Aula de dança no espaço onde atualmente ocorrem também os cultos da Caverna.
Fonte: Arquivo pessoal de Dayse
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Aula de dança no espaço onde atualmente ocorrem também os cultos da Caverna.
Fonte: Arquivo pessoal de Dayse
Pastor de ovelhas rejeitadas
Pr. Fábio era o pastor dos rejeitados. Seja por se vestir como eles, falar como eles ou ouvir as mesmas músicas, o jovem de 27 anos, e que havia sido ordenado pastor apenas dois anos antes, encontrou suas ovelhas entre os marginalizados da cena underground de BH em 1992. Aqui, ele começou um ministério que procurava evangelizar os fãs de heavy metal, já que as igrejas estabelecidas não conseguiam se comunicar com eles, mesmo tendo uma demanda. Com o passar do tempo, o ministério Santuário passou a reunir pessoas das mais diferentes tribos, que também não conseguiam encontrar seu espaço dentro das Igrejas convencionais. Nascia aí o embrião da Caverna de Adulão.
Avesso à exposição, Fábio não queria ser visto como um ídolo e inclusive chegou a raspar os dreads que usava como forma de contestar a idolatria de um visual. Com a mulher e os dois filhos, passou por vários lugares, onde sempre deixou uma marca. Em BH andou ao lado da turma underground e dos portadores de HIV; foi a Londres , onde fez um curso de missões e realizou envangelismos de rua; e em Vitória-ES, lecionou na primeira turma da Escola Avalanche Missões Urbanas Underground. Fábio também esteve presente nos diversos congressos cristãos undergroud que aconteceram no Brasil e orientou grupos, ministérios e igrejas de diferentes denominações pelo país, vendo novos pastores se formarem com a mesma missão de acolher os diferentes que estão em busca de sua espiritualidade.
Em 2007 morreu em Cuba, como missionário, por causa de um ataque cardíaco. Família, amigos e irmãos de igreja se reuniram na Igreja Batista Getisêmani em Belo Horizonte para prestar uma última homenagem. Com gente de todos os tipos presente, sentados dos bancos aos degraus do altar, percebeu-se que seu trabalho tinha ido muito além do público underground. “Aquilo nos surpreendeu e nos consolou”, o Pr. Geraldo conta. Amigo de Fábio, com quem costumava brincar dizendo “Você é a Xuxa e eu sou a Marlene Matos”, ele estava presente no velório e lembrou como uma das músicas tocadas - Paciência, de Lenine – “encheu o templo” naquele dia. Para Natty, que conhecia Fábio quando ele ainda morava no Rio de Janeiro e fazia parte da Comunidade S8, a grande diferença na Caverna hoje “é que o Fábio faz muita falta”.
Talvez seja possível sintetiza-lo através de suas próprias palavras: “Estou pastor na Caverna de Adulão. Meu lugar é onde os gritos ecoam”.
(Só foi possível escrever sobre o Pr. Fábio através das conversas com seus amigos, de seu blog pessoal e da matéria que o Pr. Geraldo escreveu, mas nunca releu por medo de não gostar, que se encontra na Revista Cristã, Nº 41)
O caminho mais estreito
Uma troca de cartas no início dos anos 90, de Belo Horizonte ao Paraná, foi o que inspirou o Pastor Fábio, carioca missionário que vivia no sul do Brasil, a criar o ministério Santuário. “Meu lugar é onde os gritos ecoam” era o que ele costumava dizer. Na época, a grande tribo de head-bangers da capital contava com alguns jovens evangélicos insatisfeitos com a realidade excludente das igrejas belo-horizontinas. Elas não sabiam se comunicar com as subculturas da cidade, especialmente os metaleiros evangélicos, e estes se preocupavam em levar a cultura cristã para esse meio. Nascia então, em 1992, o ministério Santuário, com a vinda de Fábio de Carvalho para Belo Horizonte.
O Santuário se tornou o contato com a espiritualidade cristã que esses jovens tanto desejavam levar para o mundo do Metal. “Aquele grupo de jovens conhecia bem o modo de pensar, as revoltas e os anseios daqueles cabeludos e, por isso, sabia que, de uma maneira geral, as igrejas estabelecidas não conseguiam se comunicar com aquela tribo.”, contam no site da Caverna. Apoiavam bandas de White Metal, ou metal cristão, frequentavam eventos tanto seculares quanto evangélicos e por quase três anos fizeram a ponte entre os jovens que se interessavam pelo evangelho e as igrejas protestantes já estabelecidas na comunidade. No entanto, mesmo que as igrejas apoiassem esse alcance que nunca atingiram, os jovens alternativos só eram bem aceitos se escondessem as tatuagens, cortassem os cabelos, tirassem os brincos e não usassem tanto preto.
Geraldo Silva, hoje tão querido pastor da Caverna, já participava ativamente do ministério Santuário nessa época e conta que foi nesse momento que eles perceberam a necessidade de criar uma igreja “onde houvesse espaço para essa geração que queria entrar em contato com a espiritualidade, sem precisar mudar seu estilo”. Em 1995, o Pastor Fábio chamava o Pastor Eduardo, para fugir da hierarquia centralizadora das igrejas mais tradicionais e começava o que seria batizado como Comunidade Caverna de Adulão.
O White Metal, ou metal cristão, ainda não era bem aceito em Minas Gerais, nem pelas igrejas, nem pelos metaleiros mais tradicionais. Por isso, no começo, a Caverna sofria duplo preconceito: os evangélicos acreditavam que eles eram um culto, enquanto para os head bangers seculares, o metal evangélico era uma “blasfêmia” ao próprio Metal. O Pastor Geraldo conta que ouviam dos metaleiros “seu Deus não gosta disso, por que fazer isso?” e dos evangélicos ouve as desculpas até hoje, de quem não entendia, espalhava boatos e falava mal do grupo.
Atualmente, a igreja desenvolve uma série de projetos, desde ajuda a crianças carentes e índios a evangelização de prostitutas e travestis. Há o Cupim Sagrado, ministério que aborda crises de identidade sexual, que visa o auto-conhecimento e a busca da espiritualidade cristã. Seu nome vem justamente da ideia de sair do armário, o corroendo aos poucos, cada um a seu tempo. Existem evangelizações na Rua Guaicurus para as prostitutas e na Avenida Santos Dumont para as travestis toda semana. Grupo de ajuda aos dependentes químicos, com pastores que já vivenciaram essa realidade, buscando caminhar junto com os dependentes. Também há evangelização na cracolândia, com o Pastor Daniel. O Projeto Reconstruir, ou Centro de Desenvolvimento Comunitário Vila Leonina, que oferece atendimento por meio de atividades socioeducativas para crianças, adolescentes e suas famílias. Além disso, há projetos de ação social no Morro das Pedras e também com os índios Maxacalis, que se dá também por meio de doações.
O caminho mais estreito: é o que a Caverna procura, longe dos extremismos. Não é aceitar qualquer situação e achar que tudo é benção de Deus, mas também não é seguir dogmas inflexíveis e arcaicos, sem nunca mudar. Sua proposta é estar ao lado dos rejeitados, procurar aqueles que sofreram pelo preconceito, pela desigualdade e pela injustiça. Foi assim que “o ministério passou a atrair outras pessoas também desvinculadas da sociedade estabelecida, como esotéricos e toda sorte de malucos”, como escrevem em sua história no site e vivenciam a cada dia.
“Eu tinha horror de pastor de terno, com bíblia debaixo do braço e achando que era dono da verdade. E na Caverna não é assim. Sabemos que não somos perfeitos, que erramos e pecamos.”
Dayse Faria
Fotos do culto na Caverna. Fotos retiradas de https://www.flickr.com/photos/cavernadeadulao ©
Casos de Pastor Geraldo e sua risadinha.
Vídeo Institucional do Projeto Reconstruir, apoiado pela Caverna de Adulão
Amor de pai
Como tudo na Caverna de Adulão, o Pr. Geraldo Silva não é o que chamaríamos de pastor comum. Ou mesmo de homem comum. Seus cabelos longos, calças coloridas e blusas folgadas mostram muito da sua personalidade acolhedora, que fica ainda mais evidente quando ri de sua forma característica.
Formado em Jornalismo pela PUC, Geraldo conheceu a Caverna quando ela ainda era o Ministério Santuário, escrevendo sua monografia para conclusão de curso. Foi em sua formatura que ele resolveu deixar a Igreja Presbiteriana e fazer parte de vez daquele grupo de jovens que não queriam deixar de viver sua espiritualidade por causa de questões puramente estéticas.
Filho de católicos não praticantes, ele frequentava por conta própria as missas e queria ser padre enquanto criança. Ele também conta que sua conversão aos 15 para a Igreja Presbiteriana foi muito natural. Com uma infância com pai, mãe, avós, árvore e um muro que só se tornou alto quando compraram um cachorro bravo, ele acredita que sua juventude é muito diferente de quem nasceu a partir dos anos 80, uma geração que ele considera orfã.
Ele participava de todas as atividades do ministério: oração no monte, visitas, estudos bíblicos, acompanhava os pastores em tudo. “Às vezes eles não podiam ir então eu tinha que segurar a barra, ministrar a palavra, e fui me tornando um pastor a revelia”.
O funeral de uma vítma de Aids o marcou especialmente. Apenas a irmã do falecido e alguns poucos amigos estavam presentes. O pastor não pôde ir, o padre não tinha aparecido e o caixão já estava sendo fechado sem ninguém dizer uma palavra. “Eu achei aquilo terrível, então na beira da sepultura, eu muito tímido, perguntei: Você quer que eu fale alguma coisa? E a irmã respondeu: Sim, por favor”.
Usando como referência o filme Trainspotting ("Vocês já viram aquele filme Trainspotting? Vocês tem que ver!"), ele conta que as pessoas em situação de angústia estão esperando que alguém fale alguma coisa. “E foi o que eu vivi naquele dia. Eu falei alguma coisa e quem estava ali disse que tinha se sentido consolado.” Ele então resolveu fazer um curso de aconselhamento pastoral, “um curso de teologia demoraria muito e eu precisava de algo mais prático para o trabalho que eu fazia”, e se tornou pastor da Caverna em 1997. Lá participa de vários projetos sociais, como a evangelização na Guaicurus e o grupo Cupim Sagrado, de ajuda a pessoas com crise de identidade sexual.
“A experiência da Caverna já mudou a Igreja Brasileira, mas temos muito mais para fazer”. Geraldo gostaria que a Caverna se envolvesse cada vez mais com o mundo secular, em seus problemas de direitos humanos, violência, moradia e principalmente com a depressão da juventude. “Eu fui batizado com um amor pela juventude, um amor de pai”.
Cavernoso
Natty começou a frequentar a Comunidade Cristã S8 no final dos anos 90. A comunidade, que fica em São Gonçalo-RJ, era pioneira, já nos anos 60, no trabalho com comunidades hippies, artistas de rua e dependentes químicos. Lá, ele se interessou por esse “evangelho diferente” e começou a desenvolver trabalhos com missões urbanas. Também foi lá que conheceu Fábio Carvalho, que viria a ser fundador e pastor da Caverna de Adulão. Antes disso, Natty já havia frequentado a Igreja Católica, mas não tinha “curtido muito”. Então foi, aos poucos, indo a igrejas evangélicas por influência de amigos e parentes.
Algum tempo se passou até reencontrar Fábio e o pessoal da Caverna de Adulão no Ajuntamento das Tribos, um evento feito pela Comunidade S8 com a proposta de “juntar toda essa galera alternativa em um só lugar para cultuar a Deus e ter trocas de experiências sobre a vida cristã”. Neste evento, ele pôde conversar sobre os projetos da Caverna: estavam começando a trabalhar socialmente dentro das favelas, um grande desafio. Natty já possuía experiência nesta área por trabalhar na implantação de projetos e desenvolvimento social em diversas favelas do Rio em parcerias com prefeituras, instituições não governamentais e até a UNESCO.
Fábio então fez um convite para que ele fosse a BH ajudar a Caverna, o que só aconteceria mais de um ano depois. Após passar um tempo em Belo Horizonte por causa de um Evento Underground Cristão organizado pela Caverna, Natty voltou para o Rio já com a ideia de ficar por aqui, para participar do projeto RECONSTRUIR no Aglomerado do Morro das Pedras. “Pedi autorização aos meus pastores da S8, e vim de mala e cuia”.
Na Caverna, ele sempre se sentiu em casa: “ela tem essa coisa acolhedora, tem este diferencial de tratar todo mundo igual, não tem pastor pop star, não tem luxo, é tudo na simplicidade mesmo”. E sempre foi muito ativo, tocando no louvor, participando de evangelismos, visitas, projetos sociais. Inclusive, já pintou dois púlpitos usados nos cultos. “A Caverna sempre está aberta a essas manifestações artísticas tanto dentro, quanto fora da Comunidade”. Para ele, a grande vantagem da Caverna de Adulão é justamente ter esses espaços de convívio e de socialização e democratização da Palavra.
Junto da esposa, que também é membro da Caverna há mais de 15 anos, Natty passou cinco anos em São Luís, no Maranhão, com um projeto chamado Missão Guajajara, onde trabalhava com os indígenas. “Realizamos a primeira escola de missões urbanas de São Luís em parceria com um pequeno grupo de irmãos, viajamos muito pelos interiores da ilha para palestrar, trocar ideias e fomentar iniciativas diferenciadas de evangelismos e ações dentro e fora de São Luís”. Há sete meses voltou, com o desejo de compartilhar o que fizera por lá. Com o apoio da Caverna, ele está montando um projeto chamado S.O.S MAXAKALI, “com o anseio de socorrer nossos parentes indígenas independente da etnia e para com quem temos uma dívida de amor”.
Segundo ele, tudo isso representa bem o espírito da Comunidade Cristã Caverna de Adulão, e seu histórico de “servir os marginalizados, socorrer, auxiliar e amar”.
Batismo e confraternização da Caverna, em 2013. Foto retirada de https://www.flickr.com/photos/cavernadeadulao ©
Louvai com tamborins
Nada de placa com o nome da igreja na entrada e nada de salão branco e comum. Uma igreja que possui fiéis tão peculiares não poderia deixar de ser diferente quanto ao local em que ocorrem seus cultos há 10 anos: uma academia de dança da rua Aimorés. A sala, rodeada de espelhos, também possui uma cruz na parede. Isso porque a dona da academia, Dayse Gomes Faria, é também uma fiel da Caverna de Adulão.
A artista formou-se em Teatro Universitário na UFMG no meio da década de 90, mas convive com o mundo artístico desde criança, devido ao pai que cedia cenários para espetáculos da capital. A vó, italiana, frequentava óperas e balés, e Dayse sempre acompanhava. Por vivência e vocação, ela se tornou bailarina e atriz. “Tenho 75 anos e sou praticamente o início da dança de Belo Horizonte. Gosto de dizer que dancei na inauguração de BH”, fala animadamente.
Dayse era católica, mas conta que sua família sempre foi diversa quanto à religião, “Nunca fomos radicais. Eu tinha horror de pastor de terno, com bíblia debaixo do braço e achando que era dono da verdade. E na Caverna não é assim. Sabemos que não somos perfeitos, que erramos e pecamos.”
Antes “Academia Internacional de Ballet”, e hoje renomeado para “Centro Internacional de Cultura”, o espaço sempre foi o abrigo dos rejeitados. “Quando o Palácio das Artes pegou fogo em 1997, o corpo de baile veio ensaiar aqui enquanto a reforma acontecia. Lembro também de um ônibus da Argentina, de um grupo de dança chamado ‘América Total’, que ficou aqui por um mês. Artistas quase sempre estão com pouco dinheiro, às vezes não tem onde ficar, e aqui a gente sempre acolheu. Deus escolheu esse endereço”.
Também abrigou o Grupo Corpo, que ensaiou o espetáculo “Maria, Maria” na academia de Dayse na década de 70 e não acreditava que faria tanto sucesso. “Milton Nascimento, que compôs a música para o espetáculo, tomava café com minha mãe, aqui em casa. Ele e o coreógrafo Oscar Araiz estavam sempre aqui”. Atualmente, o Grupo Corpo é uma companhia de dança de renome internacional.
O espaço na rua Aimorés foi muito disputado por outras igrejas. O pastor da Comunidade Zona Sul, Neifer, realizava pregações na academia desde 2000 e Dayse diz que sempre confiou nele, então quando sugeriu que o pastor Fábio a procurasse, ela supôs que fosse “coisa boa”. “O curioso é que sonhei com a Caverna antes de conhecê-la. Sonhei com pessoas cabeludas e tatuadas chegando à minha academia e aconteceu de fato, dois dias depois”, relembra. A bailarina disse que as pessoas da academia não se assustaram com a caverna, pois o meio artístico é acostumado com pessoas diferentes. “Deus não discrimina ninguém, tem as portas abertas para todo tipo de gente.”.
Para usar o espaço, cedido para a igreja, em 2004, é cobrada uma taxa para cobrir os gastos com luz, água e limpeza. “Eles fazem questão de pagar. Não cobramos lucro, afinal nossa vida mudou pra melhor desde que eles estão aqui”, confessa Dayse.
Algumas mudanças ocorreram depois da chegada da igreja na academia. As aulas de forró foram canceladas, pois os frequentadores fumavam e bebiam demais. Dayse até tem saudades da energia e da casa cheia nos dias de forró, mas agora pretende investir na dança de salão, que atrai o público da terceira idade e é “mais séria”, além de danças proféticas de Israel. Ela conta que no começo “a galera ficava com o pé atrás” por terem se tornado “crentes” e a academia começou a declinar. Atualmente, acontece o contrário e muitas pessoas vão até lá justamente para conhecer a igreja.
A comemoração de 10 anos de Caverna no espaço da academia de dança já está em planejamento. “Queremos ensaiar um teatro pequeno sobre a Bíblia, sobre a vida de Jesus. Promoveremos muitos cultos e confraternizações”. A bailarina defende que “o povo precisa de festa”, e a data da festa junina já está marcada para 26 de julho, com direito a canjica, quentão e oração. Também em julho, haverá uma programação de danças proféticas, danças de louvor, que ela promete que será impecável. “Quando se dança para Deus, tem que ser muito ensaiado, tem que ser sem erros, pois é um modo de orar”.
Com a voz e alma firmes, Dayse continua dançando e lecionando, e não pretende parar. “‘Louvai com tamborins’. Está na Bíblia! Deus disse para louvarmos assim! E eu nasci com o dom da dança, com o dom artístico e não posso negá-lo, não posso fugir."
"Sempre rola o preconceito por nós os 'cavernosos' sermos um pouco 'diferentes' no visual"
Natty
Transpondo fronteiras
Esther Roth é suíça, morou por muitos anos na Alemanha e passou uma temporada na África quando era criança. Hoje é uma das líderes do projeto DeOutraForma, apoiado pela Caverna de Adulão, que trabalha com as travestis nos arredores da rodoviária. Como ela veio parar aqui? “Nem eu sei”, ela confessa. “Foi, como costumamos dizer, um chamado”.
Ela nunca havia pensado em morar no Brasil, mas, no ano de 2001, Esther participou de um curso da Jocum em Fortaleza. A Jocum, Jovens Com Uma Missão ou Youth With A Mission, é uma organização evangélica de origem norte-americana, hoje presente em mais de 130 países, que foca em ações de evangelização, treinamento missionário e desenvolvimento social. Foi lá que ela conheceu um dos projetos da Jocum em Minas, de ajuda a crianças carentes em Belo Horizonte. E Esther veio, sem falar nada de português.
“No começo, eu trabalhava de meio período: de manhã, ficava na cozinha e à tarde, aprendia português”. Esther, hoje com um português quase impecável, conta que o engraçado era que, depois de tentar aprender com os meninos do morro, que lhe ensinavam tudo errado, passou a ter aulas com a professora de reforço deles, que nem sequer falava inglês. Mas se adaptou muito rápido, gostou bastante do Brasil e seu “jeito quente” de receber as pessoas. “Muitas pessoas me perguntam por que sair de um país tão civilizado pra vir pra cá. Pra mim, eles são é civilizados demais, não conversam com os outros nem saem de suas casas...”.
Esther ficou conhecendo a Caverna desde o começo, quando ainda precisava de intérprete para entender e se fazer entendida, e ficou muito impressionada com o trabalho de evangelismo das prostitutas na Guaicurus. “Igreja pra mim é isso: na rua, encontrando as pessoas que procuram por respostas”. No entanto, frequentava mais a Batista Reviver, no Santa Tereza, que era onde os missionários levavam os meninos da Jocum para participar dos cultos. Já foi à Batista Central também, mas pra ela “é a Caverna mesmo”, e participava da evangelização na Guaicurus sempre que podia.
Em 2011, ela saiu da Jocum e ficou por conta da Caverna. Segundo ela, o projeto com as travestis “começou do nada”, quando um dia eles foram para a Guaicurus e ninguém apareceu. Eles viram as travestis nos arredores e, já que estavam ali, aproveitaram para ir conversar com elas. Tinham chocolates e pequenos folhetos com salmos e versículos bíblicos para distribuir e, graças à ótima recepção que tiveram, decidiram continuar voltando.
Ela e Fernanda, também da Caverna, eram as principais envolvidas nessa atividade, mas, por vezes ficaram sem companhia e não puderam ir à Praça da Rodoviária porque seria perigoso. Em 2012, conheceram cristãos da 3ª Igreja Presbiteriana de Belo Horizonte, que começaram um trabalho semelhante na Avenida Pedro II, o ministério RPII, ou Redenção Pedro II. Hoje trabalham juntos toda terça-feira, em um grupo de 13 pessoas, de 5 igrejas diferentes, que se dividem entre a Avenida Santos Dumont e a Pedro II. Às sextas, também participam da evangelização na Guaicurus.
Foi uma travesti que batizou o projeto. “Por que vocês não se chamam ‘de outra forma’? Porque vocês chegam aqui e fazem tudo diferente”. “Não é chegar e mudar a vida delas, é demonstrar amor e respeito, levar o amor de Deus”, descreve Esther. Conhecem e conversam com muita gente, de vez em quando saem juntos com as travestis ou são convidadas a visitar seus quartos nos prostíbulos da região. “Sempre levamos pirulitos com trechos da Bíblia e, hoje, muita gente dispensa o pirulito, quer só a palavra. Tem gente que diz que guarda em uma pasta, penduram na parede ou colam no guarda-roupa”.
O preconceito é um dos motivos porque muitas delas saíram da igreja, não conseguiram emprego pela forma que se vestiam e acabaram caindo na prostituição, a missionária explica. Segundo ela, muitas dessas pessoas são infelizes, dizem não ter escolhido ser assim, nem estar nessa vida, odeiam fazer programa. “As pessoas olham pra elas e vêem: pecado, pecado, pecado. Mas e quando olham pra mim? Elas não enxergam o interior do meu coração ou dos meus pensamentos. Todos nós temos pecado”.
Na Caverna, Esther admira justamente esse acolhimento, provado até pela forma como a igreja recebeu as travestis que chegaram a ir aos cultos, com amor, com abraços, com respeito. “Qualquer pessoa pode chegar que será bem recebido. Talvez você seja ainda melhor recebido se for diferente”.
"O cristianismo não é uma coisa chata, não é preconceito, é amor. É uma vida de aventuras pois você nunca sabe o que vai acontecer."
Esther Roth
Em uma interseção
Natural de Viçosa, interior de Minas Gerais, Allan Maciel Griffith veio para Belo Horizonte cursar Psicologia na UFMG. Ao chegar à nova cidade, ele procurou uma igreja para frequentar, e lhe foi sugerida uma igreja “dos doidão”, “da galera do metal”. Ele, que sempre gostou das sub-culturas, resolveu conhecer de perto a Caverna e se tornou membro assíduo de lá.
Batizado na igreja católica, frequentou uma igreja presbiteriana muito tradicional e uma igreja batista em BH também muito conservadora, e confessa que, apesar de ter gostado, não se identificou com elas tanto quanto se identificou com a Caverna. “Sinto que eu faço parte dessa comunidade como uma verdadeira família, como irmãos de fato e que juntos podemos crescer na nossa fé, prática e conhecimento.”
Allan conta que o que fez ele se encantar pela Caverna foi a mentalidade das pessoas quanto à variedade da criação de Deus no que aborda a arte, luta social, músicas, culturas e outros aspectos que muitas vezes são mal vistos nas igrejas tradicionais. Para ele, essa “mente mais aberta”, os estilos das pessoas e até a variedade da liderança dos pastores o ajudaram a se identificar. E elogia a capacidade dos pastores de fazerem pregações pertinentes de modo informal e próximo, sem perder a humildade.
Entretanto, como em qualquer instituição, há pontos negativos. Para Allan, o estudo bíblico e teológico poderiam ser mais aprofundado em momentos além do culto e acha que, devido ao aspecto mais informal da igreja, ocasionalmente surgem dificuldades com atividades e tarefas mais burocráticas, dando a impressão que os líderes deixam as coisas “soltas demais”.
Allan, que sempre gostou de músicas Hardcore e Metalcore, com vocais guturais e som pesado, tinha pouco contato com esse estilo na cidade interiorana em que morava . Foi por meio da Caverna que começou a frequentar os primeiros shows de bandas cristãs underground, e entrou em contato com pessoas e bandas dessa cena musical, até que foi convidado para se tornar integrante da banda Intercessão: “Uma banda de Metalcore / Post Hardcore Cristã, que promove um som com excelência, na tentativa de restaurar parte deste mundo perdido.” É como eles mesmos se definem na página oficial da banda no Facebook. (https://www.facebook.com/BandaIntercessao)
Apresentação na Igreja Peniel em Nova Contagem. Confira a página oficial da banda no Facebook.
Ping pong com Esther, a cavernosa suíça, meio alemã e quase brasileira também.