Assim como o outro, Astro necessitava de um pouco espaço para preparar-se em ouvir o que ele diria e até mesmo em falar o que se passava em sua mente, a qual se encontrava bastante inquieta ultimamente. Se escutaria palavras francas vindas de Ever, também deveria ser franco com ele, visto que precisava e queria manter uma relação saudável com o parceiro. Por isso, quando se afastou, ele organizava seus pensamentos para ter ideia o que iria falar, enquanto respirava fundo para controlar seus batimentos que começava a acelerar mais do que o normal devido ao nervosismo do que poderia acontecer no futuro. Seus olhos mantinham no outro, observando-o vestir a roupa e, mesmo já ter passado o visto despisto, Astro ainda sentia-se levemente envergonhado com aquela situação, apesar de seus olhos não se desviaram de jeito. Adorava ver cada curva que tinha no corpo alheio e sentia-se feliz por Ever deixar aquilo acontecer. Deixou-se ser guiado pelo o outro, sentando-se o suficientemente perto dele para poder sentir o cheiro natural, o qual amava toda vez que se encontrava com ele. Era perfeito, pensava Astro totalmente feliz em estar ali. Concentrou-se, então, em ouvir as palavras alheias para não perder-se mais por nenhum, embora o selinho tenha lhe trazido um pouco de desconcentração. Assentiu com a cabeça concordando com ele, pois queria escutá-lo para depois tentar dizer alguma coisa… Os minutos se passavam e Astro tentava encaixar as peçinhas que recebiam a cada momento, eram informações grandiosas que por um momento, Astro não achou capaz de acontecer tudo aquilo com Ever sem ele saber. Ele não sabia de quase nada, nem mesmo totalmente sobre ele se transformar em sombras. Tinha escutado algumas coisas sobre um ataque ao Njord, mas os detalhes…
Astro achou um absurdo cada um, pois não conseguia ver aquilo acontecendo com o outro. Já a doença de pele… Ele desconfiava com certeza, perguntando-se o que acontecia com o namorado e o porquê de Ever não falar nada, como se queria esconder. E, bem, aconteceu. Mesmo dos seus erros do seu passado não comentados para ele, Astro sentia-se irritado e magoado por ter tido aquelas informações ocultas dele. Informações que se Beaumont tivesse mais cedo, poderia ter ajudado-o de várias formas, mas não foi o que ocorreu. Ele não sabia daquelas notícias, não sabia como nem onde estava Ever e sentia-se totalmente inútil em defendê-lo diante daquelas maldições. Parecia que o mundo tivesse virado para Astro e falado que ele só vai sofrer sem poder ajudar ninguém. Breu deveria estar rindo agora. Pensava com um gosto amargo em sua boca. Não sabia exatamente no que falar nem o que pensar. Uma parte de sua razão queria que ele perdoasse Ever por ter escondido, pois acreditava que o mesmo estava com medo e Astro fazia também ocultando alguns momentos do passado, no entanto, a outra parte considerava aqueles comportamentos alheios egoístas por terem deixado ele de lado. Sem perceber de primeira, lágrimas rolavam pelo seu rosto sem concentrar seus olhos no traços do rosto de Ever que admirava tanto toda vez que olhava. Então, impulsivamente, ele tirou suas mãos perto das deles e afastou-se do corpo alheio, o qual parecia ser bastante desconhecido para Beaumont. Magoava, estava.
- Por que? Não me fala sobre a preocupação nem nada, quero saber o verdadeiro motivo de ter escondido tudo isso. Por ter me deixado no escuro, eu pensei que confiava em mim, Ever. Pensei que éramos parceiros, mas será que somos? - E foi ali que ele encarou-o de volta com seu coração dolorido e esmagado de tanta tristeza que sentia. Só queria uma causa sustentável para explicar todos os comportamentos do namorado, para aquietar seu coração.
Ainda que fosse incômodo o afastamento alheio — quiçá um tanto doloroso observar que ferira Astro — Ever não manifestou qualquer ação para que o outro se mantivesse ao seu lado. Ele precisava de um tempo para processar tudo que fora falado, tal como sabia que Beaumont fazia o processo óbvio naquele momento: Ever não só havia ocultado informações sobre a própria vida do outro — não apenas informações pequenas e indolores, mas grandiosas e que tinham relação direta com a sua vida e a relação de ambos — como também havia mentido descaradamente em todas as oportunidades que Astro lhe indagara como estava se sentindo; se tudo estava bem. O alemão sabia que não havia possibilidade de pedir ao outro que fosse razoável em seu julgamento; que ponderasse o que ele sentira por diversos momentos, o temor de revelar a verdade. Não poderia pedir algo quando, bem, não dera nada em troca. Expirou pelo nariz, voltando-se para que suas pernas ficassem suspensas na cama, observando as reações alheias com certa expectativa. Com a pergunta, entreabriu os lábios, esperando que resposta óbvia surgisse e fosse proferida, porém, nada saiu. Ever ficou ali, boca aberta, lutando contra as palavras enquanto elas se atropelavam em sua mente, sem nunca chegar aos lábios. Ficara naquele estado por alguns segundos, cerrando os próprios lábios em uma linha fina enquanto o silêncio se estendia por eles, as ideias sendo formuladas e reformuladas em sua mente. Preocupação não havia sido o ponto de partida para toda aquela confusão. Ocultar a verdade de Astro a fim de protegê-lo não fora o início de todas as mentiras que contara em sequência ao namorado. E ele tinha ciência disso. ‘ Porque se eu te contasse, estaria afirmando que isso é uma possibilidade real. Que eu realmente corro risco de morrer. ’ Aprendera a lidar com a morte ainda em tenra idade. Aprendera a lidar com as consequências da perda assim que sua mãe se fora — tal como, naquele momento, aprendeu que morte e vida estavam conectadas; que havia vida na morte. No entanto, mesmo sua experiência, não lhe preparou para lidar com a própria morte. Não lhe preparou para a possibilidade de ter a própria vida extinguida antes que, sequer, tenha pensando em conseguir um conto. Nada o havia preparado para a possibilidade quando esta poderia ocorrer consigo. Nada. Tampouco preparado para lidar com a própria, tampouco preparado para lidar a notícia aos que amava. ‘ Eu não te disse porque, se eu falar sobre isso, se eu mesmo pensar sobre isso, estarei trazendo a possibilidade. Estarei falando como algo que é real. E eu não quero pensar nisso como uma possibilidade. Eu não quero pensar que eu posso realmente morrer. Eu não quero aceitar isso como um dos vários destinos que os narradores pensaram para mim. Eu não quero morrer. ’ E, desde que tudo começara, Ever transmitiu seu verdadeiro medo. ‘ E isso não é uma questão de confiança, Astro. Não é que eu não confie em você para dividir a minha vida. Há coisas que só são difíceis de lidar ou falar. Eu sei que há coisas que você não me conta, que há coisas que você ainda não se sente preparado para me falar, mas eu sei que não é porque não confia em mim, mas porque ainda não está pronto. E eu estarei aqui caso queira me contar... ’ Agora, o príncipe havia se colocado de pé, caminhando de forma incerta para estar próximo do outro. ‘ Eu sei que te magoei e sinto muito por isso. Eu só... Não conseguia contar isso. ’