Eu sinto tanta dor que eu nem sei mais se é dor mesmo o que eu sinto, porque é um negócio de toca aqui dentro. E dói, mas a dor é uma sensação tão grande que apesar de tudo é tão pequena. Extrapola tudo. Ultrapassa todas as definições possíveis e dizer que o que sinto é dor, talvez não seja, talvez seja uma mentira, porque é arbitrário demais conter todo este sentimento num palavrinha tão pequena. Me diz: como é que pode uma palavra do tamanho de nada dizer tudo tanto que se passa aqui dentro. Me diz "Como é que pode não entornar?". Como se dor fosse uma fórmula pronta em si. Assim. E num passe de verbalização: "tá pronto, tá!". Dói. Não digo que sofro, tampouco não digo que não gosto. Porque sim, eu gosto. Gosto desta dor, gosto quando dói. Algo nessa dor que não é dor mas que é, me faz sentir a vida. A completude tremenda do que é esse fiapinho de vida que escorre aqui dentro entre as células todas desta matéria que constitui o meu corpo - pequeno, fraco, frágil. A qualquer momento explode. Aqui dentro. Uma dor que me põe à toda potência. A todo vapor as máquinas aqui dentro xique xique xique xique trabalham. Se contorcem uma coas outras strike strike strike strike num misto de movimento e som movimento e som movimento e som. "Minha cabeça trovoa". Minha cabeça balança como se ouvisse uma batida de rap ritmo e poesia ritmo e poesia ritmo e poesia. Sei então de uma coisa, uma das poucas coisas que sei que sou, mas que insisto em calar: sou um instrumento ploc ploc ploc estralam meus dedos. A cada toque da ponta dos dedos noutros dedos, na palma das mãos, no teclado, até mesmo no ar. Soltos no ar, assim, e presos. Sim, presos. Preso ao meu corpo eu não posso me soltar de mim. Meus dedos que são parte de mim, quiçá são eu. Não podem se soltar de mim e "eu já fui trovão e se eu já fui trovão eu sei ser trovão" e se eu não posso me soltar de mim, eu entro. "Entra pra dentro, muleque". Quando tudo. Tudo que eu queria era entrar pra fora. Botar o pé na rua e caminhar. Andar por aí assim meio perdido meio sem rumo soprando quinem bandeira. Mas eu já fui planta e se eu já fui planta eu sou planta. Estou preso à terra. À ela pertenço, pois ela eu sou, então cresço pra dentro e pra fora. Busco alcançar o mais profundo do céu e o mais infinito do chão, doendo.