Minha mãe se senta na cama e pergunta: O que está sentindo
Eu não sei explicar, então tento, dizendo que é como se eu estivesse no mato, no meio de uma floresta, escura, só, o silêncio me ensurdecendo, não vejo nada, não há lua, nem estrelas, não existe luz, só clara e densa escuridão
Não, eu não vejo saída, eu vejo apenas o nada, tampe seu olho direito e enxergue com o esquedo, tente ver com o direito, não consegue, é o que eu vejo, é o que tem em volta
Não, não há o que sentir, pule num local fechado, nem vento, nem brisa, nem cheiro, tem tato, nenhum dos sentidos possui sentido, nada é sentido, nada é ignorado, tudo é feito ao mesmo tempo, agora, já, e tudo pode ser esperado, nem o tempo existe. Respiro. Fecho os olhos, pisco, já é outra quarta feira, preciso ver o meu time jogar, preciso levar alguém em algum lugar, preciso escrever ou ligar, preciso conversar, preciso me organizar, mesmo estando organizado, preciso entregar, mesmo após já ter entregado, preciso me responsabilizar, mesmo já sendo responsabilizado, por mim mesmo, pelos outros, por Deus, pelos Deuses, pelos antepassados, pelas vidas passadas, pelos Orixás, por Alah, por quem ainda nem existiu. Todos, a todo momento, na minha mente, e eles gritam, e não me deixam escutar, e então eu sinto: Calor. É a raiva saindo de mim, tento controlar mas ela explode. É como tentar controlar uma bomba, mas essa é uma bomba nova, você não sabe até onde ela vai chegar, você não sabe o que vai atingir, quem vai matar, quem vai ferir. Só sabe que ela vai, ela vai explodir. Então explodo, e novamente sozinho sofro. Aí sim, sinto. Dói. Como as entranhas do meu corpo se contorcessem, pedindo espaço, pedindo ar, sinto o estomago pulando e girando, sinto a cabeça pesando e balançando, os olhos pulsando, o pulso querendo socar, a mão passa a suar, os pés, a formigar, e quando sinto, finalmente sinto, fecho os olhos. Floresta.
Estou numa floresta, densa, escura, sem frio, sem calor, estou vivendo ou vivo, nem sonho em diferenciar, da mesma forma que as palavras surgem na minha mente e eu nem domino o que escrevo, apenas as cuspo na tela em branco ela chega, sorrateira, rastejante. Ela pula no meu pescoço e ali se enrola, enforca, enforca. Mas já não há ar. Eu não preciso respirar. Convivo. Sinto o rastejar. Quando ela chega, há som. Os barulhos em volta retornam, ela é esperta. Ela é a falta. A falta de algo que eu precisava ter, e não tenho. Ela aparece, ela vem, quando chega é uma cobra, sorrateira. Quando pula, um tigre, agressivo, quando cai em mim, um urso, feroz. As vezes uma abelha que só machuca onde ferroa, as vezes um mosquito insuportável que só incomoda. Uma vozinha fina que diz o que eu não queria ouvir, mas que queria ao mesmo tempo, como se eu soubesse que é verdade e soubesse que é mentira, o comentário de Schrödinger. Tá e não tá, existe e some, cria e destroi, incomoda.
Eu saio quando ela deixa. Eu saio quando ela permite.
E o que fazer enquanto ela prende?