecido verde característico. "Encontrou uma camisa da seleção irlandesa e foi atrás do único que parecia um leprachaun?", proferiu, franzindo a sobrancelha em uma carranca de desafio que desapareceu tão rapidamente quanto surgiu em sua face, dando espaço para um sorriso aberto de dentes tortos. "Obrigado, é minha sim. Deve ter caído da mochila", agradeceu, enfiando a camisa de qualquer jeito na mochila meio aberta sobre o banco. "A turma é sempre tão... jovem assim?", perguntou, cheio de traços de humor na voz.
Boate, cômodo privativo da Éden com @thrachianpoet
Era óbvio que os dois eram figuras deslocadas naquele cenário do clube, no meio de toda aquela gente engravatada e que aparentemente vivia de status. Ainda assim, o espaço era consideravelmente menos cheio do que as outras baladas e isso era um alento para Chariot naquela noite, que queria se distrair, mas não com tanta gente assim; e por isso também havia levado Eoin consigo, aquele velho conhecido irlandês, que reencontrara ao acaso no meio das sessões de terapia coletivas e, bom... Ali estavam. Ela, já meio chapada do que havia dividido com ele, mas ainda consciente o suficiente para sentar-se sobre a mesa que havia no centro daquele cômodo de acústica isolada e cartão para entrar e sair. O cigarro de cereja indo aos lábios, enquanto mantinha-se um pouco distraída, não por ignorar a presença do amigo, mas porque havia tanta coisa se passando por sua mente, que ficava difícil organizar tudo e separar só o que era pertinente. Até que, passados bons minutos, a herdeira dos Montrose voltou a falar. — Já quebraram sua confiança antes, Eoin? Preciso ouvir vozes da experiência.
Assoprou a fumaça para cima, deitando a cabeça para trás enquanto deixava o calor deixar seu corpo - talvez a fumaça levasse consigo suas preocupações, a dor na mão e o nervosismo que sentia diante dos últimos acontecimentos. Queria não se preocupar, não se deixar importar demais com as pressões externas mas, lá no fundo, Eoin sabia que onde quer que estivesse, aquelas preocupações o acompanhavam. Era bom, porém, se distrair - e tinha muito a agradecer a Chariot por lhe arrancar de seu habitat natural. Algo dentro de si lhe dizia que aquela distração não era feita apenas para o seu bem, mas o irlandês não iria perguntar - preferia acreditar que ela sabia que poderia falar com ele se quisesse. Caso não, ele continuaria ali, dividindo substâncias e lhe fazendo companhia pelo tempo que fosse.
Foi pego de surpresa, porém, com a pergunta dela. Com um suspiro pesado, ele se mexeu no sofá quente do cômodo, buscando uma posição de conforto para que pudesse ver a amiga. Cuidadoso, ele assentiu com a cabeça. "Vezes o suficiente para não surpreender mais. O que tá pegando, loirinha?", perguntou, se debruçando para frente apenas o suficiente para alcançar o cigarro da outra.
📲: mas… fico mais tranquilo em saber que ficou tudo bem. e… não precisa agradecer, de verdade. acho que não ia me perdoar se você morresse de ouriço e eu não tivesse feito nada.
📲: … por que alguém iria comer um negócio feito de espinhos?
📲: eu achei que você já era um fantasma, toda pálida na beira do mar, chorando porque tinha um ouriço assassino no pé e tal.
📲: eu tava meio preocupado com você. tipo… eu sei que a enfermeira tirou bonitinho mas… sei lá. fiquei preocupado. daí… ia acordar cedo e perguntar se você precisava de alguma coisa.
📲: óbvio que não perguntei nada disso porque alguém ficou falando que morreu por motivos de ouriço e agora eu tô rindo dessa bosta.
📲: mas… fico mais tranquilo em saber que ficou tudo bem. e… não precisa agradecer, de verdade. acho que não ia me perdoar se você morresse de ouriço e eu não tivesse feito nada.