Expectativa
Publico nos jornais seu nome em língua ancestral Acendo vela em catedral O baralho me avisou Preencho o céu da tela de Van Gogh original Noite estrelada em Carnaval Você vai voltar, amor

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@travecolibertino
Expectativa
Publico nos jornais seu nome em língua ancestral Acendo vela em catedral O baralho me avisou Preencho o céu da tela de Van Gogh original Noite estrelada em Carnaval Você vai voltar, amor
Eu também tinha planos
Casar, ter filhos ou não, juntar dinheiro suficiente para estabelecer residência. E Paris, ah como seria maravilhoso esperar trinta anos e ir a Paris. Mas apenas quando Ana morreu que tudo começou a fazer sentido. Ana bateu as botas, faleceu, cantou pra subir, foi dessa pra melhor. Ana não era mais Ana, Ana era outra coisa que nunca mais seria Ana. Fechar o caixão sólido de Ana foi o suficiente para abrir meu caixão imaginário. Ana, de hoje em diante vivo por você: não fui ao seu enterro, mas fiz um passaporte.
Estupro
“Pega um taxi, Suzana, não vem de ônibus tarde.”
“Nossa, Amanda, vai ser linda assim lá em casa!”
“Marina, a janta ainda não tá pronta?”
“Luciana, minha filha, essa saia tá muito curta não?”
“Gabriela, você precisa se formar, casar, ter filhos.”
“Você não sabe fazer um arroz, Bruna? Como é que vai ser no futuro?”
“Matemática, Tatiana? Tem certeza?”
“Você viu que a Juliana raspou o cabelo? Ridículo, parece um homem.”
“Bota um brinco, Sara!”
“Valéria, pega uma cerveja pra mim.”
“Renata, você foi estuprada por 33 homens porque você era traficante e a culpa é sua. Você não pode denunciar, você não tem direito de pedir ajuda. Você mentiu, não sei se por medo ou vergonha, mas a culpa é sua. Me traz uma cerveja, bota um brinco, tira essa saia, faz um arroz, troca a faculdade e termina logo a janta. Vem ser estuprada aqui em casa, linda. Depois pega um taxi que tá tarde.”
Repita tudo isso pra si mesma até nunca mais querer ouvir de novo.
Tenho o privilégio de não saber quase tudo. E isso explica o resto.
Manoel de Barros, Caderno de Aprendiz em Poesia Completa. (via oxigenio-dapalavra)
Mick Jagger, The Rolling Stones, September 11 1973, Manchester, by Fin Costello
Fui dormir com a existência errada, vestindo o tom errado, do lado errado da cama, sem saber onde colocar os braços, um lençol fino demais para um ventilador na potência incômoda. Fui deitar fora da pele, não contida. Fui deitar com meu corpo, não dentro, olhando de fora, superficialmente, a estrutura oca e sem razão. Fui deitar sem você. Isso é o de menos. Pior é o poço, onde o fundo é raso, ou já conheço tanto que virou meu sótão. Pior é o caminhar apocalíptico que vou traçando nas calçadas, ouvindo Emicida, ouvindo Winehouse, ouvindo Buarque. Pior é o som entrar e dividir comigo o mesmo espaço, se aconchegar nos meus buracos, se aproveitar dos meus enlaces. Pior. Almoço religiosamente no mesmo ponteiro, suprindo as proteínas, as vitaminas, o ferro, a carne, os ossos. Deixo a alma com fome. Não consigo encaixar o dia na vontade, a sede na preguiça, o tempo na saudade, a fórmula da felicidade me abate, explode na minha cara torta, no meu cabelo fraco. Pior. Outra vez abro os olhos, fecho, desfecho incorreto, despacho na esquina, desponta um desapontamento de parecer uma pedra, de aparecer uma queda e de cair na rotina, e eu errar o caminho e me perder lá sozinha. Pior. De não saber mais voltar.
Não desiste, Ana!
Majestoso é o gesto que nasce sem jeito, onde a alma é árida, arquejando ociosa. Liberdade é liturgia, mantra medicinal malabárico. Negligencia as normas, vocifera as asas, vira Vênus sem Milo, torna planeta o Plutão! Faz assim, amém sem dosagem. Amar é mesmo ir contra, defronte, feroz! E não tentar é cometer um atentado tonto a cada torta linha de vida.
Ernesto
Correu no corredor de listras velocistas. Tocando violoncelo se espremeu na porta. Portou-se como um louco ao ver que era noite e a lua na sua frente resvalava em chamas. Saiu pela tangente e encontrou um homem, verde e reluzente com cheiro de amônia. Pulou na sua frente e só parou na escada que era de sabão e escorria em lágrimas. Escorregou sem rumo e foi parar no mato, com patos que falavam e leões voando, montou em uma vaca e escapou de garras, desceu no asfalto sujo e esperou o ônibus. Sentou no banco torto em forma de escombro, deixou os ombros soltos pra esvair o mundo. Olhou então a estrada, esquina com o nada e caiu na gargalhada ao se encontrar sozinho. Se deparou perdido num conto de assombro e só acordou sortido em plena madrugada.
Berlin me deixou.
Fez questão de ir sem dono, sem rumo, sem santo. Deve ter ido descalça, com os seios a mostra, um xale sem decote. Aquelas malas na sala, parecem duas entranhas, estranhas convidadas. Sirvo chá pras bagagens? Que faço eu, meu deus? Escrevo mais e com menos vontade? Viro a dona da casa, a desquitada da vila? Marido traído ou esposa tresloucada? Troco a fechadura ou deixo exposta a rachadura? Em mim ou na porta? Fico viva ou melhor morta? Ela não levou nem a chave. Deixou o cachorro, a roupa no armário, o quarto como estava e o almoço já feito. Tudo muito suspeito, ela levou só o peito e o coração que eu amava.
Rio, 1963.
Pergaminhos
Pra falar de você eu preciso de cordas vocais que não me enforquem e uma caverna diferente pra chamar de garganta. Pra falar de você meu coração tem que virar útero, o meu avesso encontrar um eixo e o meu queixo aguentar o despenque. É um disparate falar de você! Uma simples vogal vira consoante inconsolável quando seu nome atinge o término. O meu falar de você é medido em farenheight, transcrito de língua indo-europeia extinta, e usa Annick Goutal nas noites quentes. Esse falar sobre você tem os olhos de Capitú e um corpo ingrime onde todas as línguas deslizam. É hediondo o meu falar de você, hedonismo em cada ponto final e um sadismo despretensioso nas exclamações. E requer rupturas o meu falar de você! Tem gosto de queda livre em penhasco australiano e soa como as canções de tabernas da idade media. Mas, pouco interessa, eu estou mesmo farta de falar só de você. Quero falar de nós dois, do nosso coexistir, do nosso encontro cósmico, do nosso abalo sísmico. Mas existe um teor tóxico em falar sobre nós dois, sempre mais cataclísmico do que falar de você.
Aquela garota que ia mudar o mundo
Trabalho ali, no Centro da cidade do Rio, na rua do Ouvidor, paralela com a rua do Rosário. Bem no meio do inferno, um pouco a cabo do lixo exposto da metrópole. Atravesso pedintes, sem-teto, crianças esquecidas, senhoras abandonadas, imundice na sarjeta, ratos em buracos ignorados, esgoto a céu nublado e uma galeria de putrefação. Também eu me contorço a cada reportagem escarrada no jornal da banca. Entretanto, trabalho bem ali, na esquina do Ouvidor que que se faz de surdo, colateral com a rua dos Rosários de espinhos venenosos. E a cada passo, mudar o mundo assemelha-se com virar uma esquina e encontrar outra rua com mil esquinas para dobrar.
Nobody said it was easy
Ele apertou minhas coxas com uma das mãos, sem tirar a outra do volante e os olhos da estrada. - Vai dizer que essa cidade não é bonita?! - Sorriu, enquanto passava a marcha. À minha frente, um enorme morro se apresentava acompanhado de outro menor, mas não menos colossal. Um pequeno bonde se deslocava entre eles, deslizando através dos cabos de aço. O Pão de Açúcar era mesmo estonteante, sua imagem me convidou a pousar a mão direita para fora da janela e sentir respingos frágeis de chuva molhando meus dedos, brevemente secos com o vento que soprava cortês e solene pela janela. Chris Martin ressoava na rádio Cidade, dizendo-me para levá-lo de volta ao começo, ninguém jamais lhe dissera que seria tão difícil. Acompanhei-o na canção, embora meu corpo estivesse leve. O Rio de Janeiro me trouxe partes de volta, da mesma maneira que as engoliu quando bem entendeu. Andar em suas ruas arborizadas, em seu centro de viciados e empresários, fotografar o pôr-do-sol de suas praias, a lua de suas montanhas, a cerveja de seus bares e o deslumbre das quatro zonas, exigiu de mim algo muito além de valores em espécie. Morar aqui me tornou displicente, preguiçosa e viúva eterna dos que amei e me foram levados. É o preço que se paga ao se entregar como filha à Cidade Maravilhosa. Mas quando a cidade a adota, o troco que se leva não se mensura em palavras, sobreleva-se a tudo que o universo venha a oferecer.
Freqüentemente, os melhores momentos da nossa vida são também os últimos. Posterior a isso, morrer é rotina.
O capital
Se espelha, aliciante e dormente, entorpece uma mente, duas, milhares e, à socapa, distorce a fuligem, silvícola, estilhaça janelas. Vira falésia fúscia, gardênia aromática de atrativo alucinógeno. Nada então é império diante de seu falso estrogênio, tudo definha lento e sucumbe imediato. O homem, convicto, é domínio da posse, fulminante infortúnio tão sonhado por vários. Os relutantes ainda vagam, quase nulos de impulso, cada qual em sua grande vantagem de estar vivo, tomando em empréstimo a percepção de ser livre.
Eu amo você, cara.
Eu amo você mais que céu com sol saindo de cena, mais que muitos, mais que a mim. É amor desvairado esse, de fé sublime que vai sublinhando forças no meu ato de entrega. Meu amor não sabe ficar no canto, não cabe, não é de pendurar no cabide.