Eram umas 4 da madrugada, talvez mais cedo.
Por mais de uma semana, se repete a mesma rotina, acordando no meio da madrugada. Quase sempre no mesmo horário, geralmente perdendo o sono do resto da noite.
Todo dia, normalmente ele acorda, se arruma, toma café, enfrenta ônibus lotado, mais de hora para chegar ao trabalho.
No seu fone, tendo como única e eterna companhia, as músicas que sempre sabem o que dizer.
E até mesmo as suas próprias composições, que dizem muito sobre si.
Principalmente, muito sobre o que ele sempre quis dizer para ela.
Almoços solitários, andanças sem rumo ou sentido.
Como sua mente funciona em vários canais, há pouco que possa ser feito.
Ele não consegue simplesmente se desligar.
Nunca conseguiu. Desde que descobriu algo que nunca imaginava.
Faz o que? Uns dois anos? Não lembra ao certo quando nem como.
Afinal, não era pra acontecer.
Afinal, não acreditava mais nisso. Não deveria sentir mais nada.
Ledo engano.
Sempre achou que conseguia controlar os sentimentos, ou que eles não importavam.
De forma prepotente, achava que isso era possível e funcionava.
Fugiu por muito, se escondeu por muito, carregou sozinho algo que lhe tirou tanto.
Pois lhe faltavam forças, coragem, pra enfrentar os seus medos, os seus traumas.
Chegou à beira da insanidade, ao ponto de sequer confiar na própria sombra.
Teve inúmeros dias que sequer desejava acordar novamente.
Mas o tempo se encarregou de tudo. E ela ajudou à iluminar a sua vida.
Ao ficar mais forte, venceu tudo o que lhe afligia.
Saiu daquelas trevas que lhe envolviam, e daqueles sentimentos que tudo distorciam.
Que faziam tudo e todos que lhe eram bons, lhe machucarem, lhe afastarem.
Lembra de ter sido antes daquele aniversário.
No qual ganhou um presente dela.
O único naquela ocasião.
Nunca fez por merecer, e sequer teve a decência de retribuir uma semana depois.
Afinal, estava em um dilema, uma dúvida.
Não tinha certeza, mas já vinha pensando que algo estava diferente.
Logo ele, que nunca se importou, nunca olhou pra trás.
Estava sentido… saudades!
Estava confuso, e não sabia o que acontecia além do seu alcance.
Por meses, guardou aquilo. Só cresceu. E ficou cada vez mais forte.
Finalmente, quando teve certeza, tomou coragem e disse o que sentia.
Foi uma surpresa a recepção dela.
Leva aquele dia, depois de meses sem se ver, como uma das lembranças mais doces.
Mas não foi o suficiente. Não teve a capacidade de compreender a situação e estragou tudo.
Passou praticamente um ano desde então, e aquele sentimento que ele descobriu lá atrás, resistiu.
Evoluiu, se tornou algo maior, teve de ser externado, pois era de certa forma sufocante e intenso demais.
Não era ruim, as circunstâncias sim, eram péssimas.
O mundo deu voltas.
E o sonho de ter ela de volta se mostrou possível novamente.
Embora nesse tempo sem contato, já havia decidido ir atrás e lutar por ela, pois ele não sabe fazer diferente.
E nesse tempo todo, a vida sempre lhe trouxe de volta para aquele caminho, não importando qual estrada ele pegasse.
Parou de lutar contra o que sentia, e passou à cuidar e entender melhor, sempre foi mais forte do que ele.
Novamente, as circunstâncias não ajudaram.
Arriscaria dizer que foram bem pesadas dessa vez.
Sua mente e coração foram tomadas por inúmeras dúvidas.
Mas lá no fundo, mesmo sendo muito pra lidar, não mudou nada.
Não haveria motivos pra cometer os mesmos erros.
Prometeu que faria diferente se tivesse uma nova oportunidade, pela qual esperou e até mesmo rezou tanto para que acontecesse.
A qual, numa mistura de arrependimento, revolta e até mesmo um pouco de inveja.
Vê tantos outros conseguirem, enquanto anseia pela sua vez.
Ainda não teve, não sabe se realmente terá, mas mesmo assim seu coração não lhe permite desistir.
Ele aprendeu à separar o que é temporário, circunstancial, daquilo que é verdadeiro.
Nem os sentimentos belos que transbordam de dentro de si.
Têm sido capazes de fazer algo, mas seria inocência acreditar que o fariam.
Ele nunca esqueceu o que essa mesma situação lhe fazia sentir e pensar.
Não quer dizer que é fácil, por outro lado.
Sim, é verdade que ele teve uma chance.
Ele foi covarde, não arriscou, se deixou levar pelo medo.
Afastou quem ele mais queria, disse não querendo dizer sim, foi embora quando de fato queria se entregar.
Tudo pensando nela, não queria fazer ela sofrer, se achava incapaz de amar.
Achava que dor era a única coisa que podia trazer à ela, pois não conseguia enxergar, precisava de tempo.
No fim, não há um dia que não pense nela, se está bem, que não sinta saudades.
Que não tem vontade de ver, conversar, abraçar, mas não se permite.
E toda madrugada, acorda no meio da noite, assustado, pensando nela.
Dizem que quando acontece isso, a outra pessoa estaria pensando ou sonhando contigo.
Mesmo sendo irracional, e provavelmente não aconteça de fato, ele gosta dessa ideia e gostaria que fosse verdade…